sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Quaresma?
Eu dou-vos a Quaresma.


quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Noite do crime eléctrico #2
Nunca somos completamente objectivos nas coisas onde investimos. Se nos correm mal, são tragédias à escala global. Se nos correm bem, são triunfos civilizacionais. Ora, correndo o segundo risco, diria que a primeira noite do crime eléctrico foi mítica.
Primeiro, porque deu a estrear duas coisas que, com toda a honestidade, me parecem do melhor para acontecer na música feita aqui. A primeira é uma banda chamada Os Intendentes. Para aqueles que sabem que os Intendentes é a nova banda do Manuel Fúria e que não são fãs do Manuel, é fácil passar à frente. Mas ignorar os Intendentes é ignorar uma banda onde o Manuel faz melhor aquilo que tem para fazer: disparar mensagem. E disparar mensagem no seu sentido mais directo e perigoso. Nos Intendentes, o Manel canta menos e fala mais, os instrumentos divagam menos e servem mais; a música embala menos e ataca mais. Imaginem uma espécie de Suicide menos electrónicos e mais positivos perante a existência. Estes são os Intendentes.
A segunda coisa que estreou é a melhor banda de rock e de soul que temos, estou convencido. É fácil ir para o rock ou ir para o soul. Mas ir para o rock com soul ou ir para o soul com rock é outra coisa. O Suave é o Nicotine a cantar em português e um português que, na minha opinião, serve perfeitamente de escola para todos aqueles que queiram saber como cantar a nossa língua com o estilo anglo-saxónico que é o rock. É uma grande, grande banda.
Em segundo lugar, a noite foi mítica por causa do ambiente. A casa não estava cheia de pessoas mas as pessoas estavam cheias do que estava a acontecer na casa. Um tipo sentia que aquela noite significava o início de alguma coisa excitante. É curioso que tivesse tantos músicos juntos na assistência. E quando falo de músicos juntos, falo de todo o tipo de músicos juntos. Tínhamos a miudagem animada pelo rock dos Modernos e cena Cuca Monga (e os Modernos mostraram que há bandas de rock como deve ser), como artistas de carreira como o Tiago Bettencourt, como lendas vivas como o Kalu. Não foi um concertinho de cena, com a sua pequena congregação fiel. Foi mais do que isso.
Por último, não andamos a brincar. A próxima noite já está de pé e têm um mês para se aprontarem para ela. Bandas interessadas em tocar nas noites do crime eléctrico: esqueçam. Já temos a agenda cheia até Julho.


quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Será que os missionários passaram de heróis da guerra a desaparecidos em combate?
Há semanas o Correio da Manhã punha assim num título de notícia: "Líder de Igreja preso por desviar fortuna". Um missionário baptista americano tinha roubado à sua junta missionária (a International Mission Board da Convenção Baptista do Sul, dos EUA) mais de 250 mil euros. A reacção de qualquer baptista português como eu é de vergonha. Crescemos a admirar os missionários americanos que povoaram as nossas infâncias. Agora eles vêm cá sem que demos conta deles e, ainda por cima, acabam no crime? Pior ainda: no crime documentado pelo Correio da Manhã? O que é que aconteceu?
O cristianismo evangélico chega a Portugal trazido por estrangeiros. A rigor, todo o cristianismo chega à Europa trazido por estrangeiros. Os europeus não são cristãos por tradição. Os europeus são cristãos por transporte do cristianismo do médio oriente para a Europa. Por exemplo, depois dos bárbaros e dos árabes tentarem escavacar o cristianismo da península iberica, o primeiro bispo a repôr a igreja de Lisboa em ordem no Século XII é um inglês, Gilberto de Hastings. Até a maioria religiosa de portugueses que são católicos romanos, só o pode ser por causa de estrangeiros.
O cristianismo evangélico chega a Portugal sobretudo no Século XIX, trazido por ingleses. Chegam Presbiterianos, Metodistas, Baptistas. Durante o Século XX a denominação baptista em particular cresce principalmente tendo em conta a intervenção missionária de americanos e brasileiros. Pregadores americanos e brasileiros e suas famílias foram lendas vivas para nós até mais ao menos à penúltima década do Século passado. Depois as coisas mudaram.
No caso dos Estados Unidos, missionários continuaram a ser enviados para cá, mas agora com uma maior autonomia, tornando-os mais soltos das igrejas portuguesas. Ou seja, em vez de acabarem a fazer aquilo que deveriam ser os pastores portugueses a fazer (como pastorear igrejas), os missionários americanos passaram a estar mais concentrados em tentar abrir igrejas novas e fazer evangelização que não estivesse a ser feita por portugueses. Na prática isto significou uma ignorância crescente de parte a parte. Há missionários baptistas americanos a viverem em Portugal há perto de uma década que não se relacionam com as igrejas baptistas existentes, do mesmo modo que os portugueses nem sequer os conhecem.
No caso do Brasil, os missionários continuaram a vir mas numa dinâmica ambígua. Às vezes, são a solução mais imediata, porque falam a língua e há muitos candidatos no Brasil desejando vir para Portugal (ou talvez seja mais correcto dizer para a Europa). Noutras vezes, são a solução mais evitada porque a imagem dos brasileiros mudou em Portugal e o estereótipo criado a partir dos evangélicos brasileiros incomoda hoje muitos evangélicos portugueses.
Nos últimos anos tenho-me sentido insatisfeito com este ambiente. Isto porque os portugueses definitivamente precisam de ajuda a pregar o evangelho, venha ela de onde vier. Também porque tenho conhecido famílias de americanos e brasileiros a quererem dar a sua vida por Portugal, sem que os cristãos evangélicos se mostrem comovidos com isso. Logo, quero estar envolvido em favorecer um encontro entre portugueses e missionários estrangeiros porque fazemos parte da mesma equipa. Temos de aprender a estar juntos mesmo quando chegamos à conclusão que trabalharemos separados. Uma coisa sei: o que temos actualmente desonra Cristo.
A Igreja da Lapa tem sido abençoada pela presença da Família Bustrum. Os Bustrums são uma família americana que está cá há sete anos e que em muito já é bem portuguesa. Eles vão dar o pontapé de saída para umas reuniões especiais que a igreja vai fazer em Março. Durante todos os Domingos de Março vamos convidar missionários para nos falarem da sua vida e de como a nossa pode melhorar ajudando a deles. Permitam-me a franqueza mas acho que é um grande programa. Vamos dar-lhes liberdade para partilharem connosco os seus delírios de grandeza e as suas frustrações. Vamos dar-lhes permissão para se queixarem dos portugueses na nossa presença. Mas, sobretudo, queremos dar-lhes espaço para nos abençoarem e serem abençoados por nós.
Será assim:

- Domingo 1 de Março, 16h: Família Bustrum
- Domingo 8 de Março, 16h: Peter e Ana Crawford (o Peter é irlandês e a Ana indiana)
- Domingo 15 de Março, 16h: Israel e Sarah Quintani (o Israel e a Sarah são brasileiros)
- Domingo 22 de Março, 16h: Dina Santana (a Dina é portuguesa mas passou um ano num projecto missionário na América Latina)
- Domingo 29 de Março, 16h: Ricardo e Priscila Magalhães (o Ricardo e a Priscila são brasileiros)

Venham todos os que estiverem interessados em ver o nome de Jesus ser salvação para portugueses e não só. Cada reunião levará uma hora e terá tempo de perguntas e respostas aos nossos convidados.


terça-feira, fevereiro 24, 2015

"Aleluia!" de Bruno Vieira Amaral - Parte 3 
Dedico o último texto sobre "Aleluia!" focando-me no exemplo do meu cunhado Nuno Soares, personagem central do livro do Bruno Vieira Amaral. Concentro-me em três pontos de divergência e três pontos de convergência. O meu cunhado é uma pessoa apaixonante. É difícil não o amar. O que não significa que seja fácil concordar com ele em tudo.
Primeiro ponto: a experiência do meu cunhado Nuno aparece valorizada pela descolagem pessoal do Seminário Teológico Baptista onde se formou. Também passei pelo Seminário e conheci as suas fraquezas. Mas há alturas em que as palavras do meu cunhado podem dar a ideia que se formou em teologia em Westminster. Dou exemplos. Fala de "intelectualismo", "arsenal teológico que fazia as vezes de alimento espiritual", e "treino árduo para tropa de elite". Entre 1998 e 2002 também estudei no Seminário e a minha leitura da instituição é diferente. Quantas vezes fui mandado pelos professores a consultar dois autores minimamente incontornáveis como Lutero ou Calvino? Tenho um número redondo para vós: zero. Se tivesse de fazer uma crítica ao Seminário não seria pela faceta em que ele aperece criticado em "Aleluia!". Concordo com o meu cunhado quando diz que era um ambiente que não escondia a pequena política paroquial baptista. Mas o Seminário Teológico Baptista dificilmente pode ser compreendido como uma instituição de ensino teológico puro e duro.
Segundo ponto: aparece a sugestão que há uma carreira pronta a quem quiser afinar com o "sistema baptista". "Teria à sua disposição púlpitos por todo o país onde poderia exibir as suas qualidades. Prosperaria. Seria respeitado, admirado." Really? Carreira para pastores baptistas em Portugal? Estão a brincar comigo? Querem que eu vos mande o meu IRS? E se vos disser que a minha igreja é, entre as igrejas baptistas em Portugal, uma excepção por ter uma política de sustento total da família do pastor e uma filosofia onde se assume que o pastor deve trabalhar nela a tempo inteiro e ser sustentado completamente por ela? Pois. Esta parte do livro é difícil de digerir por todos os pastores de igrejas baptistas (e outras igrejas evangélicas) que em Portugal vivem em sacrifício constante. Fez muita falta aqui alguma nuance.
Terceiro ponto: a determinada altura há uma frase sugestiva: "a estrutura corrompe". Percebo a intenção do desabafo e tenho empatia com ele. Mas do modo como compreendo o cristianismo sei que é o contrário. Não são as coisas que corrompem o homem (uma herança grega platónica). É o homem que corrompe as coisas (Jesus explica isto em Marcos 7). Daí o meu desconforto com críticas constantes ao sistema. O sistema está bem? Certamente que não (embora fosse útil mais discussão sobre o que é o sistema, afinal de contas). Mas as críticas constantes ao sistema tendem a assentar numa dicotomia forçada entre pureza humana versus impureza institucional, e frequentemente descambam na real tirania do sistema anti-sistema. As alternativas sugeridas tendem a presumir uma purificação do mal só porque as velhas estruturas desapareceram (Olá Marx!). É fácil sugerir que não há hipóteses de abuso de poder quando o poder está nas mãos de todos. Mas basta estudar um pouco de história para ver que algumas das experiências mais cruéis assentam em sistemas que dominam por assegurarem que o poder é do povo. Numa nota muito pessoal, é quando me asseveram que toda a gente manda que me sinto em maior risco de manipulação. Se não haver púlpitos nem pregadores garantisse a liberdade do Espírito na igreja podem crer que estaria agora na condição de ex-pastor a comer um grande churrasco alimentado pela madeira do meu púlpito.
Vamos às notas de convergência. Apesar de gastar menos letras com elas, elas são o mais importante. O Bruno conseguiu mostrar uma coisa do meu cunhado que eu nunca tinha visto com clareza. É também isto que revela que o Bruno é um grande escritor. O Bruno revela coisas que nunca tinha visto antes, apesar de anos de exposição a elas. O Nuno procura uma experiência mais simples e pura de cristianismo comunitário, que esteve no início da Igreja Baptista onde cresceu no Vale da Amoreira, quando uma cabeleireira crente começou reuniões de estudo bíblico no seu salão de beleza. Nunca tinha entendido isto, que, num certo sentido, o meu cunhado corre de volta para esse cabeleireiro inicial. Visto desse prisma, há uma nova beleza e coerência no percurso que ele tem feito. Há uma busca por um fechar de um ciclo. E o meu cunhado está infelizmente correcto quando fala em igrejas "agrilhoadas aos rituais de domingo", "a definhar, corroída(s) por crentes que falavam muito e praticavam pouco." Tem razão quando diz que há "política a mais e espírito a menos." Ou seja, o meu cunhado está certo em muitas das coisas erradas que aponta.
Numa segunda nota de convergência, o Nuno (e a minha irmã) conseguem na prática da vida deles aquilo que todos os cristãos deviam conseguir: uma fé que não está nas circunstâncias favoráveis. Se o cristianismo for estar de bem com o que esta vida tem para nos oferecer, então não passa de um paganismo disfarçado. A Família Soares tem a percepção clara disso. Há uma frase belíssima que dizem a dada altura: "compreendi que Deus não está na minha vida para me acrescentar coisas, mas para me tirar aquilo que não preciso."
Numa última nota de convergência está o facto de o Nuno e a Sara conseguirem fazer a fé bonita mesmo para pessoas que não a têm. Vejam as palavras que o Bruno usa para os descrever: "Para mim, a família Soares é uma dessas árvores gentis e firmes, batidas pelo vento, resistentes. Raramente vi pessoas tão cheias de fé e, ao mesmo tempo, tão serenas. As palavras de Nuno e Sara carregam uma certeza tranquila que chega a ser comovente." E o livro termina com uma ilustração fantástica, que sai da boca do meu cunhado e que vale a pena citar por inteiro. "No nosso prédio, as luzes da garagem funcionam por sensores. Quando eu descia com as minhas filhas elas vinham atraés de mim com medo, à espera que as luzes se acendessem. Até que há uns tempos, a Júlia passou à minha frente e foi logo para o carro, antes de as luzes se acenderem. Eu perguntei-lhe se ela já não tinha medo. Ela disse que não: «Eu sei que as luzes se vão acender.» E é isto, mano. Eu posso estar no escuro mas sei que as luzes se vão acender." Gastei neste texto algum tempo a divergir do meu cunhado. Mas por causa destas coisas quero gastar mais tempo a convergir com ele.
Leiam "Aleluia!". Discutam-no. Irritem-se. Encantem-se. Mas não percam a oportunidade de ler um livro que vos torna menos ignorantes em termos religiosos e mais expostos à beleza possível daqueles que vivem a adorar em caves e lojas.

Esta nota que o Bruno partilhou no seu perfil de Facebook é importante: “O “prosperaria” não era num sentido estritamente financeiro e se foi essa a ideia que passei por uma escolha infeliz de palavras, não era essa a ideia do Nuno. No texto, o Tiago atribui algumas expressões ao Nuno que são da minha exclusiva responsabilidade, como por exemplo “treino árduo para tropa de elite.” A minha ideia era pôr de um lado a experiência do Nuno com a igreja que conheceu em criança e o universo claramente mais “intelectualizado” do Seminário. Se, para que essa diferença ficasse mais clara, me excedi na retórica, a responsabilidade é apenas minha.”
Ouvir
Há cristãos a tentarem feitiços cristãos, achando que o mal não os pode tocar. Cristo é alguém que nos pode valer porque, bem pelo contrário, viveu a praga das pragas – a cruz. E nessa cruz estava não a rendição à injustiça do mundo, mas o modo de reverter a injustiça do mundo em justiça de Deus.
O sermão de Domingo passado chama-se "Quando o meu combate revela que o meu coração quer comandar" e pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

"Aleluia!" de Bruno Vieira Amaral - Parte 2
"Aleluia!" é o melhor livro português que já li sobre a questão religiosa. Em termos concretos, li muito poucos (e há poucos!). Mas acho que "Aleluia!" será imbatível por, pelo menos, quatro características. Primeiro, é um livro curto que se lê num instante. Segundo, não é um livro académico que peça muita preparação prévia e específica a quem queira ter uma perspectiva mais panorâmica do assunto das minorias religiosas. Terceiro, sendo um livro sobre religião, não deixa de ser um bom livro independentemente de ser sobre religião. É um livro sobre vidas e o Bruno Vieira Amaral é dos melhores escritores portugueses dos nossos dias porque sabe escrever sobre vidas. Quarto, é um livro "ganhador", como os americanos dizem no termo "winsome". É um livro que não mostra a religião na sua estranheza mas a mostra no seu conteúdo mais digno. E o Bruno não o escreve enquanto crente. Quantas pessoas há em Portugal a conseguir fazer isto? A maior parte das vezes que por aqui se escreve sobre religião é naquele tom que junta ignorância com alarme. Leiam este livro, por favor!
O miolo do livro segue essencialmente dois caminhos. O de João Viegas e o do Nuno Soares. O Nuno Soares é meu cunhado. Isto significa que leio "Aleluia!" como não leio nenhum outro livro. Para todos os efeitos, este é um livro que trata da minha família religiosa mas trata da minha família de sangue. Eu e o Nuno temos percursos semelhantes numas coisas (no mais importante) e também percursos divergentes noutras coisas (mais secundárias). Já mostrei no passado o que o meu coração sente pelo meu cunhado (neste texto: http://vozdodeserto.tumblr.com/post/82377114194/para-o-nuno-na-despedida-da-familia-soares). No entanto, os aspectos que o Bruno Vieira Amaral mais sublinha no percurso do meu cunhado tocam questões onde temos perspectivas diferentes. Por isso quero honrar as virtudes do que o Bruno escreve, mesmo quando tenho uma posição diferente do meu cunhado. A partir de agora, tendo referido os triunfos de "Aleluia!", concentro-me criticamente no resto.
Parece-me haver uma tese principal do Bruno Vieira Amaral ao escolher o João Viegas e o Nuno Soares como figuras centrais. Não sei se esta tese será consciente para o Bruno mas leio-a assim: os evangélicos não podem ser entendidos sem aquilo que eles essencialmente são - protestantes. Por causa disso, o João Viegas e o Nuno Soares são figuras simbólicas porque são, de alguma maneira, protestantes em relação ao protestantismo onde cresceram. Nestes termos, creio que a tese é boa. O João e o Nuno são evangélicos a darem ao movimento evangélico a sua essência evangélica. E isso, ironicamente, traz resultados que parecem contraditórios. É o facto do João e do Nuno serem radicalmente evangélicos que os faz afastarem-se das instituições evangélicas tradicionais onde cresceram. Eu, como evangélico, tenho de concordar e dizer que essa é uma justiça poética. Os evangélicos têm de provar do seu próprio veneno.
Onde a tese me parece menos conseguida é que, por um lado, pode enfermar de um certo romantismo que opta pela parte em vez do todo. Deixem-me explicar. É verdade que os evangélicos são criaturas do protesto e que, por isso, sugerem uma liberdade tal que por vezes só parece fragmentação. Se estás numa igreja e te zangas, abres uma nova igreja. Esta caricatura não é descabida. Mas ficar apenas aqui é perder a perspectiva global. E aqui não tenho tempo para ir fundo mas basta conhecer o catolicismo romano para entender que a mesma fragmentação existe, só que protegida sob uma concórdia institucional na figura do Papa. Um jesuíta é tão diferente de alguém do Opus Dei como um calvinista é de um neo-pentecostal. Achar que Roma está unida porque tem o Sumo Pontífice que é reconhecido por todos é, na minha opinião, gaseificar para não ter de ir ao terreno concreto das discórdias. Mas não tenho tempo para ampliar agora o assunto.
Volto ao romantismo da tese do Bruno. O Bruno não esconde uma afeição pelo João e pelo Nuno porque eles são exemplos de saída. Saída de um cristianismo evangélico institucional. O Bruno parece gostar de figuras religiosas desde que elas demonstrem um tipo de religião aceite pelos que não gostam de religião: aquela que fica fora da organização. Neste sentido, a tese do Bruno fica próxima do mais do mesmo que geralmente já lemos sobre o assunto. Há tolerância para os religiosos desde que eles se mostrem especialmente nervosos a fincar os dentes na religião onde cresceram. É aqui que encontro a maior fraqueza de "Aleluia!". Nesse sentido, "Aleluia!" não fica assim tão longe daqueles programas televisivos em que os padres são escolhidos por passarem a vida a malhar na igreja (Olá Anselmo Borges! Olá Frei Bento! Olá Carreira das Neves! Olá Inominável Padre da Lixa!).
É o próprio Bruno que perto do fim assume o seu credo: o "fervor que escapa ao entendimento de quem não acredita, (...) um movimento de dentro para fora que desconhece estruturas e hierarquias, regras e preconceitos, e que, à medida que avança no escuro, traça um novo caminho rumo a um destino que apenas pressente. A este fenómeno do qual as palavras se aproximam timidamente chamamos fé." E mais à frente fala de "todos os defeitos que encontra na religião organizada." Certo. Mas teríamos de dizer que valorizar a fé em oposição a estruturas e hierarquias, regras e preconceitos, e valorizar a fé em termos de pressentimento é uma avaliação histórica e filosoficamente bem questionável. E fazer outra questão: será justa essa avaliação tendo em conta a largura milenar da experiência do cristianismo?
A partir do momento em que o coração do Bruno está conquistado por underdogs, qualquer figura que se afaste do figurino é apresentada irremediavelmente à sombra do sistema. Meet Tiago Cavaco himself! Diria que o Bruno me apresenta com toda a civilização e simpatia nas páginas de "Aleluia!" mas, lá está!, não há como disfarçar que sirvo de contraponto ao romantismo central do livro. Eu represento a "combinação arrojada entre fé e literacia", a saída "do armário evangélico sem perder o estatuto intelectual", em suma, o tipo que convive bem com o espírito de "clube privado" de evangélicos como os baptistas. Calma, que escrevo estas linhas com o meu sentido de humor intacto. Vivo bem com a representação do livro. E até acho que o Bruno me poupa bastante. Mas a tese a esta altura já estava lançada. O Pastor Jorge Leal (um dos meus mestres) surge no mesmo capítulo e é a justo pretexto dele que se escreve uma das frases mais iluminadoras de "Aleluia!" acerca da intolerância religiosa que ainda define Portugal: "A sinagoga, no número 59 da Alexandre Herculano, foi inaugurada em 1904, mas sem fachada para a rua, porque, naquela época, não era permitida a visibilidade de um templo de outros cultos. É uma imagem perfeita da liberdade religiosa à portuguesa: «Existe, mas não te mostres.»"
Termino este texto mencionando uma ausência em "Aleluia!". Talvez os anos que o Bruno passou próximo das Testemunhas de Jeová o tenham endurecido em relação aos pontos positivos da religião maioritária católica romana. Compreendo-o. Mas pensar em evangélicos e minorias religiosas em Portugal poderia ter levado-o a descobrir uma coisa: um católico romano que seja sério com a sua religião também é uma minoria religiosa em Portugal. Por muito que doa aos protestantes admitirem isto, este é um facto que a minha experiência mostra vez após vez. Seria muito mais fácil ter uma explicação simplista que agrilhoa por definição o catolicismo romano à opressão política mas uma análise mais cuidadosa desmonta isto. Portugal não parou no tempo e ter uma convicção religiosa hoje não é a mesma coisa que ter uma convicção religiosa há meio século. O futuro da relevância dos evangélicos passa definitivamente por abandonar esterótipos preguiçosos e darem-se ao trabalho de lerem a realidade à sua volta. O "Aleluia!", se tivesse dito isto, seria um livro ainda mais perfeito.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Minha Tia Rute













17 de Outubro de 1950 - 18 de Fevereiro de 2015.

Às vezes as segundas mães são as primeiras a ser esquecidas. A minha Tia Rute foi uma segunda mãe para mim e para as minhas irmãs. Até irmos para a escola os dias eram passados na casa dela, enquanto os meus pais trabalhavam. Na minha cabeça não há vida antes da Tia Rute porque a Tia Rute esteve sempre lá.
A minha Tia Rute era a mais nova dos seis filhos dos meus avós. Apesar de ser a mais nova é a primeira a partir. É a primeira a reencontrar os meus avós onde eles estão com Cristo. A minha Tia Rute cuidou do meu avô até à partida dele em 1989. E ficou a viver na casa dele. Uma casa cheia de livros e, nos últimos anos, de gatos.
A minha Tia Rute nunca casou. Aqui há uns anos escrevi uma música chamada "A estranha via da monogamia" que tem uma linha que diz que "ninguém tem boas maneiras para as tias solteiras", em boa parte inspirada na minha Tia. Não que as pessoas fossem mal-educadas com ela. Mas sempre fiquei com a ideia que, numa sociedade que desaprendeu o valor do celibato, paira uma sombra de derrota sobre aqueles que não casam, ou que não têm uma vida romaticamente visível. Isto infelizmente até entre cristãos. É uma vergonha. O Apóstolo Paulo tinha muitas palmadas a dar a todos os tontos que julgam que não casar é passar ao lado do melhor que a vida tem.
Nesta passada semana que visitei a minha Tia no Hospital senti um peso que nos últimos tempos me acompanha sempre que penso nas pessoas que amo e que a qualquer momento podem partir (a rigor, todas as pessoas que amo podem partir a qualquer momento). Esse peso é certificar-me que essas pessoas saibam do amor que lhes tenho. Há aqui um risco de sentimentalismo que é o pior inimigo do amor verdadeiro. O importante não é contagiar as pessoas com o que sinto. O que sinto só é importante na medida em que está além de mim mesmo. A importância das pessoas saberem que as amo parece-me estar no facto de participarmos de uma coisa que, em último grau, é maior do que nós. Por isso o amor entre os homens é sempre uma questão de louvor ao Criador. Sempre que nos amamos uns aos outros para nos amarmos apenas a nós, caímos em idolatria. Sempre que nos amamos uns aos outros em louvor a Deus, imitamos o padrão que Jesus deixou aos discípulos: amamo-nos uns aos outros porque o Pai amou o Filho ("Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor." João 15:9). Este é o amor que continua e que não se extingue no sentimentalismo. O pior de não dizermos às pessoas que amamos que as amamos é não participarmos do justo louvor ao Deus que as criou. E, por isso, não lhes darmos o maior consolo que elas podem ter: serem amadas num amor que não acaba, tal como Deus não acaba. Nesta última semana tentei dizer isso à minha Tia. Não sei se o fiz como deve ser mas isso já não me perturba porque ela está agora junto do seu Redentor e aí não há mais equívocos acerca da realidade e eternidade do amor.
Viver solteiro não é morrer sozinho. Os meus tios ficaram com a minha Tia até ao fim. O meu Tio Joel, o patriarca Oliveira, só saiu quando o mandaram embora, já depois de uma tolerância após o fim da hora das visitas. A Tia acabaria por partir cerca de uma hora depois. Já não respondia porque a sedação para as dores tinha aumentado. E este verbo é muito importante: ficar. O Pastor Leal, que provavelmente foi o Pastor da minha Tia durante a maior parte da vida dela, também esteve com ela. A minha Tia deu muito do tempo dela à igreja à qual pertencia. Foram dois amigos que muito trabalharam juntos que se despediram dizendo "até breve!"
A minha Tia Rute tinha um sentido de humor especial. Nos últimos anos a minha brincadeira preferida com ela era, juntamente com a minha mãe, fazer piadas com as coisas que ela gostava ou insinuar que estava a ficar taralhoca. Por exemplo, o facto de gostar tanto de gatos fazia com que passasse a vida a dizer-lhe que os animais não têm alma. Ou, noutro exemplo, ironizar com as leituras geralmente conspiracionistas que ela fazia das pequenas situações da sua vida (estava cada vez mais desconfiada). A minha Tia respondia com uma indignação fingida que terminava com ela a rir-se de si mesma. Era muito bonito, isto. Talvez por este sentido de humor dela, creio que nunca nos zangámos.
A minha Tia afadigou-se cuidando dos outros. Tentei fazer o mesmo com ela. Foi claramente deficiente comparando com o que ela fez por mim. A última vez que se dirigiu a mim tratou-me por "filhito", e essa é que é a verdade. Foi uma segunda mãe para mim. Fica o exemplo da sua fé e um amor vivido entre nós que precisa de uma eternidade para ser honrado. O Senhor a deu, o Senhor a tomou. Bendito seja o nome do Senhor.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Olha aí
A música do dia.


terça-feira, fevereiro 17, 2015

Ouvir
Não é possível conhecer realmente Deus sem ser chamado a confiar nele. Se conheço Deus e não confio nele, é sinal que não conheço o Deus que se dá a conhecer a Moisés. O Deus da Bíblia só é conhecido na medida em que nos relacionamos com ele e nele confiamos.
O sermão de Domingo passado chama-se "Quando velhas qualidades não chegam para novas circunstâncias" e pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

"Aleluia!" de Bruno Vieira Amaral - Parte 1
Meti as mãos no livro "Aleluia!" do Bruno Veira Amaral a semana passada. É um livro pequeno mas muito importante. Por isso quero ir partilhar os meus pensamentos à medida que o leio. Antevejo uma grande concórdia com o que o Bruno escreve (e possivelmente também alguma discórdia). Reforço, ainda assim, a conclusão prévia: é um livro que muitos devem ler. Evangélicos e não-evangélicos.
"Aleluia!" é um livro sobre quem são os evangélicos. O Bruno está em condições de o escrever com propriedade porque já conviveu muito com eles. Pela minha parte, continuará a conviver ao ponto até que se torne finalmente um cristão evangélico. No romance que editou há mais de dois anos (o justissimamente louvado "As Primeiras Coisas"), já os evangélicos povoavam a sua ficção. Agora é vez de povoarem a sua não-ficção ("Aleluia!" é mais uma longa crónica do que um ensaio).
Algumas qualificações, antes de me dedicar ao livro em si. Em primeiro lugar, não leiam as minhas linhas à procura de imparcialidade. A minha relação com o Bruno tem sido de amizade crescente por isso já parto para o livro em ambiente de convergência. Em segundo lugar, o Bruno conversou comigo na investigação que fez e por isso parte do que penso habita algumas páginas de "Aleluia!". Em terceiro lugar, creio que as coisas mais importantes a serem escritas em Portugal acerca dos evangélicos não estão a ser lidas pelos evangélicos portugueses. E isto produz em mim alguma ambiguidade: por um lado, parece-me saudável que os evangélicos continuem a ser um povo tão diverso entre si  e que vivam em absoluta independência do discurso feito acerca deles. A partir do momento que os evangélicos se preocuparem muito com o que a comunicação social pensa deles, perderão a autonomia genuína que têm. Mas, por outro lado, preocupa-me que às vezes esta autonomia também raie a pura alienação. Os evangélicos podem ser autónomos ao ponto da indiferença, e isso já pode tornar-se uma irresponsabilidade. Por isso, leio "Aleluia!" contente porque a vida dos evangélicos prossegue sem que eles precisam se o ler. Mas também leio "Aleluia!" um pouco triste pelo facto de achar que os evangélicos ganhariam com a sua leitura. Enfim, dilemas naturais. Avante!
Os relatos do Bruno com a sua memória são imperdíveis. A sua família deu-lhe uma experiência in loco com as Testemunhas de Jeová (que, por Toutatis!, não são nem nunca serão evangélicos) e uma experiência mais rasante com evangélicos. E a primeira tese do Bruno é certeira: o acontecimento mais marcante das últimas décadas, no que ao fenómeno religioso diz respeito, é a tentativa de compra do Coliseu do Porto pela Igreja Universal do Reino de Deus. Ele "marca um antes e um depois na história do pluralismo religioso em Portugal. (...) Os efeitos no terreno foram imediatos. De um momento para o outro, os evangélicos neo-pentecostais ocuparam o lugar que os protestantes de denominações no nosso país há décadas tinham deixado vago." Tenho insistido nesta mesma tese (defendi-a menos academicamente aqui há quase dois anos: http://vozdodeserto.tumblr.com/post/47610716887/o-portugues-atira-se-ao-brasil) e espanta-me que os evangélicos portugueses não a saibam entender e a explicar aos missionários que chegam de fora.
Um segundo ponto acerca do primeiro capítulo de "Aleluia!": a Igreja Católica Romana tem efectivamente o monopólio da respeitabilidade religiosa e isto provoca uma reacção de estranheza com todos aqueles que não estão dentro desse monopólio. Como tenho repetido, a primeira coisa que um evangélico tem de fazer em Portugal é explicar que não é seita. Não é da IURD, não é Testemunha de Jeová e não é mórmon. O Bruno preferiu não diferenciar a IURD e o Maná de uma denominação genuinamente evangélica e compreendo a opção. Não me parece a mais rigorosa, porque de facto a IURD e o Maná não têm uma sustentabilidade teológica mínima que mereça a sua inclusão justa num movimento secular como o movimento do cristianismo reformado e evangélico. Mas também é certo que essa é uma diferenciação fácil de compreender para quem está dentro do assunto. Para quem está fora, o neo-pentecostalismo torna-se demasiado estridente para poder ser entendido além dos decibéis. E nesse sentido, jornalisticamente falando, é mais fácil não se meter em grandes preciosismos históricos. A ignorância dos portugueses acerca de religião é tal que seria absurdo esperar que eles percebessem facilmente alguns aspectos que nem os evangélicos percebem bem acerca de si mesmos.
Último aspecto acerca do primeiro capítulo de "Aleluia!": a nova lei da Liberdade Religiosa é uma tragédia. Tenho-o dito e tenho levado esta minha convicção ao ponto de a meter em disco (o V que gravei em 2010 tem uma música chamada "Canção para o Doutor Soares" que também é acerca disto: https://www.youtube.com/watch?v=euJEEufVKBc). O ponto número 2 do artigo 37º é efectivamente uma cláusula anti-IURD que "só reconhece como radicadas no país as igrejas e as comunidades religiosas existentes há pelo menos trinta anos ou, no caso de fundadas no estrangeiro, há sessenta." A lei da Liberdade Religiosa é iníqua e os evangélicos deveriam ser claros em denunciá-la. O Bruno ao dizê-lo claramente já está a fazer pelos evangélicos algo que nem eles têm feito por si mesmos. É louvável.


sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Sunday morning coming down
O cristianismo não é uma questão de estarmos ao nível da confiança de Deus. O cristianismo é uma questão de confiarmos em Deus mesmo quando não nos sentimos ao nível do que ele nos pede. Isto é uma das coisas que o episódio da sarça ardente nos ensina. Está tudo a moralizar para o sermão de Domingo?

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

Falta uma semana
Nesta versão do cartaz dá para pegar imprimir e, muito importante!, fotocopiar. Fotocopiar é essencial porque as Noites do Crime Eléctrico não querem ser nostálgicas mas querem ser do contágio analógico. E isso significa fotocopiar em A4, espanhar em flyers, essa cena toda.
- XNC vai rebentar naquela onda de hip-hop xunga em cima de beats de AC/DC.
- Os Intendentes... não se sabe. Surpresa total. Será destas que o Manuel Fúria saca uma banda à primeiro álbum dos UHF?
- Suave... Suave é a solução para os problemas que não sabiam que tinham. Suave é Nick Nicotine a ensinar como é que se canta em português com o coração aberto.
A entrada é 5 euros. As bandas trazem as suas mercadorias para vender. O concerto começa sem falta às 22h. Os alinhamentos são curtos porque não queremos chatear ninguém. See ya in the pit!


quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Quase tudo
Como uma banda amiga costuma dizer (chamam-se HMB, não os devem conhecer): sente! Está quase tudo neste retrato da Rute Xavier.

terça-feira, fevereiro 10, 2015

Ouvir
Todos nós gostamos de nos apaixonar por grandes libertadores. Mas isso acontece porque talvez nos esqueçamos que muitas vezes os maiores conflitos que os libertadores têm não são necessariamente com os opressores. A tarefa de libertar é desgastante sobretudo tendo em conta a relação do libertador com os libertados. Moisés ensina-nos isto.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Uma salvação que não precisa de pilhas
Os puritanos não tratavam da doutrina da perseverança dos santos isoladamente. Ligavam-na sempre às outras doutrinas (como a da salvação, da fé, das boas obras). Esse é um risco real para aqueles que, com a melhor das intenções, a podem destacar de uma maneira tal que ela sai desfigurada pela ausência de contexto. Contra mim falo: é fácil entre aqueles que são reformados na  teologia acabarem a fazer da perseverança dos santos (ou, no meio baptista, da doutrina que a salvação não se perde) mais uma forma de agressão a quem pensa de maneira diferente, do que uma chamada fraterna a uma compreensão mais funda da graça e poder de Deus. Há uma semana fiz a piada das flores (túlipa calvinista verso malmequer arminiano) e já tive registos suficientes de ter sido interpretado da maneira contrária à que desejava. For the record: não era o meu objectivo ferrar ninguém (deram-se ao trabalho de ler o texto na íntegra?). Não consigo, todavia, deixar de apelar ao sentido de humor (gosto de pensar que os reformados têm mais sentido de humor).
Os puritanos desejavam que a conversa sobre a perseverança dos santos fosse vivida na vida real, não uma abstracção de teólogos. Isso significava que entender a perseverança dos santos era entender antes e necessariamente a união com Cristo. É preciso saber distinguir então entre um crente não poder cair para sempre, de um crente poder cair temporariamente. Os puritanos defendiam as duas simultaneamente. Claro que há uma lógica circular a aplicar-se: se tens a salvação, nunca a podes perder. E, consequentemente: se perdes a salvação, é porque nunca a tiveste.
A perseverança dos santos entendida num contexto global é tão natural como a justificação, a adopção ou a santificação. Distingue-se do que defende o catolicismo romano. O catolicismo romano crê que um pecado mortal só pode ser revertido com penitência sob absolvição sacerdotal (o cristianismo reformado diverge absolutamente por não encontrar base nas Escrituras para esta ideia).
E o que fazer dos textos da Carta aos Hebreus, que parecem os que mais colocam em causa a doutrina da perseverança dos santos? Hebreus 6:1-8 e 10:26-39. Os puritanos criam que esses textos não contradiziam a doutrina da perseverança dos santos. Deviam ser entendidos como uma espécie de experiência temporária de santidade, em que a natureza última da pessoa não foi alterada. John Owen resumia a questão num silogismo assim: os eleitos não podem cair; alguns que professam crer, caem; logo, os que professavam crer e caíram não eram eleitos.
A eficácia da perseverança dos santos tem de ser encontrada no facto de Deus manter aquilo que promete. Joel Beeke e Mark Jones explicam assim: "If the Holy Spirit does not keep believers in grace, neither can He call, regenerate, sanctify, and assure them, for all of these are indissolubly linked. Christ must then be only an impotent intercessor."
A obrigação que nos é dada para perseverar não pressupõe uma habilidade para tal. Sim, Deus pede-nos coisas que só conseguimos fazer através dele (o nosso Deus é assim!). O poder para perseverar é dado pelo próprio Deus. Isto é acerca de Cristo, não acerca de nós. Até porque achar que está ao nosso alcance perseverar é de uma ingenuidade escandalosa acerca dos efeitos do pecado em nós.
O antinomianismo (movimento que defendia que o cristão não precisava de viver uma vida pautada pela Lei porque era salvo pela graça) não faz qualquer sentido. Porque Deus preserva os seus sem santidade. A santidade é o oxigénio do cristão. A graça de Deus não nos alivia das responsabilidades mas equipa-nos para as executarmos.
Quatro pontos podem resumir o terreno da perseverança dos santos. 1) Deus Pai elege os seus em amor. 2) Cristo intercede por nós no seu mérito (Cristo não se divorcia da igreja nem verteu sangue por uma salvação que não seja permanente). 3) O Espírito Santo habita os cristãos. 4) Esta aliança é de graça (Deus está completamente envolvido no que prometeu). O sufrágio é do Pai, a compra é do Filho, e o selo é do Espírito Santo. Teologia devidamente trinitária, pois claro.
Seria ridículo colocar em causa a capacidade que Deus tem para manter a salvação a funcionar até ao fim naqueles que ele salva. Isto significa que a perseverança dos santos só pode ser uma doutrina que exige a obediência, e não a libertinagem. Crer na perseverança é o que acontece por se levar a sério a apostasia. Perseverar é o remédio contra a negação da fé. Nesse sentido, a perseverança dos santos equilibra a soberania divina com a responsabilidade humana. Tem de ser vivida caminhando no temor do Senhor e no conforto do Espírito Santo (Actos 9:31).













[Escrito a partir do capítulo "The Puritans on the Perseverance of the Saints", do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Congregação Carpenteriana!
O Mestre fala à Vanity Fair e diz que a atitude em relação à imprensa deve ser: “You pick yourself up and you keep going.” Mesmo à Rocky Balboa. Carpenter faz filmes que as pessoas não querem ver mas que, quando vêem, sabem que viram melhor aquilo que temem. Sei que é uma frase um bocado irritante mas ilustra a razão do meu coração cinematográfico ser tão dele.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Duas semanas para a coisa começar a aquecer todos os meses

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

O que está a acontecer na Lapa
Algumas pessoas têm perguntado acerca do que está a acontecer nas tardes da Lapa. Viram o vídeo e ficaram curiosas (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=2FNBB91sTZI&feature=youtu.be). Pois bem, a ideia é simples. Convidamos gente para nos fazer pensar sobre alguma coisa que valha a pena. Neste caso, o Henrique Raposo gasta vinte, trinta minutos a falar-nos sobre cultura moderna a partir de um livro do Roger Scruton, e no fim a assistência coloca perguntas. Depois, o Samuel Úria (ou o Filipe Sousa) fecha com uma música representativa da tradição cristã protestante a que pertencemos, e que de alguma maneira ilustre as nossas convicções sobre o assunto. Começa pontualmente às 16h e termina pontualmente às 17h.
Deixem-me falar num instante para dentro. Quando digo que falo para dentro, quero dizer que falo para evangélicos agora. Nas últimas décadas os evangélicos portugueses têm-se mostrado ansiosos à procura de algum tipo de relevância cultural. Acho uma preocupação legítima e pertinente. Porque na maior parte das vezes, a cultura evangélica portuguesa tem efectivamente mostrado que não consegue dialogar para fora de si. Para mim, o primeiro sinal mais flagrante desta falta de diálogo é que os evangélicos gastam tempo de menos a ouvir, a ler, e a interagir com o pensamento feito por pessoas que não são evangélicas. Os evangélicos gostam tanto do Apóstolo Paulo mas nesta matéria não o imitam (para já nem falar no próprio Senhor Jesus). Esta reunião quer dar às pessoas da Igreja da Lapa (e de qualquer outra igreja) uma oportunidade que contrarie isto.
Por fim, deixem-me falar num instante para fora. Quando digo que falo para fora, quero dizer que falo para qualquer pessoa que viva na zona de Lisboa e não tenha necessariamente convicções teológicas. Esta actividade é, na minha opinião, um oásis para uma cultura que passa a vida a enaltecer o diálogo mas que na prática raramente gasta 5 minutos a ouvir com atenção alguém que pense diferente de si. E é revelador que possam ser as comunidades religiosas, geralmente criticadas por estreiteza de horizontes, a dar um exemplo cívico e concreto de reflexão e tolerância. Posto isto, estão a ver onde quero chegar. Venham!

terça-feira, fevereiro 03, 2015

Ouvir
Não procurar um salvador pode significar que não se leva assim tão a sério os erros que cometemos. O sermão de Domingo passado, chamado "Meninos Mimados e Netos Escravos", pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, fevereiro 02, 2015

Cinco Pontos de John Piper
Temos saudades de mais um texto sobre Calvinismo? Vamos a isso! Este vem à boleia do livro "Cinco Pontos" John Piper, lançado pela Editora Fiel. É um volume breve onde o autor quer resumir os conhecidos cinco pontos do Calvinismo. Um bocadinho de história é então preciso.
Quem começou a discussão? Os arminianos. Jaboc Arminius começou a rejeitar alguns princípios calvinistas, que eram maioritários no seu país, na Holanda. Falamos de 1610 quando 46 ministros da Palavra, juntamente com Arminius, resumiram em cinco pontos estes princípios de divergência, chamados de Remonstrantes. A resposta calvinista veio depois, em 1618 e 1619 com os Cânones de Dort. É desta resposta calvinista que sai o acrónimo tradicionalmente conhecido pela T.U.L.I.P. - Total Depravity, Unconditional Election, Limited Atonement, Irresistible Grace e Perseverance of the Saints.
Bem vistas as coisas, quer calvinistas, quer arminianos, têm uma flor. Se os calvinistas têm a túlipa, os arminianos têm o mal-me-quer. Funciona assim: Jesus quer-me, Jesus não me quer, Jesus quer-me, Jesus não me quer. A piada não é minha. Saquei-a do Douglas Wilson e resume bem uma distinção importante entre uns e outros, que é a da possibilidade da salvação se perder (apesar de haver arminianos que não crêem nessa possibilidade).
John Piper não escreve este livro num tom polémico. Não está interessado em aprofundar fossos teológicos entre cristãos. Antes, quer promover uma experiência mais profunda da graça de Deus (o subtítulo do livro). Diz mesmo que não tem "nenhum interesse especial no próprio João Calvino" e que pensa que "algumas das coisas que ele ensinou são erradas." Piper não defende as doutrinas da graça para se sentir parte de uma equipa. Defende-as porque acredita que são o que a Bíblia ensina. Sobre cada ponto da T.U.L.I.P. escreve um breve capítulo.
No capítulo da Depravação Total diz que "o mal das nossas acções nunca pode ser medido apenas pelo dano que causam aos outros." O que está em causa na compreensão desta doutrina é entender que prioritariamente o pecado é uma ofensa contra o próprio Deus. Se não for a própria iniciativa de Deus a chamar-nos para si, nunca nos viraremos para isso. "Os homens buscam realmente a Deus. Mas eles não o buscam por causa do que ele é." Se não for Deus a atingir-nos, não é pelos nossos belos olhos azuis que até ele iremos. Logo, "a realidade do inferno é uma acusação clara de Deus sobre a infinitude da nossa culpa."
Em vez de avançar para o U de Eleição Incondicional (Unconditional Election), Piper adianta a Graça Irresistível (Irresistible Grace). E resume o ponto assim: "o Espírito Santo, sempre que quer, pode vencer toda a resistência e tornar a sua influência irresistível." Quem é o cristão que discordará, dizendo que temos como resistir ao próprio Deus? "A razão porque qualquer um de nós veio a Jesus não é porque somos mais espertos ou mais sábios ou mais virtuosos do que Judas, e sim que o Pai venceu a nossa resistência e nos trouxe a Cristo." Para que isso aconteça é preciso que nos seja dada uma nova natureza. Porque para sermos salvos precisamos de ter os requisitos que permitem essa salvação. Arrependemo-nos do nosso pecado porque Deus nos dá esse arrependimento. O facto de Deus conquistar a nossa vontade não significa que ele a viola. Por isso os cristãos são chamados a pregar a todos e só o próprio Deus sabe quem aceitará o evangelho.
O ponto seguinte é o L de Expiação Limitada (Limited Atonement). "Deus não mostraria uma consideração justa por sua glória se ignorasse os pecados." Piper toca aqui numa ferida alastrada pelo meio evangélico do nosso tempo. Quantas igrejas meditam sobre o carácter de Deus? Geralmente é o contrário que acontece. Parte-se de uma ideia bastante optimista do carácter dos homens e cola-se a Deus as características que nós gostamos de ver em nós próprios. Por isso a cultura evangélica popular criou uma divindade que lida com o pecado como um velhinho com Alzheimer. O problema é que quando lemos a Palavra percebemos que, mesmo quando Deus enterra os nossos pecados debaixo do mar, como símbolo de se esquecer deles (Miquéias 7:18-19), tal é possível porque Deus lida com eles. O facto de Deus lidar com os pecados significa que, na sua perfeita justiça, é necessário que o prejuízo que ele causam seja pago. Resumindo: Deus não nos perdoa os pecados porque tem problemas de memória (em jeito de: "nevermind, já me esqueci!"). Deus perdoa os pecados porque pagou ele mesmo a dívida causada (através do sacrifício do seu filho Jesus). "Seria injusto perdoar pecadores, como se o pecado deles fosse insignificante, quando, de facto, é um insulto contra o valor da glória de Deus."
A expiação que Cristo traz não é uma possibilidade, é uma realidade. Cristo não morre na cruz para tornar todos os homens salváveis. Cristo morre na cruz para salvar muitos homens (e pelo que a Palavra diz, não todos). Tudo o que torna possível a salvação de homens só é possível porque o sangue foi derramado como preço pago. Logo, "não é o calvinista que limita a expiação, e sim aqueles que negam que a morte expiatória de Cristo realiza o que necessitamos desesperadamente. (...) A fim de dizer que Cristo morreu da mesma maneira em favor de todos os homens, eles têm de limitar a expiação a uma possibilidade." O que Cristo fez na cruz é tão perfeito que fica terminado. Aqueles que Cristo chama a si, são salvos completa e permanentemente. É nesta luz clara que a expiação limitada deve ser entendida.
O quarto ponto é o U da Eleição Incondicional (Unconditional Election), que aqui surge trocado com o segundo. Deus "escolheu aqueles para os quais mostraria graça irresistível e para os quais a compraria." E a clarificação seguinte é essencial: "A eleição de Deus é preservada na sua incondicionalidade porque foi realizada antes de sermos nascidos ou havermos feito qualquer bem ou mal." É fácil de compreender isto? Certamente que não. Mas é o que nos é revalado na Palavra (Romanos 9:11-12). Geralmente é a esta altura do campeonato que as comadres se começam a zangar e a acusar os calvinistas de arrogância. O que revela sempre uma má compreensão bíblica (e, no pior das hipóteses, um desprezo significativo pelo que a Bíblia diz preto no branco). Mas Piper ajuda: "Não podemos nos vangloriar na nossa eleição. Isso seria uma profunda incompreensão do significado de incondicionalidade." Acreditar na eleição não é celebrar quem foi eleito. Acreditar na eleição é celebrar quem elege. Um calvinista arrogante é uma contradição andante. Nem sequer vale a pena gastar tempo com ele.
Por fim, chegamos ao P de Perseverança dos Santos. "Paulo diz: a evidência da genuinidade da nossa fé é facto de que retemos a Palavra - de que perseveramos." Isto não significa que um crente não passa por dúvidas e crises. Mas que, passando por elas, não chegará "a um ponto de renunciar Cristo." "A perseverança dos santos não é garantia da perfeição e sim de que Deus nos manterá combatendo o combate da fé." Como encaramos então os crentes que se desviaram? Como a Bíblia os encara em 1 João 2:19: "Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam connosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós." Bem claro, não? "O papel da obediência em nossa justificação é dar evidência que a nossa fé é autêntica." Deus não nos deixa entregue às nossas capacidades para que aguentemos a salvação que ele nos deu. Na salvação que ele nos deu está integrada a capacidade de ela chegar até fim. A qualidade das coisas que Deus faz é perfeita. Com Cristo não há salvações do chinês.
No fim, Piper elenca o que estes cinco pontos significam para ele. Um deles é sugestivo: estas verdades deixam-me admirado da minha própria salvação. Este é o calvinismo que vale a pena: um deslumbramento constante com um Deus que faz por nós o que nós não merecemos, e que ao fazê-lo, fá-lo impecavelmente. A isto responde-se não com polémica mas com louvor.


sexta-feira, janeiro 30, 2015

Cultura Moderna na Lapa
Durante os Domingos de Fevereiro a Igreja da Lapa vai receber o Henrique Raposo para conversarmos acerca da nossa relação com a cultura. Vamos à boleia do livro "Modern Culture" do Roger Scruton. O Samuel Úria e o Filipe Sousa vão trazer participações musicais. Qualquer pessoa pode assistir. Se quiserem mais informações escrevam-me para tiagooliveiracavaco@gmail.com. As reuniões levarão uma hora (entre as 16h e as 17h) e terão tempo para perguntas e respostas.



A realização do vídeo é do Hugo Moura.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

Eu já ficaria inchado
Por apenas entrar na melhor capa de disco português das últimas décadas. Mas fico mais inchado ainda por cantar numa das canções. Carrega Capitães!

terça-feira, janeiro 27, 2015

Saudades de Sexta-Feira


















Pedro Marcelino e Workmove a dominar aqui (clicar em cima de aqui).
Ouvir
A nossa força não está no facto de, ao ouvirmos a Palavra, constatarmos que lhe temos obedecido. Se tivermos a nossa força na nossa obediência vamos acabar tristes porque passamos a vida a desobedecer. A nossa força está no facto de nos alegrarmos no Senhor. É a diferença entre uma religião em que Deus nos alcança porque lhe obedecemos, e uma religião em que obedecemos a Deus porque ele nos alcançou. Logo, a alegria é uma condição necessária para o tipo de obediência que Deus nos pede.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, janeiro 23, 2015

O pai, a mãe e o filho
Agora quando gravo discos há na minha casa quantitativamente mais amor por eles. Ontem fui com o Fúria buscar os discos ao armazém. Passados mais de vinte anos a emoção continua a ser forte de cada vez que pego em discos acabados de chegar da fábrica (a rigor, a emoção continua a ser forte mesmo quando são discos feitos artesanalmente). Quando chego a casa gosto de os passar para as mãos da Rute e dos meninos. E a emoção aumenta porque os miúdos oferecem o seu próprio entusiasmo ao momento. Claro que varia de filho para filho. A Marta foi a primeira a pegar e deu uma vista de olhos mais global. Veio a seguir a Maria que abriu o rosto num sorriso e examinou cada detalhe. A Maria tem 10 anos e participou activamente no disco dactilografando o texto. Por isso, e para todos os efeitos, o disco também era trabalho seu. Leu cada frase, cada pequena imagem e, como faz com os livros, cheirou. Fiquei contente ao ver que hoje a minha casa tem ainda mais amor pelos discos que gravamos.
Este disco é um disco de rock directo ao assunto. Segue os cânones que conquistaram o meu coração para o punk rock quando era um miúdo de 15 anos: refrões que possam ser cantados logo à segunda vez que se ouve, fotografias a preto e branco, grafismo de máquina de escrever e x-acto, entre outros aspectos. É um disco à Leonard Cohen na medida em que tem canções de amor e tem canções de ódio. Há letras de coração aberto e há letras de ressentimento. O punk torna mais fácil esta convivência. Os nomes das canções seguem abaixo:

1. Só dura o tiro
2. Respirar não dói
3. Sugiro a minha sepultura para Capital da Cultura
4. Ainda não é tempo de morrer
5. Qual é o meu tom, Zé?
6. Os meus braços estão aqui
7. Música no coração (com Nick Nicotine na guitarra)
8. Bíblia e ponta-e-mola (com Ricardo dos For The Glory)
9. Prémio Blitz
10. Vejo filmes americanos
11. Rotina do deslumbre (com Tiago Bettencourt)
12. Marca o 777
13. Sou imortal até que Deus me diga regressa (com Manuel Fúria)

Este disco levou uma semana a ser gravado, entre em Maio e Julho de 2014, no Armazém 42 em Lisboa. Produzi-o com o meu fiel companheiro João Eleutério. Foi sempre a andar. É um disco que não existiria sem a inspiração dos miúdos mais novos que andam aí a rockar e que infelizmente não tem recebido a atenção que merecem. Falo do Filipe da Graça e do Deserto Branco.
Juntem-se a nós logo. Com o bilhete de entrada têm direito ao disco. Levem-no para ouvir no carro em família e façam pelos vossos miúdos aquilo que o punk tem feito por alguns de nós: encurtar a distância entre sonhar muito com música e fazê-la com pouco. See ya in the pit!
















Como o retrato mostra: o pai, a mãe e o filho

quinta-feira, janeiro 22, 2015

Falta um dia para o Musicbox
Fazer rock em grande parte é fazer amigos. Sei que é careta dizer assim (até porque fazer rock também é fazer inimigos) mas é verdade. Neste retrato que a Vera Marmelo tirou há quase três anos estão dois dos meus melhores e mais fiéis amigos que amanhã, lá está!, estarão a tocar comigo. São o Guel e o Lipe. E estarão outros. Outros antigos e outros novos. Haverá convidados especiais que já abrilhantaram o disco (que será dado com o bilhete): o Tiago Bettencourt, o Ricardo dos For The Glory e o Nick Nicotine. Vamos!


Uma memória
Hoje faz três anos que nasceu a Igreja Baptista de São Domingos de Benfica (abriu em 2007 como Missão de Moscavide, e em 2012 tornou-se igreja autónoma). Por causa disso o meu coração amacia-se na memória. Fui espreitar o que escrevi no blogue há três anos. Dizia assim:

"Quando em Outubro de 2007 começámos a reunir um grupo minúsculo em São Domingos de Benfica tínhamos mais desejo que discernimento. Éramos duas famílias, a Cavaco e a Bento, e uma agenda megalómana de eventos com intelectuais ilustres e concertos com uma nova geração de artistas ressentidos. No meio disso tentávamos ser uma igreja. A pouco e pouco foram chegando mais algumas pessoas, em tão mau ou pior estado que nós. Fomos tendo mais uns filhos para disfarçar o pequeno salão que não enchia. Uns visitavam-nos à espera de rock e saíam desapontados com os Hinos do Cantor Cristão. Outros esperariam animação e levavam predestinação. Alguns passaram e seguiram. Adiámos a data de autonomia um ano e finalmente, quase três anos depois, baptizámos a primeira pessoa. Nos intervalos de todos os fracassos tem-nos valido a Graça de Deus. A fazer de pecadores tão miseráveis como nós pessoas com o descaramento de acreditar que têm futuro por causa de Cristo. No meio dos exageros da nossa juventude temos encontrado a medida suficiente em querer ser apenas uma igreja local fiel ao Evangelho. Teremos certamente o nosso estilo próprio mas o conteúdo não precisa de ser reinventado. A nossa História será a História de Jesus em nós. A do Tiago e da Ana Rute, do Miguel, da Marta e do Ricardo, da Filomena e do João, da Eunice, da Ana Rita, do Joel, e da Débora e do Tiago. E dos que connosco seguirão."

A graça de Deus é muito criativa e três anos depois a Igreja Baptista de São Domingos de Benfica já não existe. Morreu para dar nova vida à Segunda Igreja Baptista de Lisboa. Afinal de contas, não é este o esquema habitual do cristianismo?
O retrato abaixo estava perdido num dos rolos fotográficos do Hugo Moura (que desde Sábado passado é membro da igreja também). Gosto do facto de estar em negativo. Gosto do facto de não ser uma fotografia revelada. A imagem fica como uma sombra de algo que já foi e já não é. Quase fantasmagórica, é verdade. No fundo funciona como um vestígio que diz que o mais importante não pertence a um momento apenas. Que bom termos sido um grupo tão pequeno e agora sermos uns tantos mais. O essencial não é como as imagens mostram que crescemos. O essencial é poder encontrar nas imagens a presença de Deus connosco. Estava lá há três anos quando tirámos este retrato. Estávamos todos inchados! Éramos finalmente uma igreja autónoma. E Deus continua hoje connosco. Independentemente das épocas queremos permanecer nessa mesma condição que o hino canta: descansando nos eternos braços do nosso Deus.


quarta-feira, janeiro 21, 2015

Faltam dois dias para o Musicbox
As pessoas neste retrato começam a estar mais próximas dos 40 que dos 20. Mas teimam em procurar momentos como este. Sexta-feira não serão censuradas.

terça-feira, janeiro 20, 2015

Faltam três dias para o Musicbox
Há nove anos:

- as calças usavam-se menos justas
- as t-shirts eram mais punk que as camisas floridas
- os concertos eram durante piqueniques no campo
- a imprensa não ligava patavina aos novos cantautores
- ninguém metia vídeos no vimeo para se armar em artista
- o rock era uma questão de entrega e não uma questão de devolução
- as canções já lá estavam.


segunda-feira, janeiro 19, 2015

Ver
Ontem tive o privilégio de estar na Igreja Cristã Manancial de Águas Vivas a pregar a Palavra, convidado pelo Pr. Carlitos Cardoso. Tenho sido abençoado pela vida dos irmãos desta igreja, por isso a nossa alegria em estar com eles foi grande.
 

Ouvir
Descobrir alegria na obediência tem mais a ver com fazer do que teorizar. O sermão de ontem pregado pelo Filipe Sousa pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Deixa a mesa de som fora do palco
Há um momento que marca o ponto mais alto no meu apreço pelo Panda Bear e ele acontece nas férias de Verão de 2007. Na altura eu a Rute tínhamos alugado uma casa rústica num parque de campismo ecológico na Serra da Arada, perto de S. Pedro do Sul. Éramos uma família com duas meninas e eu passeava no carrinho a Marta que era a mais nova. Passeava-a no meio dos montes, num terreno difícil de transitar normalmente, por isso imaginem arrastar um carrinho com um bebé por ali. Entre o terreno difícil de transitar erguiam-se aquelas enormes torres eólicas que só de serem vistas à distância, já metem respeito. Um dos objectivos que se meteu na minha cabeça na altura foi ir tocar numa. Tocar mesmo. Por isso o cenário era este: eu arrastando um bebé de meses no seu carrinho, no meio de um nenhures montanhoso, em direcção a uma torre eólica. Como tinha um leitor de mp3, tinha também uma banda sonora. Entra o Panda Bear.
O disco "Person Pitch" é a música perfeita para esta cena meio peregrina, meio psicadélica. Um paizinho de 30 e poucos anos leva um bebé adormecido ao sopé imponente de um grande moinho de ferro. A partir daí, foi descer da montanha. E isto aplicado ao próprio Panda Bear. Mas tento explicar melhor.
Depois de 2007 envolvi-me mais a explorar os Animal Collective (a banda do Panda Bear) e apaixonei-me pela música deles. Em 2008 editei um disco (o IV)  em que uma canção ("Tu és o inimigo") era uma tentativa de imitar o dispositivo do Panda Bear (um mesmo acorde do início ao fim da canção). Em 2009 tentei inspirar-me em produtos inspirados no Panda Bear mas mais pop (Olá El Guincho!) num ep ("O Verão Nostálgico do Tiago Lacrau"). Por isso, tenho a dizer que a minha relação com o Panda Bear, apesar de ter sido a descer da montanha desde esse clímax em 2007, não deixou de ser produtiva. Onde quero chegar com isto? Que hoje já não gosto do Panda Bear? Não necessariamente.
Detecto um padrão na minha reacção a alguns artistas estrangeiros. É mais fácil gostar deles enquanto eles não produzem no meu país uma série de firmes imitações. Reparem que já reconheci que eu próprio me inspirei no Panda Bear em diversos momentos. Mas Deus deu-me um dom: sou o pior a imitar o melhor dos outros. Logo, falta-me a capacidade de me inspirar competentemente em alguém e de tirar daí algo de jeito. Acaba sempre numa sopa que não é uma coisa nem outra. Com estas linhas quero terminar aqui: agora que há Ursos Pandas bem apresentáveis em Portugal (eu sei que vocês sabem quem são eles) falta-me a pachorra para o Panda Bear. Acabei de o ver no Jimmy Fallon e a única vibração positiva que senti foi a memória de empurrar a minha Martinha pela Serra da Arada fora a caminho daquele gigante quixotesco em forma de torre eólica. E olha, agradeço-te por isso, Noah! Foi uma viagem do caneco!


quarta-feira, janeiro 14, 2015

Certeza na consciência por causa de Cristo no coração
William Perkins era um puritano que alguns colocavam numa tríade reformada especial, integrada por Calvino, Beza e ele próprio. Isto é para ver o calibre que alguns conferem ao nosso William. Ora, o nosso William queria casar a teologia com o dia-a-dia. Usando uma expressão mais teológica, William sabia que acreditar na teologia decretal era viver a teologia experimental. Aliás, e como todos estes textos sobre puritanos têm mencionado, um objectivo comum a todos eles. William começava no supralapsarianismo (Deus tem um plano de salvação para homens específicos antes dos homens caírem) e terminava no exame da alma (os homens específicos para quem Deus tem um plano de salvação vivem em arrependimento quotidiano). É isto que torna impossível acreditar que a predestinação é uma razão para não levar a sério o pecado cometido depois da conversão. A predestinação é a razão para levar a sério o pecado cometido depois da conversão!
Já antes temos falado na questão da certeza da salvação. Sempre foi um assunto que trouxe opiniões diferentes e alguma dose de ansiedade. Os puritanos, que não tinham nenhum interesse em sugerir segurança a quem não levava a sério a salvação, reagiam por isso a uma ortodoxia morta. O trabalho pastoral de William Perkins visava equilibrar a soberania divina com a responsabilidade humana. Para isso é necessário uma doutrina prática que mostre concretamente um processo de redenção.
A coisa interessante é que estar certo da salvação faz parte do bolo. Estar seguro da salvação é um sinal prático que a pessoa é de facto cristã. Com isto não se está a dizer que só se salva quem está certo da salvação (não entremos tão depressa nessa noite escura!), mas que é ilógico querer demonstrar que o Espírito Santo está em nós e ao mesmo tempo que o impedimos de nos assegurar que somos cristãos. Ter a segurança que somos salvos é na prática reconhecer que Deus é fiel às suas promessas. Porque na sua Palavra ele farta-se de falar desta segurança que o crente tem.
Para compreendermos melhor este assunto, vale a pena fazer algumas qualificações. Joel Beeke e Mark Jones explicam assim: "O objecto da fé não é o pecador nem as suas experiências da própria fé; é somente Jesus Cristo." Isto é fantástico. Quando falamos de estarmos seguros da nossa salvação, a questão não é quem somos, como indivíduos convencidos da salvação. Quando falamos de estarmos seguros da nossa salvação, a questão tão pouco é as circunstâncias que já vivemos e que testemunham da nossa fé. Quando falamos de estarmos seguros da nossa salvação, a questão é só e apenas o próprio Cristo, que nos assegurou algo tão perfeito na cruz e na ressurreição que alguma dúvida sobre a salvação seria uma ofensa a ele. Logo, a fé é um instrumento na medida em que quando está activa é usada por algo maior que ela - Jesus. "For man is never granted salvation on account of his faith but by means of faith." Muito simplificado: a fé não é a salvação, a fé é meio pelo qual nos salvamos. A salvação é Cristo.
Por um lado, a certeza da salvação aparece como a fé. Por outro, aparece como fruto dela. Para optar por uma destas, dependia da pessoa com quem Perkins discutisse o assunto. Dependendo destas variáveis, Perkins poderia distinguir uma fé fraca (sem segurança na salvação) de uma fé forte (com segurança na salvação). E aqui é preciso fazer um aviso. Acreditar na certeza da salvação não é crer que qualquer pessoa que está segura, está salva. Uma coisa é certeza da salvação, outra é presunção da salvação. As palavras de Jesus em Mateus 25 deixam claro o elemento de surpresa que o Dia do Juízo trará. Há pessoas que estão convictas que o Céu lhes pertence e vão a caminho de uma desilusão cósmica. Deus nos ajude a não cairmos nesse equívoco derradeiro.
Crer em Cristo, mais do que crer em Cristo como redentor da humanidade, é crer em Cristo como redentor meu (!), sabendo que nele sou eleito, justificado, santificado, e, futuramente, glorificado. Perkins fala de três níveis de segurança: 1) as promessas do evangelho; 2) o testemunho que o Espírito Santo nos dá; e 3) os frutos da santificação. O objectivo é "mover a corrente da certeza da salvação da eternidade para a convicção dentro do eleito no tempo." Estes acontecimentos não se dão apenas na cabeça de quem acredita. Antes, sendo acontecimentos que também se dão na cabeça de quem acredita, dão-se igualmente naquilo que aquele que acredita faz. As obras não salvam mas asseguram a salvação ao eleito. Ser cristão é viver nesta boa consciência permitida pela salvação.
Ao grande e último exame sugerido por Perkins chamaria do exame da mesa. O exame do sabor. "Christianity that falls short of delighting in God is pharisaism." Nem mais. O maior problema dos fariseus não era viverem obcecados com a lei. O maior problema dos fariseus é que faziam da lei o reflexo de estarem obcecados com eles mesmos. Por isso Jesus disse que a nossa justiça tinha de ser maior que a deles. Todas as marcas da religião verdadeira têm de ter um entendimento trinitariano. Se assim não for, é apenas uma religião de homens. Essas marcas dão-se num exame conclusivo sobre as experiências que temos com o Espírito Santo. Para Perkins, pensar sobre a certeza da salvação era necessariamente espicaçar a iniciativa do cristão. Por estar na consciência, está na conduta.


















[Escrito a partir do capítulo "William Perkins and his greatest case of conscience", do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]

terça-feira, janeiro 13, 2015

Cronaldo



Ou há pose ou não vale a pena.