sábado, agosto 01, 2015

Agosto

Não sei como será Agosto em termos de actualização do blogue. Vamos passar duas semanas em Água de Madeiros, no Acampamento Baptista. Vou mais descansado para lá por ter terminado agora a Divina Comédia. Foram quase oito meses a ler. Criei um blogue só para o efeito: Lendo a Divina Comédia.

Entretanto, deixo já um cartaz com os nomes confirmados para o Fim-de-Semana Cheio na Lapa. Este ano a coisa será ainda melhor, se Deus quiser. Mais nomes e mais vontade de ter conversas realmente interessantes. Coloquem na vossa agenda para virem ter connosco. Vai valer a pena!

De resto, vão passando pelo twitter. O twitter faz-me lembrar os blogues em 2003. Não é saudosismo, é emoção em concentrado. See ya in the pit!

 

quinta-feira, julho 30, 2015

The Abortion Files
Somos uma cultura que se orgulha de poder mostrar todo o corpo que quer, com algumas excepções reveladoras (a partir dos 9 mns a coisa pode chocar as sensibilidades de alguns).



Há bons textos sobre o assunto aqui: http://theabortionfiles.tumblr.com/.

terça-feira, julho 28, 2015

Ouvir
Esta série de sermões sobre o descanso patrocina prazer em Deus, não culpa acrescida. O último sermão dela pode ser ouvido aqui.


sexta-feira, julho 24, 2015

Não odiar a Isabel e o Miguel

Só quando olharmos para algumas pessoas como nossos inimigos é que podemos, enquanto cristãos, orar por elas pedindo a Deus que nos faça ter-lhes amor. Quero ilustrar isto com um exemplo pessoal.

Ontem gastei algum tempo a ouvir e a picar na net as intervenções da Isabel Moreira acerca da Iniciativa Legislativa de Cidadãos promovida por pessoas como eu, que vêem o aborto como um mal. Acabei a espreitar o Miguel Vale de Almeida também. Ora, este exercício feito sem cuidados é tóxico para a minha alma. Isto porque, e quero ser cuidadoso a afirmar isto, a Isabel Moreira e o Miguel Vale de Almeida não primam pela consistência na discussão de um assunto como o aborto. Digamos que há pessoas que metem o mundo a nascer em Maio de 1968 e que, por causa disso, tratam qualquer convicção ligada ao período que terminou antes como histórias de fantasmas. Ora, eu consigo perceber que as minhas convicções sejam pré-históricas aos olhos da Isabel Moreira e do Miguel Vale de Almeida. Mas o ponto não é esse. Eles não vencem uma discussão por acusarem os seus oponentes de serem retrógrados. Quando muito, poderão vencer os seus oponentes se provarem que eles estão errados. E, guess what?, depois de quase meio século depois de 68, há pessoas que ainda não estão convencidas dos méritos racionais do aborto. Em democracia, isto significa que a discussão não termina pelo facto de a legislação mudar. Em democracia isto significa que a discussão pode levar à mudança da legislação, desde que os cidadãos assim decidam. É para isto que cá estou. Deal with it.

Os cristãos não podem ter medo do mau uso da retórica (sim, porque a retórica é uma coisa boa - vão ler a "Hermenêutica Retórica" de Manuel Alexandre Júnior, professor catedrático da Universidade de Letras de Lisboa para se enturmarem com o assunto). Se os nomes que me chamam fossem determinantes para as posições que tomo, acho que a esta hora estaria a espalhar a hashtag #IsabelMoreiraÉsAMinhaPadroeira porque, de facto, ela é quem mete mais respeitinho no Parlamento quando fala (juro que tive medo que ela soubesse onde eu moro depois de ter visto a sua intervenção). Acontece que os cristãos não têm medo das palavras porque as palavras não são instrumentos de morte mas de vida: Deus criou o universo a partir da palavra. De cada vez que a Isabel Moreira me tenta meter medo com as suas palavras, eu oro uma prece que diz assim: "obrigado, Senhor, porque fizeste das palavras fábricas de pessoas e não trituradores delas." E é precisamente porque Deus fez das palavras fábricas de pessoas que vou continuar a usar as minhas para defender a existência das pessoas ameaçadas pelo aborto. Já escrevi neste texto deal with it?

Mas comecei pelo lugar onde quero acabar. Só quando olharmos para algumas pessoas como nossos inimigos é que podemos, enquanto cristãos, orar por elas pedindo a Deus que nos faça ter-lhes amor. Ontem à noite pedi a Deus que não me faça odiar a Isabel Moreira e o Miguel Vale de Almeida. Pedi a Deus que me faça ter-lhes amor precisamente pelo facto de serem meus inimigos. Não é fácil mas é o que o meu Salvador Jesus me mandou fazer: amar os meus inimigos. Se eu achasse que eles são meus amigos, não só lhes faltava ao respeito (nem sequer nos conhecemos!) como colocava dentro de mim mesmo a origem dos meus bons sentimentos, procurando gostar deles independentemente de eles defenderem uma causa que para mim é maligna. Um cristão defende uma visão antropológica radical que coloca em Deus a origem dos seus bons sentimentos. Por isso é que um cristão não pode ter a pretensão de ser amigo de toda a gente - porque não deve gostar das pessoas independentemente do modo como elas se relacionam com Deus. Um cristão é chamado a uma coisa diferente que é amar os seus inimigos, não a achar que todo o bicho careta é seu compincha.

É a visão socialista abraçada pelo Miguel Vale de Almeida e pela Isabel Moreira que, descartando Deus, coloca o ser humano como a origem e finalidade dos seus próprios bons sentimentos. Por isso é que o socialismo acredita em causas humanitárias porque a humanidade, desde que bem encaminhada, é um progresso imparável em direcção à fraternidade universal. Eu compreendo o excesso retórico da Isabel Moreira porque ela não suporta a ideia de haver retrocessos nesta digressão (a ILC em causa é um regresso à barbárie). Os cristãos serão, como o Miguel Vale de Almeida tem repetido, os "fundamentalistas", os "fascistas", e todos os istas que nos possam atirar para esse longínquo e obscuro período terminado em em Abril de 1968. Ironicamente, a visão mais optimista da natureza humana é aquela que acaba a tratar pior todas as pessoas que não a têm (o Miguel Vale de Almeida disse que ia tomar nota de todas as mulheres do PSD e do CDS que votassem favoravelmente à ILC - como classificamos um gesto destes?).

Por que é que o cristianismo nos chama a amar os nossos inimigos? Porque relativiza o mal que eles nos podem fazer? Não. O mal que os nossos inimigos nos podem fazer é precisamente aquilo que os classifica como inimigos. O cristianismo chama-nos a amar os inimigos porque, realmente, ninguém começou a sua relação com Deus de outra maneira: ninguém nasceu amiguinho de Deus. É porque Deus nos adopta enquanto filhos num gesto de sacrifício (morrendo Cristo na cruz), quando nós éramos ainda seus inimigos, que nós não podemos olhar para a inimizade dos nossos inimigos como ponto final - quem sabe se Deus não vai fazer com eles o que fez connosco?

Finalizando. Miguel e Isabel: oro por vocês. Oro por mim quando oro por vocês. Oro pelo nosso país quando oro por mim orando por vocês. Parece que vamos ter de lutar uns contra os outros. Que assim seja. No meu coração sei que tem de haver amor. No vosso, é convosco. Não é fácil existir amor no meu coração. Mas ninguém disse que era suposto ser. Vocês também não se meteram na política para passar férias. Baza!


O Expresso
Mete o meu último álbum na lista dos discos que importa ouvir neste Verão (ainda por cima quase encostado à reedição do "Heartbreaker" do Ryan Adams!).


quinta-feira, julho 23, 2015

A minha mulher a explicar o que é o casamento
"Há 13 anos, no dia 20 de Julho de 2002, ele oferecia-me o nome dele. Eu aceitei. Mal saberia eu que este gesto, acrescentar algo à ordem natural do nome que os meus pais me colocaram, seria um bom prenúncio de toda uma nova vida que estaria a chegar. Foi-me adicionado um nome que não apagaria nada do que até aos 25 anos fui, mas que simbolicamente traduziria o facto de me tornar uma só pessoa com outra: é uma nova vida que começa. O casamento torna-nos pessoas novas. Sim, o casamento transforma-nos. Nos dias bons, nos dias menos bons, nos dias péssimos. Nunca esquecendo que prometemos amar-nos quer estejamos saudáveis, quer estejamos doentes. Ricos ou pobres. Alegres ou deprimidos. Até que a morte nos separe." (do blogue dela: Por Aqui E Por Ali).

quarta-feira, julho 22, 2015

Ouvir
O que é que o descanso nos ajuda a fazer? Respondendo de uma maneira muito directa diríamos: o descanso ajuda-nos, enquanto criaturas, a executar a vocação que Deus nos dá de, na sua criação, sermos sacerdotes, reis e profetas. Uau. Soa pomposo. É melhor ouvir o sermão.

segunda-feira, julho 20, 2015

Treze anos
Hoje eu e a Rute fazemos 13 anos de casados. Nas vossas orações agradeçam e peçam a Deus por nós. Que o nosso casamento seja à medida do casamento dos casamentos, entre Cristo e a Igreja.
Vídeo
Eu e o Bruno temos uma história com mais de 20 anos (a ver se qualquer dia a conto). É um privilégio entrar neste novo teledisco dos Fellow Man.


quinta-feira, julho 16, 2015

Won't Back Down

Uma das coisas que mais me pesa no coração é não estar a fazer nada concreto contra o mal do aborto. Quero que Deus me ajude a mudar e dar o corpo às balas. A luta contra o aborto é daquelas onde tenho de estar pronto para perder para mim para ganhar para outros. Quem mais perde com o aborto é quem é morto por ele - se eu perder popularidade, amigos ou respeito por causa da minha posição, who cares? A tragédia a ser praticada diariamente não é acerca de mim.

Deus abençoe as pessoas envolvidas nesta ILC (António Pinheiro Torres, as nossas orações estão contigo)! Evangélicos, acordem para isto! Orgulhem-se naquilo que o Pastor Paulo Pedro Luvumba está a fazer (vejam aqui a partir dos 39'35''). Vamos juntar-nos a eles!

quarta-feira, julho 15, 2015

Ao Tom Dela

Tondela fez 500 anos e o Sami fez as honras cantando no coração da cidade a sua música "Ao Tom Dela". Quero aproveitar para dizer três coisas.

A primeira coisa é que produzi ao Sami o disco "Nem Lhe Tocava" e foi o disco mais difícil de produzir que já produzi. Graças a Deus que, apesar disso, é um grande disco. Não tanto pela minha produção (que foi nula a nível de merecer méritos pelo resultado final) mas pela presença do talento do Sami em estado puro. Explicando melhor: o "Nem Lhe Tocava" é um disco de que se gosta não tanto por ser um disco completo, mas mais pelo facto de o Sami ser um artista a quem nada falta. Como era a primeira vez que as pessoas o ouviam, não tinham alternativa a render-se ao talento dele (isto também vai pela crítica de 5 estrelas que o João Miguel Tavares fez na Time Out, salientando o trabalho de produção - Johnny, foste generoso mas o crédito é do Sami!).

A música "Ao Tom Dela" continua a ser a música a que, mais flagrantemente, não foi feita justiça na produção do disco. O que as pessoas não sabem é que na sua forma original "Ao Tom Dela" era a música que, até à altura, o Sami tinha feito mais parecida com o Tony Carreira. Lembro-me de a estar a ouvir pela primeira vez na sala do primeiro piso da Igreja Baptista de São Domingos de Benfica e ver ali aquilo que o Tony sempre tinha sonhado fazer para si (porque o próprio Sami puxou da referência). Disto não tenho a certeza, mas arriscaria dizer que o Sami considerou meter a canção no reportório dos Ninivitas (a banda mais folk da FlorCaveira e que integrava quase toda a gente da editora).

Ora, no estúdio da Valentim eu, o Sami e o Nelson Carvalho andámos às aranhas com a canção e acabámos por gravá-la bem crua e mascará-la com efeitos de pós-produção (basicamente, sujá-la com distorção). Nunca fiquei contente com o resultado e ainda hoje gostava de a ver produzida decentemente. Portanto, confesso o meu pecado.

A segunda coisa é que é emocionante vê-la cantada no coração da cidade em jeito de hino local. Tirando o facto de estar lá uma guitarra com distorção (com solo e tudo) que deveria ter sido impedida de se aproximar mais do que 500 metros do palco, um engano na letra do Sami (recebido com carinho pelo público), e as camisolas do Tondela envergadas pelos cantores (feias a sério), o momento é muito bonito. Sei que é um bocado saloio da minha parte mas fiquei emocionado por sentir que, de alguma parte, aquilo também me diz respeito.

A terceira coisa é que provavelmente os Tondelenses não sabem mas a cidade deles tem muito significado na história do protestantismo português no geral e dos baptistas em Portugal. Os baptistas em Portugal têm de ter o coração a palpitar mais forte quando ouvem o nome de Viseu e Tondela a ser pronunciado. Ainda não sei perceber muito bem o porquê do cristianismo evangélico estar ligado à qualidade beirã, mas quero progredir nessa tarefa.

Ya, era isto. Sami, grande abraço!


terça-feira, julho 14, 2015

Três parágrafos em pirueta

É giro andar nisto do hedonismo cristão porque parece sempre subversivo a quem está de fora. Só pela combinação perigosa destas duas palavras (hedonismo + cristão) o Pr. John Piper deveria ter um busto em todas as igrejas evangélicas que se preocupem em pregar o evangelho dignamente. Essa é uma das coisas que os macambúzios não percebem na teologia reformada: o ar de austeridade é só fachada. Dentro de cada puritano está um louco que dança no púlpito. C. S Lewis percebeu bem isso quando escreveu: "Protestants are not ascetics but sensualists."

Ando a ler um livro magnífico chamado "The Things Of Earth" escrito por um miúdo de trinta e poucos anos (mais novo que eu!) chamado Joe Rigney. A determinada ele lembra que no evangelho a auto-negação é sempre acompanhada de desavergonhadas promessas de recompensa. Os cristãos não podem armar-se em choninhas nesta matéria. Negarmo-nos a nós próprios não é o produto final: o produto final é sermos recompensados por Deus alcançando uma comunhão fantástica com ele. A auto-negação é sempre um passo intermédio de subtracção para no fim termos a melhor soma de todas que é a nossa união com Cristo.

Às vezes os cristãos passam uma imagem de pessoas irritadas com as festas dos outros. Isso é um disparate. Os cristãos entristecem-se com as festas dos outros por elas serem tão ridiculamente tímidas comparadas com a festa cósmica que é a amizade esperneante com o Criador. Por isso o cristianismo é uma religião de paradoxos: mesmo quando se veste de preto dá bailarico aos cortejos coloridos dos pagãos. A eternidade vai ser passada à mesa, minha gente!


segunda-feira, julho 13, 2015

Ouvir
O descanso serve para, enquanto criaturas diferentes do Criador, sermos como ele. Para entender melhor o paradoxo podem ouvir aqui o sermão de ontem.


sexta-feira, julho 10, 2015

Andei de volta das Institutas e só depois reparei que hoje é dia de anos do Calvino
Ponho aqui o texto que escrevi há umas horas no blogue "Lendo as Institutas".



 Livro 2, Capítulo VIII (pontos 49 a 59) - o 10º Mandamento
 
No fecho dos Dez Mandamentos, Calvino mostra mais uma vez a sua estatura intelectual: não vale a pena tratar dos nossos pecados incidindo sobre o que fazem as nossas mãos se não formos à origem do problema no nosso coração. O resumo do “Não cobiçarás” pode então ser este: “Uma vez que o Senhor pretende que toda a nossa alma esteja cheia de amor, qualquer sentimento de uma natureza adversa deve ser banido.” Ou seja, o contrário da cobiça é o amor. A cobiça não se luta com menos coração mas com mais. A implicação é que não resistimos à cobiça adormecendo no nosso coração o afecto pelas coisas, mas resistimos à cobiça acordando o nosso coração para o tipo de afecto certo.

É a partir desta necessidade positiva de mais amor que compreendemos que não cobiçar implica também que desejemos o bem do nosso próximo. E, como a Parábola do Bom Samaritano nos ensinou, o nosso próximo é qualquer pessoa que nos cerca, independentemente de termos ou não afinidades com ela. “O Senhor ordenou previamente que a caridade deve regular os nossos desejos, estudos e acções, e agora ordena-nos para regularmos os pensamentos da mente da mesma maneira, para que nenhum deles se deprave ou distorça, dando à mente uma inclinação contrária.” Quando trata do problema da cobiça, Calvino canta “all you need is love”. E canta bem e com verdade bíblica.

Por consequência, segue que quando a nossa mente não tem o amor presente, facilmente se cativa com qualquer concupiscência. A palavra concupiscência pode parecer pesada mas no fundo traduz com clareza o custo de não nos unirmos ao amor de Deus. Esse custo é podermos ficar encantados com qualquer outro amor. A concupiscência é, no fim de contas, apaixonarmo-nos por outra coisa que não Deus. Uma mente bem organizada é uma mente que teimosamente se prende ao amor apenas.
Calvino aproveita para malhar na ordem incorrecta dos Dez Mandamento seguida pela Igreja Católica Romana, que retira o segundo mandamento (Não farás imagens de semelhança) e divide o décimo (não cobiçarás) em dois. Não é assim que o texto bíblico faz e a prova simples disso é a ordem seguida pelos judeus desde sempre, correspondente também à tradição reformada e protestante.

A importância de obedecermos aos mandamentos é a de o nosso carácter ser transformado para que possamos, com as nossas acções, exibir a imagem de Deus que ele colocou em nós. Fazermos bem não nos promove a nós mas, em último grau, promove a Deus. Os cristãos não fazem boas acções como os escuteiros, para provar que são bons. Os cristãos fazem boas acções para provar que Deus é bom. É também isto que significa sermos feitos à imagem de Deus. Logo, a Lei é um terreno bem prático que reflecte quem Deus é. Quando seguimos a Lei mostramos a qualidade do carácter de Deus.

As obrigações que a Lei nos deixa são para serem vistas sobretudo no modo como tratamos os outros. A primeira tábua dos Dez Mandamentos resume nos primeiros quatro os nossos deveres no relacionamento com Deus. A segunda tábua ilustra nos últimos seis mandamentos que, no modo como nos relacionamos com os outros, demonstramos o modo como nos relacionamos com Deus. Daí que a preferência seja abreviar toda a Lei de Deus no nosso comportamento em relação aos outros, podendo o Apóstolo Paulo escrever um texto como 1 Coríntios 13 onde a lógica é: amor ou morte. “A nossa vida será melhor enquadrada com a vontade de Deus, e com os requerimentos da sua Lei, quando ela é, em todos os aspectos, vantajosa para os nossos irmãos.”

Calvino considera então pertinente explicar que o amor-próprio não é um conselho mas uma referência. Ou seja, quando somos chamados a amar o nosso próximo como a nós mesmos não se deve depreender que a Bíblia está a chamar-nos a amar-nos a nós próprios. A Bíblia está simplesmente a constatar um facto. Nós naturalmente amamo-nos a nós próprios ao ponto de colocarmos os nossos interesses acima dos interesses dos outros. Quem é pai sabe que nunca precisou de ensinar os seus filhos a colocarem os seus interesses acima dos interesses dos outros - as crianças nascem a saberem fazê-lo espontaneamente. Deus chama o nosso amor-próprio para o assunto para que ele dê lugar a outro tipo de amor que é o amor pelo nosso próximo. Deus não aconselha o amor-próprio, Deus transforma-o em amor pelos outros.

O amor aos nossos inimigos é uma das consequências desta reorientação do amor-próprio. Na Bíblia o amor aos inimigos não é opcional. Somos chamados a amar os nossos inimigos como amamos os nossos amigos porque a questão não é o que é natural no nosso amor mas o que é sobrenatural no amor de Deus. Por fim, Calvino rejeita nos Escolásticos a tradição de separarem pecados veniais de pecados mortais, explicando que todos os pecados que praticamos são mortais porque suscitam a ira de Deus, a menos que aceitemos o sacrifício que o Filho dele fez em nosso lugar para pagar o prejuízo causado pela nossa rebelião.

quarta-feira, julho 08, 2015

Still


















Religião e punk rock. Still in 2015. With my main man Luís Gravito.

terça-feira, julho 07, 2015

Ouvir
Descansamos bem quando, nesse descanso, regressamos ao seu autor.
O sermão de Domingo passado, o primeiro numa série sobre o descanso, pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, julho 03, 2015

Já está nas bancas
A Revista de Ler onde escrevo sobre a relação que há entre Cormac McCarthy e Ester. Goes like this:

O trabalho de Cormac não é dar-nos um mundo direito a pedido do leitor mas o mundo torto por falta de comparência divina. O facto de a malvadez andar sem rédeas nos actos das personagens talvez corresponda à religião possível dos que as lêem: podemos não acreditar em Deus mas, definitivamente, coisas destas ainda nos fazem sentir a utilidade do castigo.









quarta-feira, julho 01, 2015

Ouvir
Querer mais Deus é querer menos aquilo que não nos pertence. O último sermão sobre os 10 Mandamentos ("Não cobiçarás") pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, junho 29, 2015

O Paradoxo da Felicidade

Em Portugal quando se ouve de um pastor evangélico brasileiro a abrir uma igreja nova pensa-se normalmente em uma igreja nova com brasileiros lá dentro. Na gíria são as igrejas étnicas, que bem ajudam a dar algum ânimo ao facto de a maioria das igrejas evangélicas portuguesas estar em decadência. Não fosse a proliferação destas novas igrejas (que, em abono da verdade, tanto depressa abrem como depressa fecham) e os números de protestantes no país estariam a cair.

No ano passado estive em Paris (na Conferência do City To City) e conheci uns quantos pastores brasileiros a abrir igrejas novas em países como a França e a Itália. Por defeito, o meu cálculo foi pensar em igrejas de brasileiros em França e na Itália. Mas, voilá!, apanhei uma surpresa: não tendo a vida facilitada por falarem a mesma língua (como em Portugal), nos outros países europeus os jovens pastores brasileiros estão a abrir igrejas que se enchem com as pessoas do país onde estão. Não são igrejas de emigrantes. São igrejas de franceses e italianos.

O caso que mais me surpreendeu foi o do Pr. René Breuel. O Pr. René Breuel terá a minha idade (trintas e muitos) e, com a sua mulher Sarah e os seus dois filhos, abriu há um par de anos uma igreja no centro de Roma. É uma igreja que não é pequena para os parâmetros europeus: cerca de uma centena de pessoas. É uma igreja que faz mais do que reciclar evangélicos fartos das suas igrejas de origem - é uma igreja a crescer com pessoas que se convertem ao cristianismo através do seu testemunho. É uma igreja de gente nova, com uma linguagem solta do evangeliquez e uma frontalidade ganhadora acerca do que é fundamental no evangelho. É uma igreja italiana pastoreado por um brasileiro que tem tudo para ser o sonho de um português.

Há duas semanas pude finalmente conversar pela primeira vez com o René. Ele passou-me um livro que escreveu (ele já escreveu outro além desse) e eu passei-lhe o livro que escrevi. O livro que passei a ter nas mãos e que li em três dias chama-se “O Paradoxo da Felicidade”. E é um livro muito bom. É um livro que parece pegar no género estafado de “seja feliz em cinco passos” mas que o subverte dando-nos o que o cristianismo crê acerca do assunto. Vou tentar descrever muito basicamente a tese do livro.

Todas as pessoas têm fome de ser felizes e o pior erro é fingir que já comemos quando os nossos dentes ainda não trincaram nada - Deus fez-nos de facto para sermos felizes (até porque Deus é feliz). Mas que tipo de felicidade devemos perseguir? Não podemos procurar a felicidade dos modelos comuns porque os modelos comuns querem vestir os fregueses sem lhes tirarem as medidas. “Eles não levam em conta a natureza entortada da nossa alma, encurvada pelo pecado, e não conseguem evitar a lógica egocêntrica na qual funcionamos.” Ou seja, o apetite antropológico (um homem querer ser feliz) é sabotado pela imperfeição do sistema digestivo (nenhum homem é perfeito). O problema não é querermos ser felizes, o problema é sermos imperfeitos. Procurarmos uma felicidade que ignora a nossa imperfeição é acabarmos ainda mais cheios da última.

“A felicidade é um efeito indirecto.” Somos felizes como consequência e não como causa. “Somos alegres não quando estamos obcecados com o nosso estado emocional, mas quando, imersos em alguma actividade, relacionamento ou causa, nos entregamos à vida em autoesquecimento.” É aqui que entendemos o paradoxo da felicidade. Os cristãos ao imitarem Cristo doam-se como ele o fez na cruz, redimindo a realidade num gesto de amor que se sacrifica. “O paradoxo de Jesus expressa assim a verdade básica por trás da existência humana e da nossa busca por felicidade: salvamos nossa vida quando a perdemos, ganhamos quando damos.” Podemos acabar surpreendidos pela felicidade porque nos esquecemos dela.

Há mais coisa boa no livro (destacaria a parte que trata da questão do sofrimento: “A maneira como compreendemos a felicidade hoje, então, se está divorciada da bondade e do sofrimento, está também divorciada da realidade”) e valia a pena que ele estivesse disponível no mercado português. Creio que é possível encomendá-lo pelo site do René. É um texto que tanto serve pessoas que já declaram fé, como as outras, e que funciona como boa introdução ao cristianismo. Começa na questão da felicidade no geral para culminar na única felicidade possível que é Cristo.

No final terminei convicto que o René e a sua família têm de vir gastar mais tempo em Portugal, partilhando da experiência deles de injectar energia sul-americana ao cristianismo europeu amolecido. A Chiesa Evangelica San Lorenzo tem muito para dar além da Itália.

terça-feira, junho 16, 2015

Ouvir
Longe de Cristo sou uma contrafacção de mim próprio. O sermão de Domingo passado, sobre o 9º mandamento ("não mentirás") pode ser ouvido aqui (ou aqui: http://www.igrejadalapa.pt/?q=media/podcasts/o-nono-mandamento).


segunda-feira, junho 15, 2015

Revitalização de Igrejas

[Estou a frequentar a Conferência Ibéria XXI promovida pela rede City To City, da Igreja Presbiteriana Redeemer em Manhattan. Este texto serviu de orientação para a minha participação na conversa sobre revitalização de igrejas, num painel com o Pr. Josué da Ponte e com o Pr. Felipe Assis, moderado pelo Manuel Rainho e pelo Pr. Pedro Silva. Está a ser muito bom. Dura até Quarta-Feira na Igreja da Casa da Cidade, perto de Moscavide - juntem-se a nós!]

Aquilo que acontece na igreja que sirvo, a Igreja da Lapa (nome oficial: Segunda Igreja Evangélica Baptista de Lisboa), pode ser visto como a revitalização de uma igreja. É uma parte do que lá acontece, de facto. Nesse sentido, o nosso exemplo pode ser bom para ilustrar um dos assuntos que nos junta nesta Conferência Ibéria XXI. Quero por isso partilhar alguns dos aspectos que me parecem centrais na nossa experiência, para que ela possa ser útil a todos os que aqui nos juntamos. Vou fazê-lo organizando a minha partilha em quatro tipos de revitalização possíveis de observar no nosso percurso.

Devo abreviar o que aconteceu nos últimos sete anos. Em Outubro de 2007 eu e a Rute fomos enviados pela Igreja Baptista de Moscavide, à qual pertencíamos, para ocupar as instalações de uma pequena igreja que não estavam a ser usadas desde o início dos anos 90. Uma pequena sala na cave com um pequena casa-de-banho e mais uma pequena sala no rés-do-chão eram o que restava da antiga Igreja Baptista de São Domingos de Benfica. Como esta igreja tinha pertencido à Associação de Igrejas Baptistas Portuguesas, a Direcção desta Associação tinha decidido manter-se pagando o aluguer para usar estas instalações como escritório. Na prática isto significava que a sala do rés-do-chão era usada para reuniões e organização de envio de material pedagógico da AIBP, e que o salão de culto, na cave, permanecia enquanto espaço museu. Tudo tinha ficado como tinha sido deixado. Parecia Pompeia. Deu-se a erupção do vulcão e o pó era o único guardião da memória do que até então tinha acontecido.

Eu e a Rute, como enviados missionários da igreja, acabámos logo aí a fazer uma espécie de revitalização da igreja – o primeiro tipo de revitalização de igrejas de que vos quero falar. É a espécie mais fácil. Porque revitalizámos a igreja sem termos de revitalizar as pessoas que lá estavam antes porque nenhuma dessas pessoas se juntou a nós. Mas revitalizar sem vidas concretas não conta. Começámos então de outra maneira, contando com apenas mais uma família, além da nossa, comprometida com essa tarefa de começar uma igreja nova. Em alguns meses contávamos com cerca de 15 pessoas nas reuniões. Acelerando um pouco o relato, o primeiro plano de autonomia da igreja foi adiado e, em vez de renascermos enquanto Igreja Baptista de São Domingos de Benfica em 2011, fizémo-lo em Janeiro de 2012. Éramos doze membros e uma congregação de cerca de 30, 40 pessoas.

Sobre as características dessa comunidade é importante dizer que, tirando um caso, não havia conversões. Éramos um mosaico no que diz respeito à proveniência evangélica (pequena maioria de baptistas, o segundo grupo mais expressivo era de pentecostais e havia alguns vindos dos irmãos) mas um grupo homogéneo de pessoas que se relocalizavam ali. É verdade que a igreja era nova. Mas os seus membros não eram novos na fé. Foi preciso esperar uns meses para que baptizássemos a segunda pessoa que se tinha convertido através do nosso trabalho. Creio que é importante referir isto porque quando se fala em igrejas novas em Portugal receio que na maior parte das vezes (pelo menos na minha observação) seja preciso explicar que a novidade delas é à custa da velhice das outras. Explico. Falar numa igreja nova é fantástico se partirmos do princípio que essa igreja nova significa novas conversões. Mas falar numa igreja nova não é assim tão fantástico quando essa igreja nova se desenvolve à custa de realojar aqueles que estão insatisfeitos com as suas igrejas velhas.

É a minha opinião que uma boa parte das igrejas evangélicas novas em Portugal não são puramente igrejas novas mas igrejas revitalizadas à distância. Explico. Se eu abro uma igreja que serve para ser a igreja nova de pessoas que ao chegarem lá tiveram de sair das suas igrejas velhas, é como se eu estivesse a revitalizar essas igrejas velhas, ainda que ninguém me tenha dado autorização. Quantas das igrejas novas representadas neste encontro são realmente igrejas de novas conversões? Talvez a parte mais considerável seja igrejas novas que relocalizaram velhos membros. A minha tese é que essa é uma espécie de revitalização, ainda que não consentida formalmente. Esta é a segunda espécie de revitalização que quero falar – a revitalização real mas não consentida, que creio já estar a acontecer em Portugal e que não deve ser o nosso objectivo primordial. Não sou contra ela de modo algum. Mas é o que me faz não querer ter um discurso triunfal sobre a minha igreja nova. Antes pelo contrário. Algumas das melhores coisas que acontecem na minha igreja são à custa das piores coisas das outras igrejas. Nesse sentido, em Portugal há muito trabalho de revitalização para fazer mesmo que nunca seja assumido como tal.

Avançando no tempo, devo registar o período de revitalização de igreja mais formal que efectivamente aconteceu. Este é o terceiro tipo de revitalização que quero mencionar e que passa por uma revitalização real e procurada. Em 2014 a Igreja Baptista de São Domingos de Benfica deixou de existir para se juntar à Segunda Igreja Baptista de Lisboa. A Segunda Igreja Baptista de Lisboa passava uma crise longa e estava reduzida a uma dúzia de pessoas num salão onde podem caber duas centenas. Como a história ainda está a ser escrita devo ser cuidadoso. Mas falaria três aspectos para caracterizar a revitalização da 2IBL leva a acabo pela Igreja Baptista de SDB.

Em primeiro lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque já quase que não havia 2IBL. Já não havia vaidade a que se pudesse agarrar para se dar ao luxo de regatear o seu futuro. Era ser ajudada por nós ou fechar a porta. Digo isto porque olho para várias igrejas que já precisam de ser revitalizadas mas que ainda não largaram aquilo que impede uma verdadeira revitalização: o seu orgulho. Na minha denominação então, este é um problema sério. Para revitalizar é preciso assumir que a vida já quase se foi embora. Isto é muito complicado de ser assumido. Em segundo lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque não foi um Pastor que chegou mas uma igreja com ele. Quando SDB começou a ajudar a 2IBL a maioria esmagadora das pessoas presentes nesse encontro era de SDB. No próprio funcionamento congregacional que temos isso permite que os atritos mais facilmente sejam vencidos por uma dinâmica que não pertence a um Pastor sozinho mas a uma efectiva comunidade nova. Em terceiro lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque essa revitalização não acontece apenas exteriormente na igreja mas interiormente na fé dos crentes. O que começou a acontecer logo em SDB foi uma espécie de reconversão. E é aqui que quero terminar com uma nota mais pessoal.

Nesta nota pessoal falo do quarto tipo de revitalização – aquela que tem de acontecer dentro de nós. Quando começámos o trabalho em SDB tínhamos o sonho de abrir uma igreja nova. Receber pessoas e pregar-lhes a Palavra. Ocupar o púlpito com uma mensagem que ressoasse nos ouvintes. Encher a pequena igreja. A verdade é que lentamente todas essas coisas aconteceram. Mas no processo de se materializarem esses sonhos, entendemos também que esses sonhos não estavam necessariamente colocados no fundamento certo. Não é por Deus permitir que um sonho nosso se concretize, que esse sonho passa a ser certo. É possível querer ser pastor com a intenção errada. É possível querer revitalizar uma igreja com a intenção errada. À medida que uma igreja se desenvolve, rapidamente entendemos que os momentos de aclamação não são a regra mas a excepção. Para Moisés as lutas mais persistentes da sua missão de libertar o povo serão com os libertados, também para um pastor as lutas mais persistentes são com a igreja pastoreada. Este desabafo serve para dizer: poderemos ter a certeza que estamos a revitalizar uma igreja quando o evangelho nos está a revitalizar a nós. É um processo longo mas seguro. Temos de permanecer constantemente nos fundamentos na nossa fé para que alguma coisa nova possa ser construída. Não podemos sonhar com arranha-céus quando os alicerces estão em mau estado. Não levarão a mal a minha opinião de que os alicerces das igrejas evangélicas em Portugal precisam urgentemente de ser revistos. Se calhar, vamos chegar à conclusão que a igreja que julgávamos estar em condições de revitalizar outras é a primeira a precisar de revitalização. Que Deus nos ajude nesse trabalho!

quinta-feira, junho 11, 2015

Ver
Ontem foi um dia de muita alegria. Voltarei a ele mais tarde se Deus permitir. Para já gostava de vos mostrar o novo vídeo de apresentação da igreja (que podem verificar ai em baixo). Como ontem a Igreja da Lapa celebrou o seu 86º aniversário, aproveitámos também para renovar o seu site. Verifiquem aqui: http://igrejadalapa.pt/. O Senhor tem sido generoso no talento que que deu ao Hugo Moura e ao Tiago Ferreira, para a produção do vídeo e do site. Espalhem estas ligações.


terça-feira, junho 09, 2015

Ouvir
É um alívio Deus ser a favor da propriedade privada. Mas é ainda melhor Deus ir além da propriedade privada e chamar-nos a sermos contra a pobreza. O exemplo de Jesus ilumina-nos para colocar o 8º mandamento (não roubarás) em prática numa atitude de serviço e sacrifício.
O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui (e downloadado aqui: http://igrejadalapa.pt/?q=multimedia/podcasts/o-oitavo-mandamento).


segunda-feira, junho 08, 2015

Brasil Knows Best - uma entrevista que dei ao Scream & Yell


De Portugal, conheça Tiago Cavaco

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por Bruno Capelas

Não é todo dia que se vê um roqueiro citar os Bad Brains e as cartas de São Paulo em uma mesma canção. Mas Tiago Cavaco, um dos principais nomes do rock português da atualidade, sempre esteve um pouco à margem dos que o cercaram. Criador da FlorCaveira (www.florcaveira.com), selo independente que desde 1999 ostenta o lema “Religião e Panque Roque” e lançou artistas como B Fachada, Samuel Úria e Pontos Negros, Cavaco é um roqueiro e letrista de mão cheia. Seu último lançamento, “Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa” (2015), é uma grande prova de seu fino trato com a palavra – dom que também exerce todos os domingos ao pregar na Igreja Batista da Lapa, na zona oeste de Lisboa, no qual é pastor.
Dono de títulos provocativos como “Ainda Não É Tempo de Morrer” ou “Sugiro a Minha Sepultura para Capital da Cultura”, Cavaco explica a ligação do rock com a fé de uma maneira simples – talvez com a facilidade de quem já teve de dissertar sobre o tema muitas vezes. “A minha vida é melhor quando ouço o The Clash dizendo que não vai desistir. Com isto, não quero defender que é evidente que o rock pede fé, mas que não será assim tão forçado dizer que o rock pode pedir esperança”, diz ele em entrevista por email, depois de ter se empolgado com a recente reportagem com o pesquisador Tiago Monteiro sobre a música portuguesa.
Para se entender a carreira de Tiago Cavaco, formado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, uma das mais modernas de Portugal, é preciso passar por uma pequena aula de nomes. Desde 1999 ele faz discos com a FlorCaveira, inicialmente com o nome artístico Guillul (que significa “cavaco” em hebraico). “Ficou difícil quando a maioria passou a conhecer o Tiago Guillul sem conhecer o Tiago Cavaco, por volta de 2010, na mesma época em que minhas responsabilidades na igreja começaram a ficar mais sérias”, explica. A partir daí, Cavaco passou a assinar discos como Tiago Lacrau (solo ou ao lado dos Lacraus) ou como o Rapaz do Sul do Céu, deixando seu nome de batismo para o cidadão Cavaco.
Apesar de acreditar que o rock nunca poderia ter nascido no mediterrâneo (“o português é um sujeito sereno e pouco dado à provocação”) e que “em Portugal você se torna um poeta quando ninguém percebe o que você quer dizer”, Cavaco acredita que tudo tem salvação. “Para que aconteça alguma coisa realmente boa com a cultura portuguesa, há muitas outras que primeiro têm de ser mortas e enterradas. Minha fé acha que a salvação pede primeiro a sua morte, e só depois a sua ressurreição”.
Na entrevista a seguir, Cavaco fala sobre “Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa”, lançado com a alcunha de Tiago Lacrau, e dispara farpas para a música portuguesa de ontem e de hoje. “Só vou me interessar mais pela música portuguesa quando uma grande parte dela for destruída pelos seus próprios músicos”, diz. Considerado pela crítica como um dos responsáveis pela volta da canção lusa em português, o criador da FlorCaveira dá de ombros: “Não canto em português para louvar a cultura portuguesa. Canto em português porque sou português. É como ser filho dos meus pais – é um fato e acabou-se”. Então, vamos a isto.
Lacrau, Cavaco ou Guillul? Qual a diferença entre os três Tiagos com o qual você se apresenta ao público?
Era fácil quando apenas uma pequena minoria que conhecia o Tiago Cavaco conhecia o Tiago Guillul. Ficou difícil quando a maioria passou a conhecer o Tiago Guillul sem necessariamente conhecer o Tiago Cavaco. Em 2010, senti que a figura musical Guillul não deveria atrapalhar o cidadão Cavaco, e por isso tentei convergi-los largando o Guillul. Foi na mesma época em que as minhas responsabilidades na igreja começaram a ficar mais sérias. Por outro lado, manter nomes paralelos (como Tiago Lacrau ou Rapaz do Sul do Céu) permitia continuar a fazer discos mais subterrâneos – que já existiam antes do Guillul – ganhar mais notoriedade. A questão dos nomes ainda não está completamente resolvida dentro de mim, mas, no geral, aplico o Lacrau a discos mais rock e o Rapaz do Sul do Céu a discos mais hip-hop. E Guillul que descanse em paz (apesar de, ironicamente, as pessoas do meio musical continuarem usando o nome).
E por que este “Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa?” é assinado com Lacrau?
Porque este é um disco claramente de rock, não muito distante do que faço com os Lacraus.
O Amamos Duvall, teu último projeto, era bastante ousado, cheio de samplers e fusões com o rap. Este “Sou Imortal”, por outro lado, soa bem cru como o melhor do punk-rock. Por que esse retorno a algo mais básico?
Sou um músico de ciclos. Há fases que ando mais excitado com o hip-hop, há outras que ando mais excitado com o rock. Sendo amores que permanecem para sempre, por vezes um pesa mais que outro na hora de gravar um disco novo. O “Amamos Duvall” foi uma oportunidade única de explorar o trânsito entre maquetes gravadas em casa e a sua transformação em estúdio – nesse sentido, é um disco para experimentar coisas. O “Sou Imortal…” é um disco de canções básicas gravadas de um modo básico também, de não pensar tanto em produção, mas mais em registrar rápido.
“Sugiro a Minha Sepultura para Capital da Cultura” é talvez a minha música favorita do disco. Como ela nasceu, e por que ela tem este sentimento tão forte quanto à realidade portuguesa?
Sou um português estrangeirado. Um protestante em Portugal nunca consegue ser português de maneira normal. Os meus sentimentos perante a cultura portuguesa (independentemente dos conceitos que temos sobre ela) são bastante ambíguos: por um lado ela pertence-me, por outro não. Daí que sinta que o melhor que posso fazer pela cultura portuguesa seja enterrá-la. No fundo, tem a ver também com a minha fé cristã, de achar que a salvação de uma coisa pede sempre primeiro a sua morte, e só depois a sua ressurreição. Para que aconteça alguma coisa realmente boa com a cultura portuguesa, há muitas outras que primeiro têm de ser mortas e enterradas. Uma das coisas que me irrita em Portugal é que você se torna um poeta quando ninguém percebe o que você quer dizer. A lógica é que se ele fala difícil, é porque deve ser muito inteligente. Ser poeta em Portugal é mais um estatuto intelectual que um trabalho concreto. Não suporto isso.
Aqui no Brasil, parece-nos curioso às vezes a fusão da religião com o rock proposta pela FlorCaveira - em “Ainda Não é Tempo de Morrer”, por exemplo, você cita o Bad Brains ao lado das epístolas de São Paulo, e faz menção ao Kiss na faixa-título. Como é que esta ligação funciona para você? O rock pode ser a canção da fé?
Para mim o rock tem um lado fundamental de libertação. Não de libertação política, mas de libertação individual. Mesmo quando era criança, sempre reagi ao rock porque sentia que um rocker podia fazer em palco aquilo que na vida normal não poderia fazer. E isso é fantástico. Mas, por outro lado, a partir do momento em que te libertas em palco, também te libertas nos ouvidos dos que te ouvem: elas podem ouvir aquilo que tu queres dizer (mesmo que não concordem contigo). É por isso que acho que o rock poder ser a canção da fé. Hoje as músicas que mais me continuam a comover são as músicas que afirmam esperança contra tudo e contra todos. Ainda nesta manhã, ouvia o The Clash a cantar “I’m not down, I’m not down” e continuo a ter dificuldade em explicar como é que a repetição dessas palavras em música me pode dizer tanto. A minha vida é melhor quando ouço o The Clash dizendo que não vai desistir. Com isto não quero defender que é evidente que o rock pede fé, mas que não será assim tão forçado dizer que o rock pode pedir esperança.
Ainda no tema religioso: imagino que boa parte do teu público e do público da FlorCaveira em Portugal não seja batista ou até mesmo religioso. Como vê a recepção das pessoas às suas mensagens pelo rock?
O português é um sujeito sereno e pouco dado à provocação. O rock nunca poderia nascer no mediterrâneo. A provocação é uma coisa das culturas protestantes onde a palavra realmente importa — as culturas católicas têm uma relação mais distante com a palavra e estão mais virados para a imagem. Logo, as pessoas tomam-me em grande parte como um provocador, como uma personagem estranha. Elas têm dificuldade em integrar no mesmo universo a crença na palavra (do cristianismo protestante) e o uso dessa crença na palavra como um ingrediente para fazer música.
“Prêmio Blitz”, por outro lado, mostra certa insatisfação com a crítica musical – algo que me lembra também “Senna”, dos Pontos Negros. Às vezes você acredita que o público (e especialmente a crítica) não entenda bem o seu trabalho?
A crítica musical em Portugal perpetua a serenidade católico-mediterrânica que é típica daqui. Os críticos portugueses sabem muito melhor procurar figuras que possam servir de mobília à pequena aldeia enquanto poetas do sítio do que ouvir discos e avaliá-los independentemente dos seus atributos sociológicos. A crítica descobriu a FlorCaveira e nunca soube lidar com ela porque procurou na FlorCaveira o que ela nunca foi: uma reprodução em pequena escala da mentalidade nacional. A FlorCaveira está-se nas tintas para criar novos Josés Mários Brancos ou novos Zecas Afonsos. Nós nunca fizemos música por causa deles (mesmo que eles nos possam inspirar aqui e ali). A FlorCaveira grava discos porque gosta de rock, não porque se sente na obrigação de dar mais poetas à cultura portuguesa. We couldn’t care less about that. Os críticos portugueses não percebem isto porque o credo deles é diferente do nosso. Somos de países diferentes, apesar de morarmos no mesmo. O “Prémio Blitz” é uma canção sobre o modo como tu consegues antecipar como a Revista Blitz escolhe discos preferidos, não pelo que eles valem, mas por causa do que esses discos permitem enquanto criam uma nova decoração da aldeia de sempre.
És um pastor batista em um país de católicos, assim como és um fã de punk em um país conservador e foste um religioso numa faculdade de Comunicação. À distância, me parece que sempre esteve um pouco à margem de tudo. Como se sente quanto a isto?
Talvez exista o mito do inadaptado como o herói pós-moderno. Eu não tenho paciência para heróis pós-modernos, mas é um fato que vivo nos lugares sem nunca me sentir completamente em casa neles.
“Sou Imortal…” é também um disco de participações de amigos. Como é que você se juntou a estes compositores no disco – e em especial, ao Tiago Bettencourt e ao Manuel Fúria?
Tenho duas maneiras de fazer discos quanto à presença de amigos: há discos que gravo sozinho, em recolhimento, e há aqueles que gravo chamando os amigos para qualquer coisa. O “Sou Imortal” pertence ao segundo tipo. O Tiago Bettencourt é um gajo incompreendido em Portugal e cuja maldição foi ter um hit enorme (com uma canção chamada “Carta”). Apesar de eu não ser um fã dos assuntos das canções do Tiago (ele escreve quase só sobre encontros e desencontros amorosos), acho que o Tiago é um escritor de canções – e eu também sou. Tenho vindo a ganhar admiração por ele e nos tornamos amigos nos últimos anos. A canção que ele canta comigo é uma canção de amor e achei que ele ficava bem lá. O Manuel Fúria é mais que amigo, é um companheiro – e um irmão na fé. A minha vida não seria a mesma sem o Manel e por isso estou sempre pronto para meter o Manel nos meus discos.
Qual é a percepção que tens da música brasileira? Em uma entrevista ao Scream & Yell anteriormente, falaste sobre os Novos Baianos, e no disco novo, tens uma música que versa sobre Tom Zé. Como funciona isto para ti, afinal?
Amo a música brasileira. Os primeiros brasileiros que amei musicalmente foram os Ratos de Porão. Samplei-os (com a autorização deles!) na canção “Contigo Sou Sempre Agradecido” (modéstia à parte, uma das minhas melhores canções) e tenho super orgulho disso. Depois veio o disco “Caetano e Chico Juntos e ao Vivo”, que mudou a minha maneira de perceber como a música poderia ser. E depois continuo incessantemente a ouvir e a descobrir coisas novas, mesmo quando são antigas. O Tom Zé é um dos meus heróis, seguido pelo Jorge Ben e do Tim Maia. Recentemente descobri o disco “Alucinação”, do Belchior – que maravilha! Viva o Youtube!
Em meados dos anos 2000, quando a FlorCaveira surgiu, o selo foi saudado como um dos principais responsáveis pelos músicos portugueses voltarem a cantar em português. Quase dez anos depois de tudo isto, como vê esse momento? Cantar na língua pátria é tão importante assim?
Como regra, ser português e cantar em inglês me parece algo tolo – haverá uma ou outra exceção que aprecio. Não canto em português para louvar a cultura portuguesa. Canto em português porque sou português – é a minha língua independentemente da relação que tenho com ela. É como ser filho dos meus pais – é um fato e acabou-se. A geração dos anos 80 que fez o rock cantado em português percebia isto melhor que todos os jovens que vieram a seguir. Cantar rock em português não tem a ver com seres embaixador da tua pátria, tem a ver com quereres cantar com o que tens à tua disposição. Portugal te deu a língua, os anglo-saxónicos te deram o ritmo… Pronto! A ironia é que a geração da música portuguesa dos anos 90 mandou a língua às favas, mas quis ser diplomata nacional. Tu tens cantores portugueses que cantam em inglês e que acreditam que o Estado lhes deveria dar subsídios porque estão representando a nação no estrangeiro. A FlorCaveira continua a ser a única seta que a geração dos anos 80 lançou para o futuro – todo o resto (cantando em português ou inglês) perpetua a maldição do poeta enquanto herói nacional. A geração dos cantores de intervenção dos anos 70 nesta matéria só inspirou oportunistas.
Ainda sobre a FlorCaveira: o selo foi responsável por fazer aparecer alguns dos mais interessantes artistas da música pop tuga dos últimos anos, como os Pontos Negros, o B Fachada ou o Samuel Úria, além de servir de exemplo para outras pequenas editoras fonográficas, como a Azáfama ou a Amor Fúria. Como se sente quanto a isto?
É uma coisa excelente. Por exemplo, o Samuel Úria é o artista mais completo de Portugal (porque faz canções e sabe dar show) e os Pontos Negros estão parados, mas o rock que eles fizeram continua a mexer. A Amor Fúria é uma editora irmã nossa e com quem temos trabalhado no último ano. O meu último disco é co-edição FlorCaveira e Amor Fúria e criamos o Clube do Crime Eléctrico, que são concertos mensais em Lisboa no clube de rock Sabotage. A Azáfama é a casa de amigos nossos como o Martim e os Três Por Cento e me sinto elogiado se de alguma maneira associarem o que eles fazem bem ao que nós fazemos bem.
Como vês a atualidade da canção pop portuguesa? Que nomes gostaria de indicar para o ouvinte brasileiro, hoje?
No geral a atualidade da canção pop portuguesa continua a ser uma chatice. Se houve pessoas que acharam que a FlorCaveira ia salvar a música nacional, foi só porque não perceberam que a música que fazemos não pertence a esta nação. É fácil pensar que a FlorCaveira foi uma moda que passou, mas o que passou não foi a FlorCaveira. A FlorCaveira já existia antes das pessoas darem conta da sua existência. O que passou foi o breve momento em que as pessoas deram conta da existência da FlorCaveira. E, num certo sentido, ainda bem. Com isto não quero soar ingrato: gosto do reconhecimento dos outros. Mas o negócio da FlorCaveira é fazer rock e canções que servem para a vida das pessoas fazer mais sentido quando as ouvem. O negócio da música pop portuguesa é, a pretexto das canções, fazer com que a música pop portuguesa faça sentido. Só me vou interessar mais pela música portuguesa quando uma grande parte dela for destruída pelos seus próprios músicos. Para isso, verifiquem o Bruno Morgado, o Filipe da Graça, o Deserto Branco, o Éme, o Cão da Morte, os HMB, os Chibazqui, e todos aqueles que, para fazerem algo novo, destroem alguma coisa.

 

quarta-feira, junho 03, 2015

Rostos desimpedidos

Voltar a andar de transportes tem-me devolvido à condição de pessoa insignificante que sou. Não conduzo o meu caminho, não oiço a minha música, não me sento onde quero. Curiosamente, tem proporcionado que ore o Pai Nosso com muito mais propriedade.

Claro que podia começar a fintar isto com dispositivos digitais. Poderia ir a ouvir música que quero ou até a ver filmes, como hoje é possível fazer no comboio. Mas Deus deu-me uma vergonha muito útil: sinto-me embaraçado quando mexo muito no telemóvel porque ver os rostos das pessoas desconhecidas à minha volta desimpedidos da tecnologia me parece uma bênção que devo aproveitar. É como se o facto de sermos transportados ao mesmo tempo para um lugar semelhante se tornasse uma comunhão espiritual possível.

terça-feira, junho 02, 2015

Ouvir
O valor da pureza sexual não tem a ver com a actividade que não se pratica mas com a personalidade que se é.
O sermão de Domingo passado, sobre o 7º mandamento (Não adulterarás), pode ser ouvido aqui (e o download pode ser feito aqui - clicando em cima de "aqui").


sexta-feira, maio 29, 2015

Comecei a ler os Diários do Kafka
Ele mistura nos Diários textos que viriam a tornar-se autónomos (para contos, por exemplo). Fico com a ideia que Kafka é melhor a escrever fora dos livros do que dentro deles. Só li "O Processo" e há uns anos valentes mas guardei a impressão que era mais acerca da tese que propriamente da trama. Os Diários dão-nos o Kafka da vida normal, o que equilibra bastante o facto de Kafka ser o escritor oficial da vida absurda.


quinta-feira, maio 28, 2015

Três razões para ver e gostar de "O Sétimo Selo" de Ingmar Bergman
Por causa desta personagem: Um cruzado angustiado por ter mais mão na espada que na Bíblia e que pergunta: "Por que é que Deus se esconde numa nuvem de meias-promessas e de milagres invisíveis?"
Por causa desta cena: Um espectáculo de circo é interrompido pela chegada de um grupo de suplicantes (gente que se fustigava para purgar os pecados do povo, que acreditavam estar na origem da peste mortífera daquele tempo).
Por causa desta frase: "Não me arrependo de nada mas estou um bocado cansado."


terça-feira, maio 26, 2015

Ouvir
Não matar não significa que tirar a vida é sempre mau e não significa que tirar a vida é apenas um acto físico.
O sermão de Domingo passado, sobre o sexto mandamento, pode ser ouvido aqui (e o download pode ser feito aqui: http://igrejadalapa.pt/?q=multimedia/podcasts/o-sexto-mandamento).


quinta-feira, maio 21, 2015

O evangélico que vai à bruxa - Uma leitura de "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus", de Héber Campos Jr. - Parte 3 e última

A maior parte dos evangélicos acaba a procurar preto e branco em áreas cinzentas. Esta é convicção do Héber Campos Jr em "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus". Isto significa que um cristão pode ter opções diferentes e igualmente válidas para a escolha do seu curso, para o seu emprego, e por aí fora. E não se deve sentir em causa por não sentir Deus a orientá-lo especificamente para algo nestes domínios. Claro que isto não significa que estas são decisões que se tomam sem poderem ser auxiliadas por boas perguntas prévias. Perguntas simples e úteis como: será que esta escolha é lícita? Será que esta escolha é benéfica para mim? Será que esta escolha é escravizante? Será que esta escolha é útil para outras pessoas? Será que esta escolha glorifica a Deus?

Pensemos, por exemplo, na área profissional. Quando escolho um emprego, dava jeito perguntar: onde posso utilizar melhor os meus dons? Que posição me oferece mais tentações que devo evitar? Que local me oferece melhores condições de crescimento espiritual (e uma igreja saudável)? Agora imaginem se todos os cristãos pensassem em coisas destas na hora de escolherem um emprego. Pelo menos, tínhamos igrejas de mãos mais bem dadas com o trabalho dos seus membros.

Héber Campos Jr. espicaça ainda a nossa carência de sabedoria. Essa sabedoria não é um processo só individual mas comunitário. Muita da incapacidade de discernir a vontade de Deus tem a ver com a nossa imaturidade. Hoje, é fácil viver com modelos pagãos que depois tentamos cristianizar à pressa. Por exemplo, se estudarmos a História percebemos que até muito recentemente as pessoas não encaravam o seu trabalho como algo sempre a subir. Antigamente as pessoas não albergavam a presunção de terem carreiras em ascensão que eram reconhecidas pelos outros (o mundo era muito diferente). Agora, não há nenhum miúdo que não encare os seus sonhos profissionais sem ser nesta perpectiva de superação constante e imparável. Estamos a educar os nosso filhos para só saberem viver como prósperos cidadãos da Wall Street.

Vivemos ansiosos com o assunto da vontade de Deus porque, no fundo, não queremos largar a ideia que tudo tem de dar certo para nós. "Temos uma expectativa pagã de que a vida tem de ser perfeita, de que devemos ter plena satisfação em tudo que fazemos (pág. 87)." É querer o Céu já aqui na terra. Nesse sentido, quanto mais Céu exigimos aqui, mais separados vivemos aqui dele.

Héber bate depois nos métodos perigosos das portas abertas (se a coisa que nos traz dúvidas prosseguir, então é sinal que é segundo a vontade de Deus), dos testes (avaliar a vontade de Deus sugerindo testes através das circunstâncias), dos versículos bíblicos (abrir a Bíblia ao calhas e partir do princípio que a primeira coisa que lemos é o que precisamos), das impressões (os nossos sentidos orientam-nos para a vontade de Deus, geralmente concentrando-nos numa sensação subjectiva de paz). Estes métodos são maus porque alimentam a nossa preguiça espiritual, estimulam a nossa ansiedade, livram-nos da responsabilidade pelas nossas decisões, e nos escravizam no subjectivismo mais rasteiro.

Precisamos de mais meditação profunda na Palavra. Temos de ser criaturas pensantes pesando prós e contras, sem termos este processo como um processo menos santo. Precisamos de ouvir mais conselhos de pessoas experientes e sábias. Precisamos de suspeitar mais do nosso coração (e a oração é fundamental nisto). Precisamos de saber esperar. Num penúltimo capítulo  "Como Tomar Decisões Segundo a Vondate de Deus", Héber sugere uns exercícios para aplicar tudo isto a decisões importantes na nossa vida (como o casamento ou a carreira). "A expectativa de que Deus nos irá passar o trailer do resto das nossas vidas não é ensinada nas Escrituras (pág. 128)." Fujamos então desse filme. E leiamos estes livro que é bem útil.


terça-feira, maio 19, 2015

Ouvir
O louvor é o combustível e o objectivo das missões.
O sermão de Domingo passado, pregado pelo Mark Bustrum, pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, maio 18, 2015

O que aprendi melhor ontem a ouvir um missionário americano

Ontem pregou um missionário na minha igreja. Esse missionário é o Mark Bustrum. A Família Bustrum é americana e tem estado há algum tempo junto de nós, da Igreja da Lapa. Temos sido abençoados por eles e queremos abençoá-los. Os portugueses precisam de toda a ajuda para evangelizarem Portugal. E a Família Bustrum deu a sua vida por essa tarefa. Imaginem o privilégio que é podermos contar com eles.

Uma das coisas que me impressionou quando ouvia o Mark pregar é que ele parte de um princípio que, escandalosamente, nós, os cristãos evangélicos portugueses, não partimos. Que princípio é esse? Respondo dando um exemplo do que o Mark fez. Sempre que o Mark pedia para abrirmos em algum sítio da Bíblia, ele dizia coisas básicas acerca dessa passagem que, à primeira vista, nos poderiam parecer desnecessárias. O Mark pregou sobre o Salmo 67 e foi à pequena introdução que a tradução que ele estava a usar (a Bíblia Para Todos) tinha sobre os Salmos para explicar o que se poderia esperar de lermos os Salmos. O Mark sempre que nos mandava para outro texto bíblico dizia o número da página para quem estava a usar a tradução dele (a Bíblia Para Todos), não assumindo que as pessoas saberiam abrir as Escrituras conhecendo a ordem dos seus livros. Ou seja, o Mark partia do princípio que é normal estar no lugar onde se prega a Bíblia quem não sabe muito dela.

Impressiona-me partir do princípio que é normal estar no lugar onde se prega a Bíblia quem não sabe muito dela, porque eu não fui ensinado a partir desse princípio. Na realidade, mesmo que tenha sido inconsciente, cresci a partir do princípio que só vai ao lugar onde se prega a Bíblia quem já sabe alguma coisa dela. Acontece que este princípio está errado. Muito errado. Porque este é um princípio de um evangelho de mérito e não de um evangelho de graça. Na prática, cresci enquanto cristão a pensar que a igreja é para quem, de alguma maneira, se sente naturalmente a pertencer a ela. Mas a rigor, a igreja nunca foi nem pode ser um lugar de pertença natural. A igreja é um lugar de pertença sobrenatural. Porque só podemos pertencer à igreja por coisas sobrenaturais que Deus fez por nós, e que nós nunca seríamos capazes de fazer por nós próprios. Alguém pode morrer na cruz pelos seus próprios pecados, se não apenas o Senhor Jesus? Alguém pode vencer a morte no seu próprio poder? Alguém cumpriu perfeitamente a lei de Deus? Alguém pode enviar o Espírito Santo por sua livre e espontânea vontade?

De cada vez que vou à igreja sentindo que ela é o lugar onde eu me sinto naturalmente em casa, é como se dissesse que fui eu que morri na cruz, que fui eu que ressuscitei, que fui eu que cumpri a lei de Deus toda, que fui eu que enviei o Espírito. De cada vez que vou à igreja sentindo que ela é o lugar onde eu me sinto naturalmente em casa, eu não somente me armo em Messias como acabo a fechá-la aos pecadores. Aliás, ontem o Mark ajudou-me a perceber que uma das razões porque os evangélicos portugueses não são eficazes a evangelizar é porque neste tipo de coisas íntimas o próprio evangelho ainda não os evangelizou a eles.

Ontem o Mark ajudou-me a perceber que é óbvio que um lugar que prega a Bíblia tem de partir do princípio que as pessoas que lá a estão não têm a obrigação de a conhecer. É suposto que a igreja esteja a atrair pessoas crentes (que, essas sim, têm obrigações crescentes de conhecer a Bíblia) e a atrair pessoas que ainda não crêem, porque o único evangelho verdadeiro que uma igreja tem para pregar é o da graça. Se Jesus não veio para os sãos mas para os doentes (Marcos 2:17), então o que é natural é que as nossas igreja se abram para os que ainda não sabem como é que o medicamento se toma.