sexta-feira, maio 27, 2016

Entrevista dada ao Ouvido Alternativo

É uma honra para nós apresentarmos o mais recente convidado de "Conversas d'Ouvido", Tiago de Oliveira Cavaco, mais conhecido como Tiago Guillul, cantor, compositor, pastor Baptista e membro fundador da editora independente FlorCaveira, fundada em 1999 e que "descobriu" nomes como Os Pontos Negros, Diabo na Cruz e Samuel Úria. Ultimamente ficou rendido ao mais recente disco de Benjamim Auto Rádio e no seu funeral gostava que tocasse "Império" de Samel Úria, no entanto há muito mais para descobrir nesta edição de "Conversas d'Ouvido"...

Ouvido Alternativo: Como surgiu a  paixão pela música?
Tiago Guillul: Não sei resumir com justiça a importância que a música tem para mim. Mas posso dizer que os momentos em que via a minha irmã Rute, 5 anos mais velha que eu, a ouvir a Rádio Cidade quando ainda era uma estação pirata na Amadora ilustram parte do processo que contribuiu para amar música.

Como surgiu o nome Guillul?
O nome Guillul surgiu quando, no final dos anos 90, numa aula do Seminário Teológico Baptista, um professor explicou que cavaco (pedaço de madeira) se dizia "guillul" em hebraico. Uma colega disse-me logo: "Tu és o Tiago Guillul", o que me pareceu uma designação poeticamente mais promissora que o meu nome de origem.

Como encaras o facto de a FlorCaveira ter em certa medida revolucionado a música em Portugal? Quando surgiu foi uma autêntica “pedrada no charco”.
O reconhecimento da FlorCaveira é posterior ao aparecimento dela. O reconhecimento acontece quase uma década depois de ela nascer. Se a FlorCaveira revolucionou a música portuguesa não foi por ter trazido nada de novo, mas por ter trazido coisas antigas que na altura pareciam inexistentes. Acreditávamos e acreditamos em canções em que as letras não são decorativas (e que devem ser entendidas na língua que falamos todos os dias), e acreditávamos e acreditamos que as limitações de meios não têm de ser um problema mas podem ser um caminho criativo (daí insistirmos no do it yourself).

Para além da música, tens mais alguma grande paixão?
A paixão da minha vida é a palavra. A palavra pregada, escrita e cantada.

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico?
Por causa de dedicar-me à palavra, sou um músico mas não sou apenas um músico. Sou um pregador que também escreve. Logo, não vivo apenas como músico. Não tenho desvantagens vindas do facto de ser apenas músico.

Quais as tuas maiores influências musicais?
Para todos os músicos da FlorCaveira há uma resposta acerca de referências musicais: Bob Dylan, Johnny Cash e Leonard Cohen. É um dogma.

Como preferes ouvir música? CD, Vinil, K-7, Streaming, leitor de mp3?
O CD ainda é a maneira de ouvir música mais atentamente para mim. Um CD no carro.

O streaming está a “matar” ou a “salvar” a música?
O streaming não está nem a matar nem a salvar a música. É apenas mais um meio através do qual ela pode ser ouvida.

Qual o disco da tua vida?
Tenho uns quantos discos da minha vida. "In God We Trust" dos Stryper, "RDP Vivo" dos Ratos de Porão, "Nevermind" dos Nirvana, são alguns exemplos possíveis.

Qual o ultimo disco que te deixou maravilhado?
Cheguei quase um ano depois a ele mas o "Auto-Rádio" do Benjamim é um grande disco.

O que andas a ouvir de momento/Qual a tua mais recente descoberta musical?
A minha descoberta dos últimos tempos é o Filipe Sambado. Deu o melhor concerto que vi nos últimos tempos, no Sabotage, no ano passado, com um estalo rock incrível. O disco dele, "Vida Salgada", que ando a ouvir, sendo menos rock, é um disco muito bom.

Qual a situação mais embaraçosa que já te aconteceu num concerto?
Acho que nunca me aconteceu uma situação num concerto que possa chamar embaraçosa.

Com que músico gostarias de efectuar um dueto/parceria?
Não sou de duetos. No geral, não aprecio duetos. Para mim um dueto é o Kenny Rogers com a Sheena Easton. Nessa linha, não me perfilo para duetar com ninguém.

Para quem gostarias de abrir um concerto?
Gostava de abrir para o Bruno Morgado.

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias de um dia actuar?
Não há nenhum palco que tenha essa importância simbólica para mim. Sou mais de ambicionar tocar em sítios onde à partida não se espera um concerto. É mais punk.

Qual o melhor concerto a que já assististe?
Um dos melhores concertos que assisti na vida foi o Goran Bregovic em Belém - um concerto à pala.

Que artista ou banda mais gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade?
Gostava de ver os Rancid ao vivo.

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) que gostavas de ter estado presente?
Gostava de ter visto os primeiros concertos dos Heróis do Mar.

Qual o teu guilty pleasure musical?
I don't believe in guilty pleasures.

Projectos para o futuro?
Tocar o "Bairro Janeiro" numas quantas actuações pequenas.

Próximos concertos?
Braga, 27 de Maio.

Que música  gostarias que tocasse no teu funeral?
“Império” de Samuel Úria

Obrigado pela atenção e boa sorte para o futuro.

Relembramos que Tiago Guillul regressou este ano, com novo disco, Bairro Janeiro, gravado na Igreja da Lapa por Luís Severo e que pode ser ouvido na plataforma Youtube.

terça-feira, maio 24, 2016

Ouvir

O que ganho por depender da Palavra de Deus? Inteligência, independência e (boa) dependência.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, maio 20, 2016

Agenda

Daqui a uma semana planeamos viajar para Braga para um fim-de-semana repleto. Pequeno concerto na sexta à noite, conferência sobre família durante todo o Sábado, e adoração com a Igreja Baptista de Braga no Domingo. Quem quiser, junte-se a nós.



quinta-feira, maio 19, 2016

Levar com a porta na cara

"Nem todo o que me diz «Senhor, Senhor!» entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão-de dizer-me: «Senhor, Senhor, por ventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demónios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?» Então, lhes direi explicitamente: «nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade»." Mateus 7:21-23

Na maior parte das vezes, quando ouço este texto citado é para malhar na insuficiência da palavra. Como quem diz: "estão a ver? Apenas dizer coisas não basta, é preciso fazer coisas!" E quem começa a ler este texto, pode ser levado a concordar - não basta dizer que se tem Deus como Senhor, é preciso fazer a vontade dele. O verso 21 parece dar palmada ao "dizer" e bater palmas ao "fazer". A questão é que o texto não fica por aí.

Quando Jesus explica melhor quem é a pessoa que apesar de dizer "Senhor, Senhor!" não vai entrar no céu, Jesus explica que essa pessoa não é uma pessoa especializada em apenas falar. O que é que vai dizer essa pessoa quando vir a porta da comunhão eterna com Deus a ser-lhe barrada? Ela vai dizer: "espera aí, Jesus! Eu disse coisas em teu nome e eu fiz coisas em tem nome". Portanto, a pessoa a quem Jesus está a barrar o caminho de entrada no céu não é apenas uma pessoa de fala - é também uma pessoa de fazer. Essa pessoa expulsou demónios e fez muitos milagres.

Vamos mais fundo: se partirmos do princípio que expulsar demónios e fazer milagres não são acções que beneficiam apenas aqueles que as praticam, mas que são acções que sobretudo beneficiam aqueles sobre quem essas acções são praticadas, podemos dizer que as pessoas que expelem demónios e fazem milagres são pessoas que objectivamente tornam melhor a vida das pessoas à sua volta. Pessoas que expulsam demónios e fazem milagres são pessoas de acção para os outros, são pessoas que representam uma mudança positiva concreta na sociedade. Pessoas que expulsam demónios e fazem milagres não são pessoas com teoria religiosa, são pessoas com resultados práticos.

Logo, o que Jesus está a dizer neste texto não pode ser o que tantas vezes me disseram que ele estava a dizer. Jesus não está a malhar em pessoas que apenas têm palavra porque estas pessoas que não vão entrar na comunhão eterna com Deus são pessoas que tinham muito mais que palavra - tinham prática. Jesus está a ir mais longe que esta divisão preguiçosa (e irritantemente greguinha e gnosticazinha) que separa o que se fala do que se faz. Separar o que se fala do que se faz é um hábito irritantemente greguinho e gnosticozinho que continua a encantar evangélicos palermas. Separar o que se fala do que se faz é a persistente alergia de quem ainda não percebeu a justificação pela fé - não somos salvos pelo que fazemos mas fazemos porque fomos salvos. O meio evangélico está hoje cheio de pessoas que teoricamente separam o que se fala do que se faz porque são protestantes apenas de rótulo.

Alguém pode dizer-me a esta altura: "aguenta lá, Tiago! Então e o apóstolo Tiago quando diz que a fé sem obras é morta?" E lá vai um protestante ter de explicar uma vez mais que o que Tiago estava a fazer não era contradizer Paulo (que disse explicitamente que somos justificados pela fé e não pelas obras), mas a criticar um fingimento de fé que se vê que é fingimento quando precisamente se mostra uma fé sem obras. Tiago não estava a dizer que nos salvamos pelas obras; Tiago estava a dizer que se a nossa fé não mostra obras, ela não é fé. Fé que é fé, não sendo causada pelas obras, causa obras. O catolicismo romano processa este assunto de uma maneira diferente porque o catolicismo romano não vê tanto problema na Bíblia poder conter aparentes contradições entre os seus autores, uma vez que as aparentes contradições da Bíblia confirmam que ela não pode ser interpretada por qualquer um, mas pelos membros oficialmente designados pela igreja para isso. Mas isto já é muita areia para a camioneta deste texto (e espero que a minha observação à Igreja Católica não tenha sido feita em má-fé).

Voltando ao sermão do monte. O que Jesus nos está a dizer neste texto é uma lição muito mais assustadora do que aquilo que temos feito dela. É muito confortável eu dizer que Jesus não quer apenas pessoas de palavras mas que quer pessoas de prática quando eu sou um tipo muito seguro da bondade das minhas práticas. Por isso é que dava um jeitaço ler todo o sermão do monte e entender de uma vez por todas que Jesus está a distribuir fruta (meaning: pancada) aos que estão muito convencidinhos que são bons pelo que falam, como aos que estão muito convencidinhos que são bons pelo que fazem. Onde Jesus está a chegar também é aqui: tu obviamente não te salvas quando finges que és bom, seja esse fingimento através de um cumprimento legalista das regras religiosas. Mas onde Jesus está a chegar é ainda aqui também: tu, de uma maneira menos óbvia, também não te salvas quando estás honestamente convencido que és bom. Por isso é que este texto é fogo! Jesus está a dizer-nos uma coisa terrível: não nos salvamos por sermos maus fingindo que somos bons, nem nos salvamos por sermos bons.

Pensamos que as pessoas a quem Jesus está a barrar o caminho do céu são pessoas que desvalorizam o fazer? Estas pessoas põem-nos no bolso a nível de fazer. Quantos de nós já expulsámos demónios e fizemos milagres? Em termos objectivos, e se formos sérios a comparar-nos com estas pessoas, elas são muito melhores que nós. Como é que Jesus justifica então a situação complicada de impedir que gente que faz coisas boas tenha comunhão com ele? Precisamente demonstrando que até as coisas boas podem ser, aos olhos de Deus, coisas más. Como assim? É isso que Jesus faz quando, dizendo explicitamente, revela àqueles grandes faladores e fazedores que na realidade as maravinhas que andam a falar e a fazer eram, no fim de contas, "iniquidade".

É por isso que o cristianismo não é uma fé de agentes do bem público. E com isto não quero desvalorizar a importância do bem público - os cristãos são chamados a fazer o bem a todos (como Jesus explica neste mesmo sermão do monte). Mas o bem público é para o cristianismo uma consequência e não uma causa. O cristão não deve relativizar o bem e dizer "no fundo, no fundo, para Deus é indiferente se faço bem ou mal" - esta seria uma lição muito errada a tirar das palavras de Jesus. Onde o cristão deve chegar é à noção de que, até nas coisas onde estamos absolutamente certos que estamos a fazer o bem, podemos estar a fazer mal. É por causa desta possibilidade de erro constante e persistente em nós que precisamos de uma solução que seja completamente perfeita. Creio que os homens a quem Jesus está a barrar o caminho do céu estavam certamente convictos que profetizar em nome de Jesus, expelir demónios e fazer milagres eram coisa boas. É por isso que o erro deles é mais perigoso - é um erro cheio de coisas boas.

O erro constante e persistente dentro da nossa natureza, visível até no melhor que em nós há, tem um nome e chama-se pecado. Mas a solução para esse erro constante e persistente em nós também tem um nome e esse nome é Jesus. Por isso é que a Bíblia descreve Jesus como nosso salvador. Só precisamos de ser salvos se estivermos metidos num sarilho sério. Jesus acreditava que estamos metidos num sarilho sério. Por isso é que ele gastou tanto tempo a explicar situações-limite como as deste texto. E o que ele nos diz é: não confies no melhor que falas e no melhor que fazes. Confia antes no pior que és e que fazes mesmo quando falas bonito e fazes bonito. Quando tiveres a certeza do pior que és mesmo quando falas e fazes bonito, é que vais perceber a necessidade que tens de Jesus. Aí é que vais amar Jesus até ao infinito e desejar que haja eternidade para que a tua oportunidade de amá-lo não termine. É aí que o vais ver à porta do céu e ele vai deixar-te entrar. Jesus vai deixar-te entrar não pelo que falaste e fizeste. Jesus vai deixar-te entrar porque vai ver em ti o amor que lhe tens por ele te ter salvado.

O céu não é o lugar dos que falam e fazem. O céu é o lugar dos que amam. E porque amam, falam e fazem na terra. Não falam e fazem na terra para abrir a porta do céu. Falam e fazem na terra porque Jesus já lhes abriu a porta. A fé é isto.

terça-feira, maio 17, 2016

Ouvir

Corro o risco de poder ser injusto mas acredito que existe uma cultura baptista portuguesa da mediocridade, onde os padrões elevados ficam sempre à porta da igreja. Pois Ageu e Esdras querem ensinar-nos o contrário.

O sermão de Domingo passado, chamado "Estás a dedicar a tua vida àquilo que o inferno vai demolir?", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, maio 16, 2016

Para ouvir

O Bairro Janeiro pode ser ouvido aqui. Tenho recebido algumas críticas encorajadoras e planeio tocá-lo nuns serões ou matinés simples e bonitos. Na Sexta-Feira, 27 de Maio, vou estar em Braga numa noite musical onde serei acompanhado pelos meus miúdos, às 20h na Igreja Baptista. Vai ser uma estreia. Venham!

sexta-feira, maio 13, 2016

Os brasileiros não brincam

Foram à cata do áudio dos sermões contra a preguiça originais (meio perdidos na net há quase 3 anos) e colocaram no Youtube - obrigado Leandro Ribeiro! A partir deste podem ouvir todos os seis (o quarto é do Pr. Jónatas Lopes). Para quem não tem o livro, sempre dá para conhecer as pregações tais como aconteceram. Entretanto, o livro dá para comprar via net (ainda ontem o William Truax recebeu o dele nos EUA). Go!

quinta-feira, maio 12, 2016

Catálogo de fantasia

Não estou dentro e não percebo desta questão dos contractos com escolas privadas. Escapa-me por isso quais devem ser os melhores procedimentos a seguir, na relação entre Estado e ensino provado. Não racho lenha num assunto para o qual não me preparei. Mas, em vez dos procedimentos, gostava de arriscar dizer uma coisa acerca dos princípios.

Diz o ponto 1 e 2 do artigo 43 da Constituição da República Portuguesa, sobre liberdade de aprender e ensinar:
1. É garantida a liberdade de aprender e ensinar.
2. O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas.
3. O ensino público não será confessional.
4. É garantido o direito de criação de escolas particulares e cooperativas.

Vamos por partes. Eu sou a favor de viver num país com uma Constituição. Para mim, a Constituição, não sendo a voz de Deus, é certamente uma possibilidade de voz do povo. Como acredito nos méritos de uma democracia, a Constituição pode e deve ser um instrumento eficaz de o povo ter uma boa voz a partir de bons princípios. Devemos ser gratos pela existência de uma Constituição - os povos não têm, por defeito, Constituições. Os povos são mais inclinados a ter Constituições quando foram influenciados por uma cultura que valoriza a palavra, como defesa da vida em sociedade. O que quero dizer é que a Constituição como instrumento democrático é uma herança da cultura judaico-cristã, onde o que se escreve não é casual mas fruto da convicção que o Criador se revela a nós através da palavra escrita. Logo, ter palavras escritas é uma coisa boa para que haja boa vida entre as pessoas.

Ora, crendo eu que a Constituição é boa para o mundo, deixem-me dizer que não acredito no mundo desta Constituição. O que o artigo 43 sugere é uma leitura da realidade que me parece absurda. Da mesma maneira como há pessoas que não acreditam em Deus, eu não acredito que o Estado deve programar a educação e a cultura sem directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas. Da mesma maneira como há pessoas que não acreditam em anjos, eu não acredito em neutralidades filosóficas, estéticas, políticas ideológicas ou religiosas. Em que é que eu acredito então? Acredito que tudo é filosófico, estético, político, ideológico e religioso. Acalentar a expectativa de uma realidade independente do que pensamos em termos de filosofia, estética, política, ideologia ou religião é, para mim, acreditar num milagre que não aconteceu. E parece-me um facto mais que provado em 2016, o de dizer que a neutralidade filosófica, estética, política, ideológica e religiosa é um milagre que até hoje não aconteceu.

Não é por não acreditar no mundo desta Constituição que vou passar a dizer que ela não serve para o meu mundo. As coisas são mais complicadas do que isso. Vou tentar ser um bom cidadão português mesmo quando a Constituição do meu país me parece padecer de um erro tão infantil de leitura da realidade. Espero dar o meu melhor sobretudo quando acho que a Constituição não me dá grande coisa.

A partir daqui, certamente que aparecem assuntos complicados ligados à boa separação entre Igreja e Estado. Sou a favor dessa separação. Mas uma coisa é decidirmos sobre o assunto complicado de separarmos Igreja e Estado a partir do entendimento de como as linhas se cruzam. Outra coisa é decidirmos sobre o assunto de separarmos Igreja e Estado a partir de um suposto milagre de elas não terem uma coisa a ver com outra. Se é para ir por esta última via, é natural que a nossa Constituição continue a servir mais de catálogo de fantasias que de instrumento para a realidade. É isso é pena.


(Fotografia sacada ao Observador)


quarta-feira, maio 11, 2016

Agenda

Eu sou mais contra o aborto que a favor da vida (não sei bem o que é que ser a favor da vida quer dizer), mas o essencial é ir no Sábado.


terça-feira, maio 10, 2016

Ouvir

A ênfase de Esdras é: não sejas ingénuo com a boa vontade dos outros. A ênfase dos evangelhos é: não sejas ingénuo com a tua boa vontade.

O sermão de Domingo passado, chamado "Filho, escolhe bem os teus amigos!", pode ser ouvido aqui.

sábado, maio 07, 2016

Porque hoje é Sábado


e vocês precisam arrebitar.

quarta-feira, maio 04, 2016

Minérios

O Sábado passado foi um dia bonito para mim. Não vou tentar descrever exaustivamente porquê - não saberia e não conseguiria. À boleia deste retrato da Vera Marmelo chamo a atenção apenas para duas coisas: o lugar e as pessoas.

Foi a quarta vez que toquei na Flur. Acho que à medida que a minha carreira musical progride (?), desaparecem os palcos. A razão óbvia é porque não há muita necessidade deles - o público é pequeno. Por outro lado, também tendo a sentir-me mais confortável em sítios que parecem não combinar imediatamente com música. Isto vem de longe. Recordo-me de os Ninivitas tocarem num café no Lavradio, por exemplo. No caso da Flur, o lugar até combina com música porque a Flur é uma loja de discos. Para mim, a Flur é a minha loja de música, não porque faça despesa lá (já não faço despesa considerável com discos há uns anos) mas porque a minha música e a dos meus amigos se sente em casa lá. Por outro lado, como não é uma casa de música ao vivo, tocar lá também é assumir o lado doméstico das minhas canções. O concerto de quase oito horas foi mais uma festa em casa onde os amigos iam chegando e cantando. Foi mesmo assim.

Por outro lado, as pessoas. As pessoas foram os amigos, como disse, e não só. Foram muitas crianças e uns quantos bebés (bebés com cerca de um mês foram pelo menos dois), em danças várias. As pessoas foram também os meus miúdos a apanhar quase a seca toda, com a minha mulher, e, representados pelo Joaquim, a assumirem o papel de instrumentistas. De há uns meses para cá comecei a dar aos meus filhos o suplício de ensaiarem em casa comigo. Tocam o violino e fazem percussão. Em duas canções o Joaquim tomou conta da bateria, como esta fotografia da Vera mostra. Nesta fotografia gosto também do efeito de via sinuosa até nós, esculpida no grupo de pessoas que assiste. É como se assistir a concertos na Flur envolvesse uma espécie de prospecção de minério.

Se querem ver mais retratos desta tarde, venham aqui ao blogue da Vera.



terça-feira, maio 03, 2016

Ouvir

Se não valorizares os pequenos começos, dificilmente ganharás uma grande adoração. A grande adoração vem de um história que amplia pequenos começos.

O sermão de Domingo passado, chamado "Pequenos começos para uma grande adoração", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, maio 02, 2016

O Bairro Janeiro no Público



Uma surpresa vinda do Brasil


O Yago Martins e o Felipe Cruz têm um programa no Youtube que mostra que a teologia só é chata para gente chata. E não é que dedicaram 17 minutos a falar sobre os meus Sermões Contra a Preguiça? É verdade. Verifiquem. Se não puderem ler o livro, ficam com o essencial dele neste vídeo.

Obrigado pela vossa generosidade, Yago e Filipe. Um abraço forte para vocês!

quinta-feira, abril 28, 2016

Um Fim-de-Semana à FlorCaveira: os palcos nobres e os palcos nulos





terça-feira, abril 26, 2016

Ouvir

É possível quem prega ter os seus sermões preferidos? Creio que sim. O de Domingo passado tornou-se especial para mim que o preguei. Porque é a partir de uma longa lista de pessoas, o que parece um ponto de partida chatíssimo. Porque é acerca do valor que as palavras e os nomes têm no cristianismo. Porque Deus enviou uma ilustração apropriada para o sermão através de um susto que apanhámos com a nossa Maria na sexta-feira.

O sermão chamado "Deus ama listas" pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, abril 25, 2016

Num dia histórico, um texto sobre a ignorância televisiva da história

Vi há uns dias uma reportagem que a Sic fez chamada "Uma Questão de Fé", onde pegava na ideia de sermos ou não um país católico. A premissa é boa. Pegar numa convicção generalizada - "Portugal é um país maioritariamente católico" - como base de um trabalho de reportagem pode resultar num belo pedaço de informação. Se nossa a comunicação social nos servir peças que aumentam o nosso conhecimento e que, por isso, contrariem algumas das ideias feitas, óptimo - é sinal que temos media que ajudam esta coisa de sermos civilizados contrariando a ignorância. A reportagem da Sic começou bem.

Acontece que a reportagem da Sic só começou bem. A partir do momento em que saiu para explorar a boa premissa que tinha ("será que Portugal é mesmo um país maioritariamente católico?"), a reportagem atirou-se a si mesma para a valeta. Não sei quem a assinou (não prestei atenção) e, por outro lado, até prefiro não saber. Pode ser um(a) colega meu/minha da Faculdade, do curso de Ciências da Comunicação da Nova e, mal por mal, se for esse o caso, prefiro a imparcialidade do desconhecimento do autor. Por outro lado, quero manter uma apreciação justa, quando tudo em mim se automatiza para que seja arrasador na crítica que vou fazer.

Para justificar que a reportagem se tenha atirado a si mesma para a valeta, tenho a necessidade de dizer duas coisas. A primeira é uma espécie de regra para qualquer iniciativa de trazer conhecimento numa área onde ele é pouco. É natural que quando não conhecemos uma coisa e ela nos é apresentada, a estranhemos. O que é novo em grande parte é estranho. Isto pode ir desde a matemática, à Coca-Cola, aos discos dos Velvet Underground. Logo, a melhor apresentação de uma coisa que não conhecemos não me parece ser enfatizar desnecessariamente a sua estranheza. Enfatizar desnecessariamente a estranheza de uma coisa que não conhecemos é, de certa maneira, contribuir para que não a queiramos conhecer. A estranheza, se for a qualidade destacada no processo de conhecer alguma coisa, é meio caminho andado para nos cortar o interesse por ela. Seja a matemática, a Coca-Cola ou os discos dos Velvet Underground.

Quando trago conhecimento numa área onde ele é pouco, devo conter os efeitos retro-activos da estranheza, preferindo abrir o caminho para o contexto. Olhar para o ambiente das coisas ajuda-nos a percebê-las melhor, mesmo quando elas não nos atraem. É por isso que, quando ensinamos alguma coisa que no imediato gera alguma estranheza, contextualizá-la pode ser o segredo para lhe vermos uma pertinência que a nossa primeira reacção não nos dá. Nem que seja para que no final, estando o assunto mais contextualizado, possamos ter uma relação de recusa informada dele.

Ora, se o assunto é "será que Portugal é mesmo um país assim tão católico?", não devemos duvidar que a ideia generalizada de nos termos como país maioritariamente católico assegura que, diante qualquer expressão religiosa não-católica, a estranheza será o mais fácil. Ou seja, esta reportagem é daqueles casos em que, independentemente do rigor da sua construção, há um efeito de estranheza que está garantido. Mais ainda: se o efeito de estranheza nos espectadores for confundido com informá-los, este tipo de reportagens é um sucesso garantido. Aliás, é por isso que no nosso país estas reportagens são cíclicas. Elas não são cíclicas porque nos informam - elas são cíclicas porque o efeito de estranheza que provocam é infalível e porque esse efeito é vendido como informação. Sejam estas reportagens sobre Testemunhas de Jeová na TVI, sobre neo-pentecostais na Sic, ou sobre curandeiros na CMTV.

Portanto, há esta primeira coisa que devemos entender: não estamos a ser informados quando confundimos estranhar uma coisa com entender uma coisa. Só por isto, a reportagem da Sic torna-se um belíssimo mau exemplo. Sei que não terá sido esse o objectivo, mas foi assim que me pareceu o resultado final. A reportagem da Sic mistura pastores evangélicos (uns quantos), com pastores quase-evangélicos, com pais de santo, com cientologistas, com pregadores de rua, com pais que perderam as filhas para o extremismo islâmico, numa barafunda daquelas que quando acontecem de certeza que as pessoas se juntam à volta para ver. Passamos de uma igreja evangélica que faz reuniões no Tokyo do Cais do Sodré (do meu amigo Mário Rui), para um português desdentado onde baixam espíritos brasileiros (não é meu amigo mas podia), a uma velocidade tal que eis-nos sentados numa versão carrocel-xunga da BBC. O pior no final não é saírmos chocalhados com tanta aparente maluquice. O pior é no final confundirmos esse achocalhamento com informação.

A inclusão de um leque tão largo de expressões religiosas numa só reportagem, em vez de mostrar que a religião é assunto que nos merece a complexidade, acaba a sugerir que a religião se limita a uma mesma maluquice que gera manifestações diferentes. Acredito que não era esse o objectivo dos jornalistas da Sic. Mas será que eles se deram ao trabalho de visionarem a reportagem com pessoas que, tendo uma maior cultura religiosa, lhes pudessem mostrar boas objecções à edição feita? Qual a política de supervisão de conteúdos que a redação da Sic tem?

Então como é que se faz uma reportagem séria sobre religiões minoritárias? Sugiro uns quantos cuidados. Para já, diminui-se o raio de alcance. Se quiser mostrar tudo, vou acabar a mostrar nada. Logo, não vale misturar alhos com bugalhos como se fosse tudo a mesma coisa. Vamos passar a ter uma coisa mais sóbria mas mais pertinente também. Depois, tendo escolhido um grupo reduzido de religiões minoritárias, explica-se de onde surgiram, mostrando os porquês e os comos. Querer dar conhecimento sobre, por exemplo, o movimento evangélico encharcando as pessoas em imagens dos seus serviços de culto mais excitados, é o mesmo que querer explicar as regras do futebol mostrando apenas imagens de jogadores e adeptos a celebrar golos. Por emocionante que a montagem possa ficar, não é assim que se deve fazer. E nesse sentido, deixem-me ser duro.

Jornalistas da Sic: esta reportagem foi uma boa tentativa mas não é assim que devem fazer. Por exemplo, querem apresentar o movimento evangélico? Façam um trabalho mínimo de pesquisa (nem que seja a partir de uma vista de olhos rápida na Wikipedia) mostrando por que razão a discussão sobre a justificação pela fé se tornou tão incontornável na Europa no fim da Idade Média. Pelo caminho, acabarão a entender porque o debate de a pessoa saber se se salvava por se manter ligada institucionalmente à Igreja em Roma, ou se se salvava por se poder manter ligada a Cristo independentemente da ligação institucional à Igreja em Roma, mudou não somente a religião europeia mas a própria Europa. Neste sentido, creio que o maior problema dos jornalistas da Sic não foi mostrar que percebem pouco de religião. O maior problema dos jornalistas da Sic foi mostrar que percebem pouco de história.

Por fim, há ainda dois detalhes na reportagem que merecem uma referência. Esses dois detalhes revelam um esquema ínvio da reportagem. Um deles é um tom de: "eh pá, já que demos nas vistas despejando aqui tanta aparente maluquice não-católica, talvez seja melhor arranjarmos alguma maluquice católica para não nos acusarem de parcialidade." E toca a filmar a capela da Santa de Arcozelo para equilibrar os valores de estranheza. O outro detalhe é a música final no plano onde aparecem os créditos. A escolha da música é toda uma religião em si mesma: o Tom Waits cantando o "Chocolate Jesus" sob a imagem de um crucifixo num automóvel agitado ao sabor do trânsito. Parece haver um credo da reportagem que reza que, tal como o Tom Waits canta sobre alguém que escolheu o seu Jesus preferido na forma de um chocolate numa loja de doces, a religião é um apetite que cada um mata como quiser. Este final é especialmente difícil de engolir porque corresponde a agitar a água do capote depois de se ter feito a dança da chuva. Depois de uma reportagem em zoom apertado sobre as esquisitices da religião, os seus autores atiram um muito pós-moderno: "quem sou eu para julgar?" Isto, crendo eu que não foi premeditado, cheira a cobardia intelectual.

A segunda coisa que vos queria dizer (segunda, depois de este texto todo?) é: sei do que falo quando escrevo sobre esta reportagem. Trabalhei mais de dez anos a fazer um programa televisivo sobre igrejas evangélicas ("A Luz das Nações" na RTP2). Deixem-me dizer-vos que até para mim, orgulhoso evangélico que sou, era difícil fazer um programa de televisão que conseguisse fugir de sublinhar a estranheza. Há evangélicos de tantas formas e feitios que os próprios evangélicos se estranham uns aos outros. Tendo em conta que o protestantismo (termo que uso como sinónimo do movimento evangélico) é por natureza mais extrovertido que o catolicismo (tem a ver com a tal questão da justificação pela fé), não há como fazer a quadratura do círculo. Os evangélicos têm de saber viver bem com o facto de não serem compreendidos. O que não têm é de viver bem com o facto de não serem bem compreendidos sob o pretexto de serem bem compreendidos. Perceberam a diferença? Uma coisa é que não nos compreendam quando fomos representados justamente. Outra completamente diferente é que não nos compreendam quando fomos representados para que não nos compreendessem.

A reportagem da Sic "Uma Questão de Fé" pode garantir audiências, mas informação nem por isso.


sábado, abril 23, 2016

Não quero que vos falte nada



Com horinhas e tudo para saberem dos cantores da vossa preferência.

quinta-feira, abril 21, 2016

Three brief thoughts on the City To City European Conference in Lisbon

[O saloio veio cheio de vontade de comunicar com os novos amigos europeus. Perdoem o inglês e bear with me.]

1. We need to listen to each other. I spent some time talking to two hungarian brothers. I asked one of them about his thoughts on the refugee crisis. Sometimes we are not ready to listen when words are not comfortable. He was careful and sincere and he did not make things easy for me. He treated me like an adult and shared that, as a christian, he and his christian brothers have to deal with a complex situation. Modern Europe is self-righteous about opening her borders to everyone. Russia is proud and hoping that the european civilization she despises will fall because of the refugee crisis. Pray for the refugees and don't forget to pray for Hungary and Russia too.

2. Greek people talk and feel like portuguese people talk and feel. We are not about having questions answered like our brothers in northern Europe. We are more about being suspicious when there's an answer for everything. It's true that we get in trouble a lot because of that - look at our economies. But at the same time, I would say that we can help our northern european brothers when right now their best shot at sharing christianity seems to come out empty. Because Reformed Christianity never arrived to southern europe, we're used to being a minority - which will be very helpful for every christian in the west.

3. Casa da Cidade did a great job opening its church to make the conference work. They have a solid culture of serving people. Me and the guys that came from Igreja da Lapa were inspired and desiring to learn more from them. Thank you, Pastor João Martins!



terça-feira, abril 19, 2016

Ouvir

Envolvemos aqueles que não crêem no processo de continuarmos a crer? Conseguimos tirar proveito da existência dos que não crêem? Somos espiritualmente humildes com os não-cristãos?

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

terça-feira, abril 12, 2016

Estreia

[Pediram-me que desse um breve testemunho na Conferência Europeia do City To City. Foi a minha estreia a falar em inglês. Fica o texto que serviu de base à minha intervenção.]


I'm Tiago, I'm 38 years old and I pastor a baptist church in Lisboa. We call her Igreja da Lapa. Whenever missionaries come from outside Europe and visit us, I always say three things. First: welcome! Second: the Bible says God wants to save europeans. And third: that happens slowly.

It's very important to explain that we, europeans, are not simple people. We are not better than other people because of that. And we are not worse than other people because of that, either. It's just the way we are and it has to do with our history. But Jesus Christ has grace enough for us.

Even when Tim Keller writes a masterpiece like “Center Church”, we, europeans, have to say: “It's not that simple, Tim”. And we make our own edition of “Center Church” with european people adding: “It's not that simple, Tim”. This fact helps to explain why things happen slowly in Europe.

We, europeans feel suspicious when things look simple. Because we feel like life is not simple. That's why our intellectuals are especially hard to understand. Because being hard to understand feels more in tune with life itself. If someone comes from the outside making things look simple, in the back of our minds we'll say: “this person does not understand existence”.

So it's hard sharing the gospel in Europe. God is not an easy thing to talk about. You can talk about God in other places of the world and people will feel free or liberated. You talk about God in Europe and it feels heavy, like having to deal with a painful family subject. This doesn't mean that the Holy Spirit will not work here. But it means that He will work here probably in a different way than He works in other places. And we should be following the Holy Spirit when we share the gospel. There is no other way.

So, to make things even more complicated, I am a portuguese evangelical christian. Being a portuguese evangelical christian is almost a contradiction. It's seems like a contradiction because the Roman Catholic Church was in Portugal even before Portugal was Portugal. Being a portuguese without being a roman catholic is like a bug in your system - everything looks like it's going to shut down. So, every portuguese evangelical christian is only semi-portuguese. Sting used to sing that he was a legal alien, being an “englishman in New York”. It's not that different from being a portuguese evangelical christian - we are legal aliens. We exist but we don't belong.

Great opportunities come out of being a legal alien. You can get away with things that normal humans can not. Because you don't belong, you are more willing to take risks. Remember, they can never put you out if you never fit in. In that sense, I believe that a country like Portugal can be a terrific place to share the gospel. If the gospel means depending on a higher power, you don't need to be in line with the civil powers of your land to share it. If we are talking about sharing Christ when you feel out of step with the world, I guess portuguese evangelical christians can help. We're very good at being ok with not being understood.

But there's a problem too. Sometimes we are excessively ok with not being understood. We can even get to the point of loving not being understood, and we can even get to the point of not caring about not being understood. And when that happens, you're not behaving like a christian anymore. You are starting to feel superior in the way you live out your faith. And that is a very spiritually dangerous place. If we are talking about only sharing the gospel when you feel out of step with the world, I guess portuguese evangelical christians can be a great example, which is not necessarily a good thing.

So, it's a good thing being a portuguese evangelical christian because you don't have an easy mainstream religion. But it's a bad thing being a portuguese evangelical christian if that means not caring for those in the mainstream.

Eight years ago we began a new church here in Lisbon. After five years, we went on with that new church merging her with a old dying church, at the other side of the city. Right now, we are a kind of a false old church. When we want to feel respected, we say we have 86 years old, which is technically true, because having more than 8 decades is a lot for a protestant church in Portugal. When we want to feel free, we say we began our thing less than a decade ago. We can have them both. We have a largely young fellowship of people, having a good number of twenty and thirty somethings, with lots of kids. We've been gathering more than a hundred people each sunday, which is a very encouraging figure for a portuguese standard.

Portugal, like Europe, is changing a lot. We are not a deeply catholic country like we have been before. Most of the people will still present themselves as roman catholics, but serious and committed roman catholics are a minority within catholicism. One good thing about nominal christianity is that it is very easy to beat. Nominal christianity is intellectually and emotionally weak. Thus, it's hard to feel atracted to nominal christianity. When you meet a nominal christian you know he is closer to leaving christianity than he thinks. Which, in the long run, means that as nominals get out, you can get a better perspective on what real christianity is.

As a church, we walk away from being hostile towards serious catholicism because serious catholicism also tries to walk away from nominal christianity, like we do. That does not mean that we are not very upfront about our protestant convictions. But it means that we choose nominal christianity as a greater enemy to our faith, also because even in evangelical circles you can find nominal christianity. Being very anti-catholic is a very common thing for portuguese evangelical christians that right now doesn't help them sharing the gospel outside the very small protestant environment.

As a church, Igreja da Lapa is traditional inside and punk rock outside. Some of us grew up in the 90's Lisbon suburban punk scene and we are still trying to keep things real. We don't try to be rock'n'roll during the service because being rock'n'roll is generally a very american way of doing religion. America is a young continent and still feels like a teenager about its faith. In Europe, being weird will only make things unnecessarily hard for you. We're ok not being understood, but let's not lose perpective on the people we are trying to reach. So, our services are pretty traditional and they can feel foreign to people outside the evangelical community, but foreign in a way they can expect. We prefer to be strangely traditional than traditionally strange.

It's on the outside that we will feel free to try different things. We make records and we write books that are available in regular shops. We are not having loads of people coming from the outside. Remember, this is still Europe. But we are asking God to make us more available there, in that very, very large space where the gospel still feels dangerous, alien and, hopefully, continues to be good news. Probably it will happen slow. And what's the problem if that is the way God wants to save europeans?

Please pray for us.



Ouvir

Esdras e Neemias são livros muito modernos.
1 - parece que já não é tanto Deus que tem um povo, mas mais um povo que tem um Deus.
2 - os actos já parecem ser mais das pessoas que acreditam, do que propriamente de Deus.
3 - parece que os governantes humanos mandam mais que Deus.
4 - já é possível não ver Deus nos seu actos e é normal não acreditar nele.
5 - há uma transição da era da profecia para a era da pregação e parece que já não é Deus que nos manda trabalhar, mas somos mais nós que pedimos que Deus trabalhe.
Mas, apesar disto tudo, Deus está a trabalhar mesmo quando parece que não faz nada.

O sermão pode ser ouvido aqui.


sexta-feira, abril 08, 2016

O sermão do monte vai dar cabo da tua vida

Uma razão porque confio que Jesus é Deus é porque Jesus se comporta comigo como um Deus. Ele diz-me coisas que seriam insuportáveis de ouvir a um ser humano. Mas se ele for Deus, como acredito que ele é, posso ter algum consolo. Este consolo não significa que as coisas insuportáveis que ele me diz se tornam maravilhosas de ouvir. Mas significa que, sendo Jesus um Deus para mim, posso sentir-me consolado porque o poder de suportar as coisas insuportáveis que ele me diz vem dele mesmo.

Não quero ser irritante ao generalizar mas é insuportável que não saibamos lidar com coisas insuportáveis. A nossa tendência é querer tirar de Jesus o que nele nos parece insuportável porque assim já o podemos suportar. O pior é que se só lidarmos com Jesus quando o conseguimos suportar, significa que obviamente ele deixou de ser um Deus para nós - arranjámos nós uma maneira de sermos maiores do que ele.

Cristãos que nunca se zangam com Cristo são uma raça que devemos evitar. Não devemos confiar neles. Cristãos que se sentem sempre a amar Cristo são os mais perigosos de todos. Cristãos que lêem a Bíblia e ficam à rasca - essa é a equipa de que quero fazer parte. Dou um exemplo.

Ontem li este texto no sermão do monte, em Mateus 7:6:

“Não deis aos cães o que é santo nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas. Para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem.” Baza ler o texto com alguma racionalidade e concluir coisas?

Três.

1. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor. Aos cães não devemos dar o que é santo, bem como aos porcos não devemos dar joias.

2. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor porque quem não reconhece o valor estraga as coisas valiosas que lhe são dadas. Os cães e os porcos pisam as pérolas e as coisas santas que recebem.

3. Não devemos dar coisas valiosas a quem não pode reconhecer o valor porque quem não reconhece o valor acaba por voltar-se também contra quem lhe deu as coisas valiosas. Os cães e os porcos, depois de pisarem as pérolas, dilaceram quem as deu.

São palavras duríssimas. E difíceis de encaixar com um evangelho de graça que, pelo menos a determinada altura, supõe sempre que quem não reconhece o valor está a receber algo valioso. Afinal, o evangelho alcança-nos quando, num certo sentido, ainda somos cães e porcos. Como lidar com esta aparente contradição?

Como avaliaremos quem é o cão e o porco quando, se formos sinceros connosco e com o evangelho de graça que nos alcançou, a determinada altura também nos sentimos como cães e porcos? A quem pregaremos e a quem deixaremos de pregar se num certo sentido todos são cães e porcos?

Tenho de ler muito mais a Palavra e depender do Espírito para, quem sabe, ter uma resposta melhor para estas perguntas. Tenho de receber de Deus o poder dele, através do Espírito Santo, para lidar com este texto que me parece insuportável. Uma coisa é certa: se Jesus não quisesse que lidássemos com estas palavras, não as teria dito e o Espírito Santo não as teria preservado nas Escrituras. Ter fé também é isto. E a cambada de cristãos armados em hippies que dizem que o sermão do monte é que é a cena, pensem duas vezes antes de se meterem com pólvora desta. O sermão do monte vai dar cabo da tua vida.

quinta-feira, abril 07, 2016

Nas bancas

Já está nas bancas a Revista Ler onde escrevo sobre John Updike e o profeta Obadias (não é esse do livro do Velho Testamento, é o outro). Goes like this:

Na Europa, há casos em que a qualidade de um escritor cresce na medida inversa à quantidade de vezes que aparece em capas das revistas. Portugal também demonstra este fenómeno nos escribas-ermitas. Estes escribas-ermitas têm o condão de serem bem sucedidos na literatura do mesmo modo que um extremista é bem sucedido no terrorismo: poucas são as fotografias que lhe conhecemos. Aliás, há quem ache que só os escribas-ermitas são dignos do ofício literário que exercem, lançando uma suspeita para qualquer um que consiga dar-se a convívios além das letras.





quarta-feira, abril 06, 2016

Ouvir

Temos de ter muros. Oramos pelo nosso governo. Mas o Estado não manda na Igreja. Quem manda na Igreja é Jesus Cristo.

segunda-feira, abril 04, 2016

Insistir

Entretanto meteu-se a Páscoa e houve lutas que ficaram meio paradas. But we're not down, we're not down. Lembram-se daquele desgraçado cartaz que está espalhado por todo o concelho de Oeiras? Pois bem, recebemos duas respostas, uma do Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Oeiras informando-nos que dariam "conhecimento das preocupações que nos expressa ao Teatro Independente de Oeiras", e outra da Assembleia Municipal informando-nos que a nossa "mensagem foi apresentada na reunião de líderes dos grupos políticos municipais e, como tal, tomaram os grupos políticos conhecimento da mesma". Não quero ser injusto com a atenção que nos deram, mas tendo em conta que o número de cartazes na rua aumentou, insistimos.

Como não estamos aqui para fazer vida fácil a quem torna mais difícil a educação dos nossos filhos, gostava de pedir que se dessem ao trabalho de assinar esta petição (clicar em cima de "assinar esta petição"). Pode não servir para tirar esta tristeza das ruas. Mas que sirva para não nos tornar indiferentes à formação e integridade dos nossos mais novos (e, já agora, dos mais velhos também). Obrigado!

sábado, abril 02, 2016

Falta menos de um mês! Agenda com este evento!




quinta-feira, março 31, 2016

Ouvir e ver

Desta vez não vão querer perder o sermão porque dá para ver e tem os baptismos no final.


sábado, março 26, 2016

Um texto pascal a malhar no "Aleluia" do Miguel Esteves Cardoso

Mantenho a minha tese: começasse hoje o Miguel Esteves Cardoso a sua carreira e teria o mesmo grau de charme público do João César das Neves. Reafirmo a minha tese: não fosse o Miguel Esteves Cardoso o Quixote da cópula, coca, e calão da era Reagan portuguesa, e não rachava lenha nos corações da elite dita intelectual que nos calha em sorte.

O texto que o MEC escreve hoje no Expresso, dedicado ao chamada Sábado de Aleluia, é uma prova da minha tese que a sua eficácia literária se constrói na proporção inversa ao desejo dos seus leitores extraírem (ou quererem extrair) algum significado do que escreve. Se não, vejamos o seu final (googlem-no para o lerem na íntegra).

"Não acreditar em Deus - aos olhos de Deus, caso Deus exista e tenha olhos - não pode, por definição divina, prejudicar quem não acredita. Todas as crenças - desde o nada ao Deus omnipotente - começam e acabam por ser coisas nas quais acreditamos. Ou não. Nem Deus nem a verdade têm alguma coisa a ver com isso: esse isso que somos nós. O Sábado de Aleluia não compromete. Ou só um bocadinho. O que importa é sabermos manter estas distinções e não nos deixarmos levar por tudo o que nos apaga."

1. Na prosa Cardosiana uma boa parte do segredo passa pelos parêntesis ou pelo que se escreve entre os tracinhos. MEC não brilha especialmente na solidez das suas ideias mas no modo como, quando dá um ar de ter alguma, rapidamente aproveita a ocasião para desabafar. MEC é um orador brilhante quando espirra, não quando tenta convencer alguém da pertinência do seu discurso. Neste texto isto vê-se no "caso Deus exista e tenha olhos". A maior parte dos seguidores de MEC excita-se com as entrelinhas porque as entrelinhas são perceptíveis como as linhas não são. O resto do texto avança sem que se perceba o que MEC está a querer dizer (who cares?) mas o fundamental é o sorriso desenhado pela possibilidade de Deus ter olhos.

2. Portugal ama prosadores como MEC porque eles encarnam o velho intelectual corpulento mas agora com uma roupinha moderna. Como fomos um país tragicamente poupado da Reforma Protestante, continuamos mais seduzidos pela representação simbólica que propriamente pelo significado dos símbolos (em boa parte, chega-nos a eucaristia principalmente porque não a entendemos). Percebemos que um intelectual é preciso para nos dizer coisas que nos escapam, mas em vez de nos interessarmos pelas coisas que efectivamente nos escapam, ficamos contentes por saber que o intelectual está lá para desempenhar esse papel, indiferente ao facto de se fazer entender. Por isso, Portugal continua a respeitar pessoas que se especializam em falar sem serem entendidas, porque dessa indecifração nasce um sentimento de conforto por alguém estar a fazer uma coisa que reconheço que tem importância, ao mesmo tempo que não preciso de me sentir especialmente virado para ela.

3. Segundo MEC, "não acreditar em Deus não pode, por definição divina, prejudicar quem não acredita". A esta frase Jesus chamaria na semana santa um figo que, irritantemente, não dá para ser trincado. Mas dá vontade de querer trincar a frase, nem que seja porque nos demos ao trabalho de lê-la. E dá vontade de dizer, sem querer ser demasiado chato (porque ser chato é na ética MECiana o derradeiro pecado imperdoável): "ó Miguel, já agora podias explicar melhor por que estás tão seguro do que acabaste de dizer? Explica lá de onde tiraste a ideia que não acreditar em Deus não prejudica quem não acredita." Mas, lá está, sabemos que a estética literária em causa é circular e intransponível: a partir do momento que o leitor de MEC queira tirar sentido do que leu, acabou de revelar que não está à altura de ler o autor. E lá voltamos ao ponto 2.

4. A seguir, lemos que crer no nada é o mesmo que crer no Deus omnipotente. A sério? Isso só poderá ser se, na prática, o nada e Deus forem a mesma coisa. Se o nada for zero e Deus for Deus, como se pode dizer que acreditar em nada é o mesmo que acreditar em Deus? Ah, mas espera aí: esta afirmação está entre tracinhos. É daqueles desabafos onde o MEC brilha, por oposição a querer dar-se ao trabalho de fazer algum sentido. E, como já vimos, é aqui que realmente ele se destaca. Significando isto que a maior parte das pessoas desistirá de ser consequente com o que a frase quer dizer mas sairá reconfortada por ter ouvido que acreditar em nada e em Deus é a mesma coisa.

5. Mas a tal frase que embrulha o que vimos escrito dentro dos tracinhos, diz-nos "todas as crenças começam e acabam por ser coisas nas quais acreditamos. Ou não." Eu estou a tentar reprimir o meu grau de cinismo. Não é fácil. Mas só consigo sentir vontade de escrever: uau. O Público não me orienta uma colunazinha para tentar umas coisas parecidas? No primeiro texto escreveria, como primeiro pastor evangélico a ter uma coluna no Público, assim: "Todas as crenças começam e acabam por ser coisas nas quais acreditamos. Ou não."

6. Mas a revelação moral é guardada para o remate. Ou não fosse o MEC um anglófilo, sucker por punchlines. "Nem Deus nem a verdade têm alguma coisa a ver com isso: esse isso que somos nós." Como crente, me confesso: é isto que me deixa louco pelos descrentes eruditos, esta mistura de "nem penses nisso mas se quiseres dou um jeito". A rejeição dos dogmas embrulhadinha noutro, bastante rarefeito e legitimado pela condescendência típica de um existencialismo doméstico. Até a música da frase, ressoa: "esse isso que somos nós". É quase litúrgica, pelo modo como nos coloca como árbitros últimos dos assuntos pelos quais Deus se interessa ou não. Nós, auto-divinamente homologados, é que sabemos. Deus não tem nada a ver com o que somos e com o que acreditamos. Posso ouvir um amém?

7. Por fim, em glória verbal, o assunto que dá título ao texto desce para coroar a tese (?) que serviu de pretexto. "O Sábado de Aleluia não compromete. Ou só um bocadinho." Tem graça porque o esquema não deixa de ser religioso. A suposta lógica do que MEC escreve nunca chega propriamente a envolver-nos, vai apenas ao ponto de nos aparecer, como numa visão beatífica. Aqui está ela, olha já foi embora outra vez! O que é que aconteceu mesmo? Não sei, mas que foi do caraças, foi. "O que importa é sabermos manter estas distinções e não nos deixarmos levar por tudo o que nos apaga." Não é? Acho que sim... Espera! Acho mesmo! Este MEC é incrível.

Uma boa Páscoa, pagãos!



sexta-feira, março 25, 2016

O rastilho da semana santa - o que fazer com o Jesus que nos derruba, nos desmascara, nos manda adorá-lo, e nos humilha?
João 18:1-19:42

Durante esta semana olhámos para alguns objectos retirados de episódios vividos por Jesus na semana antes de ser crucificado. Por cada um desses objectos, um desafio é-nos colocado.
O primeiro objecto é uma das mesas dos cambistas que foram expulsos do Templo de Jerusalém por Jesus (Marcos 11:15-19). Jesus derrubou as mesas dos vendilhões para lhes mostrar que adoravam os seus negócios em vez de adorarem Deus. Os comerciantes vendiam coisas no Templo porque não percebiam que o mais valioso era Deus.
O segundo objecto é o figo que ficou por trincar, na figueira que parecia ter fruto (Marcos 11:12-14). Da mesma maneira como Jesus esperava um louvor verdadeiro no lugar onde o louvor deve existir - o Templo, Jesus esperava fruta boa do lugar onde ela deve existir - a figueira. A figueira acaba amaldiçoada e seca por Jesus porque o fruto não se finge, trinca-se.
O terceiro objecto é o perfume esbanjado no jantar em betânia, pela mulher (que seria Maria, irmã de Marta e Lázaro) que unge os pés de Jesus (Marcos 14:3-9). Se o nosso louvor não cheira, esquece. Se o nosso louvor não é caro, esquece. Se o nosso louvor não chateia os sensatos, esquece. Jesus elogiou o perfume derramado para deixar claro que ou o nosso louvor nos põe em órbita de Cristo, ou limitamo-nos a usar o nome dele para nos louvarmos a nós próprios.
O quarto objecto é a bacia que Jesus usou para lavar os pés dos discípulos (João 13:1-20). Jesus teve um gesto destes com pessoas que discutiam entre si para provarem que eram melhores que as outras. Jesus foi humilde com gabarolas. Jesus não lavou os pés dos discípulos pela nobreza moral deles. Jesus lavou-lhes os pés na bacia porque lhes faltava nobreza moral.
O primeiro objecto lembra-nos que Jesus nos derruba. O segundo objecto lembra-nos que Jesus nos desmascara. O terceiro objecto lembra-nos que Jesus manda-nos adorá-lo acima de tudo. O quarto objecto lembra-nos que Jesus nos humilha. O que se faz a alguém que manda abaixo o nosso negócio mais bem sucedido? O que se faz a alguém que revela que nos tornámos bons a fingir que somos bons? O que se faz a alguém que nos exige louvor acima de tudo aquilo que já amamos? O que se faz a alguém que não alinha connosco em discussões sobre superioridade moral? O que se faz a quem nos derruba? O que se faz a quem nos desmascara? O que se faz a quem nos manda adorá-lo? O que se faz a quem nos humilha? O que se faz com este Jesus?
Há o risco de, pelo menos, termos vontade que essa pessoa deixe de existir na nossa vida. Há o risco de, podendo contribuir para que ela desapareça da nossa frente, prefiramos que ela morra em vez de que ela viva. Foi isso que a multidão preferiu e provavelmente seria isso que preferiríamos também.
Mas há uma outra maneira de olharmos para este homem, para este Jesus. O que fazer, se esse alguém que nos derruba o negócio mais bem sucedido conseguir, através desse derrube, abrir-nos a porta para adorarmos o que é maior ainda que o nosso negócio mais bem-sucedido? O que fazer, se esse alguém que nos desmascara conseguir, tirando-nos a máscara, fazer-nos saborear uma bondade acima daquela que fingimos? O que fazer, se esse alguém que quer que o adoremos acima de tudo nos mostrar que nele podemos ter um amor maior que todos os outros nossos amores? O que fazer, se esse alguém que é humilde connosco para nos mostrar que somos maus, não desiste de nós quando nós já desistimos de todos? A alternativa pode ser adorá-lo como o Deus que ele diz que é. Que Deus nos ajude nisso.



quinta-feira, março 24, 2016

O rastilho da semana santa - as mãos de Deus nos pés dos homens

O Padre António Vieira é daqueles portugueses que todos os portugueses deveriam ler ao longo da vida. Vou mais longe e declaro que o Padre António Vieira chega para Camões, Fernando Pessoa e Saramago juntos. Venham eles que o Padre arruma-lhes as botas. E defendo isto, mesmo tendo em conta que uma pessoa tão genial como o Padre António Vieira foi muito pouco inteligente quando falava dos calvinistas. Ninguém é perfeito.

O Padre António Vieira escreve um sermão que é o Sermão do Mandato onde usa esta expressão excelsa para descrever a lavagem que Jesus fez aos pés dos discípulos: "as mãos de Deus juntas com os pés dos homens". As mãos de Deus nos pés dos homens. Não há melhor que isto.

É preciso ter em conta o contexto. Este é o último jantar de Jesus com os discípulos. É uma daquelas ocasiões em que se fala com o coração, em que tudo o que é dito tem muita importância. A conversa tanto passa por declarações de amor como passa por declarações de traição iminente - como se sobrevive a uma refeição destas?

Vale a pena lembrar que se calcula que antes de Jesus ter lavado os pés dos discípulos, houve entre eles uma discussão inacreditavelmente estúpida: quem era o maior deles (Lucas 22:24-30). Quem é que sente vontade de lavar os pés a pessoas que vivem a tentar provar aos outros que são as mais importantes? No entanto, é neste grau de provincianismo que os discípulos andam e são servidos por Jesus. Jesus não vem ao nosso encontro por causa da nossa nobreza moral. Jesus vem ao nosso encontro porque nos falta nobreza moral.

A semana santa, quase a acabar, é pólvora. Ela não é um programa de recompensa a homens bons. A semana santa serve para dizer que maus somos todos, até os que andam no melhor caminho que é seguir Jesus. Jesus também lava os pés dos seus discípulos como símbolo que não é a sujeira do nosso carácter que o vai impedir de se sacrificar por nós. Aliás, é a sujeira do nosso carácter que torna pertinente que ele se sacrifique por nós. Precisamos de ser salvos e os nossos pés sujos apenas sublinham a mensagem.