sexta-feira, maio 29, 2015

Comecei a ler os Diários do Kafka
Ele mistura nos Diários textos que viriam a tornar-se autónomos (para contos, por exemplo). Fico com a ideia que Kafka é melhor a escrever fora dos livros do que dentro deles. Só li "O Processo" e há uns anos valentes mas guardei a impressão que era mais acerca da tese que propriamente da trama. Os Diários dão-nos o Kafka da vida normal, o que equilibra bastante o facto de Kafka ser o escritor oficial da vida absurda.


quinta-feira, maio 28, 2015

Três razões para ver e gostar de "O Sétimo Selo" de Ingmar Bergman
Por causa desta personagem: Um cruzado angustiado por ter mais mão na espada que na Bíblia e que pergunta: "Por que é que Deus se esconde numa nuvem de meias-promessas e de milagres invisíveis?"
Por causa desta cena: Um espectáculo de circo é interrompido pela chegada de um grupo de suplicantes (gente que se fustigava para purgar os pecados do povo, que acreditavam estar na origem da peste mortífera daquele tempo).
Por causa desta frase: "Não me arrependo de nada mas estou um bocado cansado."


terça-feira, maio 26, 2015

Ouvir
Não matar não significa que tirar a vida é sempre mau e não significa que tirar a vida é apenas um acto físico.
O sermão de Domingo passado, sobre o sexto mandamento, pode ser ouvido aqui (e o download pode ser feito aqui: http://igrejadalapa.pt/?q=multimedia/podcasts/o-sexto-mandamento).


quinta-feira, maio 21, 2015

O evangélico que vai à bruxa - Uma leitura de "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus", de Héber Campos Jr. - Parte 3 e última

A maior parte dos evangélicos acaba a procurar preto e branco em áreas cinzentas. Esta é convicção do Héber Campos Jr em "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus". Isto significa que um cristão pode ter opções diferentes e igualmente válidas para a escolha do seu curso, para o seu emprego, e por aí fora. E não se deve sentir em causa por não sentir Deus a orientá-lo especificamente para algo nestes domínios. Claro que isto não significa que estas são decisões que se tomam sem poderem ser auxiliadas por boas perguntas prévias. Perguntas simples e úteis como: será que esta escolha é lícita? Será que esta escolha é benéfica para mim? Será que esta escolha é escravizante? Será que esta escolha é útil para outras pessoas? Será que esta escolha glorifica a Deus?

Pensemos, por exemplo, na área profissional. Quando escolho um emprego, dava jeito perguntar: onde posso utilizar melhor os meus dons? Que posição me oferece mais tentações que devo evitar? Que local me oferece melhores condições de crescimento espiritual (e uma igreja saudável)? Agora imaginem se todos os cristãos pensassem em coisas destas na hora de escolherem um emprego. Pelo menos, tínhamos igrejas de mãos mais bem dadas com o trabalho dos seus membros.

Héber Campos Jr. espicaça ainda a nossa carência de sabedoria. Essa sabedoria não é um processo só individual mas comunitário. Muita da incapacidade de discernir a vontade de Deus tem a ver com a nossa imaturidade. Hoje, é fácil viver com modelos pagãos que depois tentamos cristianizar à pressa. Por exemplo, se estudarmos a História percebemos que até muito recentemente as pessoas não encaravam o seu trabalho como algo sempre a subir. Antigamente as pessoas não albergavam a presunção de terem carreiras em ascensão que eram reconhecidas pelos outros (o mundo era muito diferente). Agora, não há nenhum miúdo que não encare os seus sonhos profissionais sem ser nesta perpectiva de superação constante e imparável. Estamos a educar os nosso filhos para só saberem viver como prósperos cidadãos da Wall Street.

Vivemos ansiosos com o assunto da vontade de Deus porque, no fundo, não queremos largar a ideia que tudo tem de dar certo para nós. "Temos uma expectativa pagã de que a vida tem de ser perfeita, de que devemos ter plena satisfação em tudo que fazemos (pág. 87)." É querer o Céu já aqui na terra. Nesse sentido, quanto mais Céu exigimos aqui, mais separados vivemos aqui dele.

Héber bate depois nos métodos perigosos das portas abertas (se a coisa que nos traz dúvidas prosseguir, então é sinal que é segundo a vontade de Deus), dos testes (avaliar a vontade de Deus sugerindo testes através das circunstâncias), dos versículos bíblicos (abrir a Bíblia ao calhas e partir do princípio que a primeira coisa que lemos é o que precisamos), das impressões (os nossos sentidos orientam-nos para a vontade de Deus, geralmente concentrando-nos numa sensação subjectiva de paz). Estes métodos são maus porque alimentam a nossa preguiça espiritual, estimulam a nossa ansiedade, livram-nos da responsabilidade pelas nossas decisões, e nos escravizam no subjectivismo mais rasteiro.

Precisamos de mais meditação profunda na Palavra. Temos de ser criaturas pensantes pesando prós e contras, sem termos este processo como um processo menos santo. Precisamos de ouvir mais conselhos de pessoas experientes e sábias. Precisamos de suspeitar mais do nosso coração (e a oração é fundamental nisto). Precisamos de saber esperar. Num penúltimo capítulo  "Como Tomar Decisões Segundo a Vondate de Deus", Héber sugere uns exercícios para aplicar tudo isto a decisões importantes na nossa vida (como o casamento ou a carreira). "A expectativa de que Deus nos irá passar o trailer do resto das nossas vidas não é ensinada nas Escrituras (pág. 128)." Fujamos então desse filme. E leiamos estes livro que é bem útil.


terça-feira, maio 19, 2015

Ouvir
O louvor é o combustível e o objectivo das missões.
O sermão de Domingo passado, pregado pelo Mark Bustrum, pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, maio 18, 2015

O que aprendi melhor ontem a ouvir um missionário americano

Ontem pregou um missionário na minha igreja. Esse missionário é o Mark Bustrum. A Família Bustrum é americana e tem estado há algum tempo junto de nós, da Igreja da Lapa. Temos sido abençoados por eles e queremos abençoá-los. Os portugueses precisam de toda a ajuda para evangelizarem Portugal. E a Família Bustrum deu a sua vida por essa tarefa. Imaginem o privilégio que é podermos contar com eles.

Uma das coisas que me impressionou quando ouvia o Mark pregar é que ele parte de um princípio que, escandalosamente, nós, os cristãos evangélicos portugueses, não partimos. Que princípio é esse? Respondo dando um exemplo do que o Mark fez. Sempre que o Mark pedia para abrirmos em algum sítio da Bíblia, ele dizia coisas básicas acerca dessa passagem que, à primeira vista, nos poderiam parecer desnecessárias. O Mark pregou sobre o Salmo 67 e foi à pequena introdução que a tradução que ele estava a usar (a Bíblia Para Todos) tinha sobre os Salmos para explicar o que se poderia esperar de lermos os Salmos. O Mark sempre que nos mandava para outro texto bíblico dizia o número da página para quem estava a usar a tradução dele (a Bíblia Para Todos), não assumindo que as pessoas saberiam abrir as Escrituras conhecendo a ordem dos seus livros. Ou seja, o Mark partia do princípio que é normal estar no lugar onde se prega a Bíblia quem não sabe muito dela.

Impressiona-me partir do princípio que é normal estar no lugar onde se prega a Bíblia quem não sabe muito dela, porque eu não fui ensinado a partir desse princípio. Na realidade, mesmo que tenha sido inconsciente, cresci a partir do princípio que só vai ao lugar onde se prega a Bíblia quem já sabe alguma coisa dela. Acontece que este princípio está errado. Muito errado. Porque este é um princípio de um evangelho de mérito e não de um evangelho de graça. Na prática, cresci enquanto cristão a pensar que a igreja é para quem, de alguma maneira, se sente naturalmente a pertencer a ela. Mas a rigor, a igreja nunca foi nem pode ser um lugar de pertença natural. A igreja é um lugar de pertença sobrenatural. Porque só podemos pertencer à igreja por coisas sobrenaturais que Deus fez por nós, e que nós nunca seríamos capazes de fazer por nós próprios. Alguém pode morrer na cruz pelos seus próprios pecados, se não apenas o Senhor Jesus? Alguém pode vencer a morte no seu próprio poder? Alguém cumpriu perfeitamente a lei de Deus? Alguém pode enviar o Espírito Santo por sua livre e espontânea vontade?

De cada vez que vou à igreja sentindo que ela é o lugar onde eu me sinto naturalmente em casa, é como se dissesse que fui eu que morri na cruz, que fui eu que ressuscitei, que fui eu que cumpri a lei de Deus toda, que fui eu que enviei o Espírito. De cada vez que vou à igreja sentindo que ela é o lugar onde eu me sinto naturalmente em casa, eu não somente me armo em Messias como acabo a fechá-la aos pecadores. Aliás, ontem o Mark ajudou-me a perceber que uma das razões porque os evangélicos portugueses não são eficazes a evangelizar é porque neste tipo de coisas íntimas o próprio evangelho ainda não os evangelizou a eles.

Ontem o Mark ajudou-me a perceber que é óbvio que um lugar que prega a Bíblia tem de partir do princípio que as pessoas que lá a estão não têm a obrigação de a conhecer. É suposto que a igreja esteja a atrair pessoas crentes (que, essas sim, têm obrigações crescentes de conhecer a Bíblia) e a atrair pessoas que ainda não crêem, porque o único evangelho verdadeiro que uma igreja tem para pregar é o da graça. Se Jesus não veio para os sãos mas para os doentes (Marcos 2:17), então o que é natural é que as nossas igreja se abram para os que ainda não sabem como é que o medicamento se toma.


quinta-feira, maio 14, 2015

Pôr o campeão de vendas a bater palminhas ao teu rock
Check!

quarta-feira, maio 13, 2015

O evangélico que vai à bruxa - Uma leitura de "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus", de Héber Campos Jr. - Parte 2 
As Escrituras apresentam conceitos diferentes para o que é a "vontade de Deus". Polanus, teólogo de Basileia do Século XVI, dizia que vontade de Deus é uma mas há bifurcações. Como? "Nem sempre o que Deus quer (uma atitude piedosa) é o que Deus quer (planos e propósitos divinos) (pág. 36)." Nesse sentido, uma coisa é o que Deus deseja (vontade preceptiva), outra é aquilo que ele decreta que aconteça (vontade decretiva).

Parece-me impossível lidar com isto sem uma grande dose de humildade. E quando o digo, quero evitar os alçapões clássicos do debate calvinismo versus arminianismo. O que aqui está em causa leva-me a usar mais uma vez a frase do grande Agostinho (passo a vida a usá-la!) quando diz que "está mais de acordo com a natureza de Deus tirar bem do mal, do que não permitir que o mal exista." Claro que Deus quer o bem, mas Deus, numa sabedoria sua que não nos é completamente acessível, decreta/permite (escolha o verbo que preferir que não é este o assunto relevante para o argumento) que aconteçam coisas más para que se cumpra a sua vontade. No fim, esta sua vontade que cumprirá é bem melhor do que o mal que fez parte do processo de a ela chegar.

"Em escolhas  que não ferem a vontade moral de Deus, há uma variedade de opções potencialmente agradáveis a Deus (pág. 41)." Héber está a sabotar o esqueminha gnóstico que sugere que, ou fazemos daquela maneira ultra-específica de Deus, ou a casa vem abaixo e nunca mais a nossa vida será a do plano inicial. Héber também está a dizer aos evangélicos que acreditam em planos bês que não existem planos bês. E não só não existem planos bês como em muitos domínios existem vários planos ás. Esta é uma discussão que dá pano para mangas e que agora não temos como aprofundar. Mas é uma discussão muito necessária.

Voltemos à questão da vontade preceptiva e da vontade decretiva. Um exemplo da vontade preceptiva de Deus é o conteúdo dos Dez Mandamentos (Deus não quer que tenhamos outros deuses além dele, e por aí fora). Já a vontade decretiva é diferente. "A vontade decretiva refere-se aos decretos pelos quais Deus realiza a sua história (pág. 49)." A vontade decretiva é sempre cumprida (o que Deus quer que aconteça, acontece sempre) e é geralmente secreta. Por sua vez a vontade preceptiva frequentemente não é cumprida (Deus dá livre agência para que os seres humanos não lhe obedeçam) e não é secreta (porque a Bíblia nos revela o que agrada a Deus). Não nos compete conhecer a vontade decretiva (por isso a feitiçaria e a adivinhação foram sempre condenadas nas Escrituras). A vontade decretiva de Deus não nos é revelada precisamente para que possamos viver por fé. Quando sabemos o futuro, não vivemos por fé - vivemos por conhecimento.

"Parecemos mais interessados no nosso horóscopo do que na nossa obediência (pág. 59)." Deus quer a piedade de confiarmos nele precisamente quando não sabemos o que nos vai acontecer. Desejar saber o que nos vai acontecer pode ser, nestes termos, uma maldade concreta. "Queremos conhecimento antecipado para não errarmos, termos uma vida livre de tropeços e contratempos (pág. 61)." Como as nossas vidas seriam diferentes se, de cada vez que nos angustiamos com o futuro, nos apercebêssemos que essa angústia tem mais a ver com o nosso desejo de conforto do que com um conforto completamente diferente que é confiar em Deus não sabendo o futuro.

terça-feira, maio 12, 2015

Ouvir
O fundamental não é louvarmos a Deus pelos pais que ele nos deu (apesar de o devermos fazer também). O fundamental é termos pais que nos levam a louvar a Deus.

O sermão de Domingo passado, sobre o 5º Mandamento, pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, maio 11, 2015

O evangélico que vai à bruxa - Uma leitura de "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus", de Héber Campos Jr. - Parte 1

O meio evangélico celebrizou a frase que diz que Deus tem um plano maravilhoso para a nossa vida. "A sério?", perguntam as pessoas. Se não forem pessoas do contra (como eu tendo a ser) podem sair rapidamente em busca de saber que plano é esse. Ou, por outro lado, apurar se existem planos bês.

Em menos de nada, o encanto é buscar freneticamente pelo tal plano escondido. Tudo aquilo que nos parece escarrapachado tem pouco charme, quando comparado com tudo aquilo que nos parece oculto. Até porque diante das coisas que nos parecem visíveis, a nossa cultura gosta de desconfiar. Como os óculos de sol usados pelo herói do grande filme do John Carpenter, "They Live", gostamos de achar que vemos sempre um bocadinho melhor que os outros, além das aparências óbvias. A população em geral vê a televisão do Estado mas eu, que sou esclarecido, vejo os documentários "Toda A Verdade". Os outros papam a versão oficial, mas eu olho além da conspiração global.

Talvez isto pareça deslocado do assunto da vontade de Deus no meio evangélico. Mas Héber Campos Jr. ajuda-nos a perceber o terreno comum no seu livro "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus". Uma certa obsessão obsessão protestante com o plano divino para a minha vida não está assim tão longe das teorias da conspiração que qualquer ateu pode abraçar. O documentário "Zeitgeist" não é assim tão estranho quando comparado com certas manias das nossas igrejas.

Na prática, muitas das nossas igrejas começam a viver à moda gnóstica. Para que nos sintamos "no centro da vontade de Deus" aparecem personagens diversas que nos prometem fórmulas especiais para finalmente sintonizarmos o querer divino. Daí vem a espiritualidade que espera "receber confirmação do Senhor", e por aí em diante. Passamos a viver todos mais ansiosos e alienados na subjectividade que usamos para captar a tal vontade de Deus. Um dos efeitos mais sinistros desta ansiedade é que ele nos coloca na mãos de charlatães. A razão porque tantos escroques povoam hoje o ambiente evangélico também é porque os evangélicos confundem fé com futurologia.

Héber diz assim: "A visão confusa que evangélicos têm acerca de descobrir a vontade de Deus passa a noção que Deus brinca às escondidas com a sua vontade (pág. 20)". Um dos piores efeitos é que os nossos miolos se descapitalizaram violentamente no processo de conhecer Deus. Quero ser cuidadoso mas sincero ao dizer isto: em boa parte os evangélicos merecem a reputação de gente tonta quando se comportam como místicos de trazer por casa. Héber Campos Júnior volta a ser certeiro, ao colocar o busílis da questão no sítio indicado: "Se Deus nos responsabilizasse por não cumprir uma vontade escondida de nós, Deus seria mau (pág. 22)." Quanto mais nos cansamos a querer descobrir a tal vontade de Deus escondida, mais o envolvemos na nossa tontura.

O desejo de procurarmos uma vontade que não nos é revelada é tóxico. Isto não quer dizer que um cristão não busca por mais nitidez em muitas áreas da sua vida. Mas significa que essa busca não pode socorrer-se de métodos distantes da obediência aos mandamentos bíblicos e de uma vida de oração. "Quem procura essas coisas passa a viver por vista e não por fé (pág. 25)." Esta afirmação é magistral e da mais importantes neste livro. Nadar continuamente na especulação acerca da vontade de Deus pode ser um modo de a rejeitar na rotina previsível do nosso dia-a-dia. Viver por fé não é ter acesso ao guião do nosso futuro - isso é mais próximo da astrologia. Então por que tantos evangélicos vivem com ganas tão semelhantes ao comum cidadão que consulta a bruxa?




quarta-feira, maio 06, 2015

Alô Porto!


terça-feira, maio 05, 2015

Ouvir
 A igreja dos primeiros séculos tinha no Dia do Senhor um emblema. Os cristãos aburguesados do Ocidente estão-se nas tintas para ele.
O (doloroso) sermão de Domingo passado, sobre o 4º Mandamento, pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, maio 04, 2015

Alô, Coimbra!


 "Diário de Preces" de Flannery O'Connor

Se os protestantes tivessem altares em casa, o meu T3 de Nova Oeiras teria certamente um nicho para Santa Flannery O'Connor, patrona dos candidatos a escritores com ânsias desmedidas. Desde 2010 que ela plantou um lugar sólido no meu coração e já não consigo lê-la imparcialmente (a rigor, ninguém lê imparcialmente). Já não leio a Flannery, sigo a Flannery. Ela diz e o meu coração escuta. O que não significa uma infalibilidade porque, por exemplo neste livro, “Diários de Preces” que serve de razão para este texto, custa-me a referência à Senhora do Perpétuo Socorro. Mas pronto, é a Flannery.

Quando comecei a ler “Diário de Preces” comentei para a minha mulher: “tens de ler isto até porque parece mesmo que estamos a ouvir a Ana dos Cabelos Ruivos a orar.” Alguns recordarão que aqui há mais ou menos um ano escrevi como a Ana dos Cabelos Ruivos tinha destronado o Conan, o Rapaz do Futuro no podium dos meus heróis infantis. Pois bem, a Flannery O'Connor que ora em “Diários de Presces” é, nos seus vinte e poucos anos, impressionantemente parecida com a Ana dos Cabelos Ruivos com pouco mais de dez. E isto não é chamar imatura à Flannery mas antes reconhecer que a oração é sempre um processo de permanecermos infantes. Vejam a declaração final do livro: “Hoje demonstrei ser uma glutona - ávida de bolinhos e pensamentos eróticos. Nada mais resta dizer acerca de mim (pág. 49).”

A partir do momento em que Jesus nos ensina a orar dando-nos a obrigação de chamar Pai a Deus, fica tudo dito: o nosso lugar é o das crianças dependentes dos seus progenitores. Talvez o que afaste mais as pessoas da oração não seja tanto o aparente tédio do processo, mas mais uma recusa, ainda que inconsciente, de nos colocarmos numa posição de dependência. Quem gosta de se afirmar como sujeito ao cuidado de terceiros? A verda é que não há oração sem que isso aconteça. Logo, há um pathos infantil que pertence a qualquer prece, pathos esse que neste livro é completamente honrado. Que Flannery pareça acriançada é a melhor garantia que temos que ela está mesmo a orar. “Neste momento sou um queijo, faz de mim uma mística, imediatamente (pág. 48).”

Há uma embirraçãozinha protestante minha com um pormenor do título. “A Prayer Journal” é traduzido como “Diários de Preces” e, de facto, não se pode dizer que seja uma tradução incorrecta. Mas diria que, sendo uma tradução mais tipicamente romana (e Flannery era romana!), não faz justiça a um carácter mais dinâmico que a oração pede, e que creio que é mais bem defendido em países de cultura protestante (e Flannery, sendo romana, era de uma cultura reformada!). “A Prayer Journal” seria num contexto protestante traduzido simplesmente como “Diário de Oração”. “Diário de Preces” acentua mais o lado da coisa que se faz (fiz uma prece), ao passo que “Diário de Oração” acentua mais uma coisa que é feita por necessidade (mais do que fazer uma prece, oro). Um diário de oração não é, neste sentido, muito diferente de um planeamento do que se compra para comer. Orar deve ser menos uma coisa que fazemos, e que caracteriza a nossa lista de actividades, e mais uma coisa da qual dependemos para fazer outra qualquer. O “orai sem cessar” do Apóstolo Paulo em 1 Tessalonicenses 5:17 tem a ver com isto.

Flannery ajuda-nos a perceber que a oração é entrarmos num circuito divino. Como? A determinada altura, Flannery ora assim: “Não Te conheço, meu Deus, porque eu própria Te encubro. Por favor, ajuda-me a arredar-me do caminho. (…) Mesmo ao orarmos, és Tu que tens de orar em nós.” A oração não é fundamentalmente acerca de nós que oramos, mas acerca do Deus a quem oramos. É esta certeza que nos ajuda nos momentos em que não temos vontade para orar. Se a oração fosse acerca da nossa vontade, não só raramente oraríamos, como tínhamos de obliterar a parte “seja feita a Tua vontade” do Pai Nosso.

Num contexto mais romano as pessoas que se emocionam muito com a comunhão com Deus são chamados místicos. Num contexto reformado esta diferenciação soa sempre um bocado artificial. Porque à luz das Escrituras não há eternidade que não seja acerca da comunhão com Deus e, basicamente, ou um cristão deseja Deus ou não é cristão. O céu será um inferno para um cristão pouco excitado com a presença divina. Imaginem passar o resto da vida (que ainda por cima não acaba!) com alguém com quem não temos assim tanto interesse em estar. Por isso uma das necessidades básicas da oração é precisamente reconhecer que o nosso desejo por Deus ainda é demasiado fraco e que precisa de ser acordado. Temos de desejar o desejo por Deus. Flannery ora isto magistralmente: “Concede-me a graça de aguardar com impaciência o momento em que Te verei cara a cara e de não precisar de outro estímulo senão esse para Te adorar.” Eu digo amém!

sexta-feira, maio 01, 2015

Manda vir a época balnear
QUE EU TOU PRONTO!


quinta-feira, abril 30, 2015

Não há nada...
como saltar de uma fotografia fofinha das nossas crianças para uma provocação sobre guardar o Dia do Senhor para o nosso Facebook adormecer. Siga! O que é pior: quebrar o descanso que Deus nos pede ou quebrar o lazer que o mundo nos impõe?

quarta-feira, abril 29, 2015

Quebrar o descanso
A última vez que não guardei o Dia Senhor estando presente no culto foi num Domingo de Agosto de 2009. Ainda por cima por razões musicais, as piores tendo em conta o impulso idólatra que sinto desde os meus 12, 13 anos de fazer do rock'n'roll a minha vida. Neste caso a FlorCaveira tocou no Festival Sudoeste (eu, o Sami, o Coração e os Pontos) na noite de Sábado e o regresso, sendo pela noite fora, colocou-me de volta a casa numa hora em que o culto da minha igreja já tinha acontecido. Podia pelo menos ter arranjado outro a que assistir mas, todo rebentado da noitada, acabei por não o fazer. É óbvio que pequei desonrando o Dia do Senhor.
Há outras coisas menos óbvias para mim. Esta questão do Dia do Senhor tem vindo a ganhar espaço na consciência da minha família e por isso cada vez estou mais certo de algumas coisas que não devo fazer. Mas isso não significa que já tenha uma posição firme quanto à correcta observância deste dia. O meu cunhado Tiago Oliveira, que vai mais firme e convicto à minha frente neste assunto, tem-me falado de algumas das suas decisões e eu ainda não estou no mesmo lugar. Até porque preciso de estudar o assunto mais profundamente nas Escrituras.
No próximo Domingo vou estar a pregar sobre o Quarto Mandamento, que é precisamente este de guardar o Sábado. Não vou partilhar com a minha igreja certezas que não tenho, mas vou certamente partilhar aquelas que tenho a partir da Palavra. Não deixa de ser curioso pregar o sermão sobre o 4º Mandamento num Domingo em que muitos usam o fim-de-semana prolongado para o quebrar. Durante os próximos dias planeio ir semeando umas provocações proféticas acerca do assunto. Andamos todos demasiado relaxados acerca da importância do descanso.


terça-feira, abril 28, 2015

Rude Boys Outta Jail


















E quem não percebe a gravata dentro das calças não percebe o ska.
Ouvir
Quanto mais santificamos o nome de Deus, mais olhos temos para o que é realmente bom à nossa volta.
O sermão de Domingo passado, sobre o Terceiro Mandamento, pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, abril 24, 2015

E mais agenda


















Amanhã há XNC no Príncipe Real mas daqui a 15 dias há barulho mais a norte. E estou disponível para pregar o evangelho em algum sítio na zona do Porto na manhã de Sábado.
Agenda em cima da hora


Aguardela entre a espada e a parede

[Escrevi este texto para a newsletter da Flur aqui há um par de semanas.]

Vivo ao lado de um Centro Comercial que já foi importante. Vivo em Oeiras e esse Centro Comercial chama-se Palmeiras. Antes do advento dos multiplexes, estes sítios eram um luxo. O Palmeiras é parente do Fonte Nova, para dar um exemplo menos suburbano. Ora, no Palmeiras há todo o tipo de iniciativas que visem impedir a sua decadência (valeria a pena recuperar o seu cinema, por exemplo). Uma dessas iniciativas é uma feira do livro que, volta e meia, ocupa a sua praça central.
Essa feira do livro tem preços imbatíveis. Andei a oferecer Flannerys O'Connors e Evelyns Waughs aos meus amigos à custa disso. E também dá para comprar outros livros que, se não fosse um preço estupidamente baixo, provavelmente nunca compraria. Comprei "Morrer na Praia do Futuro" sobre o crime macabro de Luis Militão Guerreiro que levou a vida de seis empresários portugueses (que livro!). Mas divago. Queria chegar a outro lugar: "Esta Vida de Marinheiro" de Ricardo Alexandre, sobre a vida de João Aguardela.
Na minha memória há um concerto no Parque Central da Amadora, algures entre 1994 e 1995, em que os Sitiados provocaram um mosh pit medonho que juntava brancos, pretos, metálicos, xungaria, skins e punks, entre outros. Lembro-me que eu e o meu amigo Emanuel Conde aperfeiçoámos uma técnica de sobreviver na molhada que era abraçarmo-nos e usarmos as pernas como hélices que impedissem aproximações mais hostis. Funcionava. E funcionava sobretudo tendo em conta que um concerto de Sitiados era selvagem. Era gloriosamente selvagem.
Desde essa altura que passei a admirar João Aguardela. Desde essa altura e desde que a minha irmã gémea comprou o "E Agora?", o segundo álbum dos Sitiados. Os Sitiados ajudaram a criar em mim uma trégua entre o meu punk militante da adolescência e a convicção que o futuro tinha de vir de mãos dadas com a música da nossa tradição (nunca teria gravado o meu primeiro disco a solo, "Fados Para O Apocalipse Contra A Babilónia", sem isso). Fiquei triste quando Deus chamou tão cedo o João Aguardela em 2007. Como um bom fã, gostava de o ter conhecido para lhe dizer da importância  que ele teve para mim (uma vez vi-o com a Sandra, sua companheira de música e de vida, na Loja do Cidadão mas faltou-me a coragem).
O Aguardela tinha um credo que também confesso. Esse credo sugere que a música é tão mais interessante quanto stressada entre a espada e a parede. O que é que isto quer dizer? O coração do Aguardela não fervia pelos músicos habilidosos e que transmitem domínio da sua arte. O Aguardela dizia mesmo que a música portuguesa a partir dos anos 90 era desinteressante porque os músicos portugueses aprenderam a tocar tão bem como os músicos estrangeiros (e, consequentemente, a imitá-los na perfeição). Passaram a ser músicos aburguesados.
Se olharmos para o Aguardela, vemos que o seu credo não era só teoria. Os Sitiados nunca quiseram aperfeiçoar o seu trad-rock para se colocarem como versão local dos Pogues. Fizeram esquisitices com a electrónica, borrifaram-se para novos êxitos, acabaram quando acharam que não tinham mais nada de interessante para dar. A seguir, o Aguardela meteu-se no Megafone (uma coisa que, nunca me tendo dado muita pica, ainda assim me inspirou - o Aguardela fez uma coisa que também fiz que era deixar às escondidas os meus discos nas prateleiras de fado da Fnac quando não os conseguíamos distribuir comercialmente). O Aguardela ainda foi à Linha da Frente e à Naifa, coisas a que não prestei muita atenção mas que foram contra-a-corrente num contexto global de conformação e tédio.
Uma música entre a espada e a parede é uma música que não finge que antes de nós não veio ninguém. É uma música que nos aperta porque nos permite criatividade a partir de um princípio que não estamos sozinhos. É uma música que, se calhar, antes de celebrar génios, celebra entalados. Celebra músicos que andam às voltas com o antigo e com o novo, sem isenções espácio-temporais - somos daqui e estamos aqui agora. Nesse sentido, uma música entre a espada e a parede é, paradoxalmente, uma música mais comunitária. É com essa paz que cumprimento todos os músicos e amantes de música - shalom!


quinta-feira, abril 23, 2015

Correr em direcção à descompostura
Qual é a pior coisa que se pode chamar a uma senhora? Pois, essa mesmo. Prostituta. Prostituta é a versão longa mas consta que João Ferreira de Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia toda para o português (quase toda, porque houve um restinho que ele não conseguiu traduzir), usou mesmo a versão curta da palavra.
Se um pregador estivesse a pregar a uma congregação e estabelecesse uma comparação entre a infidelidade dessa congregação e um acto de prostituição, a coisa ia ficar complicada. No entanto, é isso que Ezequiel faz com frequência, quando equivale o estado espiritual de Israel com o de uma mulher da má vida.
Os capítulos 16 e 23 são aqueles que mais duros me parecem. São textos bíblicos de digestão difícil e em que as palavras são usadas para, usando uma expressão da minha mulher, espetar a faca fundo e rodá-la. Se alguém quiser ficar horrorizado com os dispositivos literários da Bíblia, escusa de ir ao fogo e enxofre do Apocalipse. Basta estes dois textos de Ezequiel.
A coisa boa é que a Bíblia é assim mesmo porque não nos trata como incapacitados. E, mesmo que seja difícil o embate com a comparação, o que nos choca mais nem é chamar prostituta à Dona Jerusalém. É, no fim de tudo isto, entender que Deus continua interessado nela. A ira de Deus é grande? Certamente. Mas o seu amor é maior ainda.
O livro de Ezequiel também serve para nos fazer entender que, quando fugimos da descompostura que Deus nos quer dar, passamos ao lado de compreender a dimensão do seu amor. Os filhos bem educados não são aqueles que nunca viram os seus pais zangados. São aqueles que perceberam que a zanga dos pais existe em função do amor que eles nos têm.


quarta-feira, abril 22, 2015

Nas bancas
Já está nas bancas a Revista Ler onde escrevo acerca das semelhanças entre o Rei Salomão e Mark Twain no uso do cinismo.

O papel que Salomão desempenha na Bíblia não será muito diferente que o papel que Twain desempenhava num país com uma tendência persistente em ver sonhos mesmo no meio dos piores pesadelos. Salomão era sábio porque sabia entender que a beleza da existência não é só simplicidade. A grandeza de Twain era, por outro lado, acreditar pouco mas não fazer disso uma desculpa para não ver o que é bonito. Há uma equivalência entre os dois que pode ser um grande modelo para o uso apropriado do cinismo.


terça-feira, abril 21, 2015

Ouvir
Os bezerros de ouro que construímos na nossa vida não são um desejo de interrompermos a viagem para a Terra Prometida. Os bezerros de ouro que construímos na nossa vida são um desejo de chegarmos à Terra Prometida já.
O sermão de Domingo passado, sobre o Segundo Mandamento, pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, abril 20, 2015

"Filho de Deus" de Cormac McCarthy
Se me comparar com a maior parte das pessoas, leio muito. Mas não sou um leitor compulsivo. O prazer que a leitura me dá sempre foi equivalente à preguiça que sinto para ler. Por isso sempre preferi acabar de ler um livro a ler um livro. Raramente na vida tive aquela experiência de não conseguir parar de ler. Quase sempre eu consigo parar de ler com toda a facilidade. Mas Deus tem-me tornado um leitor mais estável nos últimos anos, de facto. E grande parte do meu tempo hoje passa por ler. Leio mais e melhor, ainda que duvide que alguma vez me torne um leitor compulsivo.
Todavia (e teria de haver um "todavia" neste texto), volta e meia há um livro que parece colar-se-me às mãos. Pelo que tenho vindo a entender, os poucos livros que parecem colar-se-me às mãos não têm a ver necessariamente com a sua qualidade literária. Antes pelo contrário, geralmente os grandes livros custam-me a ser lidos (amei o "The Portrait Of A Lady" mas foi custoso, estou a gostar muito de "A Divina Comédia" mas também me custa bastante, etc.). Há uns meses houve um livro que literalmente devorei: "Morrer na Praia do Futuro". Que fantástica obra literária é essa? Nada mais nada menos que o texto escrito por Luis Militão Guerreiro, o português que no Brasil matou seis empresários portugueses em Fortaleza. Lembram-se da história? Pois bem, os méritos literários do livro são escassos mas a história, caramba!, a história! Histórias de crimes terríveis - eis uma das receitas para que os livros se me colem às mãos.
Empreendamos um pequeno progresso estético: entra "Filho de Deus" do Cormac McCarthy. Eu ainda li relativamente pouco do Cormac mas o que li já me fez entender que tenho nele um escritor que fala a minha linguagem. O "The Road" é fantástico e o "Meridiano de Sangue" não fica muito atrás. O facto é que "Filho de Deus" colou-se-me às mãos. Li-o num fôlego e que fôlego!
"Filho de Deus" é a história de Lester Ballard, uma personagem que começa como pateta e acaba como psicopata. Como Paulo Faria, o tradutor de "Filho de Deus", diz bem no prefácio, as personagens monstruosas de Cormac McCarthy não são propriamente excepções ao ser humano comum mas antes a sua regra (que talvez só se distingam por uma intensidade superior). Isto não quer dizer que McCarthy escreve partindo do princípio que todas as pessoas são bestas, mas talvez escreva partindo do princípio que todas as bestas são pessoas. Só a partir daqui nasce uma literatura que genuinamente é acerca da redenção.
Hoje é um lugar-comum falar do valor da redenção na arte. Acontece que o valor da redenção na arte só pega quando há por parte do artista uma convicção sólida acerca do que pede pela redenção: o pecado. Por exemplo, em Portugal nós não temos arte que decentemente peça por redenção porque não temos artistas que decentemente acreditem em pecado. O que temos é geralmente uma sopa pós-moderna onde a emoção é procurada por efeito do tédio (o tédio é o melhor substituto para o pecado que conseguem aqueles que não acreditam em Deus), o que é completamente diferente de termos uma arte onde a redenção é um assunto concreto. McCarthy dá-nos uma escrita que é mesmo a sério acerca da redenção porque ele escreve mesmo a sério acerca do pecado.
O curioso é que, se McCarthy escreve mesmo sobre pecado, não deixa de o fazer mostrando aquilo que o pecado também é - ridículo. Daí Lester Ballard se tornar uma personagem inesquecível. Lester é o tal que começa pateta e acaba psicopata. Por andar a ler o Dante ando com esta lição mais fresca, esta de saber que o Inferno é um lugar tão sinistro quanto disparatado. Hoje podemos dar-nos ao luxo de fazermos do ridículo uma desculpa para o alívio moral, mas o ridículo sempre foi algo moralmente carregado. Nos círculos do Inferno de Dante os pecadores sofrem com um grau de horror ao nível do grau de absurdo, o que se num primeiro momento nos pode dar vontade de rir, num segundo dá-nos vontade de chorar. Não é à toa que o mesmo acontece com Lester, que a dada altura irrompe num choro que pura e simplesmente não é explicado. O humor que pode ser suscitado pelo pecado não significa que o pecado passa a ser inimputável. Não é por um pecador ser ridículo que ele deixará de ser punido enquanto pecador. "Filho de Deus" ajuda-nos a perceber isto melhor.
Talvez um dos aspectos que torna "Filho de Deus" viciante seja a expectativa que quanto maior o crime que vemos descrito nas suas páginas, mais preciso seja um castigo que se siga. E McCarthy trabalha esta tensão de um modo ilustre. A ironia é que, como este castigo acaba por não chegar à dimensão do crime, acabamos por terminar a leitura pedindo uma justiça maior do horrível com que nos deparámos. E é aqui que quero terminar assinalando uma característica verdadeiramente religiosa da escrita de Cormac McCarthy: pelo facto do mundo literário de McCarthy ser tão ostensivamente sem Deus (a malvadez anda realmente solta), nada há que seja tão pedido pela sua escrita como Deus. Por isso, creio que um dos trunfos de "Filho de Deus" nem é tanto empatizarmos com o criminoso (mesmo que o consigamos fazer); é muito mais sermos inclinados para a necessidade de um juiz divino. Talvez o próprio McCarthy não concorde comigo (não lhe conheço identificação religiosa), mas que um tipo sai a precisar mais de Deus depois de um livro do Cormac, sai.


quinta-feira, abril 16, 2015

Coroa


















"A godly wife does not just adorn herself; she adorns her husband. She is a crown of glory. She does this as a virtuous woman, and this is precious, in part, because of its comparative rarity. If it were easy, more would be happy to be virtuous. So at the heart of an adorned and adorning wife is her deep and abiding fear of God." - Douglas Wilson.

quarta-feira, abril 15, 2015

Listen all y'all, it's a sabotage

terça-feira, abril 14, 2015

Ouvir
O princípio do Primeiro Mandamento é este: uma vez que os judeus devem 100% da sua liberdade a Deus, Deus exige 100% da adoração do seu povo para si. Qualquer acto de idolatria insinua que não fomos libertados inteiramente por Deus.
O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, abril 13, 2015

Praia com Jesus
Uma das coisas mais irritantes quando se prega acerca da lei, é ter de levar com a ignorância típica de muitos evangélicos. Para muitos evangélicos a palavra "lei" é um papão que os deixa a chorar traumatizados a um canto. Para esses evangélicos a lei é uma espécie de tempo chuvoso que esperava pelos primeiros raios de sol, em que Jesus chega triunfante pronto para a praia e declara que a partir de agora é férias para sempre. O problema é que estes evangélicos revelam que, na sua aversão pavloviana à lei, pouco sabem acerca do próprio Jesus que julgam ter dado cabo dela.
Ontem na igreja chegámos finalmente aos Dez Mandamentos. Uma das coisas que me parece necessário fazer hoje, quando se estuda os Dez Mandamentos, é dissipar as dicotomias preguiçosas feitas entre o evangelho e a lei (como se o evangelho fosse contra a lei). Ora, torna-se então necessário entender qual o tipo de embate que o Senhor teve com os legalistas. Os próximos parágrafos são excertos do sermão de ontem, que estabelecem uma distinção básica entre um legalista (coisa que um cristão nunca pode ser) e um não-legalista.
A antipatia que Jesus mostrava pelos fariseus não era por eles acolherem a grandeza da lei mas por eles reduzirem-na. Os fariseus eram legalistas e os legalistas são especialistas em fazer da parte o todo. O legalista é uma pessoa que ignora que a obediência à lei respeita a personalidade de quem a criou. Quando eu me lembro que o autor da lei é perfeito e integra totalmente a realidade espiritual e a realidade física, é absurdo cumprir a lei na sua forma sem permitir que ela se cumpra no meu coração. Na verdade, o legalista é alguém que parece que cumpre a Lei mas, de facto, faz o contrário. Por isso Jesus passou a vida a malhar em legalistas.
O legalista julga que cumpre a lei pelo facto de seguir os seus aspectos formais. Mas o seu coração fica incólume a ela, revelando na prática que o legalista, ainda que inconscientemente, torna o autor da lei tão imperfeito como o modo como ele a cumpre. Uma pessoa que cumpre a Lei na sua forma mas não no seu conteúdo é alguém que faz de Deus a mesma coisa. Quando eu sou legalista, eu não estou a ser transformado pelo princípio perfeito da lei; quando eu sou legalista eu estou a transformar a lei na minha imperfeição. Um legalista não é, por isso, uma criatura da lei mas da carne. Por isso o Senhor Jesus não foi um legalista mas alguém que cumpriu ele mesmo a lei. Porque o Senhor Jesus sabia que cumprir a lei era respeitar o carácter de quem a criou - Deus. Deus, cuja forma não difere do conteúdo, dá a lei para que ela seja cumprida em obras e no coração - segundo a sua própria natureza.
O legalismo parte do princípio que, desde que nenhuma regra seja quebrada, a lei é cumprida. Mas isto é de uma grande ingenuidade. Um legalista julga que nunca matou ninguém por nunca ter interrompido o batimento cardíaco de nenhuma criatura. Mas um não-legalista sabe que não matar ninguém é muito mais do que isso: é servir a vida de todos os outros à nossa volta. A lei é muito mais que uma aparência de cumprimento. Isto era algo que os fariseus não compreendiam.

sexta-feira, abril 10, 2015

Amanhã!
Olha aí o cantor da 1ª parte da tarde musical de amanhã! Um rocker de olhos azuis que também sabe baladear. Depois dele será sempre a descer.

quinta-feira, abril 09, 2015

Noite do Crime Eléctrico #3
As Noites do Clube do Crime Eléctrico já chegaram àquele ponto em que alguma imprensa levanta as orelhas. Alguns terão lido o texto do Observador sobre a segunda, em Março. Vale a pena (aqui: http://observador.pt/2015/04/02/ultimo-crime-eletrico-dos-pontos-negros/). Foi uma noite realmente memorável.
O Sabotage é o sítio apropriado para noites assim. Com mais de 100 pessoas o lugar começa a ficar apertado, o que facilita o elemento obrigatório de concerto de rock: o perigo. Mal os Pontos Negros começaram a agitação da assistência criou uma maré complicada junto ao pequeno palco. Pequenas ondas de gente a caíam aos pés dos guitarristas (eu fui um deles e a ferida que fiz na perna ainda me acompanha). Como dizia o Jónatas Pires depois do concerto, lembrando a ética de uma actuação eléctrica: ou há ferimentos ou não aconteceu.
O Cão da Morte empenhou-se solitário e corajosamente de guitarra e órgão, criando uma ligação tal que a assistência lhe sugeria no momento que repetisse alguns refrões. Os Velhos são das poucas bandas que se dá ao luxo de começar de novo, contra tudo e contra todos. Quantas das músicas antigas tocaram? Zero, zerinho. Só tocaram novas, todas lentas, todas a tresandar a casamento (é casar, meninos, é casar!). Mas sempre com a mesma força. Os Velhos mostram que a força não é um monopólio musical da rapidez.
O próximo concerto é daqui a uma semana. Topem a beleza do cartaz que o Silas Ferreira fez. É isso mesmo: Éme, Amamos Duvall e C de Croché. Marquem na agenda e espalhem a notícia.


quarta-feira, abril 08, 2015

Ouvir
Quantos de nós defendemos a ressurreição da maneira que mais convence, que é uma personalidade transformada e humilde?
O sermão de Domingo passado, chamado "Um coração transformado pela ressurreição é o que nos leva ao encontro daqueles que ainda não a meteram na cabeça", pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, abril 06, 2015

Online amanhã
Se a ressurreição não fosse algo que pudesse expor-se ao inquérito de pessoas, nomes de pessoas não eram dados para prová-la. Paulo dá a lista das pessoas a quem Jesus apareceu para que aqueles que não acreditam na ressurreição possam aparecer junto dessas pessoas e averiguar por si próprios. Acreditar na ressurreição não é usar menos os nossos neurónios.