quarta-feira, julho 01, 2015

Ouvir
Querer mais Deus é querer menos aquilo que não nos pertence. O último sermão sobre os 10 Mandamentos ("Não cobiçarás") pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, junho 29, 2015

O Paradoxo da Felicidade

Em Portugal quando se ouve de um pastor evangélico brasileiro a abrir uma igreja nova pensa-se normalmente em uma igreja nova com brasileiros lá dentro. Na gíria são as igrejas étnicas, que bem ajudam a dar algum ânimo ao facto de a maioria das igrejas evangélicas portuguesas estar em decadência. Não fosse a proliferação destas novas igrejas (que, em abono da verdade, tanto depressa abrem como depressa fecham) e os números de protestantes no país estariam a cair.

No ano passado estive em Paris (na Conferência do City To City) e conheci uns quantos pastores brasileiros a abrir igrejas novas em países como a França e a Itália. Por defeito, o meu cálculo foi pensar em igrejas de brasileiros em França e na Itália. Mas, voilá!, apanhei uma surpresa: não tendo a vida facilitada por falarem a mesma língua (como em Portugal), nos outros países europeus os jovens pastores brasileiros estão a abrir igrejas que se enchem com as pessoas do país onde estão. Não são igrejas de emigrantes. São igrejas de franceses e italianos.

O caso que mais me surpreendeu foi o do Pr. René Breuel. O Pr. René Breuel terá a minha idade (trintas e muitos) e, com a sua mulher Sarah e os seus dois filhos, abriu há um par de anos uma igreja no centro de Roma. É uma igreja que não é pequena para os parâmetros europeus: cerca de uma centena de pessoas. É uma igreja que faz mais do que reciclar evangélicos fartos das suas igrejas de origem - é uma igreja a crescer com pessoas que se convertem ao cristianismo através do seu testemunho. É uma igreja de gente nova, com uma linguagem solta do evangeliquez e uma frontalidade ganhadora acerca do que é fundamental no evangelho. É uma igreja italiana pastoreado por um brasileiro que tem tudo para ser o sonho de um português.

Há duas semanas pude finalmente conversar pela primeira vez com o René. Ele passou-me um livro que escreveu (ele já escreveu outro além desse) e eu passei-lhe o livro que escrevi. O livro que passei a ter nas mãos e que li em três dias chama-se “O Paradoxo da Felicidade”. E é um livro muito bom. É um livro que parece pegar no género estafado de “seja feliz em cinco passos” mas que o subverte dando-nos o que o cristianismo crê acerca do assunto. Vou tentar descrever muito basicamente a tese do livro.

Todas as pessoas têm fome de ser felizes e o pior erro é fingir que já comemos quando os nossos dentes ainda não trincaram nada - Deus fez-nos de facto para sermos felizes (até porque Deus é feliz). Mas que tipo de felicidade devemos perseguir? Não podemos procurar a felicidade dos modelos comuns porque os modelos comuns querem vestir os fregueses sem lhes tirarem as medidas. “Eles não levam em conta a natureza entortada da nossa alma, encurvada pelo pecado, e não conseguem evitar a lógica egocêntrica na qual funcionamos.” Ou seja, o apetite antropológico (um homem querer ser feliz) é sabotado pela imperfeição do sistema digestivo (nenhum homem é perfeito). O problema não é querermos ser felizes, o problema é sermos imperfeitos. Procurarmos uma felicidade que ignora a nossa imperfeição é acabarmos ainda mais cheios da última.

“A felicidade é um efeito indirecto.” Somos felizes como consequência e não como causa. “Somos alegres não quando estamos obcecados com o nosso estado emocional, mas quando, imersos em alguma actividade, relacionamento ou causa, nos entregamos à vida em autoesquecimento.” É aqui que entendemos o paradoxo da felicidade. Os cristãos ao imitarem Cristo doam-se como ele o fez na cruz, redimindo a realidade num gesto de amor que se sacrifica. “O paradoxo de Jesus expressa assim a verdade básica por trás da existência humana e da nossa busca por felicidade: salvamos nossa vida quando a perdemos, ganhamos quando damos.” Podemos acabar surpreendidos pela felicidade porque nos esquecemos dela.

Há mais coisa boa no livro (destacaria a parte que trata da questão do sofrimento: “A maneira como compreendemos a felicidade hoje, então, se está divorciada da bondade e do sofrimento, está também divorciada da realidade”) e valia a pena que ele estivesse disponível no mercado português. Creio que é possível encomendá-lo pelo site do René. É um texto que tanto serve pessoas que já declaram fé, como as outras, e que funciona como boa introdução ao cristianismo. Começa na questão da felicidade no geral para culminar na única felicidade possível que é Cristo.

No final terminei convicto que o René e a sua família têm de vir gastar mais tempo em Portugal, partilhando da experiência deles de injectar energia sul-americana ao cristianismo europeu amolecido. A Chiesa Evangelica San Lorenzo tem muito para dar além da Itália.

terça-feira, junho 16, 2015

Ouvir
Longe de Cristo sou uma contrafacção de mim próprio. O sermão de Domingo passado, sobre o 9º mandamento ("não mentirás") pode ser ouvido aqui (ou aqui: http://www.igrejadalapa.pt/?q=media/podcasts/o-nono-mandamento).


segunda-feira, junho 15, 2015

Revitalização de Igrejas

[Estou a frequentar a Conferência Ibéria XXI promovida pela rede City To City, da Igreja Presbiteriana Redeemer em Manhattan. Este texto serviu de orientação para a minha participação na conversa sobre revitalização de igrejas, num painel com o Pr. Josué da Ponte e com o Pr. Felipe Assis, moderado pelo Manuel Rainho e pelo Pr. Pedro Silva. Está a ser muito bom. Dura até Quarta-Feira na Igreja da Casa da Cidade, perto de Moscavide - juntem-se a nós!]

Aquilo que acontece na igreja que sirvo, a Igreja da Lapa (nome oficial: Segunda Igreja Evangélica Baptista de Lisboa), pode ser visto como a revitalização de uma igreja. É uma parte do que lá acontece, de facto. Nesse sentido, o nosso exemplo pode ser bom para ilustrar um dos assuntos que nos junta nesta Conferência Ibéria XXI. Quero por isso partilhar alguns dos aspectos que me parecem centrais na nossa experiência, para que ela possa ser útil a todos os que aqui nos juntamos. Vou fazê-lo organizando a minha partilha em quatro tipos de revitalização possíveis de observar no nosso percurso.

Devo abreviar o que aconteceu nos últimos sete anos. Em Outubro de 2007 eu e a Rute fomos enviados pela Igreja Baptista de Moscavide, à qual pertencíamos, para ocupar as instalações de uma pequena igreja que não estavam a ser usadas desde o início dos anos 90. Uma pequena sala na cave com um pequena casa-de-banho e mais uma pequena sala no rés-do-chão eram o que restava da antiga Igreja Baptista de São Domingos de Benfica. Como esta igreja tinha pertencido à Associação de Igrejas Baptistas Portuguesas, a Direcção desta Associação tinha decidido manter-se pagando o aluguer para usar estas instalações como escritório. Na prática isto significava que a sala do rés-do-chão era usada para reuniões e organização de envio de material pedagógico da AIBP, e que o salão de culto, na cave, permanecia enquanto espaço museu. Tudo tinha ficado como tinha sido deixado. Parecia Pompeia. Deu-se a erupção do vulcão e o pó era o único guardião da memória do que até então tinha acontecido.

Eu e a Rute, como enviados missionários da igreja, acabámos logo aí a fazer uma espécie de revitalização da igreja – o primeiro tipo de revitalização de igrejas de que vos quero falar. É a espécie mais fácil. Porque revitalizámos a igreja sem termos de revitalizar as pessoas que lá estavam antes porque nenhuma dessas pessoas se juntou a nós. Mas revitalizar sem vidas concretas não conta. Começámos então de outra maneira, contando com apenas mais uma família, além da nossa, comprometida com essa tarefa de começar uma igreja nova. Em alguns meses contávamos com cerca de 15 pessoas nas reuniões. Acelerando um pouco o relato, o primeiro plano de autonomia da igreja foi adiado e, em vez de renascermos enquanto Igreja Baptista de São Domingos de Benfica em 2011, fizémo-lo em Janeiro de 2012. Éramos doze membros e uma congregação de cerca de 30, 40 pessoas.

Sobre as características dessa comunidade é importante dizer que, tirando um caso, não havia conversões. Éramos um mosaico no que diz respeito à proveniência evangélica (pequena maioria de baptistas, o segundo grupo mais expressivo era de pentecostais e havia alguns vindos dos irmãos) mas um grupo homogéneo de pessoas que se relocalizavam ali. É verdade que a igreja era nova. Mas os seus membros não eram novos na fé. Foi preciso esperar uns meses para que baptizássemos a segunda pessoa que se tinha convertido através do nosso trabalho. Creio que é importante referir isto porque quando se fala em igrejas novas em Portugal receio que na maior parte das vezes (pelo menos na minha observação) seja preciso explicar que a novidade delas é à custa da velhice das outras. Explico. Falar numa igreja nova é fantástico se partirmos do princípio que essa igreja nova significa novas conversões. Mas falar numa igreja nova não é assim tão fantástico quando essa igreja nova se desenvolve à custa de realojar aqueles que estão insatisfeitos com as suas igrejas velhas.

É a minha opinião que uma boa parte das igrejas evangélicas novas em Portugal não são puramente igrejas novas mas igrejas revitalizadas à distância. Explico. Se eu abro uma igreja que serve para ser a igreja nova de pessoas que ao chegarem lá tiveram de sair das suas igrejas velhas, é como se eu estivesse a revitalizar essas igrejas velhas, ainda que ninguém me tenha dado autorização. Quantas das igrejas novas representadas neste encontro são realmente igrejas de novas conversões? Talvez a parte mais considerável seja igrejas novas que relocalizaram velhos membros. A minha tese é que essa é uma espécie de revitalização, ainda que não consentida formalmente. Esta é a segunda espécie de revitalização que quero falar – a revitalização real mas não consentida, que creio já estar a acontecer em Portugal e que não deve ser o nosso objectivo primordial. Não sou contra ela de modo algum. Mas é o que me faz não querer ter um discurso triunfal sobre a minha igreja nova. Antes pelo contrário. Algumas das melhores coisas que acontecem na minha igreja são à custa das piores coisas das outras igrejas. Nesse sentido, em Portugal há muito trabalho de revitalização para fazer mesmo que nunca seja assumido como tal.

Avançando no tempo, devo registar o período de revitalização de igreja mais formal que efectivamente aconteceu. Este é o terceiro tipo de revitalização que quero mencionar e que passa por uma revitalização real e procurada. Em 2014 a Igreja Baptista de São Domingos de Benfica deixou de existir para se juntar à Segunda Igreja Baptista de Lisboa. A Segunda Igreja Baptista de Lisboa passava uma crise longa e estava reduzida a uma dúzia de pessoas num salão onde podem caber duas centenas. Como a história ainda está a ser escrita devo ser cuidadoso. Mas falaria três aspectos para caracterizar a revitalização da 2IBL leva a acabo pela Igreja Baptista de SDB.

Em primeiro lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque já quase que não havia 2IBL. Já não havia vaidade a que se pudesse agarrar para se dar ao luxo de regatear o seu futuro. Era ser ajudada por nós ou fechar a porta. Digo isto porque olho para várias igrejas que já precisam de ser revitalizadas mas que ainda não largaram aquilo que impede uma verdadeira revitalização: o seu orgulho. Na minha denominação então, este é um problema sério. Para revitalizar é preciso assumir que a vida já quase se foi embora. Isto é muito complicado de ser assumido. Em segundo lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque não foi um Pastor que chegou mas uma igreja com ele. Quando SDB começou a ajudar a 2IBL a maioria esmagadora das pessoas presentes nesse encontro era de SDB. No próprio funcionamento congregacional que temos isso permite que os atritos mais facilmente sejam vencidos por uma dinâmica que não pertence a um Pastor sozinho mas a uma efectiva comunidade nova. Em terceiro lugar, foi mais fácil a 2IBL ser revitalizada porque essa revitalização não acontece apenas exteriormente na igreja mas interiormente na fé dos crentes. O que começou a acontecer logo em SDB foi uma espécie de reconversão. E é aqui que quero terminar com uma nota mais pessoal.

Nesta nota pessoal falo do quarto tipo de revitalização – aquela que tem de acontecer dentro de nós. Quando começámos o trabalho em SDB tínhamos o sonho de abrir uma igreja nova. Receber pessoas e pregar-lhes a Palavra. Ocupar o púlpito com uma mensagem que ressoasse nos ouvintes. Encher a pequena igreja. A verdade é que lentamente todas essas coisas aconteceram. Mas no processo de se materializarem esses sonhos, entendemos também que esses sonhos não estavam necessariamente colocados no fundamento certo. Não é por Deus permitir que um sonho nosso se concretize, que esse sonho passa a ser certo. É possível querer ser pastor com a intenção errada. É possível querer revitalizar uma igreja com a intenção errada. À medida que uma igreja se desenvolve, rapidamente entendemos que os momentos de aclamação não são a regra mas a excepção. Para Moisés as lutas mais persistentes da sua missão de libertar o povo serão com os libertados, também para um pastor as lutas mais persistentes são com a igreja pastoreada. Este desabafo serve para dizer: poderemos ter a certeza que estamos a revitalizar uma igreja quando o evangelho nos está a revitalizar a nós. É um processo longo mas seguro. Temos de permanecer constantemente nos fundamentos na nossa fé para que alguma coisa nova possa ser construída. Não podemos sonhar com arranha-céus quando os alicerces estão em mau estado. Não levarão a mal a minha opinião de que os alicerces das igrejas evangélicas em Portugal precisam urgentemente de ser revistos. Se calhar, vamos chegar à conclusão que a igreja que julgávamos estar em condições de revitalizar outras é a primeira a precisar de revitalização. Que Deus nos ajude nesse trabalho!

quinta-feira, junho 11, 2015

Ver
Ontem foi um dia de muita alegria. Voltarei a ele mais tarde se Deus permitir. Para já gostava de vos mostrar o novo vídeo de apresentação da igreja (que podem verificar ai em baixo). Como ontem a Igreja da Lapa celebrou o seu 86º aniversário, aproveitámos também para renovar o seu site. Verifiquem aqui: http://igrejadalapa.pt/. O Senhor tem sido generoso no talento que que deu ao Hugo Moura e ao Tiago Ferreira, para a produção do vídeo e do site. Espalhem estas ligações.


terça-feira, junho 09, 2015

Ouvir
É um alívio Deus ser a favor da propriedade privada. Mas é ainda melhor Deus ir além da propriedade privada e chamar-nos a sermos contra a pobreza. O exemplo de Jesus ilumina-nos para colocar o 8º mandamento (não roubarás) em prática numa atitude de serviço e sacrifício.
O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui (e downloadado aqui: http://igrejadalapa.pt/?q=multimedia/podcasts/o-oitavo-mandamento).


segunda-feira, junho 08, 2015

Brasil Knows Best - uma entrevista que dei ao Scream & Yell


De Portugal, conheça Tiago Cavaco

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por Bruno Capelas

Não é todo dia que se vê um roqueiro citar os Bad Brains e as cartas de São Paulo em uma mesma canção. Mas Tiago Cavaco, um dos principais nomes do rock português da atualidade, sempre esteve um pouco à margem dos que o cercaram. Criador da FlorCaveira (www.florcaveira.com), selo independente que desde 1999 ostenta o lema “Religião e Panque Roque” e lançou artistas como B Fachada, Samuel Úria e Pontos Negros, Cavaco é um roqueiro e letrista de mão cheia. Seu último lançamento, “Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa” (2015), é uma grande prova de seu fino trato com a palavra – dom que também exerce todos os domingos ao pregar na Igreja Batista da Lapa, na zona oeste de Lisboa, no qual é pastor.
Dono de títulos provocativos como “Ainda Não É Tempo de Morrer” ou “Sugiro a Minha Sepultura para Capital da Cultura”, Cavaco explica a ligação do rock com a fé de uma maneira simples – talvez com a facilidade de quem já teve de dissertar sobre o tema muitas vezes. “A minha vida é melhor quando ouço o The Clash dizendo que não vai desistir. Com isto, não quero defender que é evidente que o rock pede fé, mas que não será assim tão forçado dizer que o rock pode pedir esperança”, diz ele em entrevista por email, depois de ter se empolgado com a recente reportagem com o pesquisador Tiago Monteiro sobre a música portuguesa.
Para se entender a carreira de Tiago Cavaco, formado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, uma das mais modernas de Portugal, é preciso passar por uma pequena aula de nomes. Desde 1999 ele faz discos com a FlorCaveira, inicialmente com o nome artístico Guillul (que significa “cavaco” em hebraico). “Ficou difícil quando a maioria passou a conhecer o Tiago Guillul sem conhecer o Tiago Cavaco, por volta de 2010, na mesma época em que minhas responsabilidades na igreja começaram a ficar mais sérias”, explica. A partir daí, Cavaco passou a assinar discos como Tiago Lacrau (solo ou ao lado dos Lacraus) ou como o Rapaz do Sul do Céu, deixando seu nome de batismo para o cidadão Cavaco.
Apesar de acreditar que o rock nunca poderia ter nascido no mediterrâneo (“o português é um sujeito sereno e pouco dado à provocação”) e que “em Portugal você se torna um poeta quando ninguém percebe o que você quer dizer”, Cavaco acredita que tudo tem salvação. “Para que aconteça alguma coisa realmente boa com a cultura portuguesa, há muitas outras que primeiro têm de ser mortas e enterradas. Minha fé acha que a salvação pede primeiro a sua morte, e só depois a sua ressurreição”.
Na entrevista a seguir, Cavaco fala sobre “Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa”, lançado com a alcunha de Tiago Lacrau, e dispara farpas para a música portuguesa de ontem e de hoje. “Só vou me interessar mais pela música portuguesa quando uma grande parte dela for destruída pelos seus próprios músicos”, diz. Considerado pela crítica como um dos responsáveis pela volta da canção lusa em português, o criador da FlorCaveira dá de ombros: “Não canto em português para louvar a cultura portuguesa. Canto em português porque sou português. É como ser filho dos meus pais – é um fato e acabou-se”. Então, vamos a isto.
Lacrau, Cavaco ou Guillul? Qual a diferença entre os três Tiagos com o qual você se apresenta ao público?
Era fácil quando apenas uma pequena minoria que conhecia o Tiago Cavaco conhecia o Tiago Guillul. Ficou difícil quando a maioria passou a conhecer o Tiago Guillul sem necessariamente conhecer o Tiago Cavaco. Em 2010, senti que a figura musical Guillul não deveria atrapalhar o cidadão Cavaco, e por isso tentei convergi-los largando o Guillul. Foi na mesma época em que as minhas responsabilidades na igreja começaram a ficar mais sérias. Por outro lado, manter nomes paralelos (como Tiago Lacrau ou Rapaz do Sul do Céu) permitia continuar a fazer discos mais subterrâneos – que já existiam antes do Guillul – ganhar mais notoriedade. A questão dos nomes ainda não está completamente resolvida dentro de mim, mas, no geral, aplico o Lacrau a discos mais rock e o Rapaz do Sul do Céu a discos mais hip-hop. E Guillul que descanse em paz (apesar de, ironicamente, as pessoas do meio musical continuarem usando o nome).
E por que este “Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa?” é assinado com Lacrau?
Porque este é um disco claramente de rock, não muito distante do que faço com os Lacraus.
O Amamos Duvall, teu último projeto, era bastante ousado, cheio de samplers e fusões com o rap. Este “Sou Imortal”, por outro lado, soa bem cru como o melhor do punk-rock. Por que esse retorno a algo mais básico?
Sou um músico de ciclos. Há fases que ando mais excitado com o hip-hop, há outras que ando mais excitado com o rock. Sendo amores que permanecem para sempre, por vezes um pesa mais que outro na hora de gravar um disco novo. O “Amamos Duvall” foi uma oportunidade única de explorar o trânsito entre maquetes gravadas em casa e a sua transformação em estúdio – nesse sentido, é um disco para experimentar coisas. O “Sou Imortal…” é um disco de canções básicas gravadas de um modo básico também, de não pensar tanto em produção, mas mais em registrar rápido.
“Sugiro a Minha Sepultura para Capital da Cultura” é talvez a minha música favorita do disco. Como ela nasceu, e por que ela tem este sentimento tão forte quanto à realidade portuguesa?
Sou um português estrangeirado. Um protestante em Portugal nunca consegue ser português de maneira normal. Os meus sentimentos perante a cultura portuguesa (independentemente dos conceitos que temos sobre ela) são bastante ambíguos: por um lado ela pertence-me, por outro não. Daí que sinta que o melhor que posso fazer pela cultura portuguesa seja enterrá-la. No fundo, tem a ver também com a minha fé cristã, de achar que a salvação de uma coisa pede sempre primeiro a sua morte, e só depois a sua ressurreição. Para que aconteça alguma coisa realmente boa com a cultura portuguesa, há muitas outras que primeiro têm de ser mortas e enterradas. Uma das coisas que me irrita em Portugal é que você se torna um poeta quando ninguém percebe o que você quer dizer. A lógica é que se ele fala difícil, é porque deve ser muito inteligente. Ser poeta em Portugal é mais um estatuto intelectual que um trabalho concreto. Não suporto isso.
Aqui no Brasil, parece-nos curioso às vezes a fusão da religião com o rock proposta pela FlorCaveira - em “Ainda Não é Tempo de Morrer”, por exemplo, você cita o Bad Brains ao lado das epístolas de São Paulo, e faz menção ao Kiss na faixa-título. Como é que esta ligação funciona para você? O rock pode ser a canção da fé?
Para mim o rock tem um lado fundamental de libertação. Não de libertação política, mas de libertação individual. Mesmo quando era criança, sempre reagi ao rock porque sentia que um rocker podia fazer em palco aquilo que na vida normal não poderia fazer. E isso é fantástico. Mas, por outro lado, a partir do momento em que te libertas em palco, também te libertas nos ouvidos dos que te ouvem: elas podem ouvir aquilo que tu queres dizer (mesmo que não concordem contigo). É por isso que acho que o rock poder ser a canção da fé. Hoje as músicas que mais me continuam a comover são as músicas que afirmam esperança contra tudo e contra todos. Ainda nesta manhã, ouvia o The Clash a cantar “I’m not down, I’m not down” e continuo a ter dificuldade em explicar como é que a repetição dessas palavras em música me pode dizer tanto. A minha vida é melhor quando ouço o The Clash dizendo que não vai desistir. Com isto não quero defender que é evidente que o rock pede fé, mas que não será assim tão forçado dizer que o rock pode pedir esperança.
Ainda no tema religioso: imagino que boa parte do teu público e do público da FlorCaveira em Portugal não seja batista ou até mesmo religioso. Como vê a recepção das pessoas às suas mensagens pelo rock?
O português é um sujeito sereno e pouco dado à provocação. O rock nunca poderia nascer no mediterrâneo. A provocação é uma coisa das culturas protestantes onde a palavra realmente importa — as culturas católicas têm uma relação mais distante com a palavra e estão mais virados para a imagem. Logo, as pessoas tomam-me em grande parte como um provocador, como uma personagem estranha. Elas têm dificuldade em integrar no mesmo universo a crença na palavra (do cristianismo protestante) e o uso dessa crença na palavra como um ingrediente para fazer música.
“Prêmio Blitz”, por outro lado, mostra certa insatisfação com a crítica musical – algo que me lembra também “Senna”, dos Pontos Negros. Às vezes você acredita que o público (e especialmente a crítica) não entenda bem o seu trabalho?
A crítica musical em Portugal perpetua a serenidade católico-mediterrânica que é típica daqui. Os críticos portugueses sabem muito melhor procurar figuras que possam servir de mobília à pequena aldeia enquanto poetas do sítio do que ouvir discos e avaliá-los independentemente dos seus atributos sociológicos. A crítica descobriu a FlorCaveira e nunca soube lidar com ela porque procurou na FlorCaveira o que ela nunca foi: uma reprodução em pequena escala da mentalidade nacional. A FlorCaveira está-se nas tintas para criar novos Josés Mários Brancos ou novos Zecas Afonsos. Nós nunca fizemos música por causa deles (mesmo que eles nos possam inspirar aqui e ali). A FlorCaveira grava discos porque gosta de rock, não porque se sente na obrigação de dar mais poetas à cultura portuguesa. We couldn’t care less about that. Os críticos portugueses não percebem isto porque o credo deles é diferente do nosso. Somos de países diferentes, apesar de morarmos no mesmo. O “Prémio Blitz” é uma canção sobre o modo como tu consegues antecipar como a Revista Blitz escolhe discos preferidos, não pelo que eles valem, mas por causa do que esses discos permitem enquanto criam uma nova decoração da aldeia de sempre.
És um pastor batista em um país de católicos, assim como és um fã de punk em um país conservador e foste um religioso numa faculdade de Comunicação. À distância, me parece que sempre esteve um pouco à margem de tudo. Como se sente quanto a isto?
Talvez exista o mito do inadaptado como o herói pós-moderno. Eu não tenho paciência para heróis pós-modernos, mas é um fato que vivo nos lugares sem nunca me sentir completamente em casa neles.
“Sou Imortal…” é também um disco de participações de amigos. Como é que você se juntou a estes compositores no disco – e em especial, ao Tiago Bettencourt e ao Manuel Fúria?
Tenho duas maneiras de fazer discos quanto à presença de amigos: há discos que gravo sozinho, em recolhimento, e há aqueles que gravo chamando os amigos para qualquer coisa. O “Sou Imortal” pertence ao segundo tipo. O Tiago Bettencourt é um gajo incompreendido em Portugal e cuja maldição foi ter um hit enorme (com uma canção chamada “Carta”). Apesar de eu não ser um fã dos assuntos das canções do Tiago (ele escreve quase só sobre encontros e desencontros amorosos), acho que o Tiago é um escritor de canções – e eu também sou. Tenho vindo a ganhar admiração por ele e nos tornamos amigos nos últimos anos. A canção que ele canta comigo é uma canção de amor e achei que ele ficava bem lá. O Manuel Fúria é mais que amigo, é um companheiro – e um irmão na fé. A minha vida não seria a mesma sem o Manel e por isso estou sempre pronto para meter o Manel nos meus discos.
Qual é a percepção que tens da música brasileira? Em uma entrevista ao Scream & Yell anteriormente, falaste sobre os Novos Baianos, e no disco novo, tens uma música que versa sobre Tom Zé. Como funciona isto para ti, afinal?
Amo a música brasileira. Os primeiros brasileiros que amei musicalmente foram os Ratos de Porão. Samplei-os (com a autorização deles!) na canção “Contigo Sou Sempre Agradecido” (modéstia à parte, uma das minhas melhores canções) e tenho super orgulho disso. Depois veio o disco “Caetano e Chico Juntos e ao Vivo”, que mudou a minha maneira de perceber como a música poderia ser. E depois continuo incessantemente a ouvir e a descobrir coisas novas, mesmo quando são antigas. O Tom Zé é um dos meus heróis, seguido pelo Jorge Ben e do Tim Maia. Recentemente descobri o disco “Alucinação”, do Belchior – que maravilha! Viva o Youtube!
Em meados dos anos 2000, quando a FlorCaveira surgiu, o selo foi saudado como um dos principais responsáveis pelos músicos portugueses voltarem a cantar em português. Quase dez anos depois de tudo isto, como vê esse momento? Cantar na língua pátria é tão importante assim?
Como regra, ser português e cantar em inglês me parece algo tolo – haverá uma ou outra exceção que aprecio. Não canto em português para louvar a cultura portuguesa. Canto em português porque sou português – é a minha língua independentemente da relação que tenho com ela. É como ser filho dos meus pais – é um fato e acabou-se. A geração dos anos 80 que fez o rock cantado em português percebia isto melhor que todos os jovens que vieram a seguir. Cantar rock em português não tem a ver com seres embaixador da tua pátria, tem a ver com quereres cantar com o que tens à tua disposição. Portugal te deu a língua, os anglo-saxónicos te deram o ritmo… Pronto! A ironia é que a geração da música portuguesa dos anos 90 mandou a língua às favas, mas quis ser diplomata nacional. Tu tens cantores portugueses que cantam em inglês e que acreditam que o Estado lhes deveria dar subsídios porque estão representando a nação no estrangeiro. A FlorCaveira continua a ser a única seta que a geração dos anos 80 lançou para o futuro – todo o resto (cantando em português ou inglês) perpetua a maldição do poeta enquanto herói nacional. A geração dos cantores de intervenção dos anos 70 nesta matéria só inspirou oportunistas.
Ainda sobre a FlorCaveira: o selo foi responsável por fazer aparecer alguns dos mais interessantes artistas da música pop tuga dos últimos anos, como os Pontos Negros, o B Fachada ou o Samuel Úria, além de servir de exemplo para outras pequenas editoras fonográficas, como a Azáfama ou a Amor Fúria. Como se sente quanto a isto?
É uma coisa excelente. Por exemplo, o Samuel Úria é o artista mais completo de Portugal (porque faz canções e sabe dar show) e os Pontos Negros estão parados, mas o rock que eles fizeram continua a mexer. A Amor Fúria é uma editora irmã nossa e com quem temos trabalhado no último ano. O meu último disco é co-edição FlorCaveira e Amor Fúria e criamos o Clube do Crime Eléctrico, que são concertos mensais em Lisboa no clube de rock Sabotage. A Azáfama é a casa de amigos nossos como o Martim e os Três Por Cento e me sinto elogiado se de alguma maneira associarem o que eles fazem bem ao que nós fazemos bem.
Como vês a atualidade da canção pop portuguesa? Que nomes gostaria de indicar para o ouvinte brasileiro, hoje?
No geral a atualidade da canção pop portuguesa continua a ser uma chatice. Se houve pessoas que acharam que a FlorCaveira ia salvar a música nacional, foi só porque não perceberam que a música que fazemos não pertence a esta nação. É fácil pensar que a FlorCaveira foi uma moda que passou, mas o que passou não foi a FlorCaveira. A FlorCaveira já existia antes das pessoas darem conta da sua existência. O que passou foi o breve momento em que as pessoas deram conta da existência da FlorCaveira. E, num certo sentido, ainda bem. Com isto não quero soar ingrato: gosto do reconhecimento dos outros. Mas o negócio da FlorCaveira é fazer rock e canções que servem para a vida das pessoas fazer mais sentido quando as ouvem. O negócio da música pop portuguesa é, a pretexto das canções, fazer com que a música pop portuguesa faça sentido. Só me vou interessar mais pela música portuguesa quando uma grande parte dela for destruída pelos seus próprios músicos. Para isso, verifiquem o Bruno Morgado, o Filipe da Graça, o Deserto Branco, o Éme, o Cão da Morte, os HMB, os Chibazqui, e todos aqueles que, para fazerem algo novo, destroem alguma coisa.

 

quarta-feira, junho 03, 2015

Rostos desimpedidos

Voltar a andar de transportes tem-me devolvido à condição de pessoa insignificante que sou. Não conduzo o meu caminho, não oiço a minha música, não me sento onde quero. Curiosamente, tem proporcionado que ore o Pai Nosso com muito mais propriedade.

Claro que podia começar a fintar isto com dispositivos digitais. Poderia ir a ouvir música que quero ou até a ver filmes, como hoje é possível fazer no comboio. Mas Deus deu-me uma vergonha muito útil: sinto-me embaraçado quando mexo muito no telemóvel porque ver os rostos das pessoas desconhecidas à minha volta desimpedidos da tecnologia me parece uma bênção que devo aproveitar. É como se o facto de sermos transportados ao mesmo tempo para um lugar semelhante se tornasse uma comunhão espiritual possível.

terça-feira, junho 02, 2015

Ouvir
O valor da pureza sexual não tem a ver com a actividade que não se pratica mas com a personalidade que se é.
O sermão de Domingo passado, sobre o 7º mandamento (Não adulterarás), pode ser ouvido aqui (e o download pode ser feito aqui - clicando em cima de "aqui").


sexta-feira, maio 29, 2015

Comecei a ler os Diários do Kafka
Ele mistura nos Diários textos que viriam a tornar-se autónomos (para contos, por exemplo). Fico com a ideia que Kafka é melhor a escrever fora dos livros do que dentro deles. Só li "O Processo" e há uns anos valentes mas guardei a impressão que era mais acerca da tese que propriamente da trama. Os Diários dão-nos o Kafka da vida normal, o que equilibra bastante o facto de Kafka ser o escritor oficial da vida absurda.


quinta-feira, maio 28, 2015

Três razões para ver e gostar de "O Sétimo Selo" de Ingmar Bergman
Por causa desta personagem: Um cruzado angustiado por ter mais mão na espada que na Bíblia e que pergunta: "Por que é que Deus se esconde numa nuvem de meias-promessas e de milagres invisíveis?"
Por causa desta cena: Um espectáculo de circo é interrompido pela chegada de um grupo de suplicantes (gente que se fustigava para purgar os pecados do povo, que acreditavam estar na origem da peste mortífera daquele tempo).
Por causa desta frase: "Não me arrependo de nada mas estou um bocado cansado."


terça-feira, maio 26, 2015

Ouvir
Não matar não significa que tirar a vida é sempre mau e não significa que tirar a vida é apenas um acto físico.
O sermão de Domingo passado, sobre o sexto mandamento, pode ser ouvido aqui (e o download pode ser feito aqui: http://igrejadalapa.pt/?q=multimedia/podcasts/o-sexto-mandamento).


quinta-feira, maio 21, 2015

O evangélico que vai à bruxa - Uma leitura de "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus", de Héber Campos Jr. - Parte 3 e última

A maior parte dos evangélicos acaba a procurar preto e branco em áreas cinzentas. Esta é convicção do Héber Campos Jr em "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus". Isto significa que um cristão pode ter opções diferentes e igualmente válidas para a escolha do seu curso, para o seu emprego, e por aí fora. E não se deve sentir em causa por não sentir Deus a orientá-lo especificamente para algo nestes domínios. Claro que isto não significa que estas são decisões que se tomam sem poderem ser auxiliadas por boas perguntas prévias. Perguntas simples e úteis como: será que esta escolha é lícita? Será que esta escolha é benéfica para mim? Será que esta escolha é escravizante? Será que esta escolha é útil para outras pessoas? Será que esta escolha glorifica a Deus?

Pensemos, por exemplo, na área profissional. Quando escolho um emprego, dava jeito perguntar: onde posso utilizar melhor os meus dons? Que posição me oferece mais tentações que devo evitar? Que local me oferece melhores condições de crescimento espiritual (e uma igreja saudável)? Agora imaginem se todos os cristãos pensassem em coisas destas na hora de escolherem um emprego. Pelo menos, tínhamos igrejas de mãos mais bem dadas com o trabalho dos seus membros.

Héber Campos Jr. espicaça ainda a nossa carência de sabedoria. Essa sabedoria não é um processo só individual mas comunitário. Muita da incapacidade de discernir a vontade de Deus tem a ver com a nossa imaturidade. Hoje, é fácil viver com modelos pagãos que depois tentamos cristianizar à pressa. Por exemplo, se estudarmos a História percebemos que até muito recentemente as pessoas não encaravam o seu trabalho como algo sempre a subir. Antigamente as pessoas não albergavam a presunção de terem carreiras em ascensão que eram reconhecidas pelos outros (o mundo era muito diferente). Agora, não há nenhum miúdo que não encare os seus sonhos profissionais sem ser nesta perpectiva de superação constante e imparável. Estamos a educar os nosso filhos para só saberem viver como prósperos cidadãos da Wall Street.

Vivemos ansiosos com o assunto da vontade de Deus porque, no fundo, não queremos largar a ideia que tudo tem de dar certo para nós. "Temos uma expectativa pagã de que a vida tem de ser perfeita, de que devemos ter plena satisfação em tudo que fazemos (pág. 87)." É querer o Céu já aqui na terra. Nesse sentido, quanto mais Céu exigimos aqui, mais separados vivemos aqui dele.

Héber bate depois nos métodos perigosos das portas abertas (se a coisa que nos traz dúvidas prosseguir, então é sinal que é segundo a vontade de Deus), dos testes (avaliar a vontade de Deus sugerindo testes através das circunstâncias), dos versículos bíblicos (abrir a Bíblia ao calhas e partir do princípio que a primeira coisa que lemos é o que precisamos), das impressões (os nossos sentidos orientam-nos para a vontade de Deus, geralmente concentrando-nos numa sensação subjectiva de paz). Estes métodos são maus porque alimentam a nossa preguiça espiritual, estimulam a nossa ansiedade, livram-nos da responsabilidade pelas nossas decisões, e nos escravizam no subjectivismo mais rasteiro.

Precisamos de mais meditação profunda na Palavra. Temos de ser criaturas pensantes pesando prós e contras, sem termos este processo como um processo menos santo. Precisamos de ouvir mais conselhos de pessoas experientes e sábias. Precisamos de suspeitar mais do nosso coração (e a oração é fundamental nisto). Precisamos de saber esperar. Num penúltimo capítulo  "Como Tomar Decisões Segundo a Vondate de Deus", Héber sugere uns exercícios para aplicar tudo isto a decisões importantes na nossa vida (como o casamento ou a carreira). "A expectativa de que Deus nos irá passar o trailer do resto das nossas vidas não é ensinada nas Escrituras (pág. 128)." Fujamos então desse filme. E leiamos estes livro que é bem útil.


terça-feira, maio 19, 2015

Ouvir
O louvor é o combustível e o objectivo das missões.
O sermão de Domingo passado, pregado pelo Mark Bustrum, pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, maio 18, 2015

O que aprendi melhor ontem a ouvir um missionário americano

Ontem pregou um missionário na minha igreja. Esse missionário é o Mark Bustrum. A Família Bustrum é americana e tem estado há algum tempo junto de nós, da Igreja da Lapa. Temos sido abençoados por eles e queremos abençoá-los. Os portugueses precisam de toda a ajuda para evangelizarem Portugal. E a Família Bustrum deu a sua vida por essa tarefa. Imaginem o privilégio que é podermos contar com eles.

Uma das coisas que me impressionou quando ouvia o Mark pregar é que ele parte de um princípio que, escandalosamente, nós, os cristãos evangélicos portugueses, não partimos. Que princípio é esse? Respondo dando um exemplo do que o Mark fez. Sempre que o Mark pedia para abrirmos em algum sítio da Bíblia, ele dizia coisas básicas acerca dessa passagem que, à primeira vista, nos poderiam parecer desnecessárias. O Mark pregou sobre o Salmo 67 e foi à pequena introdução que a tradução que ele estava a usar (a Bíblia Para Todos) tinha sobre os Salmos para explicar o que se poderia esperar de lermos os Salmos. O Mark sempre que nos mandava para outro texto bíblico dizia o número da página para quem estava a usar a tradução dele (a Bíblia Para Todos), não assumindo que as pessoas saberiam abrir as Escrituras conhecendo a ordem dos seus livros. Ou seja, o Mark partia do princípio que é normal estar no lugar onde se prega a Bíblia quem não sabe muito dela.

Impressiona-me partir do princípio que é normal estar no lugar onde se prega a Bíblia quem não sabe muito dela, porque eu não fui ensinado a partir desse princípio. Na realidade, mesmo que tenha sido inconsciente, cresci a partir do princípio que só vai ao lugar onde se prega a Bíblia quem já sabe alguma coisa dela. Acontece que este princípio está errado. Muito errado. Porque este é um princípio de um evangelho de mérito e não de um evangelho de graça. Na prática, cresci enquanto cristão a pensar que a igreja é para quem, de alguma maneira, se sente naturalmente a pertencer a ela. Mas a rigor, a igreja nunca foi nem pode ser um lugar de pertença natural. A igreja é um lugar de pertença sobrenatural. Porque só podemos pertencer à igreja por coisas sobrenaturais que Deus fez por nós, e que nós nunca seríamos capazes de fazer por nós próprios. Alguém pode morrer na cruz pelos seus próprios pecados, se não apenas o Senhor Jesus? Alguém pode vencer a morte no seu próprio poder? Alguém cumpriu perfeitamente a lei de Deus? Alguém pode enviar o Espírito Santo por sua livre e espontânea vontade?

De cada vez que vou à igreja sentindo que ela é o lugar onde eu me sinto naturalmente em casa, é como se dissesse que fui eu que morri na cruz, que fui eu que ressuscitei, que fui eu que cumpri a lei de Deus toda, que fui eu que enviei o Espírito. De cada vez que vou à igreja sentindo que ela é o lugar onde eu me sinto naturalmente em casa, eu não somente me armo em Messias como acabo a fechá-la aos pecadores. Aliás, ontem o Mark ajudou-me a perceber que uma das razões porque os evangélicos portugueses não são eficazes a evangelizar é porque neste tipo de coisas íntimas o próprio evangelho ainda não os evangelizou a eles.

Ontem o Mark ajudou-me a perceber que é óbvio que um lugar que prega a Bíblia tem de partir do princípio que as pessoas que lá a estão não têm a obrigação de a conhecer. É suposto que a igreja esteja a atrair pessoas crentes (que, essas sim, têm obrigações crescentes de conhecer a Bíblia) e a atrair pessoas que ainda não crêem, porque o único evangelho verdadeiro que uma igreja tem para pregar é o da graça. Se Jesus não veio para os sãos mas para os doentes (Marcos 2:17), então o que é natural é que as nossas igreja se abram para os que ainda não sabem como é que o medicamento se toma.


quinta-feira, maio 14, 2015

Pôr o campeão de vendas a bater palminhas ao teu rock
Check!

quarta-feira, maio 13, 2015

O evangélico que vai à bruxa - Uma leitura de "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus", de Héber Campos Jr. - Parte 2 
As Escrituras apresentam conceitos diferentes para o que é a "vontade de Deus". Polanus, teólogo de Basileia do Século XVI, dizia que vontade de Deus é uma mas há bifurcações. Como? "Nem sempre o que Deus quer (uma atitude piedosa) é o que Deus quer (planos e propósitos divinos) (pág. 36)." Nesse sentido, uma coisa é o que Deus deseja (vontade preceptiva), outra é aquilo que ele decreta que aconteça (vontade decretiva).

Parece-me impossível lidar com isto sem uma grande dose de humildade. E quando o digo, quero evitar os alçapões clássicos do debate calvinismo versus arminianismo. O que aqui está em causa leva-me a usar mais uma vez a frase do grande Agostinho (passo a vida a usá-la!) quando diz que "está mais de acordo com a natureza de Deus tirar bem do mal, do que não permitir que o mal exista." Claro que Deus quer o bem, mas Deus, numa sabedoria sua que não nos é completamente acessível, decreta/permite (escolha o verbo que preferir que não é este o assunto relevante para o argumento) que aconteçam coisas más para que se cumpra a sua vontade. No fim, esta sua vontade que cumprirá é bem melhor do que o mal que fez parte do processo de a ela chegar.

"Em escolhas  que não ferem a vontade moral de Deus, há uma variedade de opções potencialmente agradáveis a Deus (pág. 41)." Héber está a sabotar o esqueminha gnóstico que sugere que, ou fazemos daquela maneira ultra-específica de Deus, ou a casa vem abaixo e nunca mais a nossa vida será a do plano inicial. Héber também está a dizer aos evangélicos que acreditam em planos bês que não existem planos bês. E não só não existem planos bês como em muitos domínios existem vários planos ás. Esta é uma discussão que dá pano para mangas e que agora não temos como aprofundar. Mas é uma discussão muito necessária.

Voltemos à questão da vontade preceptiva e da vontade decretiva. Um exemplo da vontade preceptiva de Deus é o conteúdo dos Dez Mandamentos (Deus não quer que tenhamos outros deuses além dele, e por aí fora). Já a vontade decretiva é diferente. "A vontade decretiva refere-se aos decretos pelos quais Deus realiza a sua história (pág. 49)." A vontade decretiva é sempre cumprida (o que Deus quer que aconteça, acontece sempre) e é geralmente secreta. Por sua vez a vontade preceptiva frequentemente não é cumprida (Deus dá livre agência para que os seres humanos não lhe obedeçam) e não é secreta (porque a Bíblia nos revela o que agrada a Deus). Não nos compete conhecer a vontade decretiva (por isso a feitiçaria e a adivinhação foram sempre condenadas nas Escrituras). A vontade decretiva de Deus não nos é revelada precisamente para que possamos viver por fé. Quando sabemos o futuro, não vivemos por fé - vivemos por conhecimento.

"Parecemos mais interessados no nosso horóscopo do que na nossa obediência (pág. 59)." Deus quer a piedade de confiarmos nele precisamente quando não sabemos o que nos vai acontecer. Desejar saber o que nos vai acontecer pode ser, nestes termos, uma maldade concreta. "Queremos conhecimento antecipado para não errarmos, termos uma vida livre de tropeços e contratempos (pág. 61)." Como as nossas vidas seriam diferentes se, de cada vez que nos angustiamos com o futuro, nos apercebêssemos que essa angústia tem mais a ver com o nosso desejo de conforto do que com um conforto completamente diferente que é confiar em Deus não sabendo o futuro.

terça-feira, maio 12, 2015

Ouvir
O fundamental não é louvarmos a Deus pelos pais que ele nos deu (apesar de o devermos fazer também). O fundamental é termos pais que nos levam a louvar a Deus.

O sermão de Domingo passado, sobre o 5º Mandamento, pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, maio 11, 2015

O evangélico que vai à bruxa - Uma leitura de "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus", de Héber Campos Jr. - Parte 1

O meio evangélico celebrizou a frase que diz que Deus tem um plano maravilhoso para a nossa vida. "A sério?", perguntam as pessoas. Se não forem pessoas do contra (como eu tendo a ser) podem sair rapidamente em busca de saber que plano é esse. Ou, por outro lado, apurar se existem planos bês.

Em menos de nada, o encanto é buscar freneticamente pelo tal plano escondido. Tudo aquilo que nos parece escarrapachado tem pouco charme, quando comparado com tudo aquilo que nos parece oculto. Até porque diante das coisas que nos parecem visíveis, a nossa cultura gosta de desconfiar. Como os óculos de sol usados pelo herói do grande filme do John Carpenter, "They Live", gostamos de achar que vemos sempre um bocadinho melhor que os outros, além das aparências óbvias. A população em geral vê a televisão do Estado mas eu, que sou esclarecido, vejo os documentários "Toda A Verdade". Os outros papam a versão oficial, mas eu olho além da conspiração global.

Talvez isto pareça deslocado do assunto da vontade de Deus no meio evangélico. Mas Héber Campos Jr. ajuda-nos a perceber o terreno comum no seu livro "Tomando Decisões Segundo a Vontade de Deus". Uma certa obsessão obsessão protestante com o plano divino para a minha vida não está assim tão longe das teorias da conspiração que qualquer ateu pode abraçar. O documentário "Zeitgeist" não é assim tão estranho quando comparado com certas manias das nossas igrejas.

Na prática, muitas das nossas igrejas começam a viver à moda gnóstica. Para que nos sintamos "no centro da vontade de Deus" aparecem personagens diversas que nos prometem fórmulas especiais para finalmente sintonizarmos o querer divino. Daí vem a espiritualidade que espera "receber confirmação do Senhor", e por aí em diante. Passamos a viver todos mais ansiosos e alienados na subjectividade que usamos para captar a tal vontade de Deus. Um dos efeitos mais sinistros desta ansiedade é que ele nos coloca na mãos de charlatães. A razão porque tantos escroques povoam hoje o ambiente evangélico também é porque os evangélicos confundem fé com futurologia.

Héber diz assim: "A visão confusa que evangélicos têm acerca de descobrir a vontade de Deus passa a noção que Deus brinca às escondidas com a sua vontade (pág. 20)". Um dos piores efeitos é que os nossos miolos se descapitalizaram violentamente no processo de conhecer Deus. Quero ser cuidadoso mas sincero ao dizer isto: em boa parte os evangélicos merecem a reputação de gente tonta quando se comportam como místicos de trazer por casa. Héber Campos Júnior volta a ser certeiro, ao colocar o busílis da questão no sítio indicado: "Se Deus nos responsabilizasse por não cumprir uma vontade escondida de nós, Deus seria mau (pág. 22)." Quanto mais nos cansamos a querer descobrir a tal vontade de Deus escondida, mais o envolvemos na nossa tontura.

O desejo de procurarmos uma vontade que não nos é revelada é tóxico. Isto não quer dizer que um cristão não busca por mais nitidez em muitas áreas da sua vida. Mas significa que essa busca não pode socorrer-se de métodos distantes da obediência aos mandamentos bíblicos e de uma vida de oração. "Quem procura essas coisas passa a viver por vista e não por fé (pág. 25)." Esta afirmação é magistral e da mais importantes neste livro. Nadar continuamente na especulação acerca da vontade de Deus pode ser um modo de a rejeitar na rotina previsível do nosso dia-a-dia. Viver por fé não é ter acesso ao guião do nosso futuro - isso é mais próximo da astrologia. Então por que tantos evangélicos vivem com ganas tão semelhantes ao comum cidadão que consulta a bruxa?




quarta-feira, maio 06, 2015

Alô Porto!


terça-feira, maio 05, 2015

Ouvir
 A igreja dos primeiros séculos tinha no Dia do Senhor um emblema. Os cristãos aburguesados do Ocidente estão-se nas tintas para ele.
O (doloroso) sermão de Domingo passado, sobre o 4º Mandamento, pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, maio 04, 2015

Alô, Coimbra!


 "Diário de Preces" de Flannery O'Connor

Se os protestantes tivessem altares em casa, o meu T3 de Nova Oeiras teria certamente um nicho para Santa Flannery O'Connor, patrona dos candidatos a escritores com ânsias desmedidas. Desde 2010 que ela plantou um lugar sólido no meu coração e já não consigo lê-la imparcialmente (a rigor, ninguém lê imparcialmente). Já não leio a Flannery, sigo a Flannery. Ela diz e o meu coração escuta. O que não significa uma infalibilidade porque, por exemplo neste livro, “Diários de Preces” que serve de razão para este texto, custa-me a referência à Senhora do Perpétuo Socorro. Mas pronto, é a Flannery.

Quando comecei a ler “Diário de Preces” comentei para a minha mulher: “tens de ler isto até porque parece mesmo que estamos a ouvir a Ana dos Cabelos Ruivos a orar.” Alguns recordarão que aqui há mais ou menos um ano escrevi como a Ana dos Cabelos Ruivos tinha destronado o Conan, o Rapaz do Futuro no podium dos meus heróis infantis. Pois bem, a Flannery O'Connor que ora em “Diários de Presces” é, nos seus vinte e poucos anos, impressionantemente parecida com a Ana dos Cabelos Ruivos com pouco mais de dez. E isto não é chamar imatura à Flannery mas antes reconhecer que a oração é sempre um processo de permanecermos infantes. Vejam a declaração final do livro: “Hoje demonstrei ser uma glutona - ávida de bolinhos e pensamentos eróticos. Nada mais resta dizer acerca de mim (pág. 49).”

A partir do momento em que Jesus nos ensina a orar dando-nos a obrigação de chamar Pai a Deus, fica tudo dito: o nosso lugar é o das crianças dependentes dos seus progenitores. Talvez o que afaste mais as pessoas da oração não seja tanto o aparente tédio do processo, mas mais uma recusa, ainda que inconsciente, de nos colocarmos numa posição de dependência. Quem gosta de se afirmar como sujeito ao cuidado de terceiros? A verda é que não há oração sem que isso aconteça. Logo, há um pathos infantil que pertence a qualquer prece, pathos esse que neste livro é completamente honrado. Que Flannery pareça acriançada é a melhor garantia que temos que ela está mesmo a orar. “Neste momento sou um queijo, faz de mim uma mística, imediatamente (pág. 48).”

Há uma embirraçãozinha protestante minha com um pormenor do título. “A Prayer Journal” é traduzido como “Diários de Preces” e, de facto, não se pode dizer que seja uma tradução incorrecta. Mas diria que, sendo uma tradução mais tipicamente romana (e Flannery era romana!), não faz justiça a um carácter mais dinâmico que a oração pede, e que creio que é mais bem defendido em países de cultura protestante (e Flannery, sendo romana, era de uma cultura reformada!). “A Prayer Journal” seria num contexto protestante traduzido simplesmente como “Diário de Oração”. “Diário de Preces” acentua mais o lado da coisa que se faz (fiz uma prece), ao passo que “Diário de Oração” acentua mais uma coisa que é feita por necessidade (mais do que fazer uma prece, oro). Um diário de oração não é, neste sentido, muito diferente de um planeamento do que se compra para comer. Orar deve ser menos uma coisa que fazemos, e que caracteriza a nossa lista de actividades, e mais uma coisa da qual dependemos para fazer outra qualquer. O “orai sem cessar” do Apóstolo Paulo em 1 Tessalonicenses 5:17 tem a ver com isto.

Flannery ajuda-nos a perceber que a oração é entrarmos num circuito divino. Como? A determinada altura, Flannery ora assim: “Não Te conheço, meu Deus, porque eu própria Te encubro. Por favor, ajuda-me a arredar-me do caminho. (…) Mesmo ao orarmos, és Tu que tens de orar em nós.” A oração não é fundamentalmente acerca de nós que oramos, mas acerca do Deus a quem oramos. É esta certeza que nos ajuda nos momentos em que não temos vontade para orar. Se a oração fosse acerca da nossa vontade, não só raramente oraríamos, como tínhamos de obliterar a parte “seja feita a Tua vontade” do Pai Nosso.

Num contexto mais romano as pessoas que se emocionam muito com a comunhão com Deus são chamados místicos. Num contexto reformado esta diferenciação soa sempre um bocado artificial. Porque à luz das Escrituras não há eternidade que não seja acerca da comunhão com Deus e, basicamente, ou um cristão deseja Deus ou não é cristão. O céu será um inferno para um cristão pouco excitado com a presença divina. Imaginem passar o resto da vida (que ainda por cima não acaba!) com alguém com quem não temos assim tanto interesse em estar. Por isso uma das necessidades básicas da oração é precisamente reconhecer que o nosso desejo por Deus ainda é demasiado fraco e que precisa de ser acordado. Temos de desejar o desejo por Deus. Flannery ora isto magistralmente: “Concede-me a graça de aguardar com impaciência o momento em que Te verei cara a cara e de não precisar de outro estímulo senão esse para Te adorar.” Eu digo amém!

sexta-feira, maio 01, 2015

Manda vir a época balnear
QUE EU TOU PRONTO!


quinta-feira, abril 30, 2015

Não há nada...
como saltar de uma fotografia fofinha das nossas crianças para uma provocação sobre guardar o Dia do Senhor para o nosso Facebook adormecer. Siga! O que é pior: quebrar o descanso que Deus nos pede ou quebrar o lazer que o mundo nos impõe?

quarta-feira, abril 29, 2015

Quebrar o descanso
A última vez que não guardei o Dia Senhor estando presente no culto foi num Domingo de Agosto de 2009. Ainda por cima por razões musicais, as piores tendo em conta o impulso idólatra que sinto desde os meus 12, 13 anos de fazer do rock'n'roll a minha vida. Neste caso a FlorCaveira tocou no Festival Sudoeste (eu, o Sami, o Coração e os Pontos) na noite de Sábado e o regresso, sendo pela noite fora, colocou-me de volta a casa numa hora em que o culto da minha igreja já tinha acontecido. Podia pelo menos ter arranjado outro a que assistir mas, todo rebentado da noitada, acabei por não o fazer. É óbvio que pequei desonrando o Dia do Senhor.
Há outras coisas menos óbvias para mim. Esta questão do Dia do Senhor tem vindo a ganhar espaço na consciência da minha família e por isso cada vez estou mais certo de algumas coisas que não devo fazer. Mas isso não significa que já tenha uma posição firme quanto à correcta observância deste dia. O meu cunhado Tiago Oliveira, que vai mais firme e convicto à minha frente neste assunto, tem-me falado de algumas das suas decisões e eu ainda não estou no mesmo lugar. Até porque preciso de estudar o assunto mais profundamente nas Escrituras.
No próximo Domingo vou estar a pregar sobre o Quarto Mandamento, que é precisamente este de guardar o Sábado. Não vou partilhar com a minha igreja certezas que não tenho, mas vou certamente partilhar aquelas que tenho a partir da Palavra. Não deixa de ser curioso pregar o sermão sobre o 4º Mandamento num Domingo em que muitos usam o fim-de-semana prolongado para o quebrar. Durante os próximos dias planeio ir semeando umas provocações proféticas acerca do assunto. Andamos todos demasiado relaxados acerca da importância do descanso.


terça-feira, abril 28, 2015

Rude Boys Outta Jail


















E quem não percebe a gravata dentro das calças não percebe o ska.
Ouvir
Quanto mais santificamos o nome de Deus, mais olhos temos para o que é realmente bom à nossa volta.
O sermão de Domingo passado, sobre o Terceiro Mandamento, pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, abril 24, 2015

E mais agenda


















Amanhã há XNC no Príncipe Real mas daqui a 15 dias há barulho mais a norte. E estou disponível para pregar o evangelho em algum sítio na zona do Porto na manhã de Sábado.
Agenda em cima da hora


Aguardela entre a espada e a parede

[Escrevi este texto para a newsletter da Flur aqui há um par de semanas.]

Vivo ao lado de um Centro Comercial que já foi importante. Vivo em Oeiras e esse Centro Comercial chama-se Palmeiras. Antes do advento dos multiplexes, estes sítios eram um luxo. O Palmeiras é parente do Fonte Nova, para dar um exemplo menos suburbano. Ora, no Palmeiras há todo o tipo de iniciativas que visem impedir a sua decadência (valeria a pena recuperar o seu cinema, por exemplo). Uma dessas iniciativas é uma feira do livro que, volta e meia, ocupa a sua praça central.
Essa feira do livro tem preços imbatíveis. Andei a oferecer Flannerys O'Connors e Evelyns Waughs aos meus amigos à custa disso. E também dá para comprar outros livros que, se não fosse um preço estupidamente baixo, provavelmente nunca compraria. Comprei "Morrer na Praia do Futuro" sobre o crime macabro de Luis Militão Guerreiro que levou a vida de seis empresários portugueses (que livro!). Mas divago. Queria chegar a outro lugar: "Esta Vida de Marinheiro" de Ricardo Alexandre, sobre a vida de João Aguardela.
Na minha memória há um concerto no Parque Central da Amadora, algures entre 1994 e 1995, em que os Sitiados provocaram um mosh pit medonho que juntava brancos, pretos, metálicos, xungaria, skins e punks, entre outros. Lembro-me que eu e o meu amigo Emanuel Conde aperfeiçoámos uma técnica de sobreviver na molhada que era abraçarmo-nos e usarmos as pernas como hélices que impedissem aproximações mais hostis. Funcionava. E funcionava sobretudo tendo em conta que um concerto de Sitiados era selvagem. Era gloriosamente selvagem.
Desde essa altura que passei a admirar João Aguardela. Desde essa altura e desde que a minha irmã gémea comprou o "E Agora?", o segundo álbum dos Sitiados. Os Sitiados ajudaram a criar em mim uma trégua entre o meu punk militante da adolescência e a convicção que o futuro tinha de vir de mãos dadas com a música da nossa tradição (nunca teria gravado o meu primeiro disco a solo, "Fados Para O Apocalipse Contra A Babilónia", sem isso). Fiquei triste quando Deus chamou tão cedo o João Aguardela em 2007. Como um bom fã, gostava de o ter conhecido para lhe dizer da importância  que ele teve para mim (uma vez vi-o com a Sandra, sua companheira de música e de vida, na Loja do Cidadão mas faltou-me a coragem).
O Aguardela tinha um credo que também confesso. Esse credo sugere que a música é tão mais interessante quanto stressada entre a espada e a parede. O que é que isto quer dizer? O coração do Aguardela não fervia pelos músicos habilidosos e que transmitem domínio da sua arte. O Aguardela dizia mesmo que a música portuguesa a partir dos anos 90 era desinteressante porque os músicos portugueses aprenderam a tocar tão bem como os músicos estrangeiros (e, consequentemente, a imitá-los na perfeição). Passaram a ser músicos aburguesados.
Se olharmos para o Aguardela, vemos que o seu credo não era só teoria. Os Sitiados nunca quiseram aperfeiçoar o seu trad-rock para se colocarem como versão local dos Pogues. Fizeram esquisitices com a electrónica, borrifaram-se para novos êxitos, acabaram quando acharam que não tinham mais nada de interessante para dar. A seguir, o Aguardela meteu-se no Megafone (uma coisa que, nunca me tendo dado muita pica, ainda assim me inspirou - o Aguardela fez uma coisa que também fiz que era deixar às escondidas os meus discos nas prateleiras de fado da Fnac quando não os conseguíamos distribuir comercialmente). O Aguardela ainda foi à Linha da Frente e à Naifa, coisas a que não prestei muita atenção mas que foram contra-a-corrente num contexto global de conformação e tédio.
Uma música entre a espada e a parede é uma música que não finge que antes de nós não veio ninguém. É uma música que nos aperta porque nos permite criatividade a partir de um princípio que não estamos sozinhos. É uma música que, se calhar, antes de celebrar génios, celebra entalados. Celebra músicos que andam às voltas com o antigo e com o novo, sem isenções espácio-temporais - somos daqui e estamos aqui agora. Nesse sentido, uma música entre a espada e a parede é, paradoxalmente, uma música mais comunitária. É com essa paz que cumprimento todos os músicos e amantes de música - shalom!


quinta-feira, abril 23, 2015

Correr em direcção à descompostura
Qual é a pior coisa que se pode chamar a uma senhora? Pois, essa mesmo. Prostituta. Prostituta é a versão longa mas consta que João Ferreira de Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia toda para o português (quase toda, porque houve um restinho que ele não conseguiu traduzir), usou mesmo a versão curta da palavra.
Se um pregador estivesse a pregar a uma congregação e estabelecesse uma comparação entre a infidelidade dessa congregação e um acto de prostituição, a coisa ia ficar complicada. No entanto, é isso que Ezequiel faz com frequência, quando equivale o estado espiritual de Israel com o de uma mulher da má vida.
Os capítulos 16 e 23 são aqueles que mais duros me parecem. São textos bíblicos de digestão difícil e em que as palavras são usadas para, usando uma expressão da minha mulher, espetar a faca fundo e rodá-la. Se alguém quiser ficar horrorizado com os dispositivos literários da Bíblia, escusa de ir ao fogo e enxofre do Apocalipse. Basta estes dois textos de Ezequiel.
A coisa boa é que a Bíblia é assim mesmo porque não nos trata como incapacitados. E, mesmo que seja difícil o embate com a comparação, o que nos choca mais nem é chamar prostituta à Dona Jerusalém. É, no fim de tudo isto, entender que Deus continua interessado nela. A ira de Deus é grande? Certamente. Mas o seu amor é maior ainda.
O livro de Ezequiel também serve para nos fazer entender que, quando fugimos da descompostura que Deus nos quer dar, passamos ao lado de compreender a dimensão do seu amor. Os filhos bem educados não são aqueles que nunca viram os seus pais zangados. São aqueles que perceberam que a zanga dos pais existe em função do amor que eles nos têm.


quarta-feira, abril 22, 2015

Nas bancas
Já está nas bancas a Revista Ler onde escrevo acerca das semelhanças entre o Rei Salomão e Mark Twain no uso do cinismo.

O papel que Salomão desempenha na Bíblia não será muito diferente que o papel que Twain desempenhava num país com uma tendência persistente em ver sonhos mesmo no meio dos piores pesadelos. Salomão era sábio porque sabia entender que a beleza da existência não é só simplicidade. A grandeza de Twain era, por outro lado, acreditar pouco mas não fazer disso uma desculpa para não ver o que é bonito. Há uma equivalência entre os dois que pode ser um grande modelo para o uso apropriado do cinismo.


terça-feira, abril 21, 2015

Ouvir
Os bezerros de ouro que construímos na nossa vida não são um desejo de interrompermos a viagem para a Terra Prometida. Os bezerros de ouro que construímos na nossa vida são um desejo de chegarmos à Terra Prometida já.
O sermão de Domingo passado, sobre o Segundo Mandamento, pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).