sexta-feira, fevereiro 12, 2016

A minha mulher a pôr tudo em pratos limpos no meu teledisco novo

A última vez que assinei um disco como Tiago Guillul foi há meia dúzia de anos. O tempo passa depressa e a passagem do tempo é também um dos assuntos deste disco novo chamado "Bairro Janeiro". O "Bairro Janeiro" é onde cresci, na fronteira entre a Amadora e Queluz.

O disco "Bairro Janeiro" foi gravado na Igreja da Lapa pelo Luís Severo, no Verão de 2015. A ideia foi captar os sons como eles são, sem efeitos e com a acústica do salão principal a cumprir o seu papel. Também por causa disso, o "Bairro Janeiro" soa mais como os discos antigos da FlorCaveira, sem medo da baixa fidelidade. Não fazia sentido gravar canções que falam do passado, mostrando vergonha dele.

"Bairro Janeiro" é o disco nº 50 da FlorCaveira, que criámos em 1999. O primeiro single chama-se "True Believer" e o teledisco faz jus à política de artesanato da editora - a manufactura vai dos pratos pintados pela mãe à máquina de escrever da filha, passando pela realização tosca do pai. A crença na religião e punk rock persiste.


quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Hoje

Não precisam de se dar ao trabalho de ir porque já está esgotado. Mas podem sempre lembrar-se de mim nas vossas orações. E ler os Diários do Kafka.

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Ouvir

A Igreja não é um extra para quem já se salvou. A Igreja é aquilo para o qual fomos salvos. Um cristão que desvaloriza a igreja é uma contradição.

O sermão de Domingo passado, que pergunta "Cristianismo sem Igreja?", pode ser ouvido aqui.


terça-feira, fevereiro 09, 2016

A quadra da quadra

Qualquer cristão decente
esfrega as mãos de contente
quando se prevê temporal
para os dias de Carnaval.

Lembrado pelo Francisco Mendes da Silva.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Um comunista à antiga

Provavelmente é exagero meu mas fico com a ideia que os comunistas noutro tempo eram mais sinceros. E, se assim for, Slavoj Žižek é um homem de outro tempo, tempo esse em que um comunista podia ter orgulho do seu comunismo. Žižek escreve "Problemas no Paraíso" (um título fantástico!) e tem a coragem de terminá-lo dizendo: "Não estivemos já todos nesta situação nas últimas décadas, esquecendo-nos do nome «comunismo» para designar o derradeiro horizonte das nossas lutas emancipatórias? Chegou a altura de nos recordarmos totalmente desta palavra." Os comunistas que, varridos por aquilo que eles mesmos provocaram, acabaram a fazer das palavras uma matéria nada estável, deviam como Žižek voltar a acreditar no que dizem - e deviam voltar a dizer aquilo em que acreditam. Um dos méritos de "Problemas no Paraíso" é essa vontade de clareza no seu comunismo, ainda que clareza dificilmente possa ser um termo para descrever a maneira de Zizek escrever.

Žižek aplica-se explicando que o comunismo não é só um lugar político onde se quer chegar, o comunismo é também a maneira de chegar a esse lugar. Diria que, nesta relação entre produto final e processo, se é complicado olhar para o comunismo como o sítio porreiro no fim da viagem, mais complicado é ainda perceber como é que o comunismo nos transporta até ele. E, no entanto, é a este jogo de "onde temos de chegar é ali!" e "a maneira de chegar ali é esta!" que Žižek tem dedicado a sua carreira. Acrescentaria que, em termos palpáveis, as respostas dadas por Žižek são bastante inconvincentes, mas não há como negar que isso não tem detido a sua popularidade. O que nos ensina o grau lucrativo de um negócio improvável: o futuro dos comunistas é uma espécie de turismo espacial em que se reconhece que ainda não há hotéis em Marte mas se garante que eles são muito melhores que os da Terra.

Para que o comunismo mantenha este precioso equilíbrio entre abrir o apetite sem saber cozinhar é preciso, claro está, denegrir o monopólio da digestão. Comer para existir? Isso é para neandertais. Por isso, o comunismo fez uma caminhada filosófica lenta mas firme, durante o Século XX, de abolir a realidade como um argumento razoável. A realidade é o último argumento das pessoas que não sabem argumentar, e por isso Žižek frequentemente torna o absurdo como a única solução possível. Mais ainda: só o absurdo pode ser a solução quando o possível foi interdito na iluminação intelectual comunista. Um exemplo mais doméstico do fenómeno são as investidas do nosso António Guerreiro, agora no Público, contra a "realidade", essa categoria burguesa.

Exemplifiquemos olhando para como Žižek fala do problema das dívidas económicas. "Na crise corrente (...) uma das reacções (...) é recorrer a uma directriz do senso comum: «As dívidas têm de ser pagas!» (...) - e isto, claro está, é a pior escolha que se pode fazer, uma vez que deste modo, se é imediatamente apanhado numa espiral descendente. (...) No plano material directo do totalitarismo social, as dívidas são, de algum modo, irrelevantes, até mesmo inexistentes, já que a humanidade consome o que produz - por definição, não é possível consumir mais (págs. 46 e 47)." Com um esforço assinalável, Žižek, ao revelar a maquinaria arbitrária do sistemas económicos contemporâneos, quer abolir a razoabilidade da ideia de se pagar o que se deve. Devemos conceder-lhe que, de facto, há arbitrariedades assinaláveis na economia que temos (cheias da injustiça natural de qualquer sistema "real" - perdoem-me o uso inevitável do termo), mas o que mais nos impressiona não é que Žižek seja contra injustiças económicas, é que a pretexto de ser contra elas, acabe a destruir o próprio conceito de justiça.

Como é que o comunismo consegue este feito, de tão preocupado que está com as injustiças económicas terminar num lugar onde o conceito de justiça foi à viola? Não sei explicar completamente, mas sei que o ódio comunista aos seus velhos inimigos participa do processo. Ainda neste campo da dívida, Žižek é certeiro a apontar a origem do problema. E este é um dos grandes méritos do bom Slavoj (e dos comunistas no geral): a insistência numa leitura permanentemente ideológica da existência. Não é raro ouvirmos vozes cândidas nos nossos debates políticos que acusam os seus opositores de terem objectivos ideológicos, como se ter objectivos ideológicos fosse uma coisa terrível em política. Os comunistas sabem, e com razão, que tudo é ideologia, desde que acordamos pela manhã e colocamos os pés no chão. Por isso, Žižek lembra na questão da dívida que a culpa está no seu mais antigo adversário chamado cristianismo. E ele tem razão. Žižek quer ultrapassar os tradicionais conceitos de justiça (como o de ser justo alguém que está a dever, pagar o que deve) atirando-se à religião da justificação.

"O capitalismo actual é assombrado por um fantasma: o fantasma da dívida. (...) O cristianismo aperfeiçoou este mecanismo: o seu Deus todo-poderoso quis uma dívida que fosse infinita; ao mesmo tempo, o sentimento de culpa pelo seu não pagamento foi interiorizado. (...) A dívida, com o seu domínio sobre comportamentos passados e futuros e com o seu alcance moral, foi uma ferramenta governamental formidável. O que restou foi que fosse secularizada (págs. 63 e 65)." Žižek acerta quando por trás dos problemas económicos encontra teorias teológicas. Enquanto cristão, confesso que esta é uma das coisas que admiro em todo o bom comunista. O bom comunista vê-me como um alvo a abater e não como alguém a tolerar. A esquerda pasteurizada que sobreviveu aos rigores dos invernos pós-muro, deixando cair o termo comunismo, perdeu esta saudável compreensão de que tudo acaba em Deus: crendo nele ou eliminando-o. Por cada socialista cristão que conheço, tenho saudades de um vermelho que me trate com o respeito mínimo de me reconheça como um inimigo. Žižek sabe que o fundamento último das questões económicas reside na religião. Haja quem mostre respeito por Marx.

Mas também é flagrantemente neste chão que Žižek se desequilibra. Se Žižek se desembaraçasse da religião de uma vez por todas, quem o poderia acusar de incoerência? O problema está em que Žižek só a larga selectivamente. O comunismo malvadiza o capitalismo para tornar todas as pessoas moralmente inimputáveis. Como assim? O comunismo atribui ao capitalismo o pior dos defeitos mas nunca aplica a mesma lógica aos seres humanos. Os seres humanos são sempre um resultado do seu ambiente, já o capitalismo congrega todos os vícios satânicos. Quantos mais o comunismo prega puritanamente contra os pecados do sistema económico, mais garante que nenhum ser humano pode ser avaliado em termos tão pobremente binários como os das categorias de bem e mal. Essa é a razão porque em mais de duzentas páginas se pode sentir que Žižek se irrita com os desvarios do capital, mas nem quando fala de Hitler se sente qualquer emoção palpável. Žižek, como comunista, tem uma teoria económica espessa baseada numa finíssima antropologia - o mal está sempre nas coisas e nunca nas pessoas (precisamente o contrário do que Jesus ensinou). Fica uma religião pela metade.

Eu podia ir mais fundo nisto mas ia tornar-me ainda mais chato. Ia explicar que o comunismo desantropologiza as pessoas porque não passa de mais uma das muitas sequelas gnósticas que a história nos deu. Mas para isso tinha de vos explicar que o gnosticismo é o parasita do cristianismo, que em vez de nos ligar com Deus nos liga connosco próprios, mesmo que às custas de uma noção rarefeita de divindade, e vocês não estão para aqui virados. Tinha de vos explicar que o gnosticismo sempre nos deu a imanência como antídoto à árdua transcendência cristã, citando frases de Žižek como "o comunismo permanece o horizonte, o único horizonte, a partir do qual é possível não só julgar como analisar o que se passa na actualidade - uma espécie de medida imanente do que correu mal (pág. 43)", mas para isso vocês iam ficar com a cabeça cheia e é aborrecido. No fundo, tinha de vos revelar que por trás de cada iluminado comunista há um velho gnóstico mal-disposto, ansioso por provar aos outros que o cristianismo, ao acreditar num mundo de espíritos e de carne, desmancha o prazer de quem gosta de desmanchar prazeres aos outros - uma definição muito pessoal e breve que tenho para comigo acerca do que é o comunismo, a partir do temperamento dos comunistas.

Depois iam ficar com a ideia errada de que eu não gosto do Žižek, o que não é verdade. Há tanta coisa divertida no Zizek que eu continuo a lê-lo, depois destes anos todos. É certo que estes "Problemas no Paraíso" padecem de um raciocínio mais ferido que o dos outros livros, porque ao menos nos outros livros o Žižek não se propunha avaliar os problemas económicos com alguma seriedade. Por causa do contexto mais técnico deste volume, fica mais à mostra a insuficiência lógica do Slavoj; a tentativa de contar anedotas seguidas como se isso descesse uma grelha mágica para a compreensão dos factos (isto para não falar de piadas porcas e ofensivas que pertencerem hoje a um comunista só demonstra o estado a que o comunismo pode chegar, como o velho jarreta da aldeia ansioso em apalpar meninas da escola); a frase de efeito como elástico para saltos epistemológicos; a crença na revolução como uma romântica re-humanização do mundo (é coerente que depois de ter despersonalizado as pessoas, o comunismo tente reanimá-las à custa da revolução); o desprezo indisfarçável que sente pela democracia (quem nos dera ver o mesmo nível sinceridade na nossa extrema esquerda); a constante re-interpretação do conceito de liberdade (com méritos assinaláveis na caricatura no consumidor); ou mesmo a convicção de que precisamos de "Senhores" como directores do progresso revolucionário (o comunismo sempre precisou tanto de super-homens como o fascismo).

No entanto, prefiro terminar dizendo que continuo a achar graça ao esticar da corda do Žižek. Claro que esta é uma característica que tem sempre algum eco num cristão protestante porque os cristãos protestantes funcionam também à base de esticar a corda: não basta dizer a verdade, é preciso dizê-la como se fosse boa demais para ser verdade (e, nesse sentido, é preciso dizer a verdade como se fosse mentira). Por isso há frases de Žižek que compensam a desonestidade intelectual de todo o livro (não é por acaso que o aforista católico Chesterton continua dos autores mais citados por ele). "O verdadeiro triunfo não é a vitória sobre o inimigo; a verdadeira vitória acontece quando o próprio inimigo começa a utilizar a nossa linguagem, de modo que as nossas ideias construam a fundação de todo o campo (pág. 240)." O melhor em ler Žižek é rirmo-nos da maneira como ele fala, não é falar como ele.



terça-feira, fevereiro 02, 2016

Ouvir

Não somos uma igreja de festa instantânea porque Jesus não foi de festa instantânea. Nicodemos está numa de "siga para bingo" e Jesus "alto e pára o baile" – ou te fazes outro Nicodemos ou comigo não te safas. O nosso estilo de igreja também deve ser em função da substância do que cremos. Ser igreja não é fácil nem é suposto ser. Ser cristão não é fácil nem é suposto ser.

O sermão de Domingo passado, chamado "O descaramento de dizer que se tem uma relação pessoal com Deus", pode ser ouvido aqui.


quinta-feira, janeiro 28, 2016

A bilha e a fonte (ou, somos todos judeus e não sabíamos)

As pessoas vivem dentro da Bíblia e não sabem. Como freudianos funcionais que somos, não nos apercebemos como alguns dos conceitos que organizam a nossa maneira de olhar para a existência vêm da Bíblia. O nosso problema é que, como lemos pouco a Bíblia, damo-nos ao luxo de julgar que a nossa maneira de olhar para a vida tem pouco a ver com ela. Esta é uma ignorância trágica.

Ao ler o teólogo holandês do Século XX chamado Geerhardus Vos, apercebi-me disto mais uma vez. Vos está a explicar o modo como Deus começa a revelar-se aos homens no início do Velho Testamento. Logo no início deste processo, um dos modos preferidos de Deus é revelar-se através dos sonhos. E é interessante porque Deus escolhe revelar-se através dos sonhos porque quando o homem dorme, fica mais solto da sua identidade acordada e, consequentemente, mais facilmente pode receber uma mensagem da parte de Deus. A lógica é: quanto mais longe o homem fique de si mesmo, mais perto pode ficar de Deus - e os sonhos oferecem uma ocasião privilegiada para este jogo de proximidades e distâncias.

É curioso porque Freud, sendo judeu (neste caso, um judeu não-crente) aplica esta mesma lógica mas ao contrário. Como Freud já não crê no Deus da religião a que pertence etnicamente, não vai sugerir que o sonho é bom porque ficamos mais longe de nós próprios e então podemos ficar mais perto de Deus. Como já não tem Deus como conteúdo, Freud vai ficar apenas com a embalagem. Ou seja, Freud vai defender que de facto há algo de melhor em sonhar, mas um melhor que já não é reconhecido pela proximidade a Deus, antes um melhor que é reconhecido pela proximidade a nós próprios. Todo o jogo de decifrações psíquicas de Freud tem a ver com ele achar que é nos sonhos que nos conhecemos verdadeiramente. Freud, como judeu sem fé, continua a apreciar os dispositivos apreciados por Deus (neste caso, os sonhos), simplesmente aprecia-os agora sem chegar à meta final que é apreciar o Deus que usa esses dispositivos.

Por outro lado, quando compreendemos isto também podemos apreciar o génio do pensamento judaico que é uma vigorosa antropologia negativa. As Escrituras judaicas não padecem do mal contemporâneo da obsessão pela auto-estima. Quando as Escrituras nos dizem que Deus usa os sonhos para se revelar, porque nos sonhos é mais fácil Deus comunicar tendo em conta que estamos mais longe de nós próprios, há um recado pouco simpático que nos está a ser deixado. Esse recado diz: não confies demasiado na tua mente porque muitas vezes a tua mente atrapalha na hora de compreenderes Deus. Isto não significa um suicídio intelectual (até porque é preciso pensar bem para perceber que não nos salvamos a pensar), mas o convite a acreditarmos que a solução é sempre depender de Deus em lugar de depender de nós próprios.

Get it, freudianos? Vão à fonte e não fiquem apenas na bilha.



terça-feira, janeiro 26, 2016

Disco novo da FlorCaveira aqui

O C de Crochê mata-me as saudades de a FC editar um disco feito sem preocupações com a ortodoxia cristã (acho que o último disco pagão tinha sido o de Diabo na Cruz há meia dúzia de anos) e dos Sublime. Versão física em breve!


Ouvir

A coisa mais essencial que Jesus diz sobre a sua vida foi a coisa que o fez ser condenado à morte: ele, ao ser um com o Pai, é Deus. Percebemos isto? Uma afirmação de um calibre destes não dá vontade aos homens de dizer “viva Jesus!” Dá vontade de dizer “morra Jesus” - foi o que aconteceu. É por isso que Jesus ser Deus é o pior para o nosso orgulho.

O sermão de Domingo passado, chamado "Rachando Jesus Cristo ao meio", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Trinta e seis minutos e quarenta e cinco segundos de perfeição

À custa de querer ir ao assunto da identidade, preguei na semana passada o sermão mais difícil de compreender da minha carreira pastoral. Foram pelo menos uns bons vinte minutos em que o avião esteve lá em cima, com a maioria da congregação a raciocinar com mais dificuldade que um alpinista nos Himalaias sem garrafa de oxigénio. Agradeço a Deus pelas pessoas da minha igreja, que têm paciência comigo mesmo nos momentos em que posso ser mesmo complicado. A piada é que em grande parte o sermão era acerca de devermos ser pessoas mais simples.

O plano para próximo Domingo é não levantar tanto voo da passagem bíblica, mantendo a abstracção em níveis praticáveis para um Domingo de manhã. Já viram esta coisa engraçada que acontece aos cristãos? Ao passo que no Ocidente uma parte das pessoas usa o Domingo para viver em morte cerebral, os cristãos devem dar o melhor dos seus miolos ao louvor a Deus. O Deus cristão tem uma exigência que está ao nível do seu sentido de humor: usem o Domingo para descansar mas descansem exercitando os vossos neurónios na compreensão da Palavra. Parece fácil.

No próximo Domingo planeio voltar a martelar na questão da identidade, mas sobretudo a partir da identidade de Jesus. No próximo Domingo planeio demonstrar que há muitos tipos de simpatia por Jesus que são tudo menos cristianismo. Uma das ideias centrais será: Jesus pode inspirar-te em muita coisa mas isso não significa que ele é o teu Deus. Jesus pode ser uma inspiração para ti sem que seja o teu Deus. Uma coisa é termos inspirações que recebemos de pessoas, outra coisa é termos uma divindade que aceitamos a partir delas. E a única pessoas de quem poderemos aceitar divindade é de Jesus Cristo. Get it?

Tendo dito isto, deixo-vos trinta e seis minutos e quarenta e cinco segundos de perfeição do Tim Keller. Vejam, por favor. Ele faz bem tudo aquilo que fiz mal no Domingo passado. O Tim Keller é mesmo uma grande inspiração para mim, sabem? Mas, sabem, ele não é o meu Deus. Posso inspirar-me com o Tim Keller mas isso não me salva. A única pessoa que me salva é Jesus Cristo. É nisto que planeio martelar no Domingo. Oram por mim?

quinta-feira, janeiro 21, 2016

Uma pequena dose semanal da sabedoria de João Calvino

Calvino alerta-nos para não vivermos esta vida como a refeição principal mas como o aperitivo. Isto permite-nos que vivamos com um sentido de que o que é bom aqui não nos enche a barriga, mas já acorda o nosso paladar para a outra vida que, essa sim, será o prato completo. Vivemos com um misto de sobriedade (esta vida está cheia de coisas más) e de alegria (esta vida mostra o que na outra será melhor).

Mais no blogue só dedicado à leitura das Institutas (aqui).

quarta-feira, janeiro 20, 2016

E agora, para me armar em bom

Mostro-vos o cartaz de um evento onde vou ser mais bem tratado do que mereço.




Ganhar o dia

Também é para isto que trabalho: para ler textos como este do Filipe D'Avillez (clicar aqui). É certo que o Filipe é um amigo e por isso me dedica uma paciência especial. Mas este é o meu ecumenismo: agente dá porrada séria nos outros porque partimos do princípio que a fé deles é tão séria como a nossa. O amor de que a Bíblia fala não é uma pieguice, e por isso, mesmo tendo em conta as divergências que continuam em cima da mesa, o texto do Filipe é uma prova da unidade combativa entre cristãos.

terça-feira, janeiro 19, 2016

Ouvir

O que devemos fazer com as fracturas da nossa identidade é o mesmo que o endemoninhado fez: levá-las até Cristo em confissão.

O sermão de Domingo passado, chamado "Na Bíblia as pessoas fascinantes são os endemoninhados", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, janeiro 18, 2016

Se os judeus não precisam de ser evangelizados Jesus na cruz teve o que merecia

Como espectador atento que tento ser do Bispo de Roma, vejam bem que acabei a ler italiano (nunca tinha lido um texto em italiano). Isso quer dizer que a minha interpretação de uma língua que não conheço pode correr muito mal e poderá também querer dizer que percebi tudo errado do que li. Mas sejam pacientes comigo.

Por que acabei de ler um texto em italiano? Porque o Papa visitou ontem, Domingo 17 de Janeiro, uma sinagoga em Roma, onde partilhou um breve discurso (o tal texto em italiano que acabei de ler no site do Vaticano).

O mais importante desta comunicação do Papa talvez não esteja nessa comunicação em si, mas no que ela significa em relação aos recentes desenvolvimentos no diálogo hebraico-católico (não sei se este termo é correcto, mas uso-o livremente). Num documento de 15 de Dezembro de 2015 a Santa Sé afirma que "da confissão cristã que só pode haver um caminho para a salvação [através da fé em Cristo], não segue de maneira nenhuma (...) que os judeus estão excluídos da salvação de Deus porque não acreditam em Jesus Cristo como o Messas de Israel e Filho de Deus". Isto porque, segundo o Vaticano, seria uma incorrecta interpretação da irrevocabilidade da promessa de Deus aos judeus afirmada na Carta de Paulo aos Romanos. A solução? "Que os judeus são participantes da salvação de Deus é teologicamente inquestionável, mas como isso é possível sem confessar Cristo explicitamente, é e permanece um mistério divino insondável". Os leitores sabem que é nestas ocasiões que o meu detector de treta apita aos berros despertando a minha vontade de malhar nos modos selectivos como Roma transsubstancia irracionalidades em mistérios. Mas como o meu detector de treta pode estar avariado (esta é que é uma verdadeira prova de humildade epistemológica para mim, e não cartadas mistificadoras) e como quero ser justo com os meus interlocutores, vou tentar comportar-me (e também não me meter na discussão exegética da Carta aos Romanos).

Qual é o resultado disto na prática? "Em termos concretos a Igreja Católica não conduz nem apoia qualquer missão institucional específica dirigida aos judeus". Ou seja, os judeus não precisam de ser evangelizados para confessarem explicitamente que Cristo é o salvador porque Deus não quebrou a velha promessa que fez com eles. Mais à frente, afirma-se algo interessante: "Os cristãos devem colocar a sua confiança em Deus, que cumprirá o seu plano universal de salvação nos modos que apenas ele conhece, pois eles são testemunhas de Cristo, mas não são eles que têm de implementar a salvação da humanidade" - e já voltarei a esta afirmação porque acho que ela contradiz os resultados práticos da teoria romana quando à questão hebraica.

Ora, tendo dito tudo isto, quero apontar alguns reconhecimentos positivos no discurso do Papa ontem na sinagoga em Roma, onde demonstrou concretamente o espírito do tal documento de diálogo hebraico-católico, e depois apontar reservas negativas a esse espírito em modo de rajada de perguntas (a parte rude do texto, porque Lutero tinha razão em ser bruto). Os reconhecimentos primeiro:

1. O Papa faz bem em apontar a raiz comum entre judaísmo e cristianismo. O cristianismo nunca é melhor quando esquece o Velho Testamento, antes pelo contrário.

2. É saudável que o Papa sublinhe o papel comum que cristãos católicos e judeus devem ter nas cidades que habitam juntos. Reconheço que em Lisboa tenho de me ir meter mais com os judeus para eventualmente trabalharmos mais e melhor juntos, sempre que isso melhore a nossa cidade.

3. O Papa tem razão quando diz que o diálogo hebraico-católico deve ser aprofundado. Há muito muito muito trabalhinho para fazer na leitura dos nossos textos sagrados.

4. É muito bom ouvir o Papa a falar tão coloquialmente na antiga aliança entre Deus e os judeus. Nestas alturas, quase que me envergonho das igrejas evangélicas que tantas vezes passam ao lado de reflectir sobre a importância do pacto entre Deus e Israel.

5. O Papa acerta quando afirma a Escritura comum aos judeus e aos cristãos (neste caso, o Velho Testamento) oferece uma ecologia integral para a cura da criação. Numa altura em que muitos cristãos se encantam com o panteísmo pop das religiões orientais, é fundamental percebermos no Velho Testamento a importância de a história do Universo ser a de um criador que cria criaturas e criação.

As reservas negativas em modo bruto de rajadas de perguntas:

1. Se os judeus não precisam de ser evangelizados para confessar que Jesus é o salvador porque supostamente permanecem dentro da aliança com Deus, qual a diferença entre Jesus ser um mero rabi do judaísmo e ser o próprio Deus? Se os judeus podem ser salvos sem acreditar explicitamente em Cristo, quer dizer que a alguns Deus escolheu salvar sem que eles precisem de reconhecer a divindade do seu filho? Se me posso salvar sem reconhecer a divindade do Filho, então o que significa na prática Jesus ser Deus? Se é possível salvar-me sem acreditar que Jesus é Deus, então por que razão é errado que os judeus tenham querido crucificar Cristo? Se no fim de contas os judeus se podem salvar sem reconhecer Jesus como Messias, qual o grande problema de Jesus ter sido crucificado pelos judeus precisamente sob a acusação que era uma blasfémia afirmar-se um com Deus Pai? Qual a crise da cruz? Até que ponto é que não evangelizar os judeus é tornar a crucificação como aquilo que Jesus merecia?

2. Estes cuidados com os judeus resultam de uma reflexão teológica profunda sobre a Palavra ou sobre sentimentos de culpa que temos a partir do Holocausto? Até que ponto é que reconhecermos nos judeus uma excepção para a evangelização acaba numa discriminação ao contrário? Até que ponto é que livrar pessoas da necessidade de se converterem pelo seu muito sofrimento é promovermos uma salvação pelo sofrimento? Até que ponto é que Roma se deixa atrair por uma salvação pelo sofrimento como uma recaída na questão entre a fé e as obras? Se as pessoas se salvarem por muito sofrerem, isso quer dizer que se salvam por serem como Cristo? Salvamo-nos por sofrermos como Cristo ou salvamo-nos por Cristo? O que é que Roma acaba a pregar no fim, uma salvação pelo sofrimento ou uma salvação por Cristo? Se eu não sofrer muito, posso salvar-me como? Através de Cristo? E como? O que é que Cristo faz para que pessoas que, como eu, não sofram muito, possam ser salvas?

3. Se o Vaticano reconhece que não cabe aos cristãos "implementarem a salvação da humanidade", por que parece o Vaticano tão ansioso por afirmar a salvação de tanta gente? Até que ponto é que os cristãos assegurarem a salvação a pessoas que não se identificam com a salvação cristã é um acto de violência? Respeitamos a liberdade dos não-cristãos ao afirmar que eles se salvarão através de credos que não confessam? Se tantos se salvam através de algo no qual não acreditam aqui, até que ponto é que a salvação e a perdição não são apenas abstracções? Afinal, qual a ideia mais concreta que Roma tem acerca de quem se salva e de quem se perde? Será que podemos pura e simplesmente largar estas categorias de salvação e perdição e vivermos todos uma vida baseada em consensos muito alargados acerca da moralidade? Se sim, qual a pertinência da evangelização?

Este tipo de respostas dava-me jeito porque sou um pastor, e como já disse antes, pode ser que ande a viver uma vida completamente absurda azucrinando as pessoas a pregar-lhes sobre Jesus Cristo para uma salvação que no fudo no fundo pode ser uma abstracção do caraças. Não levem a mal o português, mas é que acabei de ler italiano.

P.S. É fácil continuar a bater no ceguinho, sobretudo depois da interacção com alguns comentários a este texto. Não quero bater mais mas acho que devo adicionar apenas mais duas notas.
A primeira: é uma tolice dizer que Paulo nos dá caminho hermenêutico para não termos de pregar o evangelho aos judeus, quando Paulo deu a sua vida para pregar também aos judeus. É certo que Paulo é chamado o apóstolo aos gentios. Mas quem folheia as páginas da Bíblia sabe que o método missionário dele era começar pelos judeus e só então, após eles terem recusado, seguir para pregar aos gentios. Será que Paulo quando escreve aos Romanos se arrependeu da sua carreira evangelística aos seus compatriotas e apercebeu-se que o tinha andado a fazer (ele e todos os apóstolos!)  era uma valente perda de tempo?

A segunda: Roma insiste a dizer que é a igreja da tradição. Mas o que é que isto significa na prática quando Roma descarta uma tradição interpretativa de dois mil anos para no auge da sua magisterial auto-confiança dizer que agora é que a conclusão alcançada é a certa? Como Ross Douthat (que é católico romano!) dizia há uns tempos aos bispos progressistas dos Estados Unidos, que raio de ligação à tradição é a de Roma se ela estiver sempre a partir do princípio que o catolicismo está constantemente no ano zero de interpretação da Palavra? O que me liga à comunhão dos santos de dois mil anos se a interpretação da igreja pode recompor de acordo com as novidades exegéticas da estação crenças que eles mantiveram inalteradas? A tradição romana é uma coisa muito difícil de compreender e este Papa é o pior dos meus tempos de vida.


sexta-feira, janeiro 15, 2016

Onde divago sobre a razão porque a cabeleireira do teu bairro não acredita em Cristo e sobre o título do próximo sermão

Nesta nova série de sermões, esticamos a corda no que diz respeito aos títulos deles. Talvez o de próximo Domingo seja o mais arriscado até aqui na minha carreira pastoral. Chama-se: "Na Bíblias as pessoas fascinantes são os endemoninhados".

Em jeito de trailer, explico um pouco do espírito da coisa. Basicamente, a coisa mais difícil de engolir no cristianismo é aceitar que Jesus, tendo sido um homem, era também Deus. Todas as outras dificuldades que as pessoas possam ter com a religião cristã, vêm daqui (seja o sobrenatural, aceitar a Bíblia como inspirada divinamente, o Céu e o Inferno, e por aí fora). Ora, a resistência que nós temos a esta ideia que Jesus possa ser Deus não se vê apenas nos argumentos intelectuais que contrapomos - vê-se sobretudo no modo como olhamos para nós próprios. Ou seja, se eu tiver acerca de mim a ideia que não sou pecador, não preciso de um salvador para coisa nenhuma (porque só precisa de salvação quem for mau e estiver a caminho de ser condenado). Logo, uma das manobras modernas para rejeitar a divindade de Cristo não é necessariamente combatê-la intelectualmente, é criar uma realidade emocional alternativa para nós.

Essa realidade emocional alternativa é olhar-me ao espelho e, apesar de reconhecer que volta e meia faço asneira, achar que, no fundo no fundo, a asneira que eu faço não é completamente responsabilidade minha. Então é responsabilidade de quem? Muito resumidamente, é responsabilidade do meu ambiente, é responsabilidade dos outros e, se quisermos e chegando mais longe, também é responsabilidade do facto de em mim não haver propriamente uma personalidade clara mas sobretudo a construção muito muito muito fluída de uma personalidade. Mais. Posso chegar a um ponto em que a fluidez da personalidade é tal que já não acredito propriamente em personalidade ou sequer em responsabilidade.

Em grande parte dos casos, hoje as pessoas no Ocidente não rejeitam Jesus como salvador através de argumentos. Se o fizessem, era sinal que ainda acreditavam em argumentos e num sentido para as coisas. Não. As pessoas rejeitam Jesus como salvador porque rejeitam um sentido para as coisas, e porque rejeitam a ideia de que uma pessoa tenha de ter uma personalidade, e porque rejeitam a ideia de responsabilidade, e, basicamente, porque, filosoficamente falando, não têm assim tanta certeza que a existência exista. Isto pode parecer filosofia alemã mas até a cabeleireira do teu bairro não tem fé em Cristo por causa disto.

Agora que deambulei um pouco acerca do sermão de próximo Domingo e deixei muitas pontas soltas, gostava que orassem por mim para pregá-lo convenientemente e, quem sabe, e esticando novamente a corda, o viessem ouvir.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Os setenta anos de John Piper

O pastor John Piper fez na segunda-feira passada 70 anos. Como todos os que me costumam ler sabem, o John Piper é um herói. Por isso, decidi imitar uma coisa que o Kevin DeYoung fez, outro pastor americano, e escolher os meus sete livros preferidos do John Piper (ainda não li assim tantos dele, mas seguramente mais de uma dezena). Tal como o DeYoung diz, e como já antes tinha notado, o Piper é mais um pregador que escreve que propriamente um escritor que prega. Mas talvez precisamente por causa disso, os seus livros têm uma força de púlpito notável que faz falta à literatura. O Piper tanto me leva às lágrimas como a dar socos na atmosfera. Seguem sete livros dele comemorando cada década que completou.

1. Desiring God

Este é o livro fundamental, na medida em que aqui é apresentada a tese central da vida do John Piper: Deus é mais glorificado quanto mais nos alegramos nele. Este é um livro que faz o que toda a boa teologia deve fazer: pega numa palavra mal usada pelo mundo, rouba-a para a fé e por causa disso dá um sentido transgressor ao acto de confiar em Deus. That's how we, protestants, roll. Neste caso, Piper fez isso com a palavra hedonismo. Todo o cristão é um hedonista porque ele foi criado por Deus para ter o prazer máximo em louvar o seu Criador.

2. God is the Gospel

Este foi o primeiro livro que li do John Piper e que me ensinou algo tão básico e que infelizmente nós, cristãos, passamos a vida a esquecer. Nós não acreditamos em Deus para ter outras coisas além dele. Nós acreditamos em Deus para ter o próprio Deus, que é a posse das posses. Deus é o evangelho. O evangelho não serve para te dar o que queres, o evangelho serve para quereres o que já tens em Deus.

3. Brothers, we are not professionals

Neste livro o Piper rebenta com as falinhas mansas que infelizmente se instalaram na chamada carreira pastoral. O Piper não rejeita o profissionalismo no sentido de trabalharmos bem para Deus. O que o Piper explica é que ser pastor não é primariamente uma profissão - é uma vocação. É neste livro que ele escreve: "no gore, no grace, no glory", recordando que se não tivermos o sangue do calvário, não temos a graça e não temos a glória. Quase que soquei a atmosfera quando li isto!

4. Think

A tese é o que o título diz: usa a cabeça, cristão burro! Deus criou-te com miolos por isso de cada vez que te armas em lorpa, não fazes nada a favor dele, só a favor da tua burrice narcisista. O Think deve ser lido mas a versão de capa dura também pode servir para bater com força nas cabeças dos lorpas que andam pelas nossas igrejas.

5. Finally Alive

Aqui John Piper explica que a existência de cristãos é a prova da existência de milagres. Porque só pode haver cristãos se neles tiver acontecido uma invasão sobrenatural do Espírito Santo. Neste livro Piper restitui às doutrinas da justificação e da santificação a medida de miraculoso sem a qual elas não sobrevivem.

6. The Pastor as Scholar and the Scholar as Pastor (com D.A. Carson)

Num certo sentido, este livro tem a ver com o Think. Este livro nasce de uma conferência partilhada com D.A. Carson (que também assina o livro), em que Piper sublinha: ser pastor é ser um homem da palavra estudada séria e academicamente. Este livro funciona como alho no focinho de vampiros que querem pregar sem terem de se esfalfar no texto.

7. A Sweet & Bitter Providence

A agridoce história de Rute, no Velho Testamento serve para afirmarmos sem medos que o pior do mundo não declara a incompetência de Deus, antes pelo contrário. A história de Rute serve para dizer que o sofrimento existe e é terrível. Mas Deus usa-o para dele tirar bons propósitos. Deus ganha mesmo quando é o Diabo que está a jogar em casa.

terça-feira, janeiro 12, 2016

Ouvir

Esta nova série de sermões insinua que a mania que temos que conhecemos Jesus é maior que o conhecimento real dele. Logo, estes sermões querem fazer Jesus maior e fazer de nós mais pequenos - será que vamos aguentar?

O primeiro deles, pregado no Domingo passado, pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Agenda

O plano ambicioso para pôr os evangélicos a falar sobre o que estão na cidade a fazer bem e o que estão a fazer mal é este:

- Porto, 5 de Fevereiro às 20h30 na Igreja Baptista de Cedofeita, com Abel Pêgo, João Saramago, Helena Vilaça e ainda um nome a confirmar.

- Coimbra, 6 de Fevereiro às 10h30 na Igreja Baptista de Coimbra, com Marcos Amazonas e outros a confirmar.

- Faro, 12 de Fevereiro na Igreja Baptista de Faro às 20h30 com Neilson Amorim, Joel Bueche Lopes, Ruben Martins e ainda um nome a confirmar.

- Évora, 13 de Fevereiro às na Assembleia de Deus de Évora com Josué da Ponte e outros nomes a confirmar.

Faltar como?




quarta-feira, janeiro 06, 2016

Ouvir

Gostamos quando o ano chega ao fim com respostas. Talvez a melhor maneira seja que no seu começo lhe façamos boas perguntas.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, janeiro 04, 2016

Ano Novo

Cidades novas para ter fé. Fiquem sintonizados!

sexta-feira, janeiro 01, 2016

Quatro Malhas

Em seis minutos para termos o Seis em Dois Mil e Dez convenientemente arrebitado.


quarta-feira, dezembro 30, 2015

Cinco razões porque Paulo Portas sair da liderança do CDS é uma boa notícia

[Aqui há uns dias explicava da tragédia que é ler alguns pastores espalharem-se ao comprido em comentários políticos descuidados. Espero não fazer o mesmo agora. Mas, precisamente por Paulo Portas estar na área política onde o meu voto tem acontecido, julgo pertinente este comentário.]

1. Porque Paulo Portas nunca foi conservador

A explicação mais erudita deste ponto entrego-a ao Henrique Raposo, que assim bem explicou no Expresso online: "a própria fonte de Portas era pós-moderna, imprecisa, escorregadia.  No fundo, ele foi um jovem do seu tempo. Apesar de leituras conservadoras do baú francês, Portas foi varrido pela «dispositivo pós-moderno», isto é, pela fuga às grandes narrativas, pela recusa ideológica da coerência, pela desistência da busca da verdade (quer no sentido objectivo, quer no sentido moral)."

2. Porque Paulo Portas significa continuar a confundir conservadorismo com o fenómeno MEC

Este ponto é consequente do primeiro, bem explicado pelo Henrique. Aquilo que passou pela suposta nova direita nos últimos trinta anos é uma salganhada burguesa coquete que foi tolerada ao Miguel Esteves Cardoso porque eticamente não se distingue da esquerda niilista (a cartilha coca, cópula e calão). Para ser conservador não chega gostar de comprar roupa em Londres ou citar os Smiths em vez dos Clash.

3. Porque Paulo Portas mostrou-se um homem sem palavra

Decidi não votar mais CDS desde a crise do "irrevogável". Um homem não pode voltar atrás e explicar que mudou de ideias? Certamente que sim. Mas Paulo Portas nunca voltou atrás e explicou que mudou de ideias, simplesmente saltou para a frente como se a sua palavra não valesse nada. Num partido conservador a palavra dada tem de valer a própria vida. Para desconstruções semânticas temos a esquerda.

4. Porque Paulo Portas é demasiado talentoso no seu jogo para conseguir deixar substituto à altura

Não há nenhum beto mais novo que Portas capaz de disfarçar cinismo em conservadorismo com o talento dele. Digamos que é uma excelente desvantagem da geração de noventa. A geração de noventa sabe ser cínica, claro. Mas já não passou por nenhum fenómeno anglo-pop que a fizesse enamorar-se de aparências conservadoras (o britpop dos Oasis e dos Blur é demasiado classe média comparado com o genuíno snobismo da década anterior).

5. Porque vai fazer com que os que sejam realmente conservadores no CDS tenham de começar a trabalhar a sério

Eu não tenho problemas pelo CDS ser um partido de betos. Eu tenho problemas pelo CDS ser um partido sem coragem. As vozes tidas por esclarecidas são as que pedem para ir à casa de banho sempre que o assunto exige clareza moral. Divórcio, aborto, o chamado casamento homossexual, adopção por ditos casais homossexuais, e podia continuar. Ou o CDS começa a querer conservar alguma coisa concreta ou restringe ao nosso capitalismo coxo a sua única causa - mas para isso já temos o PSD.

terça-feira, dezembro 29, 2015

Homenagear o Sami para homenagear o Lemmy

Uma das melhores canções dos Ramones não é dos Ramones. Chama-se "R.A.M.O.N.E.S." e foi feita pelo Lemmy dos Motorhead para os Ramones. Ora, Deus decidiu levar o Lemmy, por isso apropria-se uma homenagem ao Sami para homenagear o Lemmy. Esta canção é antiga e faz parte do disco "O Outono Melancólico das Borboletas Borbulhas" de 2003 (FlorCaveira 004) mas esta nova gravação foi feita em Agosto com o meu amigo Bruno Mira, para aquilo que será um disco novo das Borboletas em 2016. Não há cá baterias reais ou amplificadores. É tudo ligado directo ao computador para não haver tretas (a única falha é que o Isaque do Sami é Isaac, mas pronto, isto é punk rock).


Ouvir

É quando olhamos para os mais pequenos que descobrimos a nossa verdadeira pequenez diante de Deus. Na Bíblia existem tantas crianças espalhadas nas histórias para que os grandes não fiquem assim tão seguros da sua maturidade.

O sermão de Domingo passado, chamado "Ter olhos nas crianças para os ter em todas as pessoas", pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, dezembro 28, 2015

O ABC de 2015 da Voz do Deserto

A. A de ausência

Durante um quarto de século Deus deu-me uma vida em que não se ausentou ninguém da minha família próxima. Coisa espantosa! O meu avô materno partiu em 1989 e só em 2015 voltou a partir alguém tão importante para mim como ele era, neste caso a minha Tia Rute (filha dele). Sou um menino mimado e mal habituado. Agora que a minha Tia partiu consigo perceber melhor os buracos abertos pelo luto e começo a perceber melhor a ideia de chegar uma altura em que ir embora daqui é ainda mais atraente, porque também nos vamos juntar aos que já nos deixaram (partindo do princípio que eles partilham da fé em Cristo, claro). Também reconheço que é preciso que pessoas importantes morram para darmos mais importância às pessoas vivas. No fundo, lições arcaicas que só um homenzinho demasiado concentrado em si mesmo como eu consegue atrasar a sua aprendizagem. O mais importante não é mesmo que a minha Tia soubesse o amor que lhe tenho (isso seria um narcisismo disfarçado de bom sentimento). O mais importante é o que entretanto já está a acontecer numa escala de perfeição - a minha Tia já está na presença do Deus que a ama e que nesse amor lhe supre todas as necessidades. Mas que poderia ter sido melhor a transmitir o amor que lhe tenho, podia.

B. B de blogue

O blogue do ano para mim é do Peter Leithart na First Things. Ele é erudito biblicamente como poucos, reformado até à medula, católico de primeira. É dos que batalha mais no catolicismo reformado. Lê os sagrados e os pagãos e quanto bota faladura, arrasa. É uma inspiração.

C. C de concertos dados

Uma das coisas de 2015 foi voltar a tocar mais ao vivo. Talvez mais do que tocar ao vivo, foi querer tocar mais ao vivo. Nos últimos cinco anos a minha relação entre gravar canções e tocá-las foi um bocado complicada. Agora, por um motivo que não consigo explicar totalmente, parece-me bem tocar as canções que tenho vindo a gravar. Parece-me quase um compromisso necessário, tendo em conta o trabalho de compor canções e editá-las. Isso traz uma ironia: tenho aproveitado ocasiões em que o que está em causa é um livro meu para meter canções minhas. Ou seja, é como se depois de ter havido uma espécie de aceitação crítica da minha música ela tivesse voltado ao seu lugar de origem. Esse lugar é o da tolerância - as pessoas, mais que apreciarem a minha música, toleram-na. Paradoxalmente isso faz com que volte a querer acreditar mais nela, sobretudo em termos de querer dizer as palavras das canções que escrevo. Na prática, é como se tivesse um descaramento renovado para, independentemente de ser um fraco intérprete, querer dizer às pessoas o que as minhas canções dizem. Vejam bem que ando a cantar de guitarrinha acústica e harmónica - se me dissessem isso há uns anos iria rir. Tendo dito isto, foram mais que uma dúzia, as vezes em que impus as minhas cantigas a um grupo reunido de pessoas. Foram 14 vezes, entre concertos, tv e apresentações de livros.

D. D de divórcios

Deus detesta o divórcio porque o divórcio é desprezar o valor da palavra dada. Como fomos todos criados pela palavra, de cada vez que há um divórcio é sinal que alguém se levanta contra o poder através do qual foi criado. O divórcio é, por isso, uma não-vida. A pessoa que promete e que depois manda a promessa para o lixo é uma pessoa que se mandou a si mesma para o lixo. Neste 2015 o que mais me custou neste domínio dos divórcios nem foi propriamente a existência deles (quem é que em 2015 ainda se espanta com novos divórcios?). O que mais me custou em 2015 é que a existência do divórcio faça existir tão pouca indignação nos cristãos. Justifico esta minha opinião. Infelizmente vi divórcios a acontecer entre cristãos evangélicos no espaço de menos de um ano, sinal de que o crime compensa e que ninguém se vai dar ao trabalho de, pelo menos, tentar fazer alguma vida negra ao criminoso. O que quero dizer com isto é que não acho que a condenação cristã da violência implique que os cristãos tratem pacificamente alguém que através do divórcio agride outras pessoas. Os cristãos continuam a confundir sofrimento pela fé com indiferença à injustiça. Se muitos dos que abandonam os seus cônjuges e suas famílias soubessem que iam ter de enfrentar a força daqueles que se colocam ao lado dos ofendidos, talvez pensassem duas vezes antes de o fazer. Enquanto as igrejas tratarem os que abandonam as suas famílias como se esse fosse um direito que lhes assiste sem que haja consequências, acabam na prática a dizer que o divórcio não é assim tão mau. Podem crer que o evangelho exige honra cigana no matrimónio mas hoje somos todos meninos finos que não querem sujar as mãos.

E. E de editora

A editora musical que fiz com uns amigos em 99 chama-se FlorCaveira. Este foi um dos anos mais pobres no que diz respeito a edição de discos da FlorCaveira. Na prática houve apenas uma edição em Janeiro (o meu “Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa”). Mas, se querem que vos diga, creio que este foi dos anos mais importantes da FlorCaveira. Planeia-se que 2016 venha cheio em edições: o do Sami, o do Morgado, o do C de Croché, o dos Velhos, o das Borboletas Borbulhas, o meu a solo, possivelmente um de Lacraus, etc. Só aqui estão mais que meia-dúzia. Acontece que acho que nada viria no futuro se 2015 não tivesse sido de resistência pura e dura. O Filipe Marques e o Manel Fúria são homens que estiveram a aguentar o barco este ano. Devo-lhes muito (o segredo desta resistência da FlorCaveira também teve dois nomes: Amor Fúria).

F. F de Florença

É só para arranjar maneira de falar de Dante quando o D já está ocupado. Li a Divina Comédia e fiquei convicto de que sem cristianismo o Ocidente não tem assim tanto para mostrar. O melhor da Comédia é o que dá menos vontade de rir - o Inferno. O Purgatório começa a engonhar e depois o Paraíso é pura Maryland com pouco ou quase nada de Escrituras. Feito esse grande desconto, é obrigatório.

G. G de gato fedorento

Gato fedorento? O que há de novo para dizer do gato fedorento? Neste caso não é tanto sobre o gato fedorento mas sobre o Ricardo Araújo Pereira em particular. Em 2015 estive duas vezes com o RAP e tenho a dizer duas coisas: 1) o RAP é uma cabeça que não pára e 2) o RAP é dos pouco ateus inteligentes que conheço (isto ou quer dizer que há poucos ateus inteligentes ou que eu conheço demasiado poucos). Acho que noutro tempo e noutra época o talento do RAP poderia ser visto como uma doença mental. A capacidade que ele tem de na hora e no momento sacar uma perspectiva sobre as coisas que nos vai fazer rir às lágrimas é realmente patológica. Neste caso, na conversa que tive com ele e com o João Miguel Tavares e o Pedro Mexia na Lapa, é incrível como reagia ao que ia acontecendo sem qualquer guião. É único. Por outro lado, numa conversa que tivemos na Faculdade de Letras, sobre as questões de fé, fiquei surpreendido como foi imediatamente para as questões mais difíceis de engolir no cristianismo. O RAP tem sido muito gentil quando fala sobre religião. Vale a pena ouvi-lo quando ele vai directamente à jugular. Não há cá tretas humanistas ou rebuçados politicamente correctos. O RAP quando rejeita o cristianismo, fá-lo como deve ser. É pena que, sendo tão inteligente, não perceba o absurdo do ateísmo. Se Deus quiser, continuaremos a encontrar-nos para debater o assunto.

H. H de hospital e de prisão

Outra desculpa manhosa para não falar de hospital mas de prisão, sendo que o p já está ocupado. A experiência de visitar uma prisão tem-me aberto os olhos para coisas novas e outras, que teoricamente já sabia mas que se tornam mais claras. Estamos todos muito precocemente convencidos da nossa liberdade. Olhamos para a nossa liberdade como um direito que nos assiste e como uma coisa que supostamente nasce connosco. Somos uns patetas. Ir à prisão faz-nos olhar para a liberdade como uma bênção e como um valor moral (qualquer dia vou chatear-vos com esta conversa, desenvolvendo a minha crença na liberdade como o resultado de uma razão moral e não como resultado de um relativismo moral - isto porque até os tipos de direita que para aí andam acreditam na liberdade a partir de um relativismo moral e não a partir de uma razão moral, porque a razão moral dá-lhes muito trabalhinho para fazer numa época que se quer burguesa e ideologicamente pastelosa).

I. I de Isilda Pegado

Acabei por não conseguir organizar-me de modo a escrever sobre o assassínio público de carácter que foi feito à Isilda Pegado, por ocasião do Verão, quando deu a cara pela I.L.C. que colocava restrições a uma política de aborto público que tenho como imoral. A verdade é que neste país os opositores ao aborto até agradecem quando a questão volta a cair, que é para pouparem a chatice de terem consequências práticas por aquilo em que acreditam. Somos todos uns heróis quando acreditamos em coisas que não nos fazem sofrer, não é? A ironia é que a Isilda, que sofreu o que poucas pessoas sofreram nos últimos tempos, acabou a colocar pedras nas mãos do seus carrascos quando veio para uma entrevista na Sábado assegurar os leitores que não admitia que lhe colocassem na testa um rótulo de conservadora. Isilda: de pouco vale usar os braços para bater no adversário quando já concedeu que seja ele a escrever-lhe dicionário. Desde quando é que ser conservador é uma coisa má? Ok, já sei. Ser conservador é para muitos uma coisa má desde que os não-conservadores assim o disseram. Mas sabe uma coisa, Isilda? Eu estou-me nas tintas para o que os não-conservadores dizem e a Isilda, que já deu provas de lhes dar mais na cabeça que eu, também deveria estar.

J. J de justiça

Não foi feita muita justiça à memória de alguns dos heróis baptistas que partiram este ano. Partiu a Tia Nieta e senti falta da presença do Estado Maior da denominação. Claro que me podem dizer que os baptistas não têm Estado Maior e eu tenho de engolir e calar porque, de certa maneira, é verdade. Mas o que quero dizer é que a Bíblia nos fala de diferença nos galardões que receberemos na eternidade (e Jesus no sermão do monte bem enfatiza que sejamos ávidos de o desejar) e por isso não fazermos diferença nas celebrações fúnebres é dar a entender que nada vale a pena. Se os nossos heróis, que deram a vida dedicados a pregar o evangelho, são celebrados fria e relaxadamente pela nossa denominação, é sinal que a nossa denominação se está nas tintas para vidas dedicadas a pregar o evangelho.

K. K de Karavana

Ok, é terrível usar a letra k para substituir c de caravana mas vocês são pacientes. A minha mulher faz-me surpresas que não mereço. Ainda por cima porque sou mau a reagir a surpresas. Passei anos a fantasiar com auto-caravanas e a minha mulher alugou uma no meu aniversário. Não nego que no momento que ela me revelou a prenda quase que me arrependi de passar a vida a falar em sonhos, pensando no trabalho que ia ter de tratar de uma auto-caravana (sou o tipo de homem que não é nada desenrascado para a tarefa viril de dominar um bicho destes). Há dois momentos memoráveis em 2015 que é adormecer no meio de uma tempestade em Setúbal, recolhido com toda a família na auto-caravana e, na noite seguinte, adormecer em frente ao Tejo, novamente recolhido com toda a família na auto-caravana. Melhor que adormecer na auto-caravana, só mesmo adormecer na auto-caravana com a minha mulher. E ficamos por aqui porque este blogue ainda não disse adeus ao pudor.

L. L de listas

Vamos às listas!

Discos:

1. “Planos para o futuro”, Chibazqui
Mark my words: Chibazqui é a melhor banda de Portugal. Não preciso de justificar o lugar que os Feromona têm no meu coração mas tenho de reconhecer que Chibazqui ainda é melhor que Feromona. Lancem-me à fogueira mas é a verdade. O disco dos Chibazqui é perfeito. Não há nenhum exagero da minha parte. Tenho de ver se consigo escrever um texto decente totalmente dedicado à excelência dos Chibazqui.

2. “A bordo do Apolo 70”, Capitães da Areia
Se houvesse mais discos assim em Portugal não teríamos um país tão enfadonho. Só um aviso à banda: não digam que não se levam a sério e que fizeram o disco nessa onda porque isso é parte do problema e não da solução. As pessoas tolerarem os Capitães como piada pós-moderna não é um prémio mas um castigo. Tenham brio do vosso trabalho e não cedam ao cinismo gauche burguês da nossa crítica musical.

3. “Carrie and Lowell”, Sufjan Stevens
Finalmente um disco em que o Sufjan faz o que não deveria deixar de fazer.

4. “Ones and Sixes”, Low
Ser um verdadeiro fã dos Low é saber que o talento deles é melhor apreciado na medida inversa em que as pessoas lhes prestam atenção.

5. “Cara D'Anjo”, Luís Severo
Ok, ainda há neste disco muita fachadice que tem de dar lugar a mais Luís, mas não há como subtrair-lhe qualidade.

Filmes 2015

- “The Drop”, de Michaël R. Roskam. Tom Hardy é o homem que interessa e filmes dirigidos a citações de Dante deviam ser o futuro do cinema.

- “A Viagem de Arlo”, de Peter Sohn. Os homens são cães e os dinossauros cowboys neste Western inesperado, simples e comovente.

- “Barreiro Rocks”, de Eduardo Morais. O Barreiro é a nossa rock city e o Eduardo soube filmar o facto em menos de uma hora, num documento cinematográfico obrigatório.

- “Foxcatcher”, de Bennett Miller. Um filme em que as lutas cá fora são um pretexto para as lutas cá dentro.

- “A Most Violent Year”, de J. C. Chandor. Por que é que só agora começámos a entender os filmes de mafiosos a partir das mulheres?
- “The Gift”, de Joel Edgerton. Um filme cheio de nós a sair direitinho.

- “The Revenant”, de Alejandro Iñárritu. DiCaprio é uma fera atacada por uma fera neste filme feroz (com Tom Hardy!). Esqueçam o Tarantino que esta é a verdadeira coboiada de neve que interessa.
- “Mad Max”, de George Miller. O feminismo machista do filme é uma treta mas a diversão continua.

- “Black Sea”, de Kevin Macdonald. É quando fica careca e deslavado que consigo descobrir o brilho do Jude Law.

Livros editados em Portugal em 2015:

- “História do Futuro” do Padre António Vieira.

Escolher um livro inacabado escrito há mais de 300 anos para a melhor edição de 2015 é revelador. Talvez porque olhar para a frente, no que diz respeito à nossa literatura, ainda pede proximidade ao passado. E a tese apocalíptico-redentora acerca do nosso país do Padre António Vieira continua a não ser ultrapassada por qualquer concorrente que tenha vindo nos quatro séculos seguintes.

- “Aleluia” de Bruno Vieira Amaral

O Bruno fintou a Fundação Francisco Manuel dos Santos e não lhe deu um ensaio mas uma reportagem esticada. Também não escreveu em “Aleluia” uma sociologia religiosa mas o relato de dois crentes de hoje, que desafiam os preconceitos prontos de um país com medo da fé.

- “O que fazes aí fechada?” de Filipe Avillez

Parece que estou a tentar cumprir quotas estritamente religiosas nas minhas escolhas, mas nem por isso. Se hoje os grandes gestos de liberdade se fazem por supostamente mostrar mais e mais de nós (este também é o ano em que se publicam livros de fotos do instagram das estrelas), o Filipe vai atrás de histórias de pessoas que são de tal maneira livres que escolheram socializar menos.

- “Tudo o que sobe tem de convergir” da Flannery O'Connor

Todos os pretextos são bons para voltar a publicar a Flannery. Neste caso, a tradução do Rogério Casanova confirma o facto.

- “Diários” do Kafka

É verdade que a edição ainda é de Novembro de 2014, mas como o Humberto Brito disse no Observador, é um acontecimento editorial ainda para 2015. Pessoalmente, acho que o Kafka dos diários é mais viçoso do que o Kafka da ficção porque a observação dos absurdos quotidianos é mais surpreendente e sólida que os absurdos dos seus romances.

Outros livros que marcaram o ano, independentemente do ano em que foram editados

- “A Divina Comédia” de Dante

- “Bad Religion” de Ross Douthat

- “The Prodigal God” de Tim Keller

- “Prayer” de Tim Keller (extraordinário!)

- “A Puritan Theology” de Joel Beeke (acabei este calhamaço de mil páginas!)

- “The Habit of Being” da Flannery

- “Wise Blood” da Flannery

- “The Things of Earth” de Joe Rigney

- “Easy Riders, Raging Bulls” de Peter Biskind (ainda não acabei mas é incrível)

- “White Noise” de Don DeLillo

M. M de memorização

O meu amigo, Pastor Jónatas Lopes, disse-me no outro dia e com razão que um tipo andar a dizer que sabe coisas de cor pode ser uma grande vaidade. Tem razão. Posto isto, que a minha insistência na memorização seja a favor de mais cérebro a pensar e mais coração a palpitar. Também é para isto que decorar textos serve.

N. N de noites do crime eléctrico

O Clube do Crime Eléctrico foi um nome inspirado nos livros policiais do Chesterton para servir de lema para umas noites mensais no Sabotage organizadas por mim e pelo Manuel Fúria. Agora que demos a última, em formato Consoada, acho que podemos dizer que valeu a pena. Um dos objectivos era mantermo-nos a tocar ao vivo ao mesmo tempo que assim víamos outros artistas de quem gostamos. Se adicionarmos a isto um formato mais rock numa casa de música ao vivo que seja despretensiosa mas tenha onda, creio que esta série de oito noites foi bem sucedida. Passaram por lá músicos da nossa geração e músicos de uma geração nova, em concertos breves que mantivessem a ética de proximidade e perigo entre músicos e público. O que não quisemos? Residências e curadorias, nomes saloios para concertos de rock, um estilo que teima em ser contra-corrente mesmo na era das rádios alternativas (e, repetindo-me, o segredo desta resistência da FlorCaveira também teve dois nomes: Amor Fúria).

O. O de oceano.

Em 2015 fui 156 vezes ao oceano. Menos 6 vezes que no ano passado. Fui ao mar uma vez em cada 2,33 dias. Piorei. Quero voltar a subir a média em 2016!

P. P de produtividade

A produtividade é um problema e um perigo. É um problema porque a minha tendência é ser preguiçoso. É um perigo porque quando não sou preguiçoso, acabo a fazer da produtividade um ídolo. Ora este ano, não foi um mau ano no que diz respeito à produtividade. Um baptismo feito, um disco editado, outro disco gravado (a editar no início de 2016), dois livros publicados, mais de meia centena de sermões pregados, mais de uma dúzia de actuações musicais, crónicas bimestrais na Ler, e três rondas de aconselhamento familiar na igreja serão das actividades mais relevantes de 2015. Não é curioso que um tipo precise de chegar perto dos quarenta para começar a valorizar decentemente o trabalho?

Q. Q de quinze

Guel, Guillul e o Comboio Fantasma foi há quinze anos mas acho que nunca se cantou o “Queluz está a arder” com tantas ganas como quinze anos depois.

R. R de res publica

Já noutras ocasiões mencionei o desastre que é ler alguns pastores nas redes sociais. Não me entendam mal que há quem possa dizer o mesmo acerca de mim. O meu objectivo é explicar que, sobretudo nos assuntos mais directamente políticos, é preciso cuidado redobrado. Esse cuidado redobrado passa primeiro por concluir que há convicções políticas que os cristãos têm de extrair da sua fé. Não há volta a dar: se, por exemplo, o assunto do aborto não nos fizer mexer palha, há alguma coisa errada. 2015 também é o ano em que passei a viver bem com o facto de ser um one-issue-voter e um one-issue-qualquer-outra-coisa (e, caramba!, 2015 foi ano da exposição das atrocidades praticadas pela Planned Parenthood nos Esatos Unidos). Para efeitos de simplificação ideológica, o aborto e toda a moral sexual é a marca de água que no Ocidente diz se estamos dispostos a sofrer pela nossa fé ou se, pelo contrário, estamos dispostos a tornar a nossa fé sofrível para que ninguém nos chateie. É fantástico, doze anos passados do início dos blogues, ter pessoas que me achavam graça a não me quererem aturar mais pela minha oposição ao aborto e ao chamado casamento homossexual. É sinal que alguma coisa ando a fazer certo. Por outro lado, o cuidado redobrado que os pastores devem ter nas redes sociais passa pelo respeito necessário às figuras de autoridade do nosso país, mesmo quando elas não são do nosso agrado ideológico. Dou um exemplo pessoal: eu, como one-issue-voter que sou, não voto em socialistas (ou em partidos de esquerda). Mas não me passa pela cabeça faltar ao respeito ao António Costa, o primeiro-ministro (que me parece ter a legitimidade democrática mais tremelicante em quarenta décadas de Abril). Se Deus, na sua insondável graça, decidiu que António Costa deveria mandar nisto, quem sou eu para questionar o facto? A coisa só mudaria se o primeiro-ministro quisesse que eu lhe obedecesse primeiro a obedecer a Deus. Aí sim, haveria caso para insubmissão. Até lá, é orar pelos nossos governantes, dizer-lhes que estamos prontos para trabalhar e, naturalmente, pedir contas do poder que lhes é confiado.

S. S de Stan Smith

Nunca gostei dos Stan Smith quando era miúdo. Pareciam-me uns ténis desenxabidos numa época que o calçado desportivo se queria exuberante. Pareciam calçado de enfermeiros. Até que fiquei mais velho e agora me rendo ao encanto deles. Não há mérito nenhum nisso em 2015, ano em que todas as adolescentes parecem ter assinado um contracto de só saírem à rua assim calçadas. Há uns quantos maduros, como eu, a comprarem-nos e a terem dificuldade de não os usar imoderadamente. Se calhar isto dava para fazer um movimento social e pensar em eleger uns quantos deputados. Neste partido político eu era capaz de ser militante.

T. T de twitter

Meti-me no twitter. A verdade é que acabo a sentir-me drenado em qualquer rede social. As redes sociais fazem-nos acreditar que alguém nos presta atenção. Mas a maior parte das vezes é um logro. Nas redes sociais somos mais fantasmas que pessoas reais. Devem ser usadas com moderação não vá o nosso braço tornar-se transparente no momento que teclamos.

U. U de uau

O meu discurso oral passou a integrar a expressão “uau”. O que vai ser de mim?

V. V de Vieira

Este voltou a ser um ano muito virado para o Padre António Vieira. Tenho dois calhamaços dele prontos para ler. Permitam-me um dogma: pastores protestantes que não lêem Vieira deviam ser expulsos do país ao pontapé.

W. W de Windsor, o nó de Windsor.

Ok, é apenas uma maneira para falar de gravatas quando o g já foi tomado. O que vou escrever será a coisa mais impopular de todas. Esqueçam a minha oposição ao aborto ou ao chamado casamento homossexual - é aqui que vou perder leitores para sempre. Em 2015 passei a usar gravata todos os Domingos (excepto o primeiro, em que tomamos a Ceia do Senhor e opto por uma camisa sem golas). E porquê? Porque na minha igreja me pressionaram para isso? Nem pó. Sou o único a usar gravata na minha igreja. A Lapa é bem flexível no que diz respeito à indumentária dominical (às vezes flexível até demais). Passei a usar gravata porque passei a gostar de usar gravatas. Podem largar os cães agora. Sou o Tiago, tenho 38 anos e gosto de usar gravata ao Domingo (reconheço que para aqui chegar também contribuiu o facto de te recebido uma remessa de gravatas dadas pela Tia Lena, que tinham pertencido ao Tio Luís que não cheguei a conhecer). Aqui estou. Aqui me confesso.

X. X de xaropada

Os copos nos concertos são uma xaropada (bebo coca-cola). Os caterings nos concertos são uma xaropada (um músico não é pago para comer mas para tocar). Os públicos nos concertos são uma xaropada (portam-se como ovelhas para o matadouro). Os músicos nos concertos são uma xaropada (afinam as guitarras naqueles horríveis afinadores electrónicos, olhando para o chão nos intervalos das músicas, enquanto falam às pessoas não as encarando, num gesto de terrível má-educação). Os críticos de concertos são uma xaropada (só vão a concertos em épocas que os músicos estão legitimados por hypes).

Y. Y de yo

Fase rap meio morta. Fase rock a querer voltar. Por outro lado, o rap nunca vai embora porque o rap é poder assumir melhor que a música é apenas um modo de continuar a pregar.

Z. Z de zeros

Devíamos dar números aos nossos zeros. Se não soubermos os nomes das nossas derrotas, somos sempre vencedores - um truque ridículo. Quantos zeros nos trouxe 2015 e o que estamos dispostos a fazer por eles em 2016? Deus nos ajude.




















Fotografia tirada pela minha mulher no último concerto. Mesmo à Bruce.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Uma modesta prenda de Natal

Aqui há dois meses houve no Brasil um evento chamado Primeiro Congresso Nacional de Composição e Criatividade Musical. Convidaram-me para participar gravando um vídeo que servisse de lição acerca da minha experiência em Religião & Punk Rock. Eu peguei nos meus óculos à Corbusier, na Gata Sombra e em vinte cinco discos da minha colecção. Em menos de meia-hora, este vosso Professor Pardal do Do It Yourself diz-vos como é que é. Ho ho ho!

terça-feira, dezembro 22, 2015

Ouvir

Haverá ocasião que nos deixe mais claro que precisamos de Deus do que a educação dos nossos filhos?

O sermão de Domingo passado, chamado "É preciso precisar de Cristo", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

O Crime a descansar em paz

Sabem? O truque de Satanás é sempre fazer-nos acreditar que a perspectiva correcta acerca de nós não é encontrada no que Deus nos diz mas no que nos dizem os outros. Por isso, Eva e Adão deixaram-se ir na cantiga que trocou a fé no que Deus disse (não é bom que comas o fruto desta árvore em particular) pelo que a serpente lhes disse (na verdade Deus não quer é que vocês sejam tão espertos como ele é). O mesmo nos acontece quotidianamente, quando diante dos desafios nós pensamos que a pessoa mais fundamentada para nos falar acerca de quem somos e do que devemos fazer não é Deus mas nós próprios. Fé em Deus? Esquece. Vou avançar confiando em mim mesmo. Acaba sempre por dar asneira.

Sabem que isto acontece, por exemplo, no assunto de quem faz música. Quem faz música é tentado a achar que ser bem criticado é que é a verdade acerca de nós próprios. Se o mundo gosta de mim, então eu próprio posso gostar de mim (e às vezes vice-versa, se eu gosto de mim, então o mundo pode gostar de mim). Então o artista caminha muito inchado na aprovação que a crítica lhe dá, não se apercebendo que essa aprovação pode bem ser a serpente a dizer: não olhes para ti a partir do que Deus te diz acerca de ti. Olha para ti e ama-te a ti próprio a partir do que o mundo diz acerta de ti.

Eu sou muito tentado nesta história. Sempre que tenho a aprovação dos outros, parece não só mais fácil o negócio de gostar de mim como o negócio de gostar que gostem de mim. A questão é que o essencial não é eu gostar de mim ou os outros gostarem de mim - o essencial é Deus gostar de mim. E Deus pode gostar de mim quando os outros não gostam. É nesta dieta que um cristão deve viver. O fundamental é o amor que Deus nos tem, traga-nos isso a aprovação dos outros ou não.

Estou com esta conversa toda teológica e a graça é que ela vem a partir do que aconteceu ontem, na Consoada da FlorCaveira. Foi uma festa muito bonita. Por que estou a misturar religião com punk rock? Porque o melhor do punk rock de ontem foi a religião de ter passado um ano com o meu amigo Manel a fazer uma coisa, não tanto porque os outros andam numa grande maré de gostar dela, mas mais porque achamos que Deus nos chamou para ela. Não quero que isto soe a orgulho espiritual mascarado de humildade (e bem pode ser que seja). Deus me ajude a não ser isso. O que vos quero dizer, acho que em meu nome e do Manel, pelas Noites do Crime Eléctrico que foram feitas em 2015, é que foi do caraças e está feito. Até aqui nos ajudou o Senhor. Se ele quiser, haverá para o ano um disco com o registo de uma série de actuações.

Deus deu-nos o Clube do Crime Eléctrico. Deus levou o Clube do Crime Eléctrico. Bendito seja o nome do Senhor. See ya in the pit.





quinta-feira, dezembro 17, 2015

Abrindo o apetite para o ABC de 2015 da Voz do Deserto

L. L de listas

Vamos às listas!

Discos:

1. "Planos para o futuro", Chibazqui
Mark my words: Chibazqui é a melhor banda de Portugal. Não preciso de justificar o lugar que os Feromona têm no meu coração mas tenho de reconhecer que Chibazqui ainda é melhor que Feromona. Lancem-me à fogueira mas é a verdade. O disco dos Chibazqui é perfeito. Não há nenhum exagero da minha parte. Tenho de ver se consigo escrever um texto decente totalmente dedicado à excelência dos Chibazqui.

2. "A bordo do Apolo 70", Capitães da Areia
Se houvesse mais discos assim em Portugal não teríamos um país tão enfadonho. Só um aviso à banda: não digam que não se levam a sério e que fizeram o disco nessa onda porque isso é parte do problema e não da solução. As pessoas tolerarem os Capitães como piada pós-moderna não é um prémio mas um castigo. Tenham brio do vosso trabalho e não cedam ao cinismo gauche burguês da nossa crítica musical.

3. "Carrie and Lowell", Sufjan Stevens
Finalmente um disco em que o Sufjan faz o que não deveria deixar de fazer.

4. "Ones and Sixes", Low
Ser um verdadeiro fã dos Low é saber que o talento deles é melhor apreciado na medida inversa em que as pessoas lhes prestam atenção.

5. "Cara D'Anjo", Luís Severo
Ok, ainda há neste disco muita fachadice que tem de dar lugar a mais Luís, mas não há como subtrair-lhe qualidade.

quarta-feira, dezembro 16, 2015

Abrindo o apetite para o ABC de 2015 da Voz do Deserto

I. I de Isilda Pegado

Acabei por não conseguir organizar-me de modo a escrever sobre o assassínio público de carácter que foi feito à Isilda Pegado, por ocasião do Verão, quando deu a cara pela I.L.C. que colocava restrições a uma política de aborto público que tenho como imoral. A verdade é que neste país os opositores ao aborto até agradecem quando a questão volta a cair, que é para pouparem a chatice de terem consequências práticas por aquilo em que acreditam. Somos todos uns heróis quando acreditamos em coisas que não nos fazem sofrer, não é? A ironia é que a Isilda, que sofreu o que poucas pessoas sofreram nos últimos tempos, acabou a colocar pedras nas mãos do seus carrascos quando veio para uma entrevista na Sábado assegurar os leitores que não admitia que lhe colocassem na testa um rótulo de conservadora. Isilda: de pouco vale usar os braços para bater no adversário quando já concedeu que seja ele a escrever-lhe dicionário. Desde quando é que ser conservador é uma coisa má? Ok, já sei. Ser conservador é para muitos uma coisa má desde que os não-conservadores assim o disseram. Mas sabe uma coisa, Isilda? Eu estou-me nas tintas para o que os não-conservadores dizem e a Isilda, que já deu provas de lhes dar mais na cabeça que eu, também deveria estar.


terça-feira, dezembro 15, 2015

Ouvir

O arrependimento é a celebração de uma ruína que está a ser reconstruída para ter ainda mais vida do que alguma vez teve.

O sermão de Domingo passado, chamado "João Baptista diz-te: «és uma ruína»", pode ser ouvido aqui.


segunda-feira, dezembro 14, 2015

Já está nas bancas

A Revista Ler onde escrevo sobre a relação possível entre Sansão e Dante.

Na vida de Sansão o ponto alto é a sua morte, quando ele derruba o Templo do deus Dagom cheio de filisteus idólatras, onde sai louvado pelas Escrituras por terem sido "mais os mortos que matou na sua morte do que os que matara em sua vida". Por outro lado, n'"A Divina Comédia" o mais emocionante não é propriamente o que acontece no Paraíso, mas o que acontece no Inferno. O que interessa é que em Sansão e em Dante há um anti-climax caprichado onde as coisas mais vivas são aquelas que aparecem a pretexto da morte. O maior feito de Sansão é uma espécie de bendito suicídio e o maior feito de Dante é ele ser mais eficaz a assustar-nos com o Inferno do que propriamente abrir-nos o apetite para a eternidade celeste.