quinta-feira, julho 28, 2016

Um ano de oração pelo Miguel Vale de Almeida - parte III e última

Uma qualidade do Miguel Vale de Almeida e que o faz realmente distinto é ele transmitir a convicção de que a missão que tem é maior do que ele. Atenção. Não estou a dizer que ele assim se exprimirá ou que colocaria da mesma maneira o que estou a colocar. Mas tendo em conta que hoje habitamos uma cultura tão insuportavelmente auto-complacente, em que somos ensinados desde a creche até aos anúncios de iogurte que somos especiais e que a nossa maior missão na vida deve ser amar-nos a nós próprios, o Miguel, ainda que trabalhe em favor de uma causa que faz parte desta mundividência, exibe uma redentora crença nos méritos do trabalho que tem para fazer. A pessoa que segue o Miguel não é exposta a uma promoção ininterrupta do Miguel como a sua própria causa. O Miguel é neste sentido um oásis no triste desfile de políticos que temos que, acima de qualquer convicção ideológica, têm em si próprios a sua missão pública última. O Miguel mostra que acredita realmente nas causas que defende e isso é hoje em dia tão invulgar como incómodo (já repararam na maneira como cada vez mais as pessoas abominam apresentarem-se como tendo missões específicas na vida? Por aqui, consigo até apreciar a coerência com que a Isabel Moreira tatuou no braço a data da aprovação legislativa do chamado casamento homossexual). Temos muito a aprender com o Miguel como antídoto ao cinismo reinante. Nesse sentido, quero ir mais longe e dizer que o Miguel parece ter uma ética de trabalho verdadeiramente puritana e calvinista, à qual não será estranha os anos que passou nos Estados Unidos. Como sei que mais ninguém usará os termos "puritano" e "calvinista" para elogiar o Miguel, quero que o Miguel saiba que a maneira de trabalhar tão culturalmente protestante que tem é inspiradora.

Outra qualidade do Miguel é a persistência. Já em algumas ocasiões o Miguel usou expressões como "esperei vinte anos para ver isto acontecer". A minha reacção quando leio coisas destas é vergonha: caramba, a que tipo de coisas é que me entrego ao ponto de poder aguentar nelas por décadas? E é por aqui que tenho de reconhecer que os cristãos têm muito a aprender com os activistas da causa gay. Minha gente, eles andam há muito muito muito ano a dar o couro e o cabelo para agora estarem onde estão. Nós, que devíamos ser especialistas em sacrifício, somos uns meninos ao lados destes homens e mulheres que, muitas vezes contra tudo e contra todos e sofrendo a sério, aguentam a bandeira na mão. Talvez seja eu agora a querer cristianizar à força o que não é cristianizável mas tenho uma teoria: a euforia e a exuberância das marchas de orgulho gay é menos movida pela alegria na afirmação da identidade homossexual, e é mais movida pelo mérito de uma vitória que já pareceu improvável mas que agora é factual. Por isto mesmo, prevejo um futuro onde as marchas de orgulho gay podem esvaziar-se porque a emoção da conquista se esvaziará das gerações que a tenham como comum. Meus amigos gays, tenham atenção ao tédio que pode estar por vir. Vão sentir-se como muitos cristãos no meio de um cristianismo apenas institucional.

Uma terceira qualidade do Miguel é a atenção que mostra em muitas das suas leituras. Diria que o Miguel gosta de ler além do óbvio e por isso diz com frequência coisas que os mais distraídos não topam. Há uns anos valentes chamava certeiramente "patridiotas" às pessoas movidas pelo suposto patriotismo da bola que plantavam bandeiras nacionais em qualquer canto. Para dar um exemplo mais recente, e que me vai fazer perder simpatia nos meus companheiros católicos romanos, o Miguel já percebeu e bem que o Papa Francisco não é um factor favorável para uma vida mais livre e esclarecida (continuo a dizer que este Papa é o Papa Solnado de "façam o favor de ser felizes" e que isso é filosoficamente trágico para um Ocidente às voltas com os conceitos de liberdade política - e não me venham com acusações de anti-catolicismo primário que eu dou-me ao trabalho que vocês não se dão de ler o Papa) *. Aliás, o Miguel indicou e bem que uma das conquistas que deveria suscitar a nossa prudência é precisamente a celebrização do termo familiarizante "Papa Francisco", dentro e fora da Igreja Romana. Isto é uma observação atenta e profunda, digna de um político que sabe que os factos não se constatam apenas, também se lêem.

Agora vocês vão dizer: "sinceramente, Tiago... Que batota! Dizes que ias falar das qualidades do Miguel Vale de Almeida e despachas em três parágrafos o assunto, tendo derretido muito mais do nosso tempo a malhares nele". Ao que eu reconheço: é facto. Mas apenas acrescento que as verdadeiras homenagens querem-se com pudor e contenção. Vocês não precisam do meu exagero (que em mim é bastante natural) para compreenderem que neste exercício de orar pelo Miguel Vale de Almeida, Deus vai-me abrindo olhos para apreciá-lo, admirá-lo e, espero no sentido mais cristão e devido do termo, amá-lo também. Estando todas estas coisas escritas, é preciso lembrar que estamos em lados contrários da guerra. Como o Miguel Vale de Almeida me ajuda a perceber, as convicções opostas que defendemos valem para nós mais do que nós mesmos. Continuarei a orar com a ajuda de Deus.



* Ainda hoje li umas desgraçadas declarações do Papa a pretexto do martírio do padre francês: "todas as religiões são de paz". Céus... Digam ao Francisco onde ele possa arranjar uma coluna vertebral.

quarta-feira, julho 27, 2016

Um ano de oração pelo Miguel Vale de Almeida - parte II

Este texto vai ser ainda mais longuinho. Como apanho a boleia da antropologia, não estou nos meus domínios. Posso cometer erros particulares de imprecisão ou simplesmente de ignorância geral - sejam pacientes comigo. O motor de me meter no campo antropológico é o de, por ele ser o do Miguel Vale de Almeida e me parecer que há leituras inconsistentes que faz, desejar uma reflexão mais profunda sobre os assuntos das relações de género no contexto religioso. Parece-me sempre pobre que um antropólogo no Ocidente não demonstre um conhecimento efectivo do texto bíblico (e, não querendo ser injusto para com o Miguel, gostava de o ver mais à vontade nas referências religiosas). A Bíblia não é só para os crentes. Se vamos trabalhar com a realidade, que façamos por conhecer aquilo que mexeu na construção dela (a ignorância que geralmente as ciências sociais demonstram em relação ao texto sagrado do cristianismo tira credibilidade a qualquer proposta sociológica que queira ser séria sobre o nosso tempo e o nosso espaço).

A determinada altura do ano, o Miguel deu uma entrevista à Rita Ferro Rodrigues para os/as Capazes. Foi, e sem qualquer ponta de ironia, das entrevistas portuguesas mais interessantes que vi no último ano (os portugueses são no geral maus entrevistadores e maus entrevistados pelo excesso de misticismo da nossa cultura que olha para um sistema de perguntas e respostas como um meio demasiado superficial para mostrar a realidade, mas essa é outra conversa). Acho que seria fantástico os Capazes falarem também com pessoas que discordam deles num espírito de discussão franca e civilizada, que já praticam internamente com os das suas causas. Nessa entrevista de cerca de um quarto de hora, o Miguel falava do seu percurso e fazia uma espécie de leitura antropológica resumida do sistema ao qual chama patriarcado. Nas próximas linhas quero ir atrás do que disse porque é aqui que encontrei uns quantos equívocos. Para o fazer, devo assumir que vou estabelecer uma equivalência entre patriarcado e cristianismo que o Miguel não fez explicitamente na entrevista, mas que me parece insinuada de um modo implícito ao longo da conversa.

Não se esqueçam então que estou a assumir uma equivalência entre patriarcado e cristianismo e, sim, sei que muitos cristãos não se identificarão com essa equivalência (paciência, escrevam eles textos diferentes sobre o mesmo assunto). Dizia então que o Miguel afirma que o patriarcado encara os sexos como complementares e que o patriarcado sugere uma hierarquia favorável ao homem. Por muito impopular que isto possa soar, concordo. Mas quero qualificar essa concórdia - concordo no sentido em que a hierarquia não é no cristianismo uma qualquer: no cristianismo, a hierarquia é um acto de entrega e de sacrifício. Num texto como o de Efésios 5:25, explica-se que o marido é aquele a quem a esposa se deve submeter não porque o marido sabe e pode o que a mulher não sabe e não pode, mas porque o marido, ao estar pronto para morrer pela mulher como Cristo morreu pela Igreja, se apresenta como uma autoridade confiável (usando termos mais rigorosos: a submissão não é ontológica mas funcional, na medida em através da articulação dos comportamentos a submissão conta uma história). Por aqui podemos ver que o cristianismo não promove um seguimento sonâmbulo dos patriarcados típicos que já existiam antes dele (que defendiam que o homem devia dominar porque ele era essencialmente superior à mulher - o cristianismo rompe e diz que ontologicamente "em Cristo (...) não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher", como narra Gálatas 3:28). O cristianismo defende o patriarcado desde que o patriarcado exista em função de imitar Cristo: o pai ou o marido dão a sua vida por todos aqueles que estão ao seu cuidado. Se o patriarcado puder ser entendido sob a regra de que o pai ou o marido é o primeiro a sacrificar a sua vida, tal como Cristo fez, sim, podemos dizer que cristianismo é patriarcal. Eu estou muito OK com isso (e, por um lado, não estou nada OK porque é isso que trama a minha tendência pessoal para a passividade e para ser convenientemente feminista como pretexto de não me sacrificar).

Por outro lado, e ao contrário do que o Miguel sugere, no patriarcado (visto desta perspectiva cristã) o feminino não é uma falha que precisa de ser explicada ou uma espécie de vírus para o qual os homens precisam de arranjar vacina. Se assim fosse, nunca um marido seria chamado a fazer pela sua mulher aquilo que Cristo fez pela Igreja. Se o cristianismo achasse que o feminino era um erro, não chamaria os homens a darem a sua vida pelo erro que supostamente seriam as suas mulheres. Este é um buraco estranho de entender na argumentação do Miguel (e, sim, é verdade que ele não estabelece explicitamente a equivalência que eu estou a estabelecer entre patriarcado e cristianismo). Aliás, um dos sinais que demonstra que o cristianismo (e o judaísmo) têm do feminino uma visão antropológica radicalmente positiva é que Eva, sendo criada da costela de Adão, representa uma espécie de aperfeiçoamento da invenção do humano (a velha anedota que diz que o homem é o rascunho e a mulher o produto final tem algum fundamento teológico no relato do Génesis).

Para usar da expressão do Miguel, se "a homossexualidade é uma ameaça para o patriarcado" não é porque a homossexualidade alarga as opções que o patriarcado quer manter restritas. Se a homossexualidade é uma ameaça para o patriarcado é precisamente porque a homossexualidade estreita as opções que uma relação sexual exige, abertas ao ponto de necessitar de dois universos radicalmente distintos entre si, o masculino e o feminino. Se a "a homossexualidade é o pior desprestígio da masculinidade", como afirma o Miguel, é porque ela representa uma obliteração flagrante do feminino. Se o patriarcado não aprova a homossexualidade é porque sempre entendeu que a homossexualidade não dava mais mundos ao mundo, pelo contrário, retirava mundo ao mundo.

A "feminização do homem" (outra expressão usada pelo Miguel) é condenado pelo cristianismo não porque um homem ser feminino é sinal de fraqueza. É precisamente o oposto. A feminização do homem é condenada pelo cristianismo porque um homem ser feminino representa uma força de ataque contra a criação humana, completamente dependente de um equilíbrio entre as coisas radicalmente diferentes que são o masculino e o feminino. Neste sentido, um homem ser feminino é uma agressão a um dispositivo delicado que carece de um encontro de diferentes.

É esta a lógica que vemos a funcionar no texto bíblico, do Velho ao Novo Testamento. Na Bíblia aqueles que praticam a homossexualidade não são vistos como homens fracos mas como homens injustamente fortes (alguém já se deu ao trabalho de ler o relato da destruição de Sodoma no Génesis? Os sodomitas são agressores, não vítimas passivas). Mais à frente, quando chegamos à Carta de Paulo aos Romanos, no capítulo 1, é precisamente esta a crítica que encontramos à homossexualidade: a homossexualidade é a expressão de eu estar tão satisfeito comigo mesmo que me encanto de uma pessoa fundamentalmente igual a mim, do mesmo sexo que eu. A homossexualidade corporifica uma auto-salvação ou, se quisermos, uma salvação por méritos próprios, quando os homens se entregam aos seus próprios prazeres para concretizarem o sentido da sua existência. O cristianismo, como religião da graça, em que somos salvos por aquilo que Deus faz por nós e não por aquilo que fazemos por nós próprios, não topa este jogo porque este jogo lhe cheira naturalmente a narcisismo (e eu tenho saudades de um tempo em que a homossexualidade era espaço assumido de narcisismo, com resultados políticos que eram muito mais pobres porque não se valiam do jogo da vitimização, é certo, mas com resultados culturais muito mais estimulantes - já repararam que, por exemplo, os verdadeiros herdeiros de Oscar Wilde são gays conservadores? Já ouviram falar do Milo Yiannopoulos?).

O cristianismo nunca aprovou a homossexualidade porque simbolicamente a homossexualidade grita alto que estamos livres para dependermos somente de nós próprios, não precisando de ninguém fundamentalmente diferente de nós próprios para sermos pessoas mais completas. O cristianismo sempre criticou a homossexualidade por ela ser a representação perfeita de um poder auto-gerado, indiferente à diferença, realmente contrário a acreditar que a diferença é fundamental para a experiência humana. Não é casual que historicamente a homossexualidade tenha sido uma experiência associada aos possuidores de poder, não aos desapossados. Desde o elitismo dos filósofos gregos, ao apetite sexual apreciado esteticamente pelo seu efeito de desvio nas aristocracias modernas europeias, a homossexualidade costumava ser uma expressão de domínio, de força, de liberdade dos constrangimentos normais da natureza. Só uma antropologia da espessura histórica do papel vegetal, e reveladoramente colocada ao serviço das elites intelectuais do Ocidente, pode ser virada ao contrário para hoje querer sugerir o seu contrário. A homossexualidade só é uma luta antiga dos oprimidos para quem se alimenta exclusivamente de uma dieta de pós-marxismo-pós-moderno para conhecer a história. É melhor estudar antropologia além da segunda metade do Século XX. E, já agora, dêem uma vista de olhos na Camille Paglia, para outro exemplo ("Personas Sexuais", anyone?).

Ao contrário do que infelizmente se tem tornado normal assumir, o cristianismo não se opõe à prática homossexual pelo facto de o cristianismo ser contra a diferença. É precisamente o oposto. O cristianismo sempre se opôs à prática homossexual precisamente por causa de o cristianismo ser favorável à diferença e a prática homossexual representar o oposto dessa diferença. É a afirmação intransigente da diferença, visível no facto de a sexualidade humana depender de um encontro de assimetrias absolutas entre homem e mulher, que fez do cristianismo uma voz crítica da homossexualidade mesmo quando ela era tolerada no paganismo mediterrânico. O cristianismo criticava a homossexualidade (como o judaísmo já o fazia) porque a homossexualidade rejeita que a diferença é fundamental para a expressão genuína da sexualidade humana. Não é preciso ser um cientista da NASA para compreender isto.

Agora, tendo em conta que afirmo que a vitimização é o palco da grande vitória política dos direitos LGBT, não preciso de negar a História: desde que o mundo é mundo, é óbvio que uma grande multidão de homossexuais foi maltratada, exterminada, violentada, torturada e vítima de uma enorme série de horrores. Como cristão, assumo que muitas expressões institucionais do cristianismo contribuíram para isto, o que me parece uma vergonha que deve ser assumida e corrigida. Contra este desfile de atrocidades do passado o que pode ser feito é um presente e um futuro diferente, onde a condição homossexual merece os direitos cívicos que qualquer outra condição merece (o que é substancialmente diferente de transformar estatalmente instituições prévias ao estado, como o casamento, para supostamente cumprir essa liberdade cívica). O chamado casamento homossexual só é uma conquista cívica para quem acha que a civilização é conquistar (simplificando: o casamento gay é uma vingança da violência praticada pelo poder sobre os gays, sendo agora os gays violentos com o poder que têm). Se antes uma parte da civilização perdia, agora perde-se toda a civilização.

Onde estão os cristãos a defender que os homossexuais não sejam livres para viver como querem? Creio que um homossexual deve ser tanta liberdade para a expressão do seu amor, como eu tenho para a expressão da minha fé. E estou absolutamente convicto que a invenção do casamento gay não nos dá isto, como nos querem fazer crer. Creio no oposto: a invenção do casamento gay, entronizada no coração ocidental pela romantização da peregrinação do indivíduo dentro de si mesmo (não há paciência para o auto-fascínio teen pelo encontro de cada pessoa consigo mesma), só subsiste suprimindo a liberdade para a expressão de divergências morais. Julgamo-nos hoje moralmente mais flexíveis (então cada um não faz o que quer?). Que erro: hoje somos moralmente muito mais inflexíveis com aqueles que albergam dissonâncias nos consensos emocionais que nos parecem irrecusáveis. Reparem que hoje há políticos a ser condenados moralmente por não mostrarem as devidas emoções pelas causas tidas como certas (verifiquem como a guarda gay policiou as reacções ao massacre de Orlando). Brave new world, meus caros, brave new world. Here I stand - julguem-me pelas minhas convicções e actos e não por cenários virtuais alimentados a medo. No próximo texto falo das virtudes do Miguel.

P.S. Vale a pena acrescentar uma contribuição do Pedro Figueiredo que, há dois dias, sabendo que me ia meter no assunto da antropologia, comentou: "Como antropólogo dá para fazer uma espécie de 'disco pedido'? Então aqui vai: para a segunda parte do 'post', mais antropológica, dá para pensar um pouco até que medida não estamos também perante um embate entre uma abordagem 'identitária' à sociedade (e portanto em certa medida fundacionalista - a do Miguel) e uma mais 'processualista' (como o 'ano de oração' sugere)? (...) Não sei recomendar leituras, mas entre a comunidade de antropólogos mais novos, quando se discute se a abordagem dos estudos identitários está em falência, ou não, uma das alternativas que surge como óbvia é a inspirada em Alfred North Whitehead, que não só inspirou vários filósofos/antropólogos agora bastante relevantes, como a "process theology", especialmente influente nos EUA. Nesse contexto, e do meu ponto de vista paroquial de antropólogo, a discussão em curso pareceu muito interessante, porque, posso estar errado, mas parecem estar em choque uma metafísica assente em identidades (estáticas, em certa medida) e uma em que estas são processos . Daí o Tiago poder surgir neste evento como 'queer', porque relativamente o é, e não existe uma identidade absoluta de 'queer' - e daí a crença no poder da oração, ou do baptismo, enquanto capazes de alterar uma identidade (claro que esta é uma análise antropológica "científica"; do ponto de vista de quem acredita não é a justificação metafisica que eu avancei que alicerça a crença). De qualquer maneira, boa discussão, estamos todos a aprender!"

terça-feira, julho 26, 2016

Ouvir

Somos uma igreja que despreza a ideia que orar é bom mas fazer é melhor. Desprezamos a dicotomia entre orar e fazer porque enquanto igreja o que fazemos é para nos levar a orar. Não temos comunhão com Deus como um processo para ter outras coisas que são o produto final, mas temos comunhão com Deus como um processo que também é o produto final. Logo, para nós começar a orar por alguém é o primeiro passo para fazer alguma coisa concreta por essa pessoa.

O sermão de Domingo passado, chamado "Do Rei para a ruína", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, julho 25, 2016

Um ano de oração pelo Miguel Vale de Almeida

Este vai ser um texto longuinho e distribuído por alguns dias. Se está numa de insta-writing, dedique-se a ver fotos das férias que leitura turística aqui não vai dar. O objectivo deste texto é marcar um ano de oração pelo Miguel Vale de Almeida, assinalando na última parte algumas das suas qualidades, ao mesmo tempo que nas primeiras assumo o que me parecem ser fraquezas óbvias da sua vocação antropológica e política. O meu propósito é elogiar o Miguel mas também não vou estar com salamaleques e desperdiçar a oportunidade de o criticar.

Comecemos pelo princípio. Há um ano escrevi um texto que dediquei ao Miguel Vale de Almeida e à Isabel Moreira, por conta do assunto do aborto. Tomei uma espécie de compromisso que era orar por eles, enquanto meus adversários nesta área. Porquê? Porque a minha fé pede que faça por amar os meus inimigos. Reconheço que durante este ano houve nas minhas orações mais Miguel que Isabel e a internet em grande parte pode explicar isso. Durante os meses a seguir ao texto de há um ano, escrito em Julho de 2015, não fiz por seguir o que o Miguel escreve na internet. Foi preciso ele se meter comigo para eu começar a ter curiosidade por aquilo que ele escreve - logo, assumo que foi preciso o Miguel dar-me alguma importância para lhe dar eu mais importância ainda (no fundo, quem sabe se não temos aqui um bromance a despontar?). Por duas vezes li o Miguel a criticar-me publicamente no seu mural do Facebook (que é aberto e por isso dá para ser lido por qualquer pessoa) e das duas vezes achei interesse na crítica. Da primeira foi a partir do texto que lhe dediquei e à Isabel. Da segunda foi por causa do primeiro single do meu disco "Bairro Janeiro". O interesse que achei nas críticas que o Miguel me fez não tem a ver com a justiça delas mas com aquilo que me pareceu um elemento de incoerência em relação à mundividência que ele defende. Concluo que sou demasiado queer para o Miguel Vale de Almeida.

Nas palavras do Miguel eu sou "nada de genuíno, tudo máscara e artifício", o que é uma acusação estranha por parte de quem se dá à causa dos que não encaixam na suposta naturalidade da maioria. Em que normalidade é que o Miguel me quer forçar a encaixar para poder sentenciar que sou uma fraude? Por que é o Miguel tão binário quando me avalia como um elemento estranho e não-genuíno? A minha conclusão, que espero que não seja precipitada tendo em conta as certezas firmes do Miguel acerca de quem sou, é uma: a guarda gay portuguesa é só gay até certo ponto. Quando lhes aparece um evangélico desengonçado que não encaixa na rotina mediterrânica que a guarda gay se habituou a cartografar, a guarda gay resvala para a heteronormatividade mais rígida. Lendo o Miguel Vale de Almeida aprendo que sou gay demais para ele. A Isabel Moreira, mais metida nos seus afazeres políticos e talvez menos dada a grandes gorjetas a pobres taxistas como eu, criou menos elã na minha curiosidade. Não sigo o que diz ou escreve. O Miguel tornou-se um real labour of love - raro é o dia que não pico o que escreve.

Sei que muitos leitores, por muitas incoerências que encontrem nos advogados da causa LGBT, não conseguirão compreender aquilo que vêem como uma fixação da minha parte (e de outros cristãos) neste assunto. A maior parte das vezes perguntam-me: Tiago, por que é que não vives e deixas viver? Por que é que tens de estar preocupado com aquilo que as pessoas decidem fazer com a liberdade sexual que têm? Sei que estas perguntas me são colocadas de uma maneira sincera, e por isso quero só tentar dar uma resposta igualmente sincera e simples a estas perguntas que podem ser mais complexas do que parecem. Não vou responder de uma maneira filosófica (explicando que a rejeição moderna do transcendente nos torna imanentistas absolutos que só sabem acreditar em coisas desde que elas sejam sentidas subjectivamente - um cartesianismo em esteróides fora do prazo ao jeito de "a realidade é o que eu penso que é" ou "o que é bom é o que eu sinto pessoalmente e qualquer bom absoluto que eu não possa sentir é uma violência que me impõem" --» logo a homossexualidade não pode ser reprovada moralmente porque a moral é o que cada pessoa decide que seja). E não vou responder uma maneira antropológica (deixo isso para o próximo texto). Vou responder com brevidade de uma maneira mais política.

Está ainda por provar que legislar a liberdade sexual do modo como o Ocidente tem legislado (inventando o conceito de casamento gay) é a maneira de vivermos todos mais livres. A prova é que existem sinais reveladores que à medida que a liberdade sexual legislada na invenção do casamento gay avança, diminui a liberdade religiosa. À medida que se confunde a invenção do casamento gay com a verdadeira liberdade política, todos os que não afinam com essa compreensão são vistos como inimigos da liberdade. Por exemplo, foi revelador e patético ver a celebração das imagens de duas miúdas a beijarem-se nos festejos da vitória no Europeu como o sinal que Portugal é um país verdadeiramente livre - isso significa que eu e qualquer outra pessoa que tenha objecções morais à homossexualidade somos o quê, fundamentalistas religiosos prontos a acabar com a democracia portuguesa? É este tipo distorção lógica que em grande parte vejo sustentada pela causa LGBT, e por pessoas como o Miguel Vale de Almeida em particular. Passam a vida a incutir esta dicotomia nas pessoas: "ou o casamento homossexual como prova que somos livres, ou a barbárie dos intolerantes religiosos". O medo é a arma que usam e, por isso, quando um tipo com a liberdade que tem canta "I'm a true believer" e usa a palavra "maricas" numa música para caracterizar um snob da treta, eles dizem: cuidados com os verdadeiros crentes. O Miguel afirma uma mundividência que não pratica com quem acredita em coisas substancialmente diferentes das dele.

O medo como ferramenta constante da causa LGBT é uma prova de que liberdade não é o objectivo - o poder é. A conduta dos advogados da causa LGBT diante de expressões artísticas que lhes pareçam reaccionárias, conservadoras, homofóbicas, fascistas (ou qualquer outro nome usado para pôr as pessoas a tremer) só revela que mal tenham o poder de calar, calarão mesmo. Por enquanto, não atrapalho muito - o que não impediu de algumas pessoas sugerirem nos comentários do Facebook do Miguel Vale de Almeida que a Antena 3 não deveria passar a minha canção. Quando atrapalhar, não digam que não avisei.

[Continua.]

sexta-feira, julho 22, 2016

Aninha-te no meu colo, gato

Às vezes mais do que ter uma boa crítica importa quem nos critica. Neste caso, o Gato Mariano deu-se ao trabalho de ouvir o "Bairro Janeiro". Não resisti a dizer-lhe, depois de ter lido o que escreveu, que ele precisa mesmo de voltar a ouvir e de coração muito aberto (porque o "Bairro Janeiro" é o meu disco onde o factor "coração aberto" mais interessa). Mas sobretudo fico contente por chegar às Crónicas Felinas - a crítica musical mais criativa e coerente que por aí anda.



quarta-feira, julho 20, 2016

14

Chegar quase aos 39 anos e ter 24 de uma vida boa e 14 de uma vida melhor.


terça-feira, julho 19, 2016

Ouvir

Vamos tentar ser Neemias para alguém? Vejamos então, como a partir da oração que ele fez, podemos aliviar o mal daqueles que queremos servir.

O sermão de Domingo passado, chamado "Pôr no coração quem não temos diante dos olhos", pode ser ouvido aqui.

terça-feira, julho 12, 2016

Ouvir

Quem está a trabalhar como escravo em lugares que só conhecemos enquanto turistas? Quem é que dá anos da sua vida por Igrejas que nem em férias visitamos? Quem transpira onde nos refrescamos, por esse Algarve e Alentejo fora? Brasileiros. Nós, os portuguesinhos, muito sentadinhos no trono do nosso conforto urbano, não perdemos tempo com comunidades destas, onde ser evangélico ainda parece mais esquisito e piroso que na capital.

O sermão de Domingo passado, chamado "O que queremos é copos com o Rei Persa", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, julho 11, 2016

Somos campeões para a glória de Deus, seus pagãos!

Sinceramente, acho que um cristão protestante nunca poderá ser dado a maluquices futebolísticas. E até reconheço que a maneira como antes os evangélicos censuravam as conversas sobre a bola nos devia fazer parar hoje um bocadinho - hoje no meio evangélico está tudo tranquilo com a ideia de que podemos sofrer e nos zangar à custa do futebol. O que não é certo. Um cristão não deve sofrer e zangar-se à custa do futebol. A bola é uma idolatria nacional que não devia ser recebida de braços abertos nas nossas igrejas.

Tendo dito isto, não defendo que tenhamos de ser contra a bola. Deus não é contra as coisas do mundo mas é a favor que as coisas do mundo existam para lhe dar glória. Acredito que o futebol pode ser uma coisa do mundo que sirva para a glória de Deus. Ontem reconheço que senti e sofri com o jogo. Quase chorei quando o Cristiano chorou. Espero não ter incorrido em nenhum pecado de idolatria.

Fiquei mesmo feliz com a vitória (há um texto maravilhoso do Ferreira Fernandes hoje no Diário de Notícias que deviam ler, onde ele termina dizendo que está feliz - um texto maravilhoso!). E fiquei ainda mais feliz depois de ter ouvido o pequeno discurso do Fernando Santos. O Fernando Santos deu um exemplo prático de que o futebol pode ser para a glória de Deus (ainda que preferisse que ele beijasse a mulher primeiro que a mãe, e que a nota mariana fosse descartada). Leiam a coisa aqui em baixo. Somos campeões para a glória de Deus, seus pagãos!

“Em primeiro lugar e acima de tudo, quero agradecer a Deus Pai por este momento e tudo aquilo da minha vida. Deixar uma palavra especial ao presidente, dr. Fernando Gomes, pela confiança que sempre depositou em mim. Não esqueço que comecei com um castigo de oito jogos pendentes. A toda a direcção e a todos os que viveram comigo estes meses. Aos jogadores, dizer mais uma vez que tenho um enorme orgulho em ter sido o seu treinador. A estes e aqueles que aqui não puderam estar presentes. Também é deles esta vitória. O meu desejo pessoal é ir para casa. Poder dar um beijo do tamanho do mundo à minha mãe, à minha mulher, aos meus filhos, ao meu neto, ao meu genro e à minha nora e ao meu pai, que junto de Deus está certamente a celebrar. A todos os amigos, muitos deles meus irmãos, um abraço muito apertado pelo apoio mas principalmente pela amizade. Por último, mas em primeiro, ir falar com o meu maior amigo e sua mãe. Dedicar-lhe esta conquista e agradecer-lhe por ter sido convocado e por me conceder o dom da sabedoria, perseverança e humildade para guiar esta equipa e Ele a ter iluminado e guiado. Espero e desejo que seja para glória do Seu nome”.



quinta-feira, junho 30, 2016

Ouvir

Se os nossos passos de fé não envolvem fazer coisas que, sendo certas, são sentidas por nós como erradas, então isso significa que a nossa verdadeira fé é os nossos sentimentos.

O sermão de Domingo passado, chamado "Fazer coisas que, sendo certas, são sentidas por nós como erradas", pode ser ouvido aqui.

quarta-feira, junho 29, 2016

Perceber como não nos percebem (ou uma leitura de "O Nascimento de uma Nação" de Mário Avelar - sem Playmobil incluído) - parte III e última

Vejamos então algumas das coisas que ganhamos lendo o livro "O Nascimento de uma Nação - nas origens da literatura americana" do Mário Avelar. Vou coleccionar cinco pontos que podem, de alguma maneira, ser extraídos da sua leitura (muitos mais pontos poderiam ser extraídos, mas são estes cinco que aqui me interessam). Depois, vou tentar aplicá-los na ressonância que eles ganham com o movimento evangélico português. O que significa que o esquema vai ser: "percebe a América para perceberes os evangélicos portugueses". Este esquema é útil, como disse no início, para os evangélicos portugueses se perceberem melhor a si mesmos; é útil para os não-evangélicos portugueses perceberem melhor os evangélicos portugueses; e é útil para os evangélicos portugueses perceberem porque é que os não-evangélicos não os percebem.

1. Apesar de os Estados Unidos nascerem enquanto país como uma não-Europa (qual joven filho saindo de casa dos pais), não é possível conhecê-los sem perceber que herdaram da mãe a utopia. A utopia existe na América por causa da Europa. Sem sonhos, os Estados Unidos não são os Estados Unidos. Diz Mário Avelar: “A América começa por ser uma construção da Europa. Se não a pensarmos historicamente, e se não reflectirmos sobre a nossa tradição utópica (...) estaremos apenas condenados a projectar as nossas idiossincrasias naquela realidade e a reproduzirmos banalidades” (pág. 12).

2. Os Estados Unidos, ao herdarem a utopia da mãe Europa, conservam-na como a mãe Europa já não consegue, de velhinha que está e de tanta desgraça que já viveu. O optimismo americano, presente no sonho que se pode concretizar na vida de qualquer pessoa que lá chega, é uma característica incontornável da América do Norte. A utopia é na América um sonho vivo, ao passo que na Europa cínica a utopia cheira mais a pesadelo. O americano quando sonha, testa-se, ao passo que o europeu quando sonha, censura-se. “O americano configura a sua vida como uma viagem em que os testes lhe exigem uma constante reavaliação do seu próprio engenho, do seu génio” (pág. 15).

3. Os ingredientes da utopia americana misturam primeiro puritanismo de origem inglesa e mais tarde o iluminismo sobretudo francês. Esta mistura de puritanismo tempera a ingenuidade humanitária do Iluminismo. Apesar de os americanos serem optimistas quando os europeus já não podem ser, têm uma visão antropológica muito mais negativa. “A Constituição dos Estados Unidos é baseada na filosofia de Hobbes e na religião de Calvino, assumindo que o estado natural da humanidade é o estado de guerra, e que a mente carnal está em inimizade com Deus (Horace White)” (pág. 200).

4. Os Estados Unidos compreendem-se a si mesmos a partir da ideia que é preciso peregrinar para lá habitar dignamente. Os Estados Unidos são ainda hoje um país de colonos, cuja verdadeira cidadania não é a raiz ancestral mas o trabalho e o empenho. Seguindo o contributo de Benjamim Franklin, a verdadeira hospitalidade americana é conferir ao indivíduo o estatuto de cidadão, “através do trabalho, da vontade, do empenhamento do sujeito e do seu respeito pelas instituições” (pág. 179).

5. O pragmatismo americano, ao contrário do que diz o ressentimento europeu, não é uma fuga da reflexão mas o resultado dela. O protestantismo, que é obcecado pela Bíblia, pede uma auto-avaliação constante do indivíduo nesta peregrinação, desenvolvendo “uma forte cultura interior de responsabilização individual” (pág. 15). O americano não passa a vida a pensar em si mesmo principalmente porque ignora que existem mais pessoas no mundo além da América (embora muitas vezes assim aconteça). O americano passa a vida a pensar em si mesmo porque a Bíblia, que lavrou o país, assim o obriga. O individualismo americano não é uma desvalorização dos outros mas uma ênfase no valor de cada um.

Como é que isto se aplica à realidade religiosa dos evangélicos portugueses então? Vou tentar fazê-lo em três passos.

- Os evangélicos portugueses, tais como os americanos, são menos cínicos que todos os outros portugueses. Não estou a dizer que os portugueses são conscientemente cínicos. Mas quando se conhece um evangélico, percebe-se que por causa da influência americana ele tende a ter uma perspectiva diferente do mundo, que muitas vezes passa por simples ingenuidade. E talvez seja. Mas se for ingenuidade, é uma ingenuidade de quem crê que existe uma finalidade para a existência. Os povos europeus (e mediterrânicos, no particular) têm mais dificuldade em aceitar que a nossa vida serve para alguma coisa - parece-lhes um luxo de quem ainda não se desiludiu devidamente com a vida. O evangélico português estraga o fatalismo persistente da sua nação.

- Os evangélicos portugueses, apesar de poderem parecer ingénuos em comparação, têm uma perspectiva antropológica mais pessimista, como os americanos. Os evangélicos portugueses são educados que "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Romanos 3:23), o que lhes corta a pieguice latina de achar que, bem vistas as coisas, todos somos bons lá no fundinho do nosso coração. Agora a verdade é que, apesar desta convicção teológica, os portugueses evangélicos acabam por resvalar frequentemente para a pieguice do seu povo, tratando inevitavelmente cada filho que têm como se fosse um filho único (uma das grandes pragas civilizacionais da nossa cultura portuguesa).

- Os evangélicos portugueses fuçam numa disciplina completamente anti-portuguesa que é tentarem levar-se a sério, coisa que todos os outros portugueses não estão para aí virados. Este é o ponto em que todos os leitores portugueses não-evangélicos deste texto se podem irritar (ainda mais) comigo. Por isso, vou tentar ilustrar.

Um português não-evangélico que tem convicções religiosas acha que essas convicções religiosas são tanto mais sérias quanto a capacidade que ele tem de não falar sobre elas. Os povos latinos, muito dados a todo o tipo de misticismos, consideram que falar muito sobre uma coisa é estragar o valor dela. Logo, abraçam uma religião que sublinha o "mistério" num misto sincero de deslumbramento e preguiça (esquecendo que "mistério" na Bíblia serve para acentuar que alguma coisa foi revelada, e não para acentuar que alguma coisa permanece escondida). Os latinos que são religiosos acham que a seriedade da sua religião se vê sobretudo na capacidade que têm de a manter em silêncio. Isto esbarra de frente com o carácter aparentemente extrovertido do cristianismo protestante. O cristianismo protestante, porque defende mais essencialmente o valor da palavra, crê que o verdadeiro crente não é o que a esconde mas o que a revela. A ironia é que o protestantismo converteu os povos do norte, tradicionalmente tidos como mais reservados.

Por que digo que este factor de falar sobre a fé é levar-se a si mesmo mais a sério? Porque este factor de falar sobre a fé não é uma falta de pudor, mas uma consequência racional de quem se convenceu de uma verdade que que vale mais do que a própria pessoa. Esta é a razão que leva os americanos (e os evangélicos portugueses!) a parecerem acriançados aos olhos dos europeus, por falarem tão facilmente acerca daquilo que sentem e pensam. Acontece que este aparente acriançamento americano não vem de os americanos acharem que a realidade é fácil - que é como os europeus gostam de se sentir diante deles, achando nós que "os americanos são básicos". Os americanos falam tão facilmente acerca do que pensam e do que acham porque pertencem a cultura nutrida pela convicção que quem lê e pensa chega a conclusões suficientemente importantes ao ponto de poderem transformar a nossa existência.

Os evangélicos em Portugal são sempre olhados com paternalismo porque parecem criaturas desbocadas e superficiais, com uma religião sem peso e tradição, toda feita de facilidades e pragmatismos. Mas a verdade é que os evangélicos em Portugal são filhos de uma convicção contra-cultural que sustenta que pensar não só é importante como nos transforma. Se ganhasse um euro de cada vez que ouço a frase "quase que me convences, Tiago", teria agora dinheiro para abrir às margens do Tejo um "Cavaco Center For The Unknow". Mas sabem por que é que, enquanto evangélico, não convenço em Portugal? Bem, não convenço grande parte das vezes porque não sou convincente. Mas, e sem falsa modéstia, também não convenço em Portugal porque os portugueses estruturalmente não apreciam a ideia de que aquilo que é verdadeiro tem a capacidade de nos transformar. Para os portugueses a verdade é trágica, não é transformadora (vão ler o Miguel Unamuno). Para os portugueses a racionalidade parece um luxo de quem ainda não percebeu que nada faz realmente assim tanto sentido. Os portugueses, como tantos outros na Europa, glorificam o aleatório como o verdadeiro encaixe na existência (vejam como isto está popularizado pela palavra "random" dos miúdos na net). Os evangélicos, que não defendem que nos salvamos por pensar bem, mas que pensamos melhor quando nos salvamos, têm muito para americanizar saudavelmente este país. Neste sentido, os americanos vivem correctamente mais perto do Céu.

Em suma, ser um cristão evangélico em Portugal é quase sempre passar por um tipo americanizado, já dizia aquele velho Presidente da República. Ele, Mário Soares, sendo uma das vozes que mais nos envergonha politicamente no domínio da liberdade religiosa, tinha razão nisto. Os protestantes são mesmo tipos sem raízes neste pequeno Portugal tão bem medido e limitado. Não temos padres, não temos políticos, não temos palcos. Mas que aqui estamos, estamos. Obrigado, Mário Avelar, por nos fazeres lembrar que puritano não é palavrão.

Vão ler este livro e depois falaremos todos com mais juízo. Os puritanos são os maiores. Aguentem.

[Seria interessante pensar no Brasil também, e no modo como os portugueses acabam por segunda via por também serem influenciados pelos evangélicos brasileiros. Mas isso é agora demasiada areia para a a minha camioneta. Vale a pena pensar nisso no futuro: como os brasileiros evangélicos também foram americanizados, mas como a americanização dos brasileiros é diferente da nossa pelo facto de os brasileiros, como os americanos, pertenceram a um continente jovem quando comparado com a Europa, entre outros aspectos. Mas que existe um efeito triângulo para os evangélicos portugueses, desenhado por EUA-Brasil-Portugal, sem dúvida que existe. Curiosamente, e essa seria ainda mais outra conversa (que já mencionei num texto antigo sobre o Brasil), os evangélicos portugueses preferem hoje ser menos brasileiros, sobretudo à conta dos efeitos da imigração brasileira cá. Bem, mas por enquanto chega de parlatório.]

terça-feira, junho 28, 2016

Perceber como não nos percebem (ou uma leitura de "O Nascimento de uma Nação" de Mário Avelar - sem Playmobil incluído) - parte II

Não é possível querer ser um evangélico português com alguma capacidade de auto-reflexão sem perceber de puritanismo. E com isto não sugiro que temos de ter diplomas em história da religião para sermos competentes no exercício da nossa fé (o que nos torna competentes no exercício da nossa fé é o Espírito Santo). Simplesmente limito-me a reconhecer o óbvio, que é perceber um pouco do passado para termos a ideia que as coisas não caíram dos ceús aos trambolhões. Ao contrário do que hoje acontece em largas regiões do evangelicalismo, a fé reformada nunca sugeriu desligar-se da história para viver um cristianismo mais puro (como se os outros que nos antecederam fossem uns ímpios, e nós fôssemos uns iluminados). Logo, o desafio para um cristão evangélico português é assumir humildemente que viver a sua fé com profundidade pode passar por reconhecer as origens estrangeiras da tradição religiosa a que pertencemos.

Frequentemente os cristãos evangélicos portugueses são como adolescentes em busca da sua personalidade, convictos de que quanto mais diferentes forem dos progenitores, melhor. Por isso mesmo, um dos sonhos teen típicos dos cristãos evangélicos portugueses é o de um cristianismo evangélico tipicamente português. Desculpem colocar as coisas de uma forma tão radical, mas no dia em que descobrirem um cristianismo evangélico português avisem-me que emigro para Espanha. Mantendo ainda as coisas em termos curtos e grossos: se queres um cristianismo tipicamente português, ele já existe há mais tempo que existe Portugal e chama-se catolicismo romano. Evangélicos adolescentes: enxerguem-se e cresçam.

Ser um cristão evangélico português com uma relação saudável com a sua fé é viver em harmonia com o facto de se pertencer a uma tradição religiosa que é sobretudo de travo anglo-saxónico. Com se diz lá nas terras deles: deal with it. Isso quer dizer que somos obrigados a piorar o sentimento de estranheza que a maior parte dos portugueses tem connosco? De modo algum. Simplesmente quer dizer que estamos em paz com o factor mais importante da nossa fé não ser o conforto que sentimos com a história da nossa tradição religiosa, e quer dizer que estamos em paz com o facto da nossa tradição religiosa ter efectivamente uma história pouco ou nada portuguesa. Gente adulta tende a saber viver conciliada com a sua história. Sim, somos estrangeirados - e daí?

Logo, esta minha longa queixa é apenas para vos dizer que às vezes o melhor modo de percebermos quão abençoadamente esquisitos podemos ser é ler essa esquisitice na pena de outros. Ora, ler o Mário Avelar falando sobre literatura americana é perceber que não há Estados Unidos da América sem os puritanos. Um evangélico português que lê o Mário Avelar é ajudado a perceber que aquilo que faz dele esquisito em Portugal, é o que faz com que os Estados Unidos sejam os Estados Unidos. Com isto não estou a dizer que os Estados Unidos são uma nação evangélica, mas estou a apenas (a ser mais um) a dizer que os Estados Unidos são uma nação nuclearmente influenciada pelos puritanos. Por outro lado, um português não-evangélico que lê o Mário Avelar acaba, ainda que por tabela, a receber uma lição sobre os evangélicos que também existem no seu país. Todos ficam a ganhar lendo o Mário Avelar (perdoem-me a quadrinha).

(Continua.)

[Ontem o Marcos Mateus comentava o meu texto alertando que outras denominações evangélicas em Portugal foram fruto do trabalho missionário de outros países, como a Escócia e a Inglaterra no caso das chamadas Igrejas dos Irmãos, e não dos Estados Unidos. Sem dúvida. Podíamos também mencionar os suecos e as Assembleias de Deus, para termos mais um exemplo (ou os suíços e a Acção Bíblica, e por aí fora). O ponto fundamental da minha argumentação não contesta as origens missionárias de outros países. O ponto fundamental da minha argumentação, e que será mais visível na terceira e última parte deste texto é que, mesmo quando a influência missionária protestante não foi directamente americana, a cultura evangélica que é recebida e desenvolvida em Portugal é decididamente influenciada pela cultura americana. Isto porque a cultura americana é nos Séculos XIX e XX (e sobretudo XX) aquela que representa o lugar onde o movimento evangélico, ainda que tendo manifestações plurais pelo mundo fora, foi mais fértil e capaz de ser importado para outros lugares.]

segunda-feira, junho 27, 2016

Perceber como não nos percebem (ou uma leitura de "O Nascimento de uma Nação" de Mário Avelar - sem Playmobil incluído) - parte I

A minha tese é: se és um evangélico português e não percebes a cultura americana, estás metido num sarilho. Isto porque um evangélico português é geralmente alguém educado num choque cultural entre os Estados Unidos e Portugal. Isto porque as igrejas evangélicas portuguesas são sobretudo resultado do trabalho missionário americano (e mesmo quando são resultado de trabalho missionário brasileiro, antes os evangélicos brasileiros tinham sido formados pelos evangélicos americanos). Ora, se és um evangélico português que não percebe de cultura americana, então não te percebes a ti mesmo grande coisa.

Outra parte da tese: se és um evangélico português, é provável que percebas pouco da própria cultura portuguesa. O facto de teres sido educado no choque cultural entre Estados Unidos e Portugal contribui decididamente para que, apesar de seres português e te sentires parte da cultura do teu país, acabes por não ser nem grande português nem, obviamente, grande americano. Logo, se és um evangélico português e não percebes a cultura americana, estás metido num sarilho e estás metido noutro sarilho que é julgares que percebes a cultura portuguesa quando, na realidade, não percebes. Basicamente, se és um evangélico português, estás sempre tramado (o que não tem de ser uma coisa má).

Se fosse eu a ler este texto ficava irritado com o tom dos parágrafos anteriores. É compreensível. Mas para que os danos da forma não danifiquem o conteúdo, sugiro que pensemos em cristãos evangélicos que tenham contribuído significativamente para a cultura portuguesa. Não há. E não haver não tem de ser uma tragédia (Deus não quer que os cristãos evangélicos portugueses se preocupem prioritariamente com contribuições para a cultura portuguesa, Deus quer que os cristãos evangélicos portugueses se preocupem prioritariamente com a salvação dos seus próximos, que provavelmente serão na maioria portugueses). Todavia, como a ausência de referências sublinha, o diálogo entre evangélicos e a cultura portuguesa é uma conversa de surdos. Das poucas vezes que venha a acontecer, o mais provável é que os interlocutores estejam a falar línguas diferentes mesmo tendo em conta que o idioma usado é o português.

Nós, evangélicos portugueses, precisamos desesperadamente de entender como os outros não nos entendem. E é aqui que entra o livro fantástico chamado "O Nascimento de uma Nação - nas origens da literatura americana" de Mário Avelar. O Mário Avelar é o único académico português que conheço que sabe usar a palavra puritano. Vou mais longe: o Mário Avelar é das poucas pessoas que conheço em Portugal que sabem usar a palavra puritano (infelizmente, nem os evangélicos sabem usar a palavra). Por que é que o Mário Avelar sabe usar a palavra puritano? Porque tem o hábito saudavelmente puritano de estudar. O Mário Avelar estuda os puritanos e por isso sabe do que fala quando fala deles. Permitam-me neste texto uma fuga literária para o sermão: caro leitor, sabe do que fala quando usa a palavra puritano? Provavelmente não. Você não sabe. Vá estudar.

(Continua.)



terça-feira, junho 21, 2016

Mais agenda, agora no Porto



Ouvir

Se a fé tem a ver com tudo na tua vida, ligares-te a uma pessoa que não a tem é ofereceres-lhe uma versão morta de ti mesmo.

O sermão de Domingo passado, chamado "Esdras arranca os cabelos", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, junho 20, 2016

CASAMENTO DA SARAH E DO HUGO Lavre, 18 de Junho de 2016
Génesis 12:1-8

I
Sarah e Hugo, se Abraão acreditou que podia dar origem a um país, mesmo sabendo que a sua mulher Sara não podia ter filhos, lembrem-se que a base do vosso casamento não é o que vocês sabem sobre vocês próprios, mas o que vocês sabem sobre Deus. Hoje vocês não casam baseados nas certezas que têm sobre quererem estar casados. E entendam-me bem: não estou a dizer que a vontade que têm de casar não é importante. Se não fosse, não teriam de dizer um “sim” vigoroso daqui a uns minutos quando vos perguntar se se aceitam um ao outro como esposos. O que estou a dizer é uma coisa um pouco diferente. Se vocês confiarem em Deus, o vosso casamento vai ser tão real nos momentos das certezas como nos momentos das incertezas. O chão do vosso casamento não vai ser a certeza que têm acerca um do outro, mas a confiança que têm em Deus. E, acreditem, dessa confiança em Deus nascerá muita certeza acerca um do outro. Mas a confiança em Deus é a causa, e a confiança um no outro é a consequência, não o contrário. Ter fé não é ter certezas primeiro para confiar depois; ter fé é confiar primeiro e depois ter as certezas que daí nasçam.
II
Sarah e Hugo, se Abraão não ficou à espera que Deus lhe desse filhos para só depois obedecer ao que lhe era pedido, lembrem-se que a capacidade para estarem casados vem depois da confiança que têm em Deus. Hoje vocês não casam porque vos é reconhecido que são capazes de estarem casados. Deixem-me dizer com todo o amor que me é possível: vocês não percebem nada de casamento e vocês não sabem no que se estão a meter. A vossa capacidade para estarem casados é, a partir da vossa experiência, zero. Ainda por cima, vocês correctamente não viveram juntos antes nem experimentaram antes de casar as coisas do casamento, como quem verifica se é capaz de estar casado. E deixem-me dizer com todo o amor que me é possível, a quem hoje vive assim e connosco está, experimentando antes do casamento aquilo que pertence ao casamento: mesmo que julguem estar a experimentar antes do casamento aquilo que ao casamento pertence, a vossa capacidade de ficarem juntos é igualmente zero. A prova é que grande parte das pessoas que faz antes do casamento aquilo que costumava pertencer apenas ao casamento, sente-se mais livre para se separar (é consultar as estatísticas). Sarah e Hugo, vocês vão conseguir ser fiéis ao casamento, não à custa do vosso talento para a fidelidade, mas à custa de Deus ser fiel e ter sido ele a inventar o casamento. Quanto mais confiarem em Deus, mais pessoas de confiança serão um para o outro. Quanto maior a vossa fé, maior a vossa capacidade de estarem casados.
III
Sarah e Hugo, se a vida de Abraão teve de mudar tanto para que as promessas que Deus lhe fez se cumprissem, lembrem-se que no vosso casamento não é importante continuarem a ser quem são, mas o contrário. Hugo, para que continues casado com a Sarah, muitas vezes vais ter de ser um Hugo diferente. Sarah, para que fiques casada com o Hugo, muitas vezes vais ter de ser uma Sarah diferente. É preciso que sejamos outros para que fiquemos casados com a mesma pessoa. Da mesma maneira como o casamento está na Bíblia como uma semente de eternidade, Deus vai ensinar-vos a a acreditar numa vida diferente daquela que já têm para se manterem juntos. Quem só quer acreditar no que vê, não precisa casar. É quem casa que precisa de acreditar no que não vê. Estar casado é uma lição de fé. Casar é confiar.
IV
Sarah e Hugo, se Abraão e Sara foram um casal estéril que deu origem a uma nação, lembrem-se que do vosso casamento pode nascer o que agora vos parece impossível. No vosso casamento vocês serão frequentemente tentados a dizer: já não é possível continuar casado. Uma das coisas que o vosso casamento vos vai fazer pensar e sentir é que há ocasiões em que ser fiel aos votos que fizemos no casamento é impossível. Mas não acreditem nisso quando pensarem e se sentirem assim. Porquê? Porque vossa vida foi transformada por alguém que provou que é possível ser fiel até quando temos todas as razões para não sermos. Desta perspectiva, Jesus tinha todas as razões para não dar a vida na cruz pelos nossos pecados. Afinal, ele nunca fez nada errado - nós é que fizemos. No entanto, Jesus foi fiel à promessa que Deus nos tinha feito, de arranjar uma maneira de tratar do mal que somos e fazemos através do sacrifício de um inocente. Sarah e Hugo, o vosso casamento será uma árvore de deliciosos frutos impossíveis sempre que vocês permaneçam em comunhão com o vosso salvador Jesus Cristo.
Que Deus muito vos abençoe.


(Fotografia da Sara Falcoeiras).

sexta-feira, junho 17, 2016

Agenda

Quero tocar à altura da qualidade deste poster do Silas Ferreira. Marquem na agenda!




quinta-feira, junho 16, 2016

Sabem aquele texto que escreveram há meio ano, que é daqueles que exige concentração, e que encaixa que nem uma luva no aqui e no agora e que não vai fazer nada de bom pela nossa popularidade? Ei-lo.

Há maneiras diferentes de chegar a um lugar bonito que é o lugar onde a liberdade é defendida. Uma primeira maneira de chegar a esse lugar bonito é defender a liberdade por uma razão moral: devemos ser livres porque a liberdade faz parte da dignidade com que Deus criou os homens. Do mesmo modo como Deus é livre, os homens devem ser livres. Uma segunda maneira de chegar a esse lugar bonito é defender a liberdade, não por uma razão moral, mas por um relativismo: devemos ser livres para que ninguém possa impor uma moral (na prática, até isto é uma visão moral mas por uma questão de economia de tempo vou poupar-vos de desenvolver este ponto). Como nesta segunda maneira se acredita que não há valores absolutos, a liberdade é o melhor para garantir o direito a cada um relativizar de acordo com a sua consciência. O lugar é bonito para ambos mas a maneira como a ele se chegou é completamente diferente.

Isto quer dizer que ocupamos o mesmo lugar bonito tendo chegado lá através de caminhos bem distintos. Eu fico contente por viver num país onde a liberdade é importante. E fico contente porque enquanto a liberdade for um valor, sei que estou mesmo num lugar bonito. Se eu cheguei a este lugar por ser cristão, outros chegaram a ele pelas razões inversas. Há quem esteja comigo neste lugar bonito que é onde se defende a liberdade precisamente porque acha que a liberdade é das melhores coisas para evitar ser cristão. Reparem na ironia: eu acredito na liberdade como uma consequência de ser cristão; há quem acredite na liberdade para não cair na consequência de ser cristão.

Dentro das pessoas que defendem a liberdade mais como um relativismo que como uma razão moral, umas estão à esquerda e outras estão à direita. Como não deve constituir grande surpresa, fico com a impressão que a maior parte das pessoas que à direita defendem neste país a liberdade o faz mais por relativismo que por razão moral. É isto que explica a anedota de haver pessoas identificadas com o catolicismo romano que na hora h o metem na gaveta para optarem por princípios civicamente mais populares. Na prática, acaba-se a afirmar que a liberdade em que acreditamos funciona melhor na temperatura do relativismo do que na temperatura da moral. A ironia é que a pessoa que se julga mais dada à liberdade por aprovar em termos cívicos coisas que a sua religião reprova, só torna a liberdade em que crê mais pequena - a liberdade em que crê funciona a partir da sua capacidade pessoal de relativizá-la a pretexto de circunstâncias especiais, em vez de crer numa liberdade que é maior ainda que o nosso discernimento útil e socialmente conveniente dela.

Para as pessoas que a esta altura eventualmente se assustam, julgando que acreditar na liberdade como um valor moral pode levar-nos ao perigoso caminho do casamento entre a Igreja e o Estado, eu diria: vão estudar. E estudem a história do protestantismo em particular. A minha confissão religiosa, os baptistas, há mais de 400 anos que defende a separação entre a Igreja e o Estado, contra romanos e reformados, e levou muita pancada por isso mesmo. O que a defesa da separação entre a Igreja e Estado não pode ser é a separação entre a liberdade e a moral. Porque a liberdade como valor só pode ser defendida absolutamente se ela for um absoluto moral. E o absoluto moral que nos levou felizmente a separar a Igreja e o Estado não tem a ver com desprezar o que a Igreja diz, mas precisamente o contrário (é a Igreja que defende que os homens devem ser livres como consequência de o Criador deles ser livre também). Não é por acaso que a separação entre Igreja e o Estado aconteceu em países com igrejas. Já pensaram por que razão um conceito semelhante não saiu de culturas não-cristãs? Devemos às igrejas (e uso o termo precisamente no plural porque creio que é no plural que deve ser entendido o conceito das comunidades locais de cristãos ao longo de toda a história) a separação entre a Igreja e o Estado, não ao Estado. A prova, creio, está depositada precisamente no facto de que as experiências menos saudáveis de separação entre Igreja e Estado terem acontecido nos lugares onde o Estado quis tomar o lugar da Igreja (a França revolucionária, a Rússia bolchevique e a Alemanha nacional-socialista).

Termino permitindo-me ser um pouco apocalíptico e pragmático. Os lugares onde a liberdade está a ser afirmada, não por razões morais mas por razões de relativismo moral, serão lugares onde não só a liberdade religiosa será perseguida como acabará a ser perseguida a própria liberdade. A liberdade religiosa será o primeiro alvo a abater, por razões de não se adequar à defesa da liberdade como um relativismo. O chamado casamento homossexual vai finalmente revelar a sua verdadeira plumagem, que não é a das paradas coloridas nas ruas centrais da cidade. O chamado casamento homossexual vai ser a razão que poderá colocar na prisão pessoas que, como eu, não o tenham como um bem precisamente por se opor a uma moral absoluta. Cada vez mais se estabelecerá o ponto de que não pode haver liberdade para aqueles que condenam moralmente o que o Estado aprovou, e por isso teremos como criminosos todos os que tenham objecções morais ao relativismo estatal oficializado. Ter objecções à prática homossexual será cada vez mais visto como razão suficiente para punir quem assim pensa. Em nome do relativismo serão os defensores da moral os monstros. Porque na prática, os relativistas só se relacionam bem com a liberdade até ao ponto em que ela possa ser relativa à sua moral subjectiva. Os relativistas detestam morais absolutas.

Resumindo muito: eu, que faço depender a minha crença na liberdade da minha crença em Deus, terei a minha liberdade ameaçada por aqueles que fazem da liberdade a única coisa divina, à falta de melhor alternativa. Isto não é lenga-lenga religiosa para crédulos. Isto é, como os americanos dizem, cheirar o café e ver as notícias. Este lugar bonito que é onde se defende a liberdade vai começar a dar espaço a coisas muito feias não tarda nada.



quarta-feira, junho 15, 2016

Ouvir

Esdras percebeu que confiar em Deus não é não preparar-se para os males que podem vir. Se eu confundir confiar em Deus com não ter de ser exposto à possibilidade do mal vir até mim, na prática acabo a querer ter Deus para me ter a mim sempre são e salvo. Se a tua fé depende de o mal não acontecer, és o teu próprio Deus.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

quinta-feira, junho 09, 2016

Agenda

Gastem 25 segundos a ver isto e a guardar espaço na vossa agenda.

quarta-feira, junho 08, 2016

Nesta sexta-feira

Há uns tempos escrevi como tinha ficado impressionado com a cultura de serviço da igreja da Casa da Cidade. Uns tempos depois ouvi o Pr. João Martins pregar um sermão especificamente sobre o assunto do serviço e fiquei convencido: a Igreja da Lapa precisa de o ouvir.

Na maior parte das vezes, os aniversários da igreja são ocasiões da pompa possível, em que as formalidades podem ser maiores. E não sou contra isso. No aniversário do ano passado, por exemplo, como tínhamos um baptismo e como íamos receber muitas pessoas que nos visitavam, estávamos todos aprumadinhos. Este ano não precisa de ser diferente mas há uma diferença.

Neste aniversário queremos assumir que, sendo a festa uma coisa que gostamos, devemos aproveitá-la para pensarmos no que precisamos de corrigir. E reconhecemos que a Igreja da Lapa, estando cheia de bênçãos de Deus, tem ainda músculos de serviço fraquinhos.

Há uma explicação para isto. Na sua maioria, somos uma igreja de jovens casais. Isto é óptimo porque infelizmente uma grande parte das igrejas evangélicas está envelhecida. Mas o facto é que famílias jovens são sobretudo famílias tão absorvidas nas suas rotinas e ansiedades, que conseguirem aparecer no culto de Domingo já lhes sabe a milagre. Por causa deste fenómeno, uma igreja de jovens casais é uma igreja que demora muito a conseguir aquecer para trabalhar em favor de pessoas fora do seu núcleo familiar.

O Pr. João Martins tem uma experiência notável de servir outros. Durante anos foi o responsável pelo Desafio Jovem, que luta contra a toxicodependência, e nos últimos tempos pastoreia a jovem igreja da Casa da Cidade. O que ele vai pregar da Palavra de Deus está ligado ao que Deus tem feito graciosamente na sua vida. E nós queremos ouvir Deus ouvindo o Pr. João Martins. Estamos certos que vai valer muito a pena e gostávamos que se juntassem a nós.



terça-feira, junho 07, 2016

Ouvir

Querer ser de confiança sem confiar na palavra de Deus é confiar em nós próprios como solução dos nossos problemas. (...) Os milagres do Diabo são sempre assim: uma maneira de arranjar que os nossos problemas sejam resolvidos sendo nós um pouco mais do que já somos, ou tendo nós mais do que já temos. (...) O Diabo quer momentos de sucesso em que nós somos o centro, Jesus prepara-nos para confiarmos em Deus até nos momentos de sofrimento.

O sermão de Domingo passado, chamado "Para que sejas de confiança, tens de confiar na Palavra de Deus", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, junho 03, 2016

On laziness

William Truax is reading my book on laziness and translating some parts of it.

“The promising future of the Christian is in remembering what has happened in the past. The Christian who doesn’t desire to be more holy demonstrates that he understands neither his past or his future. The Christian who doesn’t desire to be more holy demonstrates spiritual Alzheimers - forgetting all that God has forgiven him. Not wanting to sin less reveals a miserable memory of the errors we have committed in the past. The other side of this coin is absolutely marvelous. It turns past regrets into milestones indicating how far the Lord has brought us in our walk with Christ. When we look back on what we wish we would have done, and longingly think, "If I had known then what I know now…” it is a clear indicator of how the Holy Spirit has been sanctifying us and changing our perceptions to be more like his. We know more now and regret past sins more because our past failures and ignorance become more and more contrasted with our current understanding of Christ and his holiness. This is wonderful because it does not minimize our past sins, but provides tangible evidence, over years, of how the Holy Spirit has been and continues to be working in and through us.“



quinta-feira, junho 02, 2016

João Calvino quer que ores de mãos no ar

Estou a ler a altura em que as Institutas se viram longamente para o assunto da oração. E Calvino liga o assunto da oração ao que vinha a falar antes, sobre a justificação pela fé. E esta ligação é muito importante. Ligar a oração à justificação pela fé recorda-nos que oramos baseados no facto de não haver justiça em nós, mas em Deus. Ligar a oração à justificação pela fé recorda-nos que oramos baseados no facto de Cristo ser a única maneira de podermos ser vistos por Deus como pessoas justas, através da imputação da justiça de Cristo a nós. Ligar a oração à justificação pela fé lembra-nos ainda que oramos baseados no facto de Deus ser agora nosso pai e nós seus filhos por adopção (daí que o espírito de adopção seja aquilo que nos leva a clamar: “Abba Pai”, como explica Paulo em Romanos 8:15 e 26).

Este último aspecto do espírito de adopção é o que arruma a aparente complicação da inutilidade da oração tendo em conta a omnisciência divina. De facto, nós não oramos porque Deus precisa das nossas orações para mudar o rumo dos acontecimento. Deus não é um veículo movido ao combustível das nossas orações - isso tornaria a oração sobretudo um assunto de mecânica. De facto, nós oramos porque, enquanto filhos de Deus, ansiamos por um relacionamento familiar com ele. Deus é um pai e relaciona-se connosco activamente sendo esse relacionamento activo visível no facto de falarmos com ele - a oração é sobretudo um assunto de comunhão.

Logo, os resultados da oração são menos aquilo que Deus faz no mundo porque nós orámos, mas os resultados da oração são mais aquilo que Deus faz em nós quando oramos: 1) o nosso coração dá-se mais ao desejo de Deus e do seu serviço; 2) os desejos do nosso coração são avaliados por Deus; 3) e somos preparados para receber em gratidão o que Deus nos dará. No final, já fomos suficientemente transformados para desejarmos voltar ao início deste esquema, sem desculpas preguiçosas para não procurar a comunhão com Deus. O homem que não ora, não percebe a realidade e, sem critério, não a deseja transformada naquilo que ela deve ser transformada.

Calvino começa então a enumerar regras de oração. A primeira é o reconhecimento da santidade de Deus. E Calvino é brilhante a expandir o assunto. A base da oração para Calvino não é fazer da oração um encontro feliz entre Deus e o homem. Antes pelo contrário, é natural que se Deus é perfeito e nós não somos, a oração comece por ser uma experiência que traz ansiedade e talvez até pânico. Por isso mesmo, na Bíblia são muitos os que se arrepiam de medo quando a presença de Deus vem até eles. A oração não é um piquenique mas um “abismo até aos maxilares da morte” (pág. 148). O que está em causa não é a nossa perfeição, que agora arranjámos maneira de ir até Deus. O que está em causa é a perfeição de Deus, que arranjou uma maneira incrivelmente misericordiosa de ir até nós.

Por isto mesmo, deve ser natural que sintamos com um arrepio a importância do modo como oramos. Quem ora de qualquer maneira corre o risco de não orar de maneira nenhuma. “Ninguém se prepara para a oração a menos que esteja impressionado com a majestade de Deus, de um modo que se queira livrar de todos os cuidados do mundo” (pág. 149). Também por causa disto é que o levantar as mãos enquanto se ora é um símbolo de desejarmos ser elevados até Deus, além das coisas que aqui nos prendem. Este é um bom procedimento.

Um segundo bom procedimento é orar aquilo que se deve. Como é que sabemos o que é que se deve orar? E Calvino volta a dar cartas: provavelmente aquele que ora melhor é aquele que hesita quando ora. Como assim? Isso quer dizer que não podemos orar espontaneamente? Não é bem isso. Calvino explica que, como orar bem não é orar qualquer coisa, a verdadeira oração é um dom. E de facto é isso que a Bíblia faz quando inclui a oração no assunto dos dons espirituais (1 Coríntios 12), e quando nos manda orar no Espírito (1 Cor. 14:15). Até o facto de eu falar com o Pai, só acontece porque este Pai me fez filho. Não falo com Deus porque posso, falo com Deus porque ele assim me concede.



terça-feira, maio 31, 2016

Ouvir

Uma das coisas que amo na minha igreja é a frequência com que uma voz vinda de fora do país diz coisas que precisamos desesperadamente de ouvir. O Mark Bustrum prega um sermão num assunto que nunca ouvi pregado numa igreja baptista em Portugal. A Lapa é muito abençoada por coisas destas.

O sermão de Domingo passado, chamado "O sorriso no rosto do teu pastor", pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, maio 27, 2016

Entrevista dada ao Ouvido Alternativo

É uma honra para nós apresentarmos o mais recente convidado de "Conversas d'Ouvido", Tiago de Oliveira Cavaco, mais conhecido como Tiago Guillul, cantor, compositor, pastor Baptista e membro fundador da editora independente FlorCaveira, fundada em 1999 e que "descobriu" nomes como Os Pontos Negros, Diabo na Cruz e Samuel Úria. Ultimamente ficou rendido ao mais recente disco de Benjamim Auto Rádio e no seu funeral gostava que tocasse "Império" de Samel Úria, no entanto há muito mais para descobrir nesta edição de "Conversas d'Ouvido"...

Ouvido Alternativo: Como surgiu a  paixão pela música?
Tiago Guillul: Não sei resumir com justiça a importância que a música tem para mim. Mas posso dizer que os momentos em que via a minha irmã Rute, 5 anos mais velha que eu, a ouvir a Rádio Cidade quando ainda era uma estação pirata na Amadora ilustram parte do processo que contribuiu para amar música.

Como surgiu o nome Guillul?
O nome Guillul surgiu quando, no final dos anos 90, numa aula do Seminário Teológico Baptista, um professor explicou que cavaco (pedaço de madeira) se dizia "guillul" em hebraico. Uma colega disse-me logo: "Tu és o Tiago Guillul", o que me pareceu uma designação poeticamente mais promissora que o meu nome de origem.

Como encaras o facto de a FlorCaveira ter em certa medida revolucionado a música em Portugal? Quando surgiu foi uma autêntica “pedrada no charco”.
O reconhecimento da FlorCaveira é posterior ao aparecimento dela. O reconhecimento acontece quase uma década depois de ela nascer. Se a FlorCaveira revolucionou a música portuguesa não foi por ter trazido nada de novo, mas por ter trazido coisas antigas que na altura pareciam inexistentes. Acreditávamos e acreditamos em canções em que as letras não são decorativas (e que devem ser entendidas na língua que falamos todos os dias), e acreditávamos e acreditamos que as limitações de meios não têm de ser um problema mas podem ser um caminho criativo (daí insistirmos no do it yourself).

Para além da música, tens mais alguma grande paixão?
A paixão da minha vida é a palavra. A palavra pregada, escrita e cantada.

Qual a maior vantagem e desvantagem da vida de um músico?
Por causa de dedicar-me à palavra, sou um músico mas não sou apenas um músico. Sou um pregador que também escreve. Logo, não vivo apenas como músico. Não tenho desvantagens vindas do facto de ser apenas músico.

Quais as tuas maiores influências musicais?
Para todos os músicos da FlorCaveira há uma resposta acerca de referências musicais: Bob Dylan, Johnny Cash e Leonard Cohen. É um dogma.

Como preferes ouvir música? CD, Vinil, K-7, Streaming, leitor de mp3?
O CD ainda é a maneira de ouvir música mais atentamente para mim. Um CD no carro.

O streaming está a “matar” ou a “salvar” a música?
O streaming não está nem a matar nem a salvar a música. É apenas mais um meio através do qual ela pode ser ouvida.

Qual o disco da tua vida?
Tenho uns quantos discos da minha vida. "In God We Trust" dos Stryper, "RDP Vivo" dos Ratos de Porão, "Nevermind" dos Nirvana, são alguns exemplos possíveis.

Qual o ultimo disco que te deixou maravilhado?
Cheguei quase um ano depois a ele mas o "Auto-Rádio" do Benjamim é um grande disco.

O que andas a ouvir de momento/Qual a tua mais recente descoberta musical?
A minha descoberta dos últimos tempos é o Filipe Sambado. Deu o melhor concerto que vi nos últimos tempos, no Sabotage, no ano passado, com um estalo rock incrível. O disco dele, "Vida Salgada", que ando a ouvir, sendo menos rock, é um disco muito bom.

Qual a situação mais embaraçosa que já te aconteceu num concerto?
Acho que nunca me aconteceu uma situação num concerto que possa chamar embaraçosa.

Com que músico gostarias de efectuar um dueto/parceria?
Não sou de duetos. No geral, não aprecio duetos. Para mim um dueto é o Kenny Rogers com a Sheena Easton. Nessa linha, não me perfilo para duetar com ninguém.

Para quem gostarias de abrir um concerto?
Gostava de abrir para o Bruno Morgado.

Em que palco (nacional ou internacional) gostarias de um dia actuar?
Não há nenhum palco que tenha essa importância simbólica para mim. Sou mais de ambicionar tocar em sítios onde à partida não se espera um concerto. É mais punk.

Qual o melhor concerto a que já assististe?
Um dos melhores concertos que assisti na vida foi o Goran Bregovic em Belém - um concerto à pala.

Que artista ou banda mais gostavas de ver ao vivo e ainda não tiveste oportunidade?
Gostava de ver os Rancid ao vivo.

Qual o concerto da história (pode ser longínqua, mesmo antes de teres nascido) que gostavas de ter estado presente?
Gostava de ter visto os primeiros concertos dos Heróis do Mar.

Qual o teu guilty pleasure musical?
I don't believe in guilty pleasures.

Projectos para o futuro?
Tocar o "Bairro Janeiro" numas quantas actuações pequenas.

Próximos concertos?
Braga, 27 de Maio.

Que música  gostarias que tocasse no teu funeral?
“Império” de Samuel Úria

Obrigado pela atenção e boa sorte para o futuro.

Relembramos que Tiago Guillul regressou este ano, com novo disco, Bairro Janeiro, gravado na Igreja da Lapa por Luís Severo e que pode ser ouvido na plataforma Youtube.

terça-feira, maio 24, 2016

Ouvir

O que ganho por depender da Palavra de Deus? Inteligência, independência e (boa) dependência.

O sermão de Domingo passado pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, maio 20, 2016

Agenda

Daqui a uma semana planeamos viajar para Braga para um fim-de-semana repleto. Pequeno concerto na sexta à noite, conferência sobre família durante todo o Sábado, e adoração com a Igreja Baptista de Braga no Domingo. Quem quiser, junte-se a nós.



quinta-feira, maio 19, 2016

Levar com a porta na cara

"Nem todo o que me diz «Senhor, Senhor!» entrará no reino dos céus; mas o que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos, naquele dia, hão-de dizer-me: «Senhor, Senhor, por ventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demónios, e em teu nome não fizemos muitos milagres?» Então, lhes direi explicitamente: «nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade»." Mateus 7:21-23

Na maior parte das vezes, quando ouço este texto citado é para malhar na insuficiência da palavra. Como quem diz: "estão a ver? Apenas dizer coisas não basta, é preciso fazer coisas!" E quem começa a ler este texto, pode ser levado a concordar - não basta dizer que se tem Deus como Senhor, é preciso fazer a vontade dele. O verso 21 parece dar palmada ao "dizer" e bater palmas ao "fazer". A questão é que o texto não fica por aí.

Quando Jesus explica melhor quem é a pessoa que apesar de dizer "Senhor, Senhor!" não vai entrar no céu, Jesus explica que essa pessoa não é uma pessoa especializada em apenas falar. O que é que vai dizer essa pessoa quando vir a porta da comunhão eterna com Deus a ser-lhe barrada? Ela vai dizer: "espera aí, Jesus! Eu disse coisas em teu nome e eu fiz coisas em tem nome". Portanto, a pessoa a quem Jesus está a barrar o caminho de entrada no céu não é apenas uma pessoa de fala - é também uma pessoa de fazer. Essa pessoa expulsou demónios e fez muitos milagres.

Vamos mais fundo: se partirmos do princípio que expulsar demónios e fazer milagres não são acções que beneficiam apenas aqueles que as praticam, mas que são acções que sobretudo beneficiam aqueles sobre quem essas acções são praticadas, podemos dizer que as pessoas que expelem demónios e fazem milagres são pessoas que objectivamente tornam melhor a vida das pessoas à sua volta. Pessoas que expulsam demónios e fazem milagres são pessoas de acção para os outros, são pessoas que representam uma mudança positiva concreta na sociedade. Pessoas que expulsam demónios e fazem milagres não são pessoas com teoria religiosa, são pessoas com resultados práticos.

Logo, o que Jesus está a dizer neste texto não pode ser o que tantas vezes me disseram que ele estava a dizer. Jesus não está a malhar em pessoas que apenas têm palavra porque estas pessoas que não vão entrar na comunhão eterna com Deus são pessoas que tinham muito mais que palavra - tinham prática. Jesus está a ir mais longe que esta divisão preguiçosa (e irritantemente greguinha e gnosticazinha) que separa o que se fala do que se faz. Separar o que se fala do que se faz é um hábito irritantemente greguinho e gnosticozinho que continua a encantar evangélicos palermas. Separar o que se fala do que se faz é a persistente alergia de quem ainda não percebeu a justificação pela fé - não somos salvos pelo que fazemos mas fazemos porque fomos salvos. O meio evangélico está hoje cheio de pessoas que teoricamente separam o que se fala do que se faz porque são protestantes apenas de rótulo.

Alguém pode dizer-me a esta altura: "aguenta lá, Tiago! Então e o apóstolo Tiago quando diz que a fé sem obras é morta?" E lá vai um protestante ter de explicar uma vez mais que o que Tiago estava a fazer não era contradizer Paulo (que disse explicitamente que somos justificados pela fé e não pelas obras), mas a criticar um fingimento de fé que se vê que é fingimento quando precisamente se mostra uma fé sem obras. Tiago não estava a dizer que nos salvamos pelas obras; Tiago estava a dizer que se a nossa fé não mostra obras, ela não é fé. Fé que é fé, não sendo causada pelas obras, causa obras. O catolicismo romano processa este assunto de uma maneira diferente porque o catolicismo romano não vê tanto problema na Bíblia poder conter aparentes contradições entre os seus autores, uma vez que as aparentes contradições da Bíblia confirmam que ela não pode ser interpretada por qualquer um, mas pelos membros oficialmente designados pela igreja para isso. Mas isto já é muita areia para a camioneta deste texto (e espero que a minha observação à Igreja Católica não tenha sido feita em má-fé).

Voltando ao sermão do monte. O que Jesus nos está a dizer neste texto é uma lição muito mais assustadora do que aquilo que temos feito dela. É muito confortável eu dizer que Jesus não quer apenas pessoas de palavras mas que quer pessoas de prática quando eu sou um tipo muito seguro da bondade das minhas práticas. Por isso é que dava um jeitaço ler todo o sermão do monte e entender de uma vez por todas que Jesus está a distribuir fruta (meaning: pancada) aos que estão muito convencidinhos que são bons pelo que falam, como aos que estão muito convencidinhos que são bons pelo que fazem. Onde Jesus está a chegar também é aqui: tu obviamente não te salvas quando finges que és bom, seja esse fingimento através de um cumprimento legalista das regras religiosas. Mas onde Jesus está a chegar é ainda aqui também: tu, de uma maneira menos óbvia, também não te salvas quando estás honestamente convencido que és bom. Por isso é que este texto é fogo! Jesus está a dizer-nos uma coisa terrível: não nos salvamos por sermos maus fingindo que somos bons, nem nos salvamos por sermos bons.

Pensamos que as pessoas a quem Jesus está a barrar o caminho do céu são pessoas que desvalorizam o fazer? Estas pessoas põem-nos no bolso a nível de fazer. Quantos de nós já expulsámos demónios e fizemos milagres? Em termos objectivos, e se formos sérios a comparar-nos com estas pessoas, elas são muito melhores que nós. Como é que Jesus justifica então a situação complicada de impedir que gente que faz coisas boas tenha comunhão com ele? Precisamente demonstrando que até as coisas boas podem ser, aos olhos de Deus, coisas más. Como assim? É isso que Jesus faz quando, dizendo explicitamente, revela àqueles grandes faladores e fazedores que na realidade as maravinhas que andam a falar e a fazer eram, no fim de contas, "iniquidade".

É por isso que o cristianismo não é uma fé de agentes do bem público. E com isto não quero desvalorizar a importância do bem público - os cristãos são chamados a fazer o bem a todos (como Jesus explica neste mesmo sermão do monte). Mas o bem público é para o cristianismo uma consequência e não uma causa. O cristão não deve relativizar o bem e dizer "no fundo, no fundo, para Deus é indiferente se faço bem ou mal" - esta seria uma lição muito errada a tirar das palavras de Jesus. Onde o cristão deve chegar é à noção de que, até nas coisas onde estamos absolutamente certos que estamos a fazer o bem, podemos estar a fazer mal. É por causa desta possibilidade de erro constante e persistente em nós que precisamos de uma solução que seja completamente perfeita. Creio que os homens a quem Jesus está a barrar o caminho do céu estavam certamente convictos que profetizar em nome de Jesus, expelir demónios e fazer milagres eram coisa boas. É por isso que o erro deles é mais perigoso - é um erro cheio de coisas boas.

O erro constante e persistente dentro da nossa natureza, visível até no melhor que em nós há, tem um nome e chama-se pecado. Mas a solução para esse erro constante e persistente em nós também tem um nome e esse nome é Jesus. Por isso é que a Bíblia descreve Jesus como nosso salvador. Só precisamos de ser salvos se estivermos metidos num sarilho sério. Jesus acreditava que estamos metidos num sarilho sério. Por isso é que ele gastou tanto tempo a explicar situações-limite como as deste texto. E o que ele nos diz é: não confies no melhor que falas e no melhor que fazes. Confia antes no pior que és e que fazes mesmo quando falas bonito e fazes bonito. Quando tiveres a certeza do pior que és mesmo quando falas e fazes bonito, é que vais perceber a necessidade que tens de Jesus. Aí é que vais amar Jesus até ao infinito e desejar que haja eternidade para que a tua oportunidade de amá-lo não termine. É aí que o vais ver à porta do céu e ele vai deixar-te entrar. Jesus vai deixar-te entrar não pelo que falaste e fizeste. Jesus vai deixar-te entrar porque vai ver em ti o amor que lhe tens por ele te ter salvado.

O céu não é o lugar dos que falam e fazem. O céu é o lugar dos que amam. E porque amam, falam e fazem na terra. Não falam e fazem na terra para abrir a porta do céu. Falam e fazem na terra porque Jesus já lhes abriu a porta. A fé é isto.

terça-feira, maio 17, 2016

Ouvir

Corro o risco de poder ser injusto mas acredito que existe uma cultura baptista portuguesa da mediocridade, onde os padrões elevados ficam sempre à porta da igreja. Pois Ageu e Esdras querem ensinar-nos o contrário.

O sermão de Domingo passado, chamado "Estás a dedicar a tua vida àquilo que o inferno vai demolir?", pode ser ouvido aqui.

segunda-feira, maio 16, 2016

Para ouvir

O Bairro Janeiro pode ser ouvido aqui. Tenho recebido algumas críticas encorajadoras e planeio tocá-lo nuns serões ou matinés simples e bonitos. Na Sexta-Feira, 27 de Maio, vou estar em Braga numa noite musical onde serei acompanhado pelos meus miúdos, às 20h na Igreja Baptista. Vai ser uma estreia. Venham!