segunda-feira, Setembro 22, 2014

Ouvir
A nossa obsessão pela auto-estima pode ser um parente próximo do orgulho de Jonas que o fazia ser um profeta indiferente ao destino daqueles a quem profetizava.
O sermão de ontem aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Setembro 19, 2014

Antevendo o Fim-de-Semana Cheio na Lapa
Entretanto avançam as confirmações para o Fim-de-Semana Cheio na Lapa. Voltem a pôr na agenda que já falta pouco: 10, 11 e 12 de Outubro.
A primeira sessão começa na Sexta às 20h30 e junta cinco pastores. Eu estarei a conversar com o Carlitos Cardoso da Igreja Cristã Manancial de Águas Vivas, com o Jónatas Lopes da Igreja Baptista da Graça, com o Mário Rui Boto do Centro Cristão da Cidade e com o Nuno Ornelas da Comunidade Cristã de Lisboa. Acho que não é exagerado dizer que é raro pastores evangélicos conversarem em público. Aliás, talvez haja até algum mistério quando algumas pessoas pensam no tipo de relação que os pastores têm uns com os outros. Sobretudo quando são pastores de denominações evangélicas diferentes.
O objectivo não é polémico, não é falar sobre as coisas que nos fazem discordar. Essas coisas são muito importantes e posso assegurar que todos os pastores presentes levam a sério as divergências teológicas que têm entre si. A teologia é essencial porque é a consequência do que acreditamos no modo como vivemos. Mas o propósito principal desta noite passa por termos uma conversa em que partilhamos convicções e experiências que, sendo distintas, podem ser de bênção uns para os outros. Por exemplo, o Carlitos e o Mário Rui servem igrejas numericamente grandes para o contexto evangélico português. Quais alguns dos seus maiores desafios para a qualidade espiritual das suas comunidades? Por exemplo, o Jónatas Lopes já pastoreou no interior do País. Que diferenças existem entre o interior e a capital? Por exemplo, o Nuno Ornelas serve uma igreja com pouco menos de dois anos. Que tipo de oportunidades são mais fáceis de agarrar para uma comunidade muito jovem? Estas e outras questões podem ser excelentes inícios de conversa.
Creio que nunca assisti a nenhum evento parecido no nosso contexto português. Permitam-me um desabafo: estou habituado a ver pastores juntos com palavras de bênção quando um deles morre (ainda esta semana isso aconteceu no culto fúnebre que honrou a vida inspiradora do Pr. Daniel Machado). Que tal sermos capazes de nos abençoarmos enquanto nos juntamos ainda estando todos vivos? Que Deus nos ajude.


quinta-feira, Setembro 18, 2014

Agenda
Quanto custa querer só fazer discos de rock a sério? Provavelmente o que o Filipe da Graça anda a pagar: dois cedês que o radar pouco apanhou, concertos obscuros, guitarras captadas com cada vez mais distorção. Não queremos fazer sociologia mas a verdade é que Lisboa parece ainda não saber rocar, o que é grave tendo em conta que o Filipe fez da Graça uma fiel batida quaternária. E esta é a verdadeira reorganização urbana que a capital precisa.
Enquanto esperamos ansiosamente pelo terceiro disco, o Filipe volta a uma qualquer cave para devolver à distorção as guitarras que não se deviam afastar dela. Vamos estar lá para assistir a esse tão pouco que nos diz tanto. Rock a sério.

quarta-feira, Setembro 17, 2014

A salvação no relógio
Os Puritanos ajudam-nos a entender que quem tem história com Deus tem consequentemente a história de Deus em si. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que a salvação não é apenas um registo de alguém que se salva mas é também o registo de quem salva. Vamos dizer isto com os termos teológicos certos: faz toda a diferença que a salvação seja apresentada na Escritura a partir da palavra justificação. A palavra justificação é o que nos assegura que quem tem história com Deus tem consequentemente a história de Deus em si. A palavra justificação é o que nos assegura que que ao sermos salvos o mais importante nem é o sermos salvos, mas o facto de ao sermos salvos contarmos uma história que é acerca de Deus.
O Puritano Peter Bulkeley (1583-1659) explicava a justificação num padrão tríplice: 1) a justificação é determinada na vontade de Deus; 2) é obtida através da obediência de Cristo; e 3) é efectivamente aplicada a nós (através do Espírito Santo). Por que razão é importante perceber a justificação? Porque é o que nos impede de achar que o mais importante na nossa salvação somos nós próprios. Perceber a justificação é o que nos lembra que o mais importante na nossa salvação é Deus. O mais importante na nossa história com Deus é a história de Deus. Daí encontramos toda a Trindade em acção na nossa salvação.
É por terem as prioridades no sítio certo que os Puritanos se dedicavam às doutrinas da união com Cristo, da regeneração, da adopção, da justificação e da santificação. Os Puritanos não se dedicavam a estas doutrinas por não terem mais nada que fazer e resolverem armarem-se em crânios. A dedicação puritana a estas doutrinas é a verdadeira humildade de reconhecer que a nossa salvação não é acerca do quão especiais somos mas acerca do quão especial Deus é. Logo, os miolos dos Puritanos funcionam muito porque o seu amor pelo Senhor funciona primeiro.
Os cristãos só podem ser justos a partir do momento em que se encontram unidos a Cristo. Se nos mantivermos longe de Cristo, nada do que ele fez enquanto mediador pelos homens nos serve. John Owen dizia que só podemos ser regenerados porque estamos unidos a Cristo (logo implicando uma ordem: primeiro união com Cristo, depois regeneração). "In justification we are freed from the guilt of sin, and so have a title to life; in regeneration we are freed from the filth of sin, and have the purity of God's image in part restored to us."
Por que razão é que os Puritanos gastavam tanto tempo a colocar coisas que têm um valor eterno numa escala temporal? Afinal de contas, será aconselhável falar da salvação em termos cronológicos? Arriscaria que eles diriam que sim explicando que o quanto mais percebemos, melhor vivemos, e vice-versa. "Sinners are not justified because they were regenerated, but because Christ has paid the penalty of their sins and has applied all his benefits to them." Quando entendemos que podemos estar de bem com Deus não primariamente pela nossa nova qualidade espiritual mas pelo facto de Jesus ter pagado a nossa dívida, tornamo-nos cristãos mais centrados nas qualidades de Cristo do que cristãos precocemente centrados nas nossas qualidades. Isto faz muita diferença na vida de uma pessoa. Mais Cristo e menos eu.
Por fim, compreendemos a fé como uma consequência e não como uma causa. Ou seja, temos fé porque Cristo funciona em nós e não porque resolvemos funcionar a partir de Cristo. Novamente isto faz muita diferença. "Faith is only possible because Christ, through the Spirit, has joined Himself to the sinner. In response, the sinner exercises faith toward Christ, as an effect of regeneration. With the union complete, the sinner receives from Christ everything that Christ merited, including justification, adoption, and sactification." Vale a pena colocar a salvação no relógio quando o resultado é amar mais Cristo.

[Escrito a partir do capítulo sobre a a relação entre as doutrinas da união com Cristo, justificação e regeneração do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]


















My main man, Peter Bulkeley.

segunda-feira, Setembro 15, 2014

Ouvir
Para muitos de nós o maior problema não é o sofrimento que temos. O maior problema é o sofrimento que não temos ainda. Porque revela que tentamos viver cristianismo sem cruz, o mesmo que Satanás e Pedro sugeriram a Jesus.
O sermão de ontem aqui (clicar em cima de aqui).
Na Flur foi assim


sexta-feira, Setembro 12, 2014

P'ra Cima



Sou fã de telediscos. Para mim fazer música também serve de pretexto para ilustrar essa música no ecrã. Porque em boa parte foi o ecrã que me levou a gostar mais de música. Ainda hoje lembro como o "Wild Boys" dos Duran Duran se tornou uma canção importante para mim não tanto pelo factor musical mas sobretudo pelo factor visual. Aquele teledisco assustava-me. Para já não falar em como o "Thriller" do Michael Jackson fez com que ainda hoje prefira dormir em quartos de porta aberta (no meu pânico infantil eu via através de uma janela de vidro que a minha porta do quarto tinha os mortos-vivos do "Thriller" a passarem). Continuo a achar que os músicos portugueses desvalorizam os telediscos. E quando digo isto não estou a pensar nas boquinhas para a câmara às quais em Portugal vulgarmente chamamos videoclips. São raríssimos os videoclips ou telediscos com ideias a serem feitos por cá.
Tenho tentado usar a música para o tal pretexto de fazer telediscos. Sendo um músico de pequena escala (o truque é dizer músico independente) tenho uma grande satisfação com as pessoas com as quais já fiz telediscos. O Manel Fúria, o Cravidão, o Almirante e o Pedro para o do "Beijas Como Uma Freira". O Marco Miranda para as "Sete Voltas" (o meu mais visto). O Filipe e o Adriano para a "Praia Verde". A equipa da desaparecida Central Musical para o "Nabucodonosor" (e houve uma versão anterior muito louca pelo Marco Miranda que por culpa minha ficou injustamente por ser conhecida). O Ben Monteiro para o "Subtracção e Não Soma", para "Um Peito em Forma de Bala", para as "Cabanas do Tédio" e para o "Condenados a Cumprir o Céu". O Ângelo Silva também para "Um Peito em Forma de Bala". O Alex D'Alva Teixeira para o "Amamos Duvall" e para "Pousaste os Auscultadores". E depois até eu me meti a tentar os meus próprios telediscos ("Homens de Água" e "100 Toneladas"). E, mais recentemente, o Martim Torres para os da Xungaria no Céu: "Tou Pronto", "Por Te Amar Não Me Contive" e "Na Cabeça Levo a Festa".
Fiquei tão entusiasmado quando ontem vi pela primeira vez este teledisco que agora partilho convosco! Sabia que trabalhar com o Pedro Lourenço em vídeo iria ser um luxo. Até porque é a primeira vez que o Pedro faz um teledisco. Trabalhar com o Pedro em XNC tem sido um privilégio. O Pedro é um ilustrador talentosíssimo e poder estar no mesmo barco dele vem da graça de Deus. Quando este ano o talento do Pedro começou a ser mais reconhecido fora do País eu senti aquele arrepio saloio de pensar: será que ainda tenho espaço na navegação do Pedro? A generosidade dele está ao nível do seu talento.
Quando o Pedro trouxe as primeiras ideias para o teledisco, a partir de algumas séries americanas de desenhos animados dos anos 60, sentimos que estavam em sintonia completa com XNC. A partir daí foi esperar (porque o Pedro trabalha com aquele tipo de excelência técnica que leva tempo) nas melhores expectativas. As expectativas eram altas mas o resultado é ainda superior. Espero que se divirtam a ver o teledisco e a espalhá-lo. E façam desse divertimento uma razão para se juntarem amanhã à pequena festa que XNC vai fazer na Flur. A partir das 16h. O disco novo vai ser lançado. O preço é segundo os velhos cânones da FlorCaveira: cada um paga o que quiser por ele (quem não tiver dinheiro não há-de sair da Flur sem o disco por causa disso). Vamos!

quinta-feira, Setembro 11, 2014

Nas bancas
Já está nas bancas a revista Ler para a qual contribuo com um texto que tenta desenhar uma ligação entre o escritor Robert Walser e o Apóstolo Paulo. Diz assim a linhas tantas:

Festo, que como governador romano era quem recebia o Rei Agripa no Palácio de Cesaréia, agitado pelo ímpeto narrativo de Paulo, interrompe-o dizendo: "Estás louco, Paulo! As muitas letras fazem-te delirar!" Agripa, por seu lado, confessa: "Por pouco me convences a tornar-me cristão." E é um momento ímpar em que a pregação do cristianismo é apreciada em dois extremos possíveis: ou nos repele como sinal de perturbação mental, ou nos atrai como uma genuína transformação de vida.


quarta-feira, Setembro 10, 2014

Não esqueçam este Sábado


















Matiné na Flur.

terça-feira, Setembro 09, 2014

O ridículo voluntário
Os Puritanos, injustamente conhecidos pela sua alegada vontade violenta de impor virtude aos outros, eram sim impiedosos a desmascarar os nossos vícios. Daí orgulharem-se na disciplina da auto-suspeita. Muito antes do Ocidente se encantar com clichés acerca das do auto-conhecimento já os Puritanos o praticavam a sério. E continuam a sugerir-nos hoje: orgulha-te de seres a primeira pessoa a tirar a senha para dizer mal de ti. Apetece perguntar - será que hoje teríamos no Ocidente esta moda do humor auto-depreciativo sem o impacto teológico dos Puritanos? Estou convencido que não. O Ricardo Araújo Pereira provavelmente não sabe mas não teria a carreira que tem se antes os Puritanos não tivessem contribuído para acharmos bem sermos capazes de pensar mal de nós.
Stephen Charnock dizia que o nosso afecto pelo mal era desproporcionalmente superior ao afecto pelo bem. E perguntava: "Não são as nossas vidas, na maior parte, voluntariamente ridículas?" Já Ezekiel Hopkins notava que o percurso de muitos homens em relação aos pecados que praticavam era curioso: boa parte das vezes há pecados que abandonamos porque com a idade perdemos a capacidade de os praticar.
Mas não pensemos que os Puritanos só olham para o copo meio vazio. Quanto mais se dedicavam a apreciar o estrago do pecado na vida dos seres humanos, mais se deslumbravam com a graça de Deus em salvar pessoas tão moralmente miseráveis como nós. Por isso a regeneração é uma doutrina bíblica amada pela pregação puritana. A regeneração é um fenómeno que acontece por total iniciativa de Deus e onde o homem se limita a um lugar passivo - essa iniciativa é cem por cento divina. Mas na santificação, um momento posterior necessário no processo da regeneração (e os Puritanos sublinhavam o facto da regeneração ser, em termos mais amplos, um processo), o crente tem um papel activo. Não há cá passividade no que toca a depender do Espírito Santo. É um trabalho diário em que concorremos para o que Deus faz connosco.
Charnock rejubilava com o facto de a regeneração desforrar-se do mal: "a regeneração é tão larga a renovar como o pecado a desfigurar." Muito se caiu. Mas muito agora se levanta.

[A partir do capítulo sobre os Puritanos e a Regeneração do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]

segunda-feira, Setembro 08, 2014

Ouvir
A simpatia de Pedro é uma arma do diabo para que Jesus caia. A empatia não é o valor mais importante na nossa relação com Cristo.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui). O segundo da série "Uma igreja que estima sem ser obcecada com a auto-estima".

quarta-feira, Setembro 03, 2014

O mais inacreditável no cristianismo é o que o torna credível
Há quase vinte anos entrei para o Seminário Teológico Baptista em Queluz. Nele tive um professor chamado Glenn Watson. Foi um professor que deixou uma marca muito positiva. Para tentar ilustrar essa marca positiva, dou um exemplo dela que não é necessariamente teológico. Todos os alunos do Glenn eram convidados para passarem uma noite com os Watsons, para um jantar familiar tipicamente americano. Nunca me esquecerei do mais glorioso banana split que alguma vez provei. Ir a casa dos Watsons era um regalo tão espiritual quanto gastronómico. Era também um contacto com uma família hospitaleira, que não era apenas um detalhe acerca do professor Glenn mas a base dele. A esposa Sherri e os três miúdos eram o que permitia a boa teologia do Pai Watson.
Porquê esta introdução para falar de um livro? Porque o livro sobre o qual escrevo agora, "Raised" foi escrito precisamente por um dos Watsons filhos, o Brad. Lembro-me do Brad como um miúdo tímido e agora surpreendo-me com a qualidade bem visível do que acabou de escrever. Por isso, para mim ler o "Raised" é voltar a saborear aquele banana split com altíssimos retroactivos teológicos. É uma refeição cheia.
Há cerca de quatro anos a pequena comunidade cristã que servia em São Domingos de Benfica resolveu gastar algum tempo a entender o que é que uma comunidade cristã deve ser. Isso fez-nos ir para a Primeira Carta aos Coríntios. É um texto magno para apresentar o que é a Igreja, exposta nos seus triunfos humanos e nas piores escandaleiras paroquiais. Nessa altura duas coisas ficaram na minha mente: a santidade dos cristãos não depende do que eles fazem mas do que Cristo fez por eles; e a ressurreição de Cristo é o facto fundamental da fé. É acerca desta segunda lição que trata "Raised" de Jonathan K. Dodson e Brad Watson. 1 Coríntios 15 deveria ser um texto lido repetidamente por todos os cristãos porque ninguém pode continuar cristão sem que as palavras de 1 Coríntios 15 permaneçam nele. Ao mesmo tempo, o que é afirmado dogmaticamente em 1 Coríntios 15 não funciona hermeticamente mas é exposto a escrutínio. Ou seja, o argumento do Apóstolo Paulo é que quem duvida da ressurreição deve ir às testemunhas oculares dela. A ressurreição de Cristo não é uma fábula forçada a crédulos mas uma crença exposta a exame.
O livro de Dodson e Watson não é um estudo académico mas mistura apologética e testemunho de uma forma sugestiva. Dodson e Watson são pastores em cidades norte-americanas de temperatura céptica. Ao invés de acharem que têm de tratar o seu contexto urbano como inimigo, tentam abrir-se a ele com uma postura dialogante. Por isso sabem que testemunhar a fé é mais eficaz quando se ouve com atenção aqueles a quem se testemunha, e quando se transporta a história pessoal de quem testemunha. Por um lado, os cristãos têm de reconhecer que nem sempre honram as questões que lhes são colocadas. Por outro, ao serem atenciosos para os que questionam, também lhes devem pedir que a dúvida não seja apenas uma embalagem rápida para o cinismo. "Don't reduce your doubts to a state of unsettled cynicism. Wrestle with your doubts. Find answers." Mas esta verdade também se deve aplicar a crentes. "If you call yourself a believer, don't settle for pat proofs, emotional experiences, or duty-driven religion. Keep asking questions. Those who haven't questioned their faith can easily become doctrinaire, even detached from the everyday struggle of faith."
Honrando estas questões, Dodson e Watson explicarão que o cristianismo, ao colocar o seu fundamento na ressurreição física de Cristo, desde logo encarou a luta de frente. "The ancient Greeks possessed no hope of an embodied existence after death. Resurrection was not just impossible; it was undesirable. (...) For Jews, it was unthinkable that resurrection would occur in the middle of history, apart from worldwide renewal of the created order. (...) Christian faith affirmed the body as worthy of resurrection, worthy of care. This naturally led the to care for the sick and the hurting." Os cristãos defendem a sua fé no terreno intelectual (Jesus ressurgiu mesmo e o sepulcro vazio não é uma idealização mas uma prova) e materializam a sua fé no terreno físico, aplicando as consequências da ressurreição no modo como se relacionam com os outros. Por isso os cristãos passam a cuidar dos seus corpos e dos corpos dos outros, mesmo quando esses outros não partilham da sua convicção religiosa. É assinalável que a origem do que hoje temos como um conceito moderno incontornável - o do cuidado hospitalar universal, tenha raiz no facto dos cristãos acreditarem que Jesus ressuscitou em carne e osso. Acreditar na ressurreição não inspira platonismo (a matéria é má e o espírito é bom) mas sensibilidade ao corpo. Essa sensibilidade ao corpo gera também uma compreensão integrada da existência humana. "If the resurrection is true, it means that people aren't witless spirits or meaningless series of biological mutations. They are made in the image of God and worth resurrecting. And that's good news."
Um dos aspectos notáveis de "Raised", sendo um livro breve e sobretudo introdutório, é o equilíbrio no tom. A sua atenção ao cepticismo ("Jesus has patience for doubt") não é uma rendição a ele. Há um cuidado assinalável em explicar que a ressurreição não é um pretexto para um optimismo tonto acerca da imortalidade. "Those who only have nice sentiment about heaven but do not have Christ have no real hope for resurrection. If they are honest with themselves, they aren't interested in being with Christ; they just want to avoid death or a painful existence after death." No cristianismo a vida depois da morte é menos uma questão de recompensa que de convívio. Por isso é sempre ridículo ouvir de um suposto cristão a querer meter no Céu quem não quer lá estar - não amar Cristo é não desejar a eternidade. A ressurreição é o que permite que Cristo dê uma nova vida a quem crê nele já, e o que permite que Cristo dê uma nova vida depois a quem crê nele para sempre. Crer é querer. "Jesus binds himself, in this life and the next, to impart resurrection life to those who put their hope in him. (...) It's not that life is better with God, something we add on to what we have. It's that without God, we don't have true life at all."
Termino voltando ao paradoxo do título. Na fé cristã o inacreditável é o que a torna credível. É por isso que aquilo que julgaríamos mais descartável ("ok pessoal, vamos ser cristãos sem exagerar na nossa certeza num milagre embaraçoso") foi o que deu força às primeiras testemunhas ("se o túmulo está vazio, tudo é possível, e se tudo é possível, nem o risco de morte nos impedirá de espalhar esta fé"). Por isso a fé está fundamentada não numa numa confiança ética (serei cristão enquanto me comportar de uma determinada maneira) mas na confiança colocada num facto (o poder que permitiu que Cristo ressuscitasse é o suficiente para me tornar cristão e para me manter cristão). "This is not a life-and-death matter; it is a matter of death for life. Jesus does not claim to die - period. He claims do have died and risen to life. This means that if we have faith in Jesus as a moral philosopher, a good example, or even a suffering saviour, it is not enough. Biblical faith is faith in a resurrected Christ. Paul is saying that in order for our faith to be fruitful and real, it has to be based on the power of a new life."


















Obrigado ao meu cunhado Tiago Oliveira que me ofereceu este livro.

terça-feira, Setembro 02, 2014

Ouvir
A partir do momento em que Jesus passou a falar da sua morte, a vida dos discípulos com ele passou a ser outra. Nós também não temos alternativa. A cruz não acontece porque o pior dos homens triunfou sobre o melhor de Deus. É o contrário: a cruz acontece porque o melhor de Deus triunfa sobre o pior dos homens.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, Setembro 01, 2014

1 de Setembro
Na minha opinião, quando Deus criou o mundo era Setembro. Setembro tem a luz suave dos começos. Começar o mundo na Primavera parece-me apressar as coisas para um clímax prematuro. Setembro dá-nos a tranquilidade de descer. O frio que está pela frente é mais pedagógico, para que quando o calor apareça de novo saibamos tê-lo como uma dádiva e não com indiferença.
Hoje comecei a ler de novo o Génesis. É preciso estar morto para ser indiferente à beleza do primeiro e segundo capítulos de Génesis. Continua a surpreender-me o modo como Deus decide criar numa atitude de pura liberdade. No relato da Criação os momentos são marcados por uma ousadia serena. Por isso continuamos a não saber lidar muito bem com o facto de Deus ser alguém que conscientemente faz coisas ao mesmo tempo que espontaneamente se encanta com elas. Dizer primeiro "faça-se" e depois "é bom". Não sabemos encaixar muito bem nos nossos padrões humanos a simultaneidade entre consciência e entusiasmo. Mas Deus sabe. E a existência do mundo é a prova disso.
Para mim o ano começa em Setembro. Com a sua mistura única de abrandamento e surpresa. Mãos ao trabalho!

quinta-feira, Agosto 28, 2014

A vossa agenda precisa disto


terça-feira, Agosto 26, 2014

Pregar no bosque à noite
John Flavel foi um pregador puritano britânico do Século XVII que pregava tanto que até bosques durante a noite lhe serviam de auditórios. Como bom cristão bíblico que era sabia que a Bíblia só não faz milagres: para que alguém se converta é preciso que a Bíblia seja pregada no poder do Espírito Santo. Quando o evangelho não é pregado em poder torna-se na prática herético (porque nem trinitário chega a ser quando despreza a intervenção de Deus Espírito Santo) e impotente (nada nasce espiritualmente de algo que não foi concebido espiritualmente).
Mas John Flavel sabia também que não devemos ser indiferentes à atitude com que ouvimos a Palavra, até quando ainda não acreditamos nela. Porque há maneiras melhores e piores de nos comportarmos em relação à religião, mesmo quando ainda não a aceitámos. O diabo é especialista em despistar as nossas predisposições quando contactamos com a pregação. Flavel dizia que um dos truques de Satanás não é tornar o ouvinte da Palavra ostensivamente hostil ao evangelho. Pelo contrário. Satanás tenta torná-lo relativamente amistoso em relação aos privilégios eclesiásticos, mas superficial nas suas respostas ao evangelho, parcial através do seu amor-próprio, e fazê-lo comparar-se com pecadores piores. Quanto mais soubermos das manhas demoníacas, mais poderemos evitá-las para ouvirmos a Palavra melhor preparados.
Flavel distinguia também convicção de conversão. É fácil que o nosso cérebro concorde com o cristianismo mas se a nossa vontade não o fizer, então não nos podemos considerar verdadeiramente cristãos. Não é preciso ter fé para ter uma "perspectiva intuitiva do pecado". Mas para que sejamos mais do que o pecado que reconhecemos em nós é preciso a intervenção do próprio Espírito Santo. Um cristão pode e deve ter convicções porque passou por uma conversão, mas pouco lhe adianta ter convicções se não passou por uma conversão. O que desempata o assunto é o que Deus faz na nossa existência, não o que nós impomos à nossa cabeça. Era valente, este John Flavel - um homem que em lugares obscuros pregava a Palavra nunca esquecendo dos lugares obscuros onde nos podemos esconder quando a ouvimos.

[A partir do capítulo "Puritan Preparatory Grace" do calhamaço "A Puritan Theology" de Joel Beeke e Mark Jones.]

segunda-feira, Agosto 25, 2014

Ouvir
O Salmo 124 é um Salmo que se sobe. Mais do que com os pés, com o coração. É um Salmo que serve para dar ritmo à nossa caminhada cristã. Que tipo de verdades devemos usar então para dar ritmo à nossa caminhada cristã?
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Agosto 01, 2014

Agenda
Durante as próximas três semanas é possível que o blogue ande meio parado. Mas gostava de vos ir convindando para "O Fim-de-Semana Cheio na Lapa" que vai acontecer a 10, 11 e 12 de Outubro. Ainda há tempo mas vale a pena começarmos a colocá-lo na agenda.
"O Fim-de-Semana Cheio na Lapa" é um período em que fazemos em concentrado aquilo que uma Igreja deve fazer sempre: relacionar-se com a cultura à sua volta. Para isso convidamos pessoas interessantes e inteligentes que nos desafiem a sermos uma comunidade cristã mais preparada e entusiasmada para dialogar competentemente com aqueles que podem ainda não partilhar da nossa fé cristã.
Na prática significa investir em boas conversas e, na medida do possível, em boa arte. O cartaz abaixo mostra por enquanto os convidados que já estão confirmados. Mas, se Deus quiser, o número vai crescer.
Ponham na vossa agenda e juntem-se a nós!


quarta-feira, Julho 30, 2014

Uma Providência Agridoce
O que é mais cruel? Dizer que as maiores tragédias acontecem porque Deus tem um propósito bom nelas que nos é desconhecido, ou dizer que Deus é bom precisamente por não ter responsabilidade nas maiores tragédias? Como já se está a calcular, pessoalmente defendo que a segunda opção é a mais cruel. A primeira, sendo difícil para um mundo quase sempre convicto que tem à sua disposição as condições de avaliar o que é o melhor e o pior para si, pode ofender-nos precisamente pela afirmação clara que das coisas que acontecem no Universo quem percebe mesmo é Deus. Mas é uma perspectiva absolutamente coerente com a crença que há um Deus que é omnisciente e omnipotente. Defender que o mal é um resultado do livre-arbítrio não livra o pescoço do Criador da faca, apenas torna todos os acontecimentos mais absurdos e Deus menos poderoso.
Acreditar numa coisa destas não é nada de novo, ou, por outro lado, uma cena dos calvinistas. Basta estudar a História da Igreja. A acusação moderna contra a providência divina talvez se tenha tornado mais aguda, não necessariamente pelos seus méritos filosóficos, mas sobretudo pelos seus méritos emocionais. O que é que isto quer dizer? Quando os não-crentes se ofendem com a ideia do mal acontecer debaixo da supervisão de Deus, os argumentos tendem a ser gráficos. O abuso de crianças, a violação de mulheres, entre outras coisas que horrorizam justamente qualquer crente. De facto, o que é diferente no crente quando tendo em conta o descrente, e em relação a estes males que Deus permite, não é o facto do crente não se horrorizar com eles. Claro que o crente se horroriza com assassínios, estupros ou outros crimes hediondos. Basta ler a Bíblia para entender que ela não foi um livro saneado da indignação dos homens com o que Deus permite. Só um ignorante pode achar que as Escrituras fazem aparecer fé por fazerem desaparecer a maldade. A Palavra de Deus é um livro onde o que é abjecto surge em todo o seu perverso esplendor. Simplesmente esse esplendor não vence mas perde para o esplendor maior da misericórdia de Deus. Novamente, o que é diferente no crente quando tendo em conta o descrente, e em relação a estes males que Deus permite, é o facto do crente confiar que Deus está a cumprir alguma coisa boa mesmo quando o que vemos é apenas mal.
Por outro lado, o crente quando olha para toda a maldade do mundo, consegue não só reconhecê-la (que não é mesmo que relativizá-la), como ainda relembrar nela um auge. Que auge o crente encontra em toda a maldade do mundo? O auge foi a morte de Cristo, o pior mal de todos os que aconteceram no Universo. Ora, o cristão, como sabe que a morte de Cristo foi o pior mal de todos que aconteceram no Universo, ganha nesse mal uma lente para todos os outros. E se o cristão sabe que o pior mal de todos os que aconteceram no mundo foi a morte de Cristo, sabe ao mesmo tempo que, pelo impenetrável poder de Deus, o pior mal de todos os que aconteceram no mundo se tornou o maior bem de todos os que aconteceram no mundo. Logo, por definição um cristão é alguém que existe porque Deus tem a capacidade de tornar a pior tragédia na maior felicidade. A partir daqui toda a nossa capacidade de distinguir o que é bom do que é mau é transformada radicalmente. Do mesmo modo como um cristão sabe que Deus tem o poder de fazer do pior o melhor, o cristão confia que sempre que vir piores, melhores podem sair daí.
A Bíblia avisou-nos que os cristãos seriam odiados do mesmo modo que Cristo foi. Acreditar na providência divina é hoje patentemente uma experiência de sermos odiados. Porque é afirmar, contra tudo e contra todos, que o homem não pode querer compreender tudo e que há uma factura elevada a vir dessa incapacidade que se manifesta perante o sofrimento de pessoas à nossa volta. Com isto, claro está, o cristão no meio de uma tragédia não ganha uma prioridade em afirmar doutrina ("Deus está no controle!") mas em envolver-se na prática ("porque Deus está no controle e porque Deus não passou nos intervalos da chuva do sofrimento quando encarnou, eu enquanto cristão sou chamado a envolver-me no sofrimento dos outros aliviando-o"). Este foi o exemplo de Cristo e não tem como não ser o exemplo dos cristãos.
Esta longa introdução toda para aconselhar o livro de John Piper, "A Sweet & Bitter Providence". A história de Rute no Velho Testamento é uma história fácil de simpatizar por razões politicamente correctas. Afinal de contas é a história de uma pagã que é recebida no judaísmo, bem como de uma mulher (que é a mesma que é pagã) que se sacrifica além do que lhe era exigido (pela sua sogra). Mas a história de Rute também é fácil de antipatizar pela afirmação de coisas politicamente incorrectas. E é aí, como seria de esperar, que a coragem e a lucidez de John Piper nos ajudam especialmente. Noemi, sogra de Rute, é alguém que volta para Israel depois de morrer o seu marido e seus dois filhos. O que sobra da sua tragédia pessoal? Precisamente a sua fiel nora, Rute. Interessa salientar que Noemi declara que essa experiência de sofrimento lhe foi trazida por Deus. Assim, sem floreados. E John Piper ajuda-nos a entender que Noemi tem razão - Deus foi o responsável pelo sofrimento de Noemi. A maravilha é que a história não termina aí, mas desenvolve-se num enredo inesperado de persistência e esperança e, pasme-se!, confiança de que o Deus que trouxe o mal será o Deus que trará o bem. Este é tipo de happy ending que o livro de Rute tem e que toda a Bíblia também. Claro que inspira poucas comédias românticas.
Como é que Piper esclarece que os cristãos têm de ter carta de condução para estradas com curvas? "Life is not a straight line leading from one blessing to the next and then finally to heaven. Life is a winding and troubled road. Switchback after switchback. And the point of biblical stories like Joseph and Job and Esther and Ruth is to help us feel in our bones (not just know in our heads) that God is for us in all these strange turns. God is not just showing up after the trouble and cleaning it up. He is plotting the course and managing the troubles with far-reaching purposes for our good and for the glory of Jesus Christ." Como é que Piper explica que, apesar do aperto das curvas, podemos confiar em quem desenhou a estrada? "We ask: Can it really be that God governs the sinful acts of men to make them serve his wise purposes without himself being a sinner? Yes, he can. If he cannot, then there is no Christian gospel. The gospel is the good news that Christ died for our sins. “Now I would remind you, brothers, of the gospel... that Christ died for our sins in accordance with the Scriptures, that he was buried, that he was raised on the third day in accordance with the Scriptures” (1 Corinthians 15:1–4). Notice the repeated phrase “in accordance with the Scriptures.” That means that God planned it. God planned that Christ would die. There would be no gospel without the death of Christ. All the deeds that brought him to the cross were planned (...) There could be no crucifixion if there were no crucifiers."
Nem só de comédias românticas viverá o homem. A fé é uma matéria diferente. Porque é cozida num forno que queima e cosida na pele que se cicatriza. "To know that our Father in heaven has ordained our pain is not a comfortable truth, but it is comforting. That our pain has a loving and wise and all-powerful purpose behind it is better than any other view—weak God, cruel God, bumbling God, no God." Algum cristão está a querer tirar a senha para, sofrendo, ter uma fé maior? Claro que não. Mas sabe que se sofrer, a fé será o que o sustenta. É isto que nos vale o ódio do mundo e o amor de Deus. Amor? Claro. Isto é acerca do amor. "If we can keep our eyes on the cross of Christ, where God infallibly certified his love for us with no change possible (Romans 5:8; 1 John 3:16), then the pain he ordains for us will not undermine our sense of being loved."


terça-feira, Julho 29, 2014

Ouvir
O amor não é o que acontece na Igreja quando o pecado já desapareceu dela (apesar de também poder significar isso). O amor é aquilo que trabalha para que o pecado desapareça.
O sermão de Domingo passado, o último sobre os dons do Espírito Santo, aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Julho 25, 2014

Uma igreja que pega pesado sempre que o assunto é o amor - para o sermão de próximo Domingo
Ao contrário do que diz o espírito dos nossos tempos, nós não somos chamados a amar porque o amor condiz connosco. Nós somos chamados a amar porque o amor condiz com Deus. E porque é Deus o único com capacidade de resolver os problemas que são nossos e que nós não conseguimos. Pessoas que apresentam o amor como uma característica que lhes é natural são mais perigosas do que as pessoas que mostram o ódio como sua característica natural. Porque são pessoas que sugerem que dentro de si transportam a solução para o seu próprio pecado, coisa absolutamente oposta ao que a Bíblia ensina.

quarta-feira, Julho 23, 2014

Doze anos
Vão achar ridículo mas sabem qual é um dos prémios de andar em detox parcial de internet? É nos dias importantes não ter uma prioridade em assinalar essa importância na rede. A prioridade é assinalá-la no local certo, não necessariamente na web. Isso significa que posso comemorar o aniversário de casamento sem me angustiar acerca do que vou escrever sobre ele no blogue. Não imaginam o quão livre me sinto. São muitos anos de ciber-hábito, compreendam.
Por outro lado a tarefa passa a ser comunicar a importância dos dias às pessoas que contribuem para ela. Por exemplo, certificar-me que no dia do aniversário a minha mulher tem uma ideia de quão abençoado sou por ser casado com ela. Mas já que estou na internet agora, deixem-me através deste retrato das férias tentar mostrar alguma da muita felicidade destes doze anos de casamento. Dá para ver? Pois. A vida é sempre muito mais do que o ecrã projecta.




terça-feira, Julho 22, 2014

Ouvir
Uma das nossas maiores dificuldade é olharmos para a ordem e sentir que é alguma coisa que nos é imposta. Uma manobra de cima para baixo a esmagar a melhor espontaneidade que temos. Ora, a ordem do Novo Testamento é o oposto. É o que vai permitir que ninguém viola os direitos dos outros. A ordem é o que mantém a liberdade do Espírito a trabalhar.
O sermão de Domingo passado, o terceiro sobre os dons do Espírito Santo, aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Julho 18, 2014

A infância moral
No outro dia reparei que os meus filhos já não cantam o "Atirei o pau ao gato" como eu cantava. Foi enxertada uma quadra suplementar onde se canta o oposto do refrão, que não se deve atirar paus aos gatos. Ora, eu fui uma criança que passou a vida a cantar o "Atirei o pau ao gato" e que, juro, nunca na vida atirou um pau ao gato. Das duas uma: ou fui uma criança que não percebeu o encanto de uma canção me sugerir algo e passar imediatamente à acção ou pura e simplesmente fui uma criança que percebeu que o que se canta não tem de corresponder necessariamente ao que se faz. Gostaria de investir na segunda hipótese e de fazer nesse investimento aquilo que é uma educação para a poesia. Não quero ir longe demais a partir do "Atirei o pau ao gato" mas creio que cantá-lo pode contribuir para uma iniciação naquilo que é a compreensão poética. E a compreensão poética é saber que as palavras podem ir muito longe e não ficarem limitadas a servirem apenas para as distâncias curtas da obediência a ordens. Diria mais. Diria que a leitura da poesia é necessária para abraçarmos tanto a importância da imaginação como a importância da obediência (esta, muito menos popular hoje em dia mas que não é o ponto central deste texto).
Gostaria de partilhar mais um dado biográfico. Fui um amante de gatos até ter filhos. Na prática ainda hoje continuo a gostar de gatos acima de todos os outros bichos mas reconheço que a partir do momento que a minha vida foi invadidas por rastejantes humanos, grande parte do meu amor pelos felinos foi desinsuflado. O meu coração também tem os seus limites de uso e a pobre Gata Sombra, que vive connosco desde que nos casámos, passou a ser claramente uma personagem secundária. Neste período de pouco mais de uma década também desenvolvi uma alergia que não me permite os convívios de outrora com ela.  Mas partilho isto apenas para demonstrar mais uma vez que me parece absurda a ligação entre corrigir a letra do "Atirei o pau ao gato" e esperar crianças mais amigas dos animais. Creio que enquanto escritor de canções nunca me daria para pôr num refrão que me apetece sovar um bicho, mas gosto de pensar que se essa improbabilidade acontecesse era porque estaria em causa algum tipo de sentido não-literal. E esse seria um sinal que, independentemente da qualidade poética das canções à nossa volta, ainda sabemos lidar com elas como canções que são. Se a cultura não passar por isto, vai passar pelo quê? Não se ensina uma criança a ter coração à custa de perder os miolos.
Toda esta introdução para me desviar um bocado agora e chegar ao filme "Noah". Vi-o e dei o meu tempo por perdido (e já me tinham avisado!). Uma das coisas mais irritantes de "Noah" é a confirmação da nossa incapacidade de pensarmos nas histórias de ontem sem lhes enxertarmos à força as nossas lógicas de hoje. O negócio não seria mau partindo do princípio que nem todas as lógicas de hoje são inerentemente más. Mas há uma pontaria desastrada em filmes como o de "Noah" em suportar as personagens do passado apenas desde que elas sejam redimidas pelas nossas certezas éticas do presente. Não fica um bocado à mostra que isto descamba, no mínimo, num revisionismo moral que apaga a originalidade das obras que não pertencem ao nosso tempo? Na pior das hipóteses pode significar que estamos a ler sem ler, a ver sem ver, a pensar sem pensar. Do que nos serve mergulharmos no oceano da cultura do mundo se teimamos em querer permanecer-lhe impermeáveis? Há uma gigantesca diferença entre ler criticamente e ler pós-modernamente ao ponto que qualquer coisa pode tornar-se no seu preciso oposto desde que haja elasticidade hermenêutica suficiente. "Noah" navega nestas águas patéticas.
O realizador, claramente insatisfeito com o facto da história bíblica ser uma de maldade intrínseca ao homem, esforça-se por recontá-la em jeito de fábula terapêutica. Levando o raciocínio ao seu argumento final, em "Noah" as personagens que têm a verdadeira voz moral são os bichinhos, com um segundo plano para os homens que, no fundo no fundo, têm uma luz interior desde que se esforcem muita para encontrá-la. O que é verdadeiramente triste é que esta ecologia forçada é aquilo que melhor revela o zeitgeist de "Noah": uma época que expulsou dos homens qualquer noção consistente de bem e de mal naturalmente só consegue encontrar heroísmo nos animais. A única homenagem que o realizador consegue oferecer às personagens da história bíblica é tornar Noé e família numa proto-Sociedade Protectora dos Animais. É, no mínimo, chochinho.
A história de Noé é fantástica também pelo modo como combina coisas que nos parecem antagónicas. É uma história onde o castigo tem um papel fundamental mas é uma história onde a esperança tem um papel fundamental. Hoje estamos todos inclinados para pensar que onde há esperança não pode haver castigo e onde há castigo não pode haver esperança. A Bíblia ensina-nos o contrário. Eu, porque creio na verdade factual dos acontecimentos da história de Noé e a sua arca, fico ainda mais aberto para absorvê-la na sua generosidade poética. Não é uma coisa contra outra. É por isso que me parece que a poesia é uma consequência natural da verdade das coisas. Não uma sublimação ou uma criação de sentidos alternativos, certamente mais aliciantes quando se desistiu de um sentido final. O que nos torna sensíveis à poesia é saber que há muitas maneiras de contar a verdade sem que a verdade acabe por se perder nas maneiras. É, por exemplo, o que contribuiu para que crescesse a cantar o "Atirei um pau ao gato" sem que nunca o tivesse feito, e é o que contribuiu para que veja um filme como "Noah" e saiba que está ao mesmo nível da quadra que se acrescentou na canção. Há uma diferença entre ensinar coisas a crianças na certeza que elas vão crescer e aldrabar adultos para que eles permaneçam na infância moral.



terça-feira, Julho 15, 2014

Ouvir
Se o dom de profecia acontece sem que dele tiremos aprendizagem ou consolo, é fajuto. Tem de ensinar e tem de consolar. Tem de alimentar a cabeça e tem de alimentar o coração.
O segundo sermão acerca do dons do Espírito Santo pode ser ouvido aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Julho 11, 2014

Deus, o alfabetizador
Este é um texto à boleia do livro "Taking God At His Word" do Kevin DeYoung. Como é sobre acerca do papel fundamental que a Bíblia tem no cristianismo, previsivelmente acaba por tratar das diferenças essenciais entre protestantes e romanos. Como sei que nestes textos o meu instinto tende a mostrar-se pouco gentil, e como desejo ser lido em boa-fé pelos meus companheiros católicos romanos, começo por bater palmas antes da palmada. Há umas semanas assisti a parte da entrevista que o Papa deu ao Henrique Cymerman. Os meus sensores, por força de 36 anos de experiência evangélica em Portugal, estão sempre ligados para primeiro não gostar do que o Papa diz, e depois, a custo, reconhecer-lhe algumas virtudes eventuais. Ainda mais agora que Ratzinger, o meu referido, se tornou o Papa que deixou de o ser (o que significa ainda mais uns degraus subidos na minha consideração - um Papa que deixou de o ser é o Papa perfeito para um protestante). Isto quer dizer que ouvir Francisco é uma actividade recheada de ambiguidade para mim. Mas, entre muita coisa que ouvi e previsivelmente discordei, houve também o que ouvi e concordei. E, devo reconhecer, é difícil não sentir empatia com este Papa no que diz respeito ao seu encanto social. A determinada altura, e se percebi bem, o Papa disse que todas as semanas lê todos os Salmos. Ora bem, é aqui que quero chegar. O texto que se segue, pode dizer-se, bate no Catolicismo Romano. Mas devo admitir que enquanto o Papa ler todos os Salmos todas as semanas, eu, enquanto protestante, tenho de me calçar nas minhas tamanquinhas até fazer o mesmo. O meu plano de leitura das Escrituras é por enquanto mais modesto pois a tarefa que tenho é ler a Bíblia toda todos os anos. Significa na prática que leio os Salmos pelo menos uma vez por ano, mas não todas as semanas. Como calculo que Francisco I não deve ficar apenas nos Salmos, quero bater no Catolicismo Romano reconhecendo que o Papa dá um excelente exemplo que eu (ainda) não dou em termos de leitura da Bíblia. Posto isto, vamos às palmadas.
Com "Taking God At His Word", Kevin DeYoung ajudou-me a perceber que uma das maneiras de definir o cristianismo evangélico é afirmar a a sua confiança na competência de Deus. Assim mesmo, simples como isto. Um cristão evangélico pode ser definido como alguém que acredita que Deus é competente. Mas dirão outros cristãos que não são evangélicos que, obviamente!, também acreditam que Deus é competente. E é a esta altura que a crença na competência concreta divina de um evangélico se distingue da crença na competência abstracta de um não-evangélico. Um cristão evangélico pode dizer que quando Deus se revelou em palavra escrita, o fez com competência objectiva. Um cristão não-evangélico não pode dizer o mesmo. Isto porque um cristão não-evangélico acredita que a competência com que Deus se revelou em palavra escrita depende sempre da competência de quem lê. E sublinho o verbo depender. Porque, naturalmente, também considero que é preciso competência do leitor, não apenas do autor. Mas um cristão evangélico subordina sempre a competência do leitor à clareza do que está escrito. Se nada houvesse objectivamente claro, nada poderia ser dado a ser subjectivamente compreendido.
A Reforma Protestante também se deu por questões de crítica literária, claro está. Quando a Europa se dividia entre aqueles que ficavam com o Papa e os outros, era também de uma questão de tomar partido acerca de como se pode ler o que está escrito num papel. Por isso não é casual que, como aponta Carl Trueman, professor no Westminster Theological Seminary, as igrejas reformadas pareçam salas de aula e as pessoas que as enchem sejam por natureza leitores. Nesse sentido, e por pouco excitante que pareça em termos de mística a aparência escolar de um santuário, os Reformadores estavam a devolver a uma cristandade medieval, que se tinha desenvolvido gingando com as exuberâncias pagãs dos gregos e dos romanos, a sua velha ética judaica: o culto pede sempre o nosso cérebro. As sinagogas eram espaços que louvavam a Deus lendo e explicando as Escrituras. O cristianismo, que traz rupturas necessárias ao Judaísmo, não tem como abandonar algumas das suas matrizes essenciais. A adoração não pode ser feita ao arrepio da argumentação. "Jewish worship focused on the reading and explaining of the sacred scroll."
E aqui chegamos a uma das mais irónicas estações obrigatórias da actualidade: aquela que nos mostra o Catolicismo Romano como uma religião apetecível aos pós-modernos. Quem diria? Há dois séculos Roma parecia nas trincheiras, tratando a modernidade por Diabo e, agora, voilá!, ei-la apetecível para aqueles que da modernidade se cansaram. No fundo, só podia ser assim. O problema é que o equilíbrio se revela instável. Ou seja, se por um lado Roma se torna um abrigo para aqueles que acham que é bom namorarmos com a verdade desde que o namoro seja feito em muita subjectividade, quando se alarga muito as fronteiras do namoro o mais provável é acabarmos em poligamias práticas. Tento explicar melhor. A Igreja Católica Romana não se pode dar ao luxo de convidar a que se beba a água directamente da nascente. Nesse sentido, o Catolicismo Romano promete um fim-de-semana na montanha mas proíbe que se consuma outra água que não a comprada previamente no supermercado. O Vaticano promove a Bíblia enquanto maravilhosa desde que essa maravilha seja qualificada: tirar conclusões dela é conspurcar-lhe a excelência. No Catolicismo há uma lógica teológica que é uma lógica literária. Um exemplo prático: o curso de Ciências de Comunicação que tirei na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas pode ter (e tinha!) padres católicos como professores de um modo como duvido que alguma vez pudesse ter pastores evangélicos. E não tem a ver com habilitações académicas mas com credos hermenêuticos. Por isso torna-se revelador que já a Faculdade de Letras Universidade de Lisboa tenha como professor catedrático de grego o Dr. Manuel Alexandre Júnior, Pastor Baptista. Porque a Universidade de Lisboa ainda acredita na leitura de um modo como a Universidade Nova de Lisboa já não.
O Catolicismo Romano pisca o olho aos netos de Nietzsche: já que a verdade é uma conversa complicada, que tal ficarmos pela beleza? Creio que dos maiores equívocos actuais é associar esta preguiça epistemológica burguesa a um novo misticismo. Não é preciso ser entendido em misticismo (como eu não sou) para compreender que a entrega dos antigos místicos não tinha nada a ver com este niilismo em versão de batina. Hoje uma palavra como "indizível" tornou-se a mesma desculpa para o padre erudito não evangelizar e para o ateu instruído não se converter. Até que ponto o crescimento do interesse de muitos intelectuais pela religião católica romana não pode ser uma tentação para o catolicismo romano perder a sua religião? No outro dia falava com um amigo que me fez uma observação certeira: para ele era mais fácil simpatizar com o Catolicismo Romano porque, comparado com o Cristianismo Reformado, promete movimento. E ele tinha razão. Roma, ao depender essencialmente da competência de quem lê a Bíblia (o magistério da Igreja), e não da competência de quem a escreveu (Deus revelado através da Bíblia), pode ir parar onde os leitores assim desejem. O Catolicismo Romano é a religião do futuro porque pode sugerir o progresso que quem confia na preponderância das Escrituras não. Assim como já não há limbo, pode deixar de haver Inferno e qualquer coisa que represente a leitura humanamente apropriada de um texto que supostamente é demasiado inseguro para poder ser compreendido. A abertura hermenêutica de Roma é a receita para a reciclagem de todas as doutrinas historicamente exigentes. Claro que ao mesmo tempo levamos com o ricochete real do modo como Roma defende a sua antiguidade - o Catolicismo Romano pode ser o lar de todas as inovações.
DeYoung começa por reconhecer debilidades actuais entre os evangélicos. Ler a Bíblia não pode ser o mesmo que ler um manual de instruções. E esta rasura técnica é uma tentação recorrente para os cristãos evangélicos, de facto. E dá o exemplo do Salmo 119: "Too often, Christians reflect on only what they should believe about the word of God. But Psalm 119 will not let us stop there. This love poem forces us to consider how we feel about the word of God." Os cristãos evangélicos têm a ganhar em aumentar os seus músculos estéticos, a sua capacidade de contemplação (e nisso, temos muito a aprender com o Catolicismo Romano). Mas sentir a Bíblia é necessariamente compreender que o que sentimos em relação a ela não deve sobrepôr-se a ela mesma. Ou seja, sentir a Bíblia é feito na medida em que a sua autoridade é abraçada. "You can't establish the supreme authority of your supreme authority by going to some other lesser authority." Este é uma das crateras lógicas no modo como Roma coloca a autoridade das Escrituras debaixo da autoridade da Igreja, revelando que na prática crê mais facilmente no modo como alguns poucos lerão competentemente a Bíblia (aqueles que são autoridade na Igreja) do que no modo como Deus se revelou competentemente nela a muitos mais. "The perspicuity of Scripture upholds the notion that ordinary people using ordinary means can accurately understand enough of what must be known, believed and observed for them to be faithful Christians." Muito simplificadamente: ser cristão evangélico é ter fé que quando Deus se mete na tarefa de se revelar em palavra escrita, vai safar-se perfeitamente. Claro que há um requisito mínimo exigido ao crente: aprender a ler. O Ocidente protestante alfabetizou extraordinariamente os seus, comparativamente com outras culturas, por causa disto - se Deus escreveu, temos de ler.
E é aqui que quero estabelecer uma opinião muito pessoal. Ainda agora acabei de ler o artigo do António Guerreiro sobre a pantheonização da Sophia de Mello Breyner Andresen. Eu raramente concordo com o António Guerreiro porque somos ideologicamente adversários. Mas, graças a Deus, também podemos concordar com adversários e aprender com eles. Basicamente o argumento justíssimo do António Guerreiro é dizer que a poesia hoje é apreciada na mesma medida em que não é compreendida. Quando se fala de poesia fala-se com os pudores da sacristia, invocado a palavra "sublime" como quem reza uma religião civil possível. Guerreiro dizia ainda que Miguel Sousa Tavares, o filho de Sophia, dizia por isso que a poesia da sua mãe estava acima de crítica.  Ou seja, interpretar é corromper a aura extra-terrestre das letras poéticas. Guerreiro tem toda a razão quando desmonta este deslumbramento como uma ignorância consentida. Essa é a razão pela qual considero que Portugal é um País tão precocemente poeta: a Reforma Protestante nunca nos alfabetizou. Nada tenho contra a poesia, reparem. Mas sei que a poesia não está intrinsecamente acima de um telegrama. Há boa e má poesia como há bons e maus telegramas. Certamente preferirei a poesia ao telegrama como despertamento dos meus sentidos, mas não os quero adormecer para que o meu transe poético sobrevoe acima dos mortais. Na Bíblia há poesia porque a verdade é a mãe da melhor imaginação. Mas a poesia ou a prosa são sempre manifestações subsidiárias daquilo que é real, e não o oposto. O perigo fica à vista: terrenos sublimes são campos de fácil domínio sobre o outro. Uma Igreja sobretudo estética é menos exposta ao escrutínio. Reparem: "The Protestant doctrine of perspicuity is one of the foundations for religious liberty in the West. Implicit in the affirmation of Scriture's clarity is the recognition that individuals have the responsability and the ability to interpret Scripture for themselves: not apart from community, or without attention to history and tradition and scholarship. But in the final analysis, the doctrine of perspicuity means that I should not be forced to go against my conscience. Only Jesus Christ, speaking through the word, is lord of the conscience."
Termino. A Bíblia não é o folheto de instruções dos móveis do Ikea. Os evangélicos têm de reconhecer que muitas vezes resumem a sua relação com a Palavra a uma desinpirada tarde a montar mobiliário pré-fabricado nórdico. Mas, por outro lado, não é preciso cair na tentação molenga de acreditar em Deus desde que não se tente compreendê-lo. É que é uma má educação terrível ignorar-lhe o trabalho a que se deu para nos escrever. Lê-lo com os miolos ligados é o mínimo que lhe devemos. "At the heart of the postmodern skepticism about knowing God is an inferior conception of what God is like. (...) The question is whether God is the sort of God who is willing to communicate with his creatures and able to do so effectively. Can God speak? Or is he gagged? (...) These high-sounding debates about perspicuity and hermeneutics really have to do with the character of God. Is God wise enough to make himself known?"


quarta-feira, Julho 09, 2014

Cabanas de Tavira mais offline 4
O ano passado fomos à Ilha da Culatra. Este anos não quisemos perder o embalo e fomos à de Tavira e da Armona. Tinha estado há 32 anos na Ilha de Tavira. Tenho na memória umas vaguíssimas imagens do parque de campismo. Mas na prática chegar lá era como se fosse a primeira vez. Vimos os preços e apercebemo-nos que longe vão os tempos em que o campismo servia para a classe média (ver o teledisco da "Praia Verde" onde já teorizei melodicamente sobre a matéria). Agora o campismo parece corresponder mais àquela matéria do Expresso que há uns tempos deu brada quando uma senhora financeiramente bem na vida dizia que gostava da Comporta porque dava para brincar aos pobrezinhos.
Chegámos à Ilha de Tavira e almoçámos numa zona de pinhal com umas mesas. Não resisti e dei logo um mergulho aí, onde a água era mais ria que mar. E valeu a pena. Depois comemos uns gelados no bar do parque de campismo, que dá para entrar e espreitar o espaço. Tínhamos de descansar até chegar a hora de ir para a praia por isso procurámos uma sombra onde pudéssemos ficar. Encontrámos. Parecíamos uma família de ciganos, de toalhas estendidas no chão e crianças deitadas nelas. Mas as toalhas eram finas e as crianças sentiam demasiado o chão do pinhal. Não deu para os Cavacos brincarem aos pobrezinhos na proporção que conseguem.
Fomos então à praia. Temperatura continuava excelente. Algumas algas que davam para amealhar na mão, apertar (sai uma espécie de espuma quando o fazemos) e atirar às cabeças dos meninos. Achavam o máximo. Talvez tenha sido o período mais comprido que passei dentro de água. Cerca de 20 minutos. Que eu gosto muito do mar mas a minha magreza não perdoa e rapidamente fico cheio de frio. Regressámos mais uma vez convencidos que as ilhas da Ria Formosa são um tesouro.
A da Armona visitámos uns dias depois. Diria que a Ilha da Armona está entre a de Tavira e a da Culatra. Tem uma quantidade intermédia de vegetação, muitas casas (eventualmente até mais que a da Culatra?) e o que me pareceu ser uma presença maior de estrangeiros. Gostei muito. Mas, por enquanto, a minha preferida continua a ser a da Culatra.
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Quando me tornei Pastor uma das últimas perguntas que me foi feita durante o Concílio Examinador foi acerca do facto de usar brinco. Permiti-me uma resposta mais irreverente em jeito de "se a minha mulher não conseguiu convencer-me a deixar de usar brinco não vai ser nenhum Pastor a conseguir." Mas a verdade é que me apercebi que o risco em continuar a usar o brinco enquanto Pastor era tornar-me o Pastor que usa brinco. E eu definitivamente quero ser mais do que o Pastor que usa brinco. Ou, vistas as coisas de outra perspectiva, quero ser menos que o Pastor que usa o brinco. Com isto tudo o certo é que mesmo quando a minha orelha não carrega nada, no meu coração está o brinco. O brinco é certamente o resultado de ter sido um miúdo demasiado abandonado em frente aos telediscos apresentados pelo Adam Curry, às Bravos da minha irmã Rute, e ao impacto que a chegada do meu primo Carlos da Alemanha provocou em mim quando exibia um pingente na sua orelha. Volta e meia em casa meto um brinco para me certificar que o buraco não fecha. Os miúdos gozam logo comigo chamando-me menina. Nas férias, então, aproveito e assumo o suburbano da Linha de Sintra que nunca há-de morrer dentro de mim. Não tendo púlpito onde pregar, e que turve a visão descomplexada de um brinco no profeta, volto a ser o Tiago que desejou com tudo o que tinha o dia em que furou a orelha numa ourivesaria do Centro Comercial Babilónia.
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A estadia em Cabanas de Tavira só se completa com a viagem nostálgica a Ayamonte (para abastecer - coisa que este ano acabámos por não fazer), à Praia Verde e a Cacela Velha. No que consta à Praia Verde, o empreendimento turístico cresce de ano para ano. Bem como a minha eterna saudade da velha mata de lonas da classe média. Já Cacela tornou-se o cenário da nossa fotografia oficial de férias. Este ano chegámos lá mais cedo e o sol fechou-nos mais os olhos na fotografia. Mas como diz a minha mulher, "a Ria fica-nos tão bem." Somos muito gratos a Deus por estas férias.


terça-feira, Julho 08, 2014

Ouvir
No cristianismo há um pacto entre o culto e o cérebro. Mas o facto da fé pedir inteligência não significa que a inteligência é fé.
O sermão de Domingo passado, o primeiro sermão sobre o importante assunto dos dons do Espírito Santo, aqui (clicar em cima de aqui).

sexta-feira, Julho 04, 2014

Cabanas de Tavira mais offline 3
Durante as férias de Cabanas de Tavira um dos períodos mais sujeito a mudanças é aquele depois do almoço. Este ano, e ao contrário do ano passado, não serviu para sestas nem para aventuras de bicicleta (que lamento um bocadinho). Dediquei-o à oração e leitura. É verdade que a oração também já o integrava nos anos anteriores, até quando pedalava (e uma oração que vai além de pedir a Deus que me dê força nas pernas para chegar aos lugares). Este ano fixei-me, em termos de leitura, em dois livros. O primeiro, que se Deus quiser ainda escreverei à parte sobre ele, foi o "Taking God At His Word" do Kevin DeYoung. O segundo foi o "The Portrait Of A Lady" do Henry James, que ainda só vou a metade. Foi-me oferecido pelo meu amigo fiel Filipe Costa Almeida e é de facto esplendoroso. É engraçado porque de alguma maneira a escrita de Henry James parece nos antípodas do ambiente de uma semana algarvia. Mas o consolo da leitura também passa por baralhar as voltas aos lugares onde ela é feita.
Por duas ocasiões passei este período de oração e leitura na companhia da minha filha Marta. Quando me prepava para sair de casa, e numa altura em que os rapazes dormiam a sesta (porque as meninas de 10 e 7 anos já estão dispensadas dela, apesar de volta e meia ainda a fazerem), a Marta perguntou-me onde eu ia e eu expliquei-lhe que ia orar e ler, e que ela podia vir comigo se quisesse. Tinha era de me acompanhar na oração. Ela disse logo que sim.
Já noutras ocasiões tenho escrito acerca de como a minha Marta é uma surpresa para mim. Ao contrário dos outros manos, nos quais mais facilmente encontro semelhanças comigo, a Marta parece vir com um sistema absolutamente seu. Claro que reconheço nesse sistema muitas semelhanças com o lado da família da minha mulher. Mas ainda assim, continuo a sentir-me perplexo com ela. A disponibilidade que ela mostra para acompanhar pessoas independentemente daquilo que essas pessoas vão fazer deixa-me sempre admirado. É que eu, ao contrário dela, tenho muita dificuldade em sentir vontade de acompanhar alguém se não observar rapidamente uma vantagem para mim nessa companhia. Não é uma maravilha termos filhos distintamente melhores que nós?
Expliquei-lhe enquanto saíamos de casa que eu ia orando pelo caminho, enquanto andava. Uma vez que estava com ela, ia orar em voz alta para ela me acompanhar na oração. E assim aconteceu por duas vezes. Lá fomos nós pela rua, eu agradecendo e pedindo a Deus, e a minha filha ao meu lado de mão dada comigo. Se eu hesitava no nome de alguém da igreja, por quem intercedia, ela completava. No final dava o seu amén e chegou mesmo a fazer a sua prória oração (um hábito normal dos nossos meninos que tentamos desenvolver em momentos fixos e em momentos espontâneos). Então sentávamo-nos e eu punha-me a ler e ela punha-se a ler a Bíblia dela que tinha trazido. Ao fim de algum tempo punha-se a brincar. Brincava sozinha. Às escolas sobretudo, pelo que me parecia. Chegava uma altura em que se cansava e me perguntava se faltava muito tempo para eu terminar a leitura. Dizia-lhe está quase. Este tempo de oração e leitura não chegaria a duas horas. E sabia-lhe bem quando chegava ao fim, claro está.
Descansar é importante também por causa disto. Para ganharmos novas oportunidades para coisas que por vezes no ritmo de trabalho são mais improváveis. Para os cristãos a importância de uma ética do trabalho obriga a uma ética do descanso. Este ano Cabanas de Tavira deu-me mais descanso não só pela mencionada dieta mais offline mas por companhias como a da minha filha Marta. Em férias não é difícil ouvir os pais a queixarem-se do quão exigente é passar as 24 horas com os filhos multiplicadas pelo período de dias que tiraram. O que é uma bênção suplementar é nesse reconhecido esforço encontrar uma companhia além da companhia. Foi preciso estar no Algarve para ter a minha Marta mais perto de mim no tempo de oração que costuma ser só meu.

quarta-feira, Julho 02, 2014

Ouvir
Precisamos de dizer aos Steves Jobs, aos Kanyes Wests, aos Josés Mourinhos que andam a desperdiçar as suas vidas em ninharias se se apresentarem a Deus sem um currículo consistente de receber discípulos, profetas e justos e servir copos de água frescos a pequeninos.
O sermão de Domingo passado aqui (clicar em cima de aqui).

segunda-feira, Junho 30, 2014

Cabanas de Tavira mais offline 2
Pela primeira vez encontrámos Cabanas de Tavira nublada. Mas a compensação foi o mar naquela temperatura verdadeiramente algarvia que traz consigo os ares do norte de África. A pessoa entrava no mar e deixava-se ficar. Nada de algas, marés vivas ou levante. Água cristalina e quente.
De um modo geral este foi o ano em que Cabanas de Tavira mostrou que o seu encanto não se esgota todo em intensidade. Houve até uma manhã em que estivemos na praia cada vez com mais nuvens e vento até que, vejam bem, regressámos a casa e assistimos à petulância da chuva a tomar conta do cenário. Foi o mais próximo que estive de passar um dia de Inverno nas nossas ansiadas férias de Verão. Fez com que a tarde fosse passada dentro de casa comigo a fazer aquilo que em determinados anos foi um hábito mas que posteriormente abandonei: ver um filme. Deu-nos o pretexto perfeito para não termos de ir à tarde com os miúdos à piscina. Este ano entrei ainda menos na piscina porque os miúdos orientam-se cada vez melhor dentro dela sem precisar da minha assistência. A excepção vai para o Caleb que tem uma característica única de fazer das suas limitações uma declaração de vitória (onde é que eu já vi isto?).
O Caleb fazia do seu receio inicial em estar na piscina com água acima dos joelhos uma opção supostamente voluntária por uma modalidade de aproveitar o tanque nos seus encantos rasos. Andava de um lado para o outro com a água a pouco passar-lhe dos tornozelos em jeito triunfal como se fosse o capataz do lava-pés. Com o passar da semana, e ajudado pela companhia dos pais, acabou por se entregar às delícias da piscina profunda, desde que devidamente sustentado pela bóia. Quando chegávamos ao fim do dia, no culto doméstico, agradecia sempre a Deus pelo tempo que tinha passado na piscina e na praia onde, segundo o seu relatório, tinha mergulhado de cabeça (na praia o Caleb considerava saltar em cima de uma onda que lhe dava pelos joelhos inclinando a cabeça para a frente como um mergulho de cabeça). Quem precisa de coragem quando se tem convicção?
De resto, a disciplina aquática manteve-se em mar de manhã e piscina à tarde. Já não me aventurei em regressos à praia da parte da tarde porque duas semanas permitem menos sofreguidão do que apenas uma. É verdade que ao mesmo tempo lamento não ter pegado este ano na bicicleta e ter-me aventurado nos circuitos pelas terras nas imediações de Cabanas de Tavira. Optei por ler mais e pedalar zero. Perderam as minhas pernas mas ganhou o Henry James com o "The Portrait Of A Lady" (que livro!).